LOGINElara tinha apenas dezessete anos quando um raro cio antecipado mudou sua vida para sempre. Naquela manhã, na floresta da Matilha Silvaterra, ela encontrou dois lobos que jamais conseguiria esquecer: os gêmeos herdeiros da família Woodstone. Dez anos depois, Elara retorna à matilha com Aren, seu filho de dez anos, carregando um segredo que escondeu desde aquela noite. Criado na cidade humana, o menino possui olhos de cores diferentes e uma inteligência incomum, além de uma estranha conexão com a natureza que Elara não consegue explicar. Kaelen e Draven Woodstone estão prestes a assumir o comando da matilha, mas continuam sem encontrar suas companheiras destinadas. Até que o retorno de Elara desperta sensações que nenhum dos dois consegue compreender. Enquanto antigos mistérios começam a se revelar, o passado volta para cobrar suas respostas. E Aren talvez seja muito mais do que aparenta.
View MoreA névoa da manhã ainda flutuava sobre a superfície do lago, densa e fria, mas o corpo de Elara parecia queimar de dentro para fora. Faltavam apenas dois dias para o seu aniversário de dezoito anos. Dois dias para que sua loba finalmente despertasse e ganhasse forma. No entanto, algo estava terrivelmente errado.
Uma cólica aguda, pesada e pulsante, castigava seu abdômen. Seus pulmões buscavam o ar fresco da floresta do internato, mas cada lufada parecia incendiar suas veias. “Água... preciso de água”, pensou. A voz de sua loba ainda era apenas um sussurro confuso e distante em sua mente, ecoando como um aviso que ela não conseguia decifrar. Elara ainda estava se adaptando àquela nova realidade. Fazia pouquíssimo tempo que sua vida havia sido destruída no ataque brutal que dizimou sua família, levando a vida de seus pais. Seu pai, um orgulhoso guerreiro Delta, e sua mãe, uma doce ômega. Sem eira nem beira, ela fora acolhida pelo tio paterno, um Delta de elite que servia nesta a alcateia Silvaterra. Ele, sua esposa também Delta e seus três filhos haviam lhe dado um teto, mas as regras locais exigiam que todos os jovens da idade dela fossem enviados imediatamente para o internato da matilha. Isolada naquele campus afastado do centro urbano, Elara ainda não conhecia quase ninguém dali. Desajeitada pelo torpor que nublava sua mente, Elara despiu o uniforme do internato. Deixando as roupas na margem, deu um passo para dentro do lago usando apenas a roupa íntima. A água fria bateu contra suas coxas, arrancando-lhe um suspiro trêmulo. Não foi suficiente. O calor persistia, uma febre biológica que ela nunca havia experimentado antes. Ela afundou até os ombros, fechando os olhos enquanto o sol começava a romper a linha do horizonte. Foi então que o silêncio da floresta se partiu. O som de galhos estalando não era de um animal comum. Era pesado. Predatório. “Fique quieta”, a voz da consciência de sua loba ecoou de repente, firme, assustada e urgente em sua cabeça. “Não se mexa. Se você correr, eles vão caçar.” Elara abriu os olhos. O coração saltou para a garganta. Saindo da densidade das árvores, dois lobos gigantescos pararam na margem. Elara sabia exatamente o que aquele porte significava. O tamanho colossal, a postura imponente e a pressão esmagadora no ar não deixavam dúvidas: eram Alfas. Mas quem? Será que pertenciam a Silvaterra? Ou andarilhos? Já que ela estava a margem do território da alcateia, e ela ainda não conhecia a linhagem real daquela alcateia. O da esquerda tinha uma pelagem marrom, escura e rica como chocolate, com olhos verdes que pareciam brilhar com a própria vida da floresta. O da direita era um monstro de pelagem negra como a noite sem lua, os olhos cor de mel fixos nela com uma intensidade que fez sua pele arrepiar. “Eles vão brigar por nós”, a voz interna de sua loba sussurrou, instintiva. “Nenhum lobo divide o cio de uma fêmea. Muito menos Alfas. Fique abaixada. Quando a briga começar, nós corremos.” Elara encolheu-se na água, submergindo até o queixo, os olhos fixos na lama da margem, esperando o primeiro rosnado de desafio. Esperando as presas e o sangue que costumavam ditar as disputas entre machos dominantes. Mas o ataque não veio. Os minutos se arrastaram como horas tortuosas. Em vez de rosnados de fúria mútua, os dois lobos gigantes caminharam lado a lado, em uma sincronia perfeita e perturbadora. Eles entraram na água baixa. À medida que se aproximavam, o vento levou até Elara o cheiro deles. Não era apenas o odor de animais selvagens. Era uma mistura inebriante de almíscar terroso vindo do lobo marrom e um aroma amadeirado, quente e denso, vindo do lobo negro. O aroma atingiu o nariz de Elara como um gatilho químico. O calor em seu ventre triplicou de intensidade. Uma onda de choque elétrico percorreu sua espinha. “Cora...” ela chamou sua loba em