INICIAR SESIÓNNa manhã seguinte, acordei antes mesmo do despertador tocar. Era um hábito antigo. Minha mãe dizia que pessoas disciplinadas não dependiam de alarmes.
Eu já nem sabia mais se acordava cedo por vontade própria ou porque meu corpo havia aprendido que atrasos simplesmente não eram uma opção.
Depois de arrumar a cama, vestir o uniforme e conferir pela segunda vez se todos os materiais estavam na mochila, desci para o café da manhã.
Meu pai já lia o jornal na cabeceira da mesa. Minha mãe respondia e-mails do hospital entre um gole de café e outro.
— Bom dia, querida. — minha mãe sorriu.
— Bom dia.
Meu pai abaixou o jornal.
— Hoje você tem o resultado da Olimpíada de Matemática?
— Só na próxima semana.
— Vai ganhar.
Ele falou aquilo como uma afirmação, não como um incentivo.
Sorri educadamente.
— Espero que sim.
Durante o restante do café, a conversa girou em torno da empresa do meu pai, das cirurgias da minha mãe e da universidade. Sempre a universidade. Harvard. MIT. Stanford. Como se meu futuro já estivesse decidido antes mesmo de eu descobrir quem realmente queria ser.
*** Quando cheguei à Westbrook, encontrei Sofia me esperando no portão. Ela segurava dois cafés.— Trouxe um para você.
Peguei o copo surpresa.
— Você acordou cedo só para comprar café?
Ela deu de ombros.
— Não. Só imaginei que você fosse esquecer de viver enquanto organiza sua agenda.
Ri.
— Eu vivo.
— Você sobrevive. É diferente.
Entramos conversando. O pátio já estava cheio.
Daniel chegou alguns minutos depois, estacionando a moto no mesmo lugar do dia anterior. Ele retirou o capacete enquanto Lucas dizia alguma coisa que o fez rir. Era estranho.
Na sala de aula ele parecia desinteressado. Mas fora dela... Parecia outra pessoa. Mais leve. Mais espontâneo. Mais... feliz.
Percebi que estava olhando por tempo demais. Desviei o olhar imediatamente.
— Você fez de novo. — Sofia comentou.
— Fiz o quê?
— Olhou para ele.
— Sofia...
— Relaxa. Só estou achando engraçado.
Ignorei completamente. Ou pelo menos tentei.
***A primeira aula era justamente com o professor Arthur. Assim que ele entrou na sala, percebi que carregava uma caixa cheia de envelopes. Aquilo nunca significava coisa boa.
Ele esperou todos se acomodarem. Depois apoiou as mãos sobre a mesa.
— Ontem eu falei sobre um projeto interdisciplinar.
A sala inteira ficou em silêncio.
— Esse projeto será desenvolvido durante todo o semestre. Vocês serão avaliados por seis professores diferentes. Pesquisa. Escrita. Apresentação. Criatividade. Liderança. Trabalho em equipe.
Alguns alunos começaram a anotar desesperadamente. Eu apenas esperei.
Conhecia aquele olhar do professor. Ainda havia uma surpresa. E ela veio.
— Como toda boa experiência, vocês não poderão escolher seus grupos.
Alguns resmungos surgiram imediatamente. O professor sorriu.
— Eu escolhi cada equipe pensando justamente em tirar vocês da zona de conforto.
Meu estômago apertou. Por favor... Qualquer pessoa. Menos alguém completamente irresponsável.
Arthur começou a abrir os envelopes.
— Grupo um...
Os nomes foram sendo anunciados.
Sofia ficou com Miguel, Júlia e Enzo. Ela comemorou discretamente.
Continuei esperando. Quanto menos nomes restavam... Mais nervosa eu ficava.
— Grupo sete... Daniel Carter. Lucas Menezes. Bianca Ferraz.
Olhei discretamente para Daniel. Ele parecia completamente indiferente. Como se nem estivesse ouvindo. Respirei aliviada. Ainda bem.
— E... Helena Albuquerque.
Meu cérebro levou alguns segundos para processar. Não. Eu devia ter ouvido errado.
O professor repetiu.
— Daniel Carter. Helena Albuquerque. Lucas Menezes. Bianca Ferraz. Esse será o grupo sete.
O silêncio durou exatamente três segundos. Depois... A sala inteira começou a cochichar.
— Não acredito...
— Isso vai dar errado.
— A Helena vai matar o Daniel na primeira semana.
— Ou o contrário.
Meu rosto queimava. Olhei para Sofia. Ela estava com os olhos arregalados. Depois... Começou a rir. Sem fazer barulho. Mas claramente rindo da minha desgraça.
