LOGINEscuto uma batida na porta, em seguida a mesma é aberta revelando a presença de Ágatha, a tesoureira da empresa.
— Bom dia, Lana! — Ágatha abre um sorriso. — Bom dia, Ágatha! — retribuo o sorriso. A tesoureira é uma mulher de meia-idade muito calorosa e gentil. — Vim ver se você já revisou os contratos e acordos financeiros da semana passada. — Ágatha informa o motivo de sua visita. — Já sim, na verdade, iria pedir para levarem em sua sala daqui a pouco. — conto. — Que gentileza, porém, estou precisando destes contratos, por isso a pressa. — ela se explica — Como esta é a sua última semana antes de se ausentar, não quero que nada fique pendente. — Entendo. Estou com este intuito também. — afirmo. Estendo os muitíssimos papéis de nossos clientes para a mulher que caminha até a minha mesa e sorri: — Obrigada, Lana. Faço um movimento de agradecimento com a cabeça e volto a atenção para o meu monitor. Sem mais de longas, a Ágatha pede licença e se retira da sala. Os meus olhos estão atentos a cada informação sobre a minha pesquisa de tendências econômicas, porém o cansaço pesa sobre eles. Pouco menos que um mês atrás, comecei a sentir muitas dores no corpo além de perceber comportamentos ansiosos no meu dia a dia. "— Lana, é óbvio o que está acontecendo com o seu corpo e mente. — a doutora Bayer, minha psicóloga e amiga Melissa faz uma pequena pausa para continuar o seu diagnóstico — Após anos de excessivas horas de trabalho, estudos e uma rotina pesada para uma jovem mulher de 35 anos, o seu corpo está dando sinais que está esgotado." Ouvir aquelas palavras da psicóloga serviram para abrir os meus olhos. Não acredito que precisei pagar uma sessão de R$400 para dar conta que estou precisando de férias. Após doze anos para me formar em finanças, ciências econômicas e analista financeiro — estes cursos com mestrado e doutorado — e construir uma carreira impecável no mundo executiva — são oito anos como analista financeiro pleno e agora completei um ano de analista financeiro sênior — decidi que está na hora de um período sabático. É difícil preparar um período desse em poucas semanas, mas com as indicações de colegas do mundo colaborativo, encontrei um irresistível hotel fazenda em uma cidade no interior para ter este descanso mais que merecido. "Apenas mais uma semana." — esta é a minha frase motivacional. No final de semana estarei embarcando para as minhas férias e então, finalmente estarei distante desta loucura. Não posso agir com ingratidão e não admitir o quanto estou orgulhosa de mim mesma, pois lutei muito para conseguir a vaga como analista financeiro sênior nesta empresa — uma multinacional no ramo de energia renovável e sustentabilidade. Contudo, após os inúmeros preconceitos do mundo corporativo com uma mulher ocupando um cargo tão elevado — ainda mais sendo uma mulher solteirona, arrogante e presunçosa — é difícil não se sentir esgotada. "Apenas mais uma semana." — lembro-me e sorrio. — Apenas mais uma semana. — digo em voz alta.O prato principal veio depois, com aromas intensos e um sabor que só ele sabia trazer — o equilíbrio perfeito entre técnica e intuição, entre requinte e afeto. Comemos devagar, sem pressa, como se o tempo estivesse nos dando uma folga só para aproveitarmos um ao outro. A noite se estendia entre goles de vinho e provocações. Quando a sobremesa chegou, admito que fiquei surpresa com a escolha ousada de Vicente: mousse de chocolate com flor de sal e pimenta rosa. ”— Um toque picante, como você.” — estas foram as palavras de Vicente, quase encostando os lábios nos meus ao entregar a colher. Quando provo, arqueio uma sobrancelha: — Isso aqui tem segundas intenções. — afirmo. — Só se você deixar. — ele sorri largando a cadeira e vindo até mim, contornando a mesa até ficar ao meu lado — E eu sei que você quer tanto quanto eu. — Sim, gatinho, eu quero ver onde tudo isso vai terminar. — sorrio e mantenho um olhar nada inocente. — Vem comigo. — Vicente estende a mão para mim. —