pensamento, a voz trêmula de desejo e pânico. Um hálito quente atingiu o topo de sua cabeça. Elara ergueu o rosto devagar, a água escorrendo por suas bochechas. Ao olhar de perto para a cor daqueles olhos e notar o padrão idêntico, mas invertido, das manchas nas pelagens, o choque de realidade a atingiu. “Cora...” pensou, assustada. “Eles não vão brigar. Eles são gêmeos. Eles estão acostumados a dividir.” O pânico misturou-se à excitação avassaladora que subia por suas pernas. Os dois lobos gigantes recuaram um passo, saindo da água em direção à margem de terra. Em um piscar de olhos, os ossos estalaram e os corpos massivos se reconfiguraram. Onde antes estavam os predadores, agora erguiam-se dois homens altos, completamente nus, com corpos esculpidos por músculos rígidos e imponentes.O teto de gesso e as lâmpadas fluorescentes da sala de aula do quinto ano pareciam zumbir de forma insuportável na mente de Aren. O relógio de parede marcava pouco mais de dez horas da manhã de uma terça-feira abafada. Ao redor do menino, o som de trinta crianças humanas folheando cadernos e o giz da professora arranhando a lousa verde soavam como trovões dentro de sua cabeça. A poção que Elara dera no passado e o isolamento forçado na cidade de concreto haviam funcionado por quase dez anos, mas o relógio biológico de um lobo não aceitava mais ser silenciado. Aren levou as mãos pequenas aos olhos, pressionando as pálpebras com força. Uma queimação violenta, como se estivesse encarando o sol a milímetros de distância, começou a derreter o conforto das películas gelatinosas castanhas. “Mamãe... dói muito”, ele pensou, a voz de seu lobo interior — que ainda era uma consciência jovem, mas já dotada de uma herança esmagadora — rugindo em pânico em seu peito. O poder de Sincronia, a hab
O despertador analógico de Daniel quebrou o silêncio do quarto antes que o sol terminasse de romper a linha dos prédios cinzentos da cidade. Elara abriu os olhos devagar, sentindo o peso do braço massivo do médico contornando sua cintura. Sua loba, Cora, repousava em um silêncio absoluto no fundo de sua mente, finalmente saciada pelo contato tátil e pelo calor físico que sua biologia de loba tanto clama sob a influência da lua. Não havia o laço místico de alma, mas ao ver Daniel sentar-se na cama e segurar sua mão com uma ternura genuína, Elara soube que havia encontrado um porto seguro. Como homem, ele respeitava os limites que ela impunha; como amigo, ele aceitava o mistério de sua vida sem fazer perguntas que ela não podia responder. Naquela manhã, entre o cheiro de café fresco e apostilas de anatomia abertas sobre o piso de madeira, eles selaram um acordo implícito de amizade colorida, uma parceria casual sem cobranças ou promessas de casamento, que manteria a sanidade de Elara
O peso de um jaleco branco e o cheiro de antisséptico eram as únicas coisas que conseguiam manter a mente de Elara longe das sombras da Matilha Silvaterra. Três meses após o nascimento secreto de Aren, ela estava de volta aos corredores da faculdade de medicina. Estava exausta. Para não perder o ano devido à licença-maternidade forçada, Elara puxara o dobro de matérias, tentando desesperadamente acompanhar o ritmo da turma. Sua rotina era um ciclo implacável de fraldas na madrugada com Marta, estudos teóricos e plantões de anatomia. Ela estava prestes a desabar quando Daniel cruzou seu caminho. Daniel, aos vinte e um anos, já exibia o porte físico impressionante que o destacava de qualquer humano comum: quase dois metros de altura, ombros largos que preenchiam perfeitamente as camisas de algodão e braços fortes. Mas o que realmente chamou a atenção de Elara foi a sua generosidade. Percebendo o desespero da colega de classe com as pilhas de p
O grande salão de festas da Casa da Matilha Silvaterra estava decorado com estandartes rústicos e velas aromáticas que tentavam camuflar, sem sucesso, a mistura opressiva de aromas de dezenas de lobos de elite. Era o Baile da Aliança. Para a maioria, uma noite de celebração; para Kaelen e Draven, uma execução política em câmera lenta. Vestindo trajes formais escuros que pareciam sufocar seus instintos, os gêmeos permaneciam perto da pilastra de pedra do mezanino. Quase cinco anos haviam se passado desde a noite na caverna. Cinco anos de um silêncio compartilhado e de uma ausência que corroía o peito de ambos a cada lua cheia. — Se mais uma loba sorrir para mim exibindo os dentes para mostrar que são fortes e saudáveis para reprodução, eu vou quebrar o protocolo e me transformar no meio do salão — Draven rosnou baixo, os olhos cor de mel fixos no movimento da pista de dança. Seu lobo, Vane, andava de um lado para o outro mentalmente, arreganh












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