Compartir

capitulo 80 Final

Autor: Val veiga
last update Fecha de publicación: 2025-09-01 02:01:32

Narrado por Alana

---

ANOS NÃO ALISARAM, LAPIDARAM

O tempo passou.

Não limpou nossas mãos, não apagou cicatriz. Só deixou as marcas mais nítidas — igual tatuagem que arde mas fica.

Eu e Caio?

A gente não virou santo. A gente virou constante. Um elo que nem bala quebra.

Depois da queda da Daniela, parecia que a cidade inteira se voltou contra nós. Operação com nome bonito, político caçando palco, milícia fantasiada de empresa de segurança. Só que aqui nunca foi palco — aqui sempre foi trincheira.

E a resposta foi simples: regra, rádio e rua. Quando a rua fala, a gente obedece.

---

TRÊS NOITES QUE MOLDARAM NOSSO REINADO

1. A Madrugada do Viaduto.

Eles quiseram fechar o Conquista pela fome.

Quatro viaturas, drone baixo, farol comendo pista.

Caio jogou fumaça, eu fui por baixo do viaduto com dois moleques, terceiro na retaguarda.

Não teve poesia: teve silenciador, granada de luz e joelho ralado no asfalto.

Resultado? O caminhão de mantimento chegou inteiro.

De manhã, a panela ferveu. E a escola abriu.

No rádio deles: “fracasso”.

No nosso: “segue o baile”.

2. A Noite da Ponte Velha.

Rival desceu achando que ia fincar bandeira. Saiu com a mão pro alto.

Eu fechei flanco, Caio segurou a boca da ponte.

Foi rápido, sem espetáculo: três quedas, dois recuos, uma rendição.

Ali, todo mundo entendeu que não tinha mais várias vozes.

Tinha só uma. E ecoava: Muralha e Loba.

3. O Domingo do Cativeiro.

Pegaram um dos nossos — um moleque que levava remédio.

Queriam vitrine de medo.

Entramos na casa estreita, quintal fedendo a cachorro.

Caio entrou pelo telhado, eu pela porta dos fundos.

Dois estalos, um sono forçado, porta aberta.

O garoto saiu com a sacola ainda na mão.

A rua silenciou, depois aplaudiu sem fogos.

Resgate não é show. É dever.

---

AZIZA, DIGUINHO E O FUTURO

Aziza se tornou coluna da quebrada.

Coordena escola, organiza horário, ensina paciência pra vizinhança.

Diguinho virou ponte.

Treina a molecada no galpão, corta marra cedo, mostra que respeito não é grito — é exemplo.

Eles tiveram a Safira. Menina com canela firme e olho reto.

Cresceu vendo que respeito não se pede: se sustenta.

---

JULIÃO, O OLHO DENTRO

Julião sumiu o quanto precisou.

Quando voltou, trouxe menos fala e mais mapa.

Construiu rede: gente dentro e fora, ligação em ponto cego, alerta que salva.

Quando a cidade morde, ele avisa antes do giroflex bater na viela: “fecha a janela”.

Nunca foi santo, mas ficou vivo.

E do lado certo — o nosso.

---

EU E O MURALHA

Quase rachamos uma vez.

Teimosia contra teimosia não dança, incendeia.

A gente aprendeu ritual: ele senta, limpa a arma; eu falo o que o rádio trouxe. Depois invertemos.

Rei e rainha?

Chama como quiser.

Eu prefiro zeladora.

Ele prefere vigia.

A coroa pesa menos assim.

Sim, tivemos uma filha: Aurora.

Nome dado num amanhecer sem tiro.

Não é enfeite, é lembrete: o dia volta, mesmo quando a madrugada insiste em ficar.

Aurora cresceu entre tatame e livro velho.

Sabe amarrar pão na cozinha da laje, sabe ouvir antes de falar.

Quando a sirene late, corre pro abrigo da Aziza sem drama — rotina salva.

---

MARCAS E MEDALHAS

As cicatrizes continuam.

Tem dia que coçam, tem noite que ardem com cheiro de pólvora.

Mas também tem barulho bom:

panela, bola batendo no muro, pagode distante, criança rindo sem medo.

Quando isso acontece, sei que valeu.

---

O MOTOR E A RESPOSTA

Às vezes ainda subimos de moto.

Eu na garupa, braço no peito dele.

Não é passeio. É ronda.

O barulho do motor abre respeito.

Na laje, olhando a cidade inteira, penso no preço.

Não é barato. Mas é nosso.

E quando perguntam se ainda aguentamos, a resposta sai simples, do portão de casa, sem grito:

— Aguenta. Porque ficou.

