LOGINA floresta engoliu o som dos tambores em poucos minutos.Corri entre as árvores sem plano algum, as botas afundando na neve, o vestido vermelho cortando o ar noturno como uma ferida aberta no meio de toda aquela brancura. Deveria estar congelando. Em vez disso, o hidromel ainda queimava no meu sangue, e minha loba pulsava dentro de mim com uma impaciência que eu não sentia desde antes da ilha.Pela primeira vez em cinco anos, a floresta não era uma ameaça. Era um convite.Fechei os olhos por um instante e deixei o instinto assumir. O cheiro de pinheiro, de terra gelada, de pelo e suor de dezenas de machos espalhados pelas sombras. Tantas pistas, tantos rastros cruzados. E, por baixo de todos eles… tão fraco que eu mal conseguia distinguir, um aroma que eu reconheceria em qualquer lugar do mundo.Madeira queimada. Couro. Algo quente e sombrio, que me arrepiava a nuca.Minha loba rosnou, satisfeita. Abri os olhos e segui.— Não adianta fingir que está caçando outro.A voz veio de trás
Os machos começaram a se dispersar em direção à linha das árvores, risadas nervosas e provocações cruzando o ar enquanto cada um escolhia sua direção. Vi Joe entre eles, piscando para mim antes de desaparecer rumo ao norte com um sorriso que prometia travessura.Foi então que avistei Lorcan descendo da pedra elevada, caminhando sem pressa na direção da mesma linha de árvores, o casaco escuro balançando contra o vento gélido.Ele também ia participar.Meu estômago revirou de um jeito que eu não soube nomear imediatamente. Surpresa, talvez, misturada com algo mais afiado, mais quente, que preferi não examinar de perto.— Você vai participar, não vai? — Dahlia surgiu ao meu lado, os olhos brilhando de expectativa, uma mão descansando sobre a barriga redonda.— Não tenho certeza se é apropriado — hesitei, ainda observando a silhueta de Lorcan desaparecer entre as sombras das árvores. — Não sou exatamente... daqui.— Bobagem. — Ela revirou os olhos, puxando-me pelo braço na direção do gru
O som dos tambores mudou completamente a energia da clareira.Onde antes havia risadas soltas e conversas desconexas, agora um ritmo mais sincronizado tomava conta de cada corpo ao redor. Pés batendo no chão gelado, mãos marcando palmas contra as coxas, vozes se erguendo numa espécie de cântico sem palavras definidas, apenas sons guturais que pareciam vir de algum lugar ancestral, anterior a qualquer linguagem.— Vem — chamou Dahlia, aparecendo ao meu lado com os olhos brilhando de empolgação, puxando-me pelo braço na direção do centro da clareira, onde a maior fogueira ardia mais alta que todas as outras. — Você precisa experimentar isso pelo menos uma vez.Deixei-me levar, o álcool que bebi antes ainda aquecendo meu sangue, a presença de Lorcan ainda queimando em algum lugar atrás dos meus pensamentos.A dança não tinha coreografia definida, nenhum padrão óbvio, apenas corpos se movendo livremente ao ritmo dos tambores, alguns em pares, outros sozinhos, todos conectados por aquela
Um assobio ecoou por trás de mim.— Duas semanas! — gritou alguém da plateia que se formara ao redor da mesa, animado. — Alfa, ouviu isso? Parece que vamos garantir que sua convidada especial fique bem mais tempo por aqui!Risadas explodiram ao redor. Senti o rosto esquentar, mas não desviei o olhar da mesa, nem da direção de Lorcan, que permanecia parado a poucos passos, os braços cruzados, o rosto cuidadosamente neutro demais para ser genuíno.— Cuidado com o que deseja — retruquei, alto o suficiente para que ele ouvisse também. — Duas semanas são tempo mais que suficiente para eu descobrir todos os segredinhos sujos dessa alcateia.Mais risadas, e dessa vez até um resquício de sorriso torto cruzou os lábios de Lorcan antes que ele conseguisse disfarçar.— Aceito a aposta — declarou Marius, embaralhando as cartas com o mesmo movimento sutil de antes.Distribuí minhas próprias cartas com uma destreza que espelhava exatamente os movimentos que tinha acabado de observar, os dedos escor
PADGETT.A clareira central tinha se transformado em outro mundo.Fogueiras enormes cercavam o espaço todo, tantas que o calor delas se misturava numa única onda quente que subia pelo ar da noite, desafiando o inverno que insistia em tudo ao redor. Era estranho sentir aquele calor no rosto enquanto a neve ainda cobria o chão sob meus pés, como se, por uma noite, a própria natureza tivesse decidido fazer uma pausa na crueldade do clima.— Se continuar parada aí admirando o fogo, vai acabar derretendo antes da meia-noite. — A voz de Dahlia surgiu ao meu lado, divertida.Virei-me e a encontrei com um sorriso largo, as mãos apoiadas na barriga redonda, os olhos brilhando com a energia contagiante da celebração ao redor.— Está mais quente do que eu esperava, acho que nem preciso desse casaco — comentei, ajustando o sobretudo sobre os ombros.— Ah, querida. — Ela ergueu uma sobrancelha, maliciosa. — A magia dessa noite é que as fogueiras não são as únicas por fazer você suar..Cruzei os
LORCAN.O amanhecer mal tinha rompido quando reuni os patrulheiros na borda leste do acampamento, o frio cortante mordendo a pele mesmo através das camadas de couro que eu vestia.— Sei o que essa noite significa para todos vocês — comecei, encarando cada rosto à minha frente, principalmente os jovens, alguns mal tinham completado dezenove invernos. — E por isso quero perguntar, não ordenar: algum de vocês, entre os solteiros e os recém-acasalados, prefere participar da celebração e deixar a vigia para outro turno?Silêncio. Nenhuma mão se ergueu, nenhum olhar vacilou.Nilo, um dos mais jovens, foi o primeiro a falar, o queixo erguido com uma convicção que me surpreendeu.— Prefiro ficar de vigia, Alfa. — Sua voz saiu firme, sem hesitação. — Minha companheira vai entender. E prefiro isso a saber que algo pode acontecer enquanto todos dançam distraídos.Um murmúrio de concordância percorreu o grupo inteiro.— Ninguém aqui precisa de ordem para saber o que é certo — acrescentou outro, m