Levantei lentamente a mão.
— Professor...
Ele sorriu.
— Sim, Helena?
— Acho que houve algum engano.
— Nenhum.
— Mas...
Ele me interrompeu.
— A vida não permite escolher sempre com quem trabalhamos. Considere isso parte do aprendizado.
Baixei a mão. Derrotada.
***Lucas demorou exatamente dois segundos para começar a rir.
— Cara... Isso vai ser histórico.
Olhei para ele.
— Cala a boca.
— Você ouviu? A Helena. No nosso grupo.
Bianca cruzou os braços.
— Maravilha. Vou fazer trabalho com a garota que tira nota máxima em tudo. Ela provavelmente vai querer mandar em todo mundo.
Olhei para frente. Helena permanecia completamente imóvel. Parecia estar reconsiderando todas as escolhas que fez na vida até aquele momento.
Curiosamente... Eu provavelmente estava fazendo a mesma coisa. O professor continuou explicando o projeto. Mas eu já não prestava atenção.
Lucas deu uma cotovelada discreta.
— Aposto cinquenta reais que ela pede para trocar de grupo.
— Eu também pediria.
— Você vai pedir?
Pensei por alguns segundos. Depois dei de ombros.
— Não. Se ela sobreviver a mim... Talvez eu sobreviva a ela também.
*** No final da aula, Arthur pediu que cada grupo permanecesse alguns minutos para definir o primeiro encontro.Os alunos começaram a juntar as carteiras.
Bianca foi a primeira a falar.
— Sábado, na minha casa. Tem espaço.
Helena respondeu imediatamente.
— Sábado eu tenho um curso preparatório.
— Domingo, então.
— Domingo eu estudo.
Lucas olhou para mim.
— Acho que ela estuda até dormindo.
Ignorei. Cruzei os braços.
— Durante a semana. Depois da aula. Uma hora. Pronto.
Todos olharam para mim. Inclusive Helena. Era a primeira vez que ela realmente me encarava.
Os olhos castanhos eram muito mais claros de perto.
Ela parecia surpresa.
— Funciona para mim. — respondeu.
Lucas levantou as mãos.
— Milagre. Já temos um acordo.
Bianca suspirou dramaticamente.
— Segunda-feira?
Helena assentiu.
— Pode ser.
Arthur observava tudo à distância. Quando percebeu que havíamos chegado a um consenso, sorriu discretamente. Tenho quase certeza de que ele já esperava exatamente aquele resultado. Como se tivesse escolhido aquele grupo por algum motivo específico.
Na hora, achei que fosse apenas azar. Anos depois eu entenderia que aquele professor enxergava pessoas muito melhor do que nós mesmos.
E que aquele simples trabalho escolar...
Mudaria completamente o rumo das nossas vidas.
Olá… se você chegou até aqui, antes de qualquer coisa, eu quero te dizer obrigada.Obrigada por ter dedicado seu tempo a essa história, por ter se permitido sentir cada emoção, cada conflito, cada recomeço junto com a Helena e o Daniel. Se você leu até o final, é porque, de alguma forma, essa história te tocou — e isso, pra mim, vale mais do que qualquer coisa.E se você gostou dessa história… eu tenho um convite especial pra você.Tenho outros livros aqui na plataforma que também carregam intensidade, romance, conflitos e decisões difíceis — tudo aquilo que faz a gente virar a página sem perceber, e um deles é esse:Grávida do meu Chefehttps://www.goodnovel.com/book/Gr%C3%A1vida-do-meu-chefe_31001122800Vou te contar um pouco mais sobre a história para você conhecer o que te espera…Sinopse:Ela só queria comemorar o emprego dos sonhos.Ele só queria mais uma noite sem compromisso.Isadora é o tipo de mulher que não chegou onde está por acaso. Inteligente, determinada e extremamente
DEZ ANOS DEPOISHelenaSe alguém tivesse me contado, no meu primeiro dia do último ano da Academia Westbrook, que aquele garoto irritante, atrasado e convencido se tornaria meu marido, meu sócio e a pessoa com quem eu construiria uma família, eu provavelmente teria rido na cara dessa pessoa.Na época, Daniel Carter era praticamente tudo o que eu não suportava. E, ainda assim, dez anos depois, eu estava na nossa cozinha, numa casa espaçosa em um condomínio fechado, tentando organizar uma festa para comemorar os vinte e nove anos dele.A vida realmente tinha um senso de humor peculiar.— Helena, você colocou as bebidas na geladeira? — Daniel perguntou, aparecendo na porta da cozinha.Olhei para ele.— Coloquei.— E os aperitivos?— Também.— Os guardanapos?Pousei a colher que segurava.— Daniel.Ele parou.— O quê?— Se você fizer mais uma pergunta sobre a organização dessa festa, vou colocar você para lavar toda a louça sozinho.Ele abriu um sorriso.— Entendido, senhora Carter.Tente