A LEMBRANÇA QUE QUEIMA

Às vezes, na laje de noite, quando a cidade lá embaixo parece um monte de vaga-lume cansado, eu ainda lembro.

Lembro do dia que saí daqui pela primeira vez com a farda limpa, acreditando que podia mudar o mundo de dentro do sistema.

Achava que disciplina, patente e relatório iam blindar minhas origens.

Achei que a favela não ia pesar no meu crachá.

Achei errado.

O que encontrei lá foi cobra de farda, verme de patente, gente com medalha na camisa e sujeira na alma.

Tentei lutar do lado deles, mas percebi rápido: não era luta. Era teatro.

E naquele palco, quem vinha de baixo só tinha dois papéis: morrer ou se vender.

Eu não aceitei nenhum.

---

A VOLTA QUE NUNCA FOI FUGA

Quando voltei, não voltei como quem perdeu.

Voltei como quem entendeu onde sempre esteve o meu posto.

A farda caiu, mas a pele nunca mudou: pele de quem nasceu aqui, pele que carrega cicatriz de beco, de esquina, de tiro.

Na volta, não trouxe diploma nem promoção.

Trouxe raiva, verdade e uma certeza: meu lugar não era atrás de mesa — era no front, com o povo, com o Caio, com quem não se vende nem se ajoelha.

---

O QUE FICOU

Hoje olho pro Conquista e vejo o que ficou.

Não é só muro pintado nem caveirão barrado.

É vida que segue.

É criança chutando bola sem medo de cair bala perdida.

É panela cheia, é música que toca sem ser interrompida por grito de sirene.

É mulher que anda de cabeça erguida, sabendo que se o mundo cair, tem gente que segura.

E eu aprendi que isso vale mais que qualquer farda.

---

A LIÇÃO QUE EU DEIXO

O tempo ensinou.

Não adianta querer ser maior que a rua.

A rua não esquece, não perdoa, não some.

Ela só te prova.

E a prova é simples:

ou você vira o que ela precisa, ou vira só mais um nome apagado na memória.

Eu escolhi ser o que ela precisava.

E ao lado do Muralha, não virei só Alana.

Virei Loba.

E junto dele, não fiz só parte de uma história.

A gente fez o Conquista virar reino.

---

ÚLTIMA PALAVRA

Se amanhã alguém perguntar o que eu aprendi indo e voltando, vestindo farda e depois vestindo a pele que sempre foi minha, eu respondo sem floreio:

— Aprendi que poder de verdade não vem de crachá, vem de permanência.

E eu permaneci.

✨ Palavra da Autora ✨

Aqui encerro mais um livro.

Foi sangue, foi lágrima, foi luta — mas acima de tudo foi história feita de coragem e resistência.

Espero de coração que cada página tenha queimado em vocês o mesmo fogo que queimou em mim ao escrever.

Se quiserem acompanhar mais lançamentos, novidades e bastidores das próximas histórias, me chamem:

📸 I*******m: @autora_val_veiga

📱 W******p: (24) 99966-66976

Obrigada por cada leitura, cada palavra e cada olhar que deram pra esse mundo que criei.

E lembrem sempre: a favela também escreve, também grita, também reina.

— Autora Val Veiga

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App
Comentarios (2)
goodnovel comment avatar
Aziza Ccb
acabou ... mas amei
goodnovel comment avatar
Aziza Ccb
amei foi sensacional
VER TODOS LOS COMENTARIOS

Último capítulo

  • Entre a farda e o fuzil.   capitulo 80 Final

    Narrado por Alana --- ANOS NÃO ALISARAM, LAPIDARAM O tempo passou. Não limpou nossas mãos, não apagou cicatriz. Só deixou as marcas mais nítidas — igual tatuagem que arde mas fica. Eu e Caio? A gente não virou santo. A gente virou constante. Um elo que nem bala quebra. Depois da queda da Daniela, parecia que a cidade inteira se voltou contra nós. Operação com nome bonito, político caçando palco, milícia fantasiada de empresa de segurança. Só que aqui nunca foi palco — aqui sempre foi trincheira. E a resposta foi simples: regra, rádio e rua. Quando a rua fala, a gente obedece. --- TRÊS NOITES QUE MOLDARAM NOSSO REINADO 1. A Madrugada do Viaduto. Eles quiseram fechar o Conquista pela fome. Quatro viaturas, drone baixo, farol comendo pista. Caio jogou fumaça, eu fui por baixo do viaduto com dois moleques, terceiro na retaguarda. Não teve poesia: teve silenciador, granada de luz e joelho ralado no asfalto. Resultado? O caminhão de mantimento chegou inteiro. De manhã, a pan

  • Entre a farda e o fuzil.   capitