LOGINA Rota de Fuga
Acordei com a luz da manhã invadindo o quarto pelas frestas da cortina. Os olhos ardiam, a cabeça latejava, como se eu tivesse passado a noite inteira chorando – e, bem, talvez tivesse mesmo. O corpo parecia mais leve que ontem, mas ainda carregava o cansaço da alma. Aquele cansaço que não tem a ver com sono, mas com a perda súbita de tudo. Levantei devagar, sentindo os músculos reclamarem a cada passo até o banheiro, um lembrete do que eu queria deixar para trás. Tomei um banho rápido. A água morna não apagou a dor, mas ajudou a organizar meus pensamentos. Vesti uma calça jeans confortável, meu moletom cinza de sempre e, por fim, encarei o celular desligado sobre a cômoda. O mesmo aparelho que ontem eu tinha ignorado por completo, agora era uma ponte. Uma única voz no mundo ainda me trazia a sensação de segurança. Liguei. Tia Benedita atendeu no primeiro toque. — Alô? — a voz suave preencheu o silêncio do quarto como um abraço. — Tia… — respirei fundo. — O casamento foi cancelado. Uma pausa curta, silenciosa. Mas não houve susto, nem choque. Apenas compreensão. — Mas… não quero falar disso agora — continuei, a voz baixa, embargada. — Só queria saber se tem um quarto sobrando aí para mim. Ela não perguntou nada, não pressionou. Nunca precisou de palavras para entender o que eu sentia. — Claro que tem. E sempre vai ter, minha filha — respondeu, com aquele jeito doce que sempre me fazia querer chorar. — Não vou te apertar para falar nada, mas… já imagino o que aconteceu. Fechei os olhos. Uma lágrima solitária escorreu antes que eu pudesse impedir. — Vou pedir demissão hoje — sussurrei. — Não quero mais ficar aqui. Preciso de paz, tia. Preciso respirar de novo. — Então vem — disse ela, firme, como se me puxasse para perto com a força da voz. — Se ele te machucou, não merecia você. Aqui é calmo, simples, mas cheio de amor. A pousada vai amar te ter por perto. E eu mais ainda. Ela sempre soube o que dizer. Sempre. — Obrigada — falei, com a voz falhando. — Vou resolver tudo aqui e pego um ônibus no fim da noite. — Estou te esperando com comida quente e um abraço apertado. E não se preocupa com nada, viu? Se precisar, a gente começa do zero. Juntas. Desliguei com o coração latejando. Ainda doía. Ainda parecia que algo dentro de mim tinha sido arrancado à força. Mas agora… havia um destino. Um rumo. Corri pelo apartamento como quem precisa fugir das próprias memórias. Abri gavetas, puxei malas do fundo do armário, joguei roupas sem pensar, como se cada peça que eu colocava ali fosse parte da dor que eu precisava deixar para trás. Sapatos, documentos, uma foto dos meus pais… algumas lembranças ainda faziam sentido levar. Outras, olhei por alguns segundos e larguei de lado. Não dava mais. Duas malas e uma mochila depois, parei no meio da sala. O silêncio me engoliu. Fechei os olhos. Respirei fundo. E saí. No caminho até o hotel onde trabalhava, cada rua, cada prédio, parecia se despedir de mim em silêncio. Era como se a cidade soubesse que eu estava indo embora. E, no fundo, eu sabia que era um adeus definitivo. Na sala do RH, fui recebida com olhos preocupados. — Tem certeza disso, Isa? — perguntou a gerente, franzindo a testa. — Você sempre foi dedicada. Está tudo bem? — Aconteceu algo sim. Mas… não quero falar sobre agora. Só preciso desse tempo para mim. Ela respeitou. Ainda insistiu um pouco, disse que era uma pena. Que eu estava em um ótimo momento. Mas no fim, aceitou minha decisão com um aperto de mão e um olhar gentil. — Se mudar de ideia, seu cargo está te esperando. Assinei os papéis com uma mistura de