HelenaEu costumava acreditar que os grandes momentos da vida vinham acompanhados de alguma coisa extraordinária. Uma conquista importante, uma notícia capaz de mudar tudo, uma decisão que dividisse o mundo entre o antes e o depois.Talvez por isso eu tenha demorado tanto para perceber que algumas das maiores mudanças aconteciam nos dias mais comuns.Naquela terça-feira, por exemplo, eu estava atrasada para uma reunião, Daniel tinha deixado uma caneca de café ao lado do meu notebook e havia uma pilha de roupas esperando para ser dobrada no sofá. Nosso apartamento continuava pequeno, a cozinha ainda era apertada para duas pessoas e a lista de tarefas domésticas presa à geladeira já precisava de outra atualização.Nada daquilo parecia extraordinário.Ainda assim, quando parei diante da porta para procurar minhas chaves e encontrei Daniel esperando por mim com a mochila sobre um ombro, tive uma sensação inesperadamente boa.Aquela era a nossa vida.Não uma viagem de verão, uma competição
HelenaSe alguém me perguntasse como tinham sido os primeiros três meses morando com Daniel, eu provavelmente responderia que foram maravilhosos. E seriam necessários apenas mais cinco minutos de conversa para eu admitir que também tinham sido caóticos.Porque ninguém me preparou para descobrir que o garoto que conseguia desmontar um mecanismo inteiro e montá-lo novamente com algumas melhorias não sabia preparar um jantar sem transformar a cozinha em uma zona de desastre.Nem que eu, a garota que organizava planilhas para tudo, descobriria que seguir uma receita não significava necessariamente conseguir reproduzi-la.Nosso primeiro problema doméstico apareceu na segunda semana.Era uma terça-feira, eu tinha passado a manhã em uma aula de análise de dados e ainda precisava terminar um relatório para o dia seguinte. Daniel havia chegado do laboratório pouco antes de mim e anunciado que prepararia o jantar.Quando entrei na cozinha, encontrei uma panela soltando fumaça, uma tábua coberta
HelenaPouco mais de uma hora depois, estávamos em uma loja de móveis. A primeira compra foi óbvia. Uma cama. Não a cama dos sonhos. Nem a mais bonita. Nem a mais cara. Uma cama confortável, com tamanho suficiente para os dois e que pudesse ser entregue ainda naquele dia.Depois vieram o colchão, dois travesseiros, roupa de cama e um cobertor.— Está ficando caro — falei enquanto conferia os valores.Daniel olhou para mim.— A gente sabia que ia acontecer.— Eu sei.— E nossas famílias estão ajudando.— Mesmo assim.Ele segurou minha mão.— Não estamos comprando tudo de uma vez.Eu sorri.— Certo.A próxima parada foi em uma loja de departamentos. Compramos o básico. Pratos. Copos. Talheres. Duas panelas. Uma frigideira. Produtos de limpeza. Toalhas. Papel higiênico. Sabão. Um cesto para roupa suja. E uma cafeteira que Daniel insistiu que era absolutamente necessária.— Você não sabe viver sem café?— Não.— Eu sabia.Ele colocou a cafeteira no carrinho.— Isso não é luxo.— É uma ne
HelenaVoltar para Londres depois das férias tinha uma sensação completamente diferente da primeira vez. Na primeira viagem, tudo era novidade. Agora, quando saímos do aeroporto, havia algo familiar naquela cidade. As ruas. O clima. Os prédios. A universidade. Os caminhos que já conhecíamos.Mas havia uma novidade. Uma que fazia meu coração acelerar cada vez que eu pensava nela.Dessa vez, não voltaríamos para o alojamento. Tínhamos duas semanas para encontrar um apartamento, resolver toda a documentação e começar uma nova fase juntos.Daniel puxava uma das malas enquanto eu segurava o celular com o anúncio salvo.— Ainda está no mesmo lugar — falei.— O apartamento?— Sim.Ele olhou para a tela.— Então vamos descobrir se as fotos mentiram.Ri.— Espero que não.***O primeiro apartamento foi justamente aquele que havíamos encontrado ainda no Brasil. Quando entramos, eu reconheci imediatamente a sala das fotos. A janela enorme ocupava praticamente toda uma parede. Havia uma pequena