..... SEMANAS DEPOIS ..... Quando entrei no restaurante, quase não reconheci o lugar. As luzes estavam mais baixas, criando sombras suaves sobre as paredes de tijolos aparentes. E no centro de tudo isso... ele. Vicente. De avental escuro e sorriso nos lábios, lá estava ele, no meio do salão, encostado no balcão como quem não fez nada demais — só fechou o restaurante onde trabalha, sendo o mais concorrido da cidade, para um jantar exclusivo comigo. — Isso tudo por causa de uma mulher mais velha? — brinquei, antes mesmo de tirar o casaco. Vicente me olha de cima a baixo, lento, descarado. — Mulher mais velha, não. Mulher irresistível. Ainda mais quando chega vestida desse jeito. — ele se aproxima, pegando minha mão como se estivéssemos em um primeiro encontro — Feliz aniversário, Lana. — Obrigada, gatinho. — agradeço e continuo — Achei que iríamos ter um jantar em família, com as crianças. — comento mesmo sabendo que Vicente tinha mandado as crianças para a casa da Lun
..... DIA SEGUINTE .... O avião desliza tranquilo no céu escuro. As luzes estavam apagadas, e tudo que se ouvia era o som constante e abafado dos motores. Eu deveria estar dormindo. Todos estavam. Mas, como sempre, meu corpo repousava e a mente… trabalhava. Hugo dormia com a cabeça encostada no meu braço, os cílios longos repousando sobre as bochechas redondas. Enquanto a Cecília está aninhada no colo de Vicente, dormia com a boca entreaberta, totalmente entregue, enquanto ele, com os olhos fechados, parecia flutuar no mesmo compasso calmo dela. Era impossível não sorrir vendo aquilo. Uma parte de mim queria guardar aquele retrato: minha família inteira reunida, em silêncio, em paz. Mas então olhei para a mochila abaixo dos meus pés. Sabia que o notebook estava ali, piscando mentalmente para mim. Um lembrete mudo de que e-mails não respondidos e números pendentes me esperavam assim que os pés tocassem no chão. Parte de mim sentia aquela velha coceira no cérebro… só dar uma olhadi
..... QUATRO ANOS DEPOIS ..... LANA ON Se alguém me dissesse, há cinco anos, que eu estaria aqui — empurrando um carrinho de bebê entre princesas, piratas e balões gigantes com cheiro de algodão-doce — eu provavelmente teria soltado um daqueles risos céticos e ajeitado o blazer. E, no entanto, aqui estou. Com o cabelo preso às pressas, a blusa manchada de sorvete de morango e duas pequenas criaturas com meu sobrenome me chamando de mamãe a cada três minutos. Hugo corre à frente, com o chapéu do Woody meio torto na cabeça e a energia de quem parece ter um motor próprio. Vicente vai atrás dele, como se tivesse nascido pra isso — pai de alma leve, sorriso pronto, paciência de ferro. A nossa família aumentou com a chegada da Cecília, nossa caçula de dois anos de idade. A Cecília está comigo, meio deitada no carrinho, meio sentada, com os olhos grudados no Vicente. Quando ele vira pra olhar, ela dá um gritinho de alegria, esticando os bracinhos como se o mundo todo coubesse nele.
Depois da cerimônia, os convidados se dirigem ao local da recepção, uma grande tenda com vista para o lago da fazenda. A decoração ali é rústica e sofisticada, com mesas redondas adornadas com velas e flores. O menu é uma celebração da culinária local, com pratos preparados pela equipe da Chef Sophia. Com música ao vivo, os convidados apreciam o jantar e também se juntam para dançar sob as estrelas. — Tudo está como você queria, amor? — Vicente pergunta para sua esposa, enquanto dançam juntos uma música de ritmo suave e romântica. — Está ainda mais perfeito. — Lana responde com um tom de voz doce. Seus corpos se movem em sincronia ao som da música, ambos perdidos no olhar um do outro. Os convidados observam com sorrisos encantados enquanto Lana e Vicente deslizam pela pista, dançando sua primeira valsa como marido e mulher. Há cumplicidade no ar, mas também algo mais... malícia. — Lana... e se a gente escapasse agora? — Vicente sugere, baixando o tom da voz, com um so
..... SEMANA DEPOIS — O CASAMENTO ..... NARRADORA ON A fazenda, com seu cenário campestre, é o local perfeito para um casamento intimista, o qual era o desejo de Lana. O dia está perfeito, uma tarde ensolarada, com o sol brilhando suavemente sobre os campos verdes e as flores silvestres. A casa da fazenda, com sua arquitetura colonial, foi decorada com elegância e simplicidade, com detalhes em tons de branco e creme. O local da cerimônia é um jardim encantador, com uma pérgola coberta de rosas e videiras. As cadeiras foram distribuídas em um semicírculo, com um corredor central que leva ao altar. O altar foi decorado com flores frescas e uma guirlanda de folhas verdes. — Tudo está tão lindo! — A Lana tem bom gosto. — Já estou emocionada. Os comentários são de admiração dos convidados, enquanto se acomodam, observam cada detalhe com suspiros de aprovação. O sonoplasta sutilmente muda a música de fundo para dar início a cerimônia. Vicente adentra o jardim, caminhando sozinho