dor e alívio. Era um laço cortado. Mais um. Mas necessário. Voltei para casa no fim da tarde. O céu já começava a escurecer, tingindo a cidade com tons de azul profundo. Sentei no sofá pela última vez. O cheiro do apartamento, o silêncio das paredes, a bagunça das caixas que deixei para trás. Tudo parecia se despedir comigo. Liguei para a imobiliária ainda cedo. Disse que não renovaria o contrato. Ia entregar o apartamento antes do prazo. Eles entenderam. O contrato já estava no fim mesmo. — Ironicamente, eu ia me mudar para o apartamento do Carlos depois do casamento —pensei , num tom quase sarcástico. Ironia. A vida adorava brincar comigo. Quando olhei para o relógio, a hora tinha chegado. Fechei a porta do apartamento. Tranquei com cuidado. Por um segundo, fiquei parada ali. Só ouvindo o barulho do meu próprio coração. Depois desci com as malas. Cada degrau parecia mais firme, como se cada passo me levasse para longe da dor. Na rodoviária, sentei no banco de espera com o bilhete nas mãos. Era uma passagem simples. Nada de luxo. Mas para mim… era tudo. Era a chance de recomeçar. Tia Benedita. A pousada. O interior. Era hora de ir embora. E, quem sabe, me encontrar no caminho.O Nosso Para SempreISABELAUm mês depois...Depois que voltamos de Paris, o tempo pareceu correr em um ritmo diferente, mais leve, mais rápido, como acontece quando a felicidade é a bússola. Um mês havia se passado voando, e cada dia foi dedicado a um único propósito: planejar o nosso casamento nos mínimos detalhes. Rafael estava ao meu lado em cada escolha, desde a cor das fitas até o tipo de flor, mostrando um entusiasmo contagiante que me fazia amá-lo ainda mais. Ele se entregou de corpo e alma, buscando fornecedores, experimentando sabores do buffet, discutindo o local da festa depois que a cerimônia acaba-se. Cada sorriso que ele me dava ao aprovar um detalhe, cada toque de mão para me tranquilizar, era uma paz para minha alma. Era a prova de que essa nova etapa da nossa vida seria construída a quatro mãos, com o mesmo amor e dedicação.A pousada, estava impecável. Seus recantos rústicos e charmosos foram adornados com as flores frescas que eu mesma havia trazido da minha floric
A Grande SurpresaRAFAELIsa não tem noção do que Camile e eu aprontamos o dia todo para ela. Sim, passamos o dia juntos, conversando e nos reconectando, mas não foi só isso. Eu preparei uma surpresa para ela hoje em um restaurante caro, um lugar que escolhi a dedo. Liguei para Carlos, Sofia e Tia Benedita para que eles viessem para Paris. A ideia de ter todos ali, juntos, para um momento tão importante, me encheu de uma expectativa quase infantil.Agora, enquanto estamos dentro do carro, dirigindo até o restaurante, eu relembro os acontecimentos do dia. Primeiro, Camile e eu fomos até uma joalheria. Finalmente, resolvi que era a hora certa de pedir Isabela em casamento. Mas espero que ela diga sim e que não jogue uma taça de vidro na minha cabeça depois do que conversamos sobre casamento. Não sei se ela está pronta, mas eu, com certeza, estou. Aquele momento na Pont des Arts foi um divisor de águas, e a noite que passamos juntos só reforçou minha certeza.Recebi Carlos, Sofia e Tia B
Depois da conversa que tive com Camile na delegacia, senti que ela ainda não havia me perdoado completamente; estava nítido em seu olhar evasivo e na forma como evitava meu olhar. Saímos de lá, e Rafael prometeu que conversaria com os pais para ajudar a irmã. Ele temia que, de alguma forma, tudo aquilo chegasse aos ouvidos deles. Camile, envolta no abraço protetor de Rafael, disse a ele que queria trocar de faculdade. Ele deu um beijo na têmpora dela e garantiu que a polícia iria punir o ex-namorado babaca e as garotas que tanto a agrediram.O carro de Rafael parou na frente da casa. Camile o abraçou e saiu sem olhar para mim, entrando rapidamente.— Ela vai ficar bem? — perguntei a Rafael, sentindo um nó na garganta.— Tenho certeza que sim! — ele respondeu, mas vi dúvidas em seu rosto, um cansaço que a situação da irmã havia imposto.— Eu estava pensando em voltar para o interior, mas acho que você gostaria de ficar mais? — falei, a pergunta pairando no ar. Parecia que não havia mai
O Confronto InevitávelISABELAAssim que entramos mais a fundo na casa, somos saudados pelo som grave e pulsante vindo de dentro, enquanto as pessoas circulam na frente. Era uma balada completa, com luzes piscando e uma multidão dançando. "Uau. De onde saiu tantos jovens?", eu pensei, sentindo um certo deslocamento. Por um breve instante, tentei me convencer de que poderia estar errada e que Camile estaria apenas fazendo novos amigos, sem perigo real.Essa esperança logo se desfez. Uma garota de cabelos compridos e muitas tatuagens nos parou. Seus olhos estavam um pouco arregalados, e ela parecia nervosa.— Vocês estão aqui por Camile? — ela perguntou, a voz meio abafada pela música.— Exatamente, eu sou irmão dela! — Rafael rosnou, sua voz baixa e carregada de fúria, fazendo a coitada da garota se encolher visivelmente.— Ela está na sala discutindo com Chris — ela falou, apontando para uma área mais ao fundo da casa.— Quem diabos é Chris? — eu perguntei, sentindo um arrepio na espi
— Bem, eu vou indo antes que Rafael venha me procurar — falei, sentindo a urgência em cada sílaba, meus passos já direcionados à porta entreaberta do quarto de Camile. Precisava de ar, de tempo para processar aquela bomba e, principalmente, para pensar em um plano.— Tá bom, e muito obrigado por guardar o meu segredo e me ajudar — ela respondeu, a voz quase um sussurro, os olhos fixos no chão como se o mármore frio contivesse todas as suas vergonhas. — Eu mudei a impressão que eu tinha de você. — Aquelas palavras, vindas dela, foram um pequeno alívio em meio ao turbilhão.Dei-lhe um último aceno, um misto de alívio por sua confiança e uma preocupação crescente pela sua situação. Saí do quarto, mas meus olhos se arregalaram em choque, meu coração dando um salto triplo. Lá estava Rafael, parado do lado de fora, com os braços cruzados sobre o peito musculoso, uma expressão séria e indomável em seu rosto. O ar ao redor dele parecia vibrar com uma tensão contida.Ele não disse uma palavra.
Na manhã seguinte, fui acordada com um beijo suave nos lábios. — Acorda, querida — Rafael falou enquanto eu lutava com a claridade que invadia o quarto pela janela.— Que horas são? — perguntei sem abrir os olhos, ainda imersa no sono.— Ainda muito cedo, são 6 horas — ele respondeu, me puxando pela cintura para mais perto.— Volte a dormir — eu falei, enquanto me levantava, sentindo a necessidade urgente de ir ao banheiro. Caminhei até lá, e quando voltei para a cama, já tinha perdido o sono. Tratei de colocar um moletom e caminhei para fora do quarto, sem acordar Rafael.Foi então que escutei a porta da frente se abrindo. Era Camile chegando, a essa hora da manhã. Ela caminhou com passos lentos para a escada, e foi ali, na penumbra do hall, com os braços cruzados, que eu decidi falar. — Bom dia, Camile? — falei, mas rapidamente me arrependi, lembrando-me da forma como ela passou por mim e Emma na noite anterior.— Hum, é você! — Ela mordeu a bochecha, um sinal claro de desconforto.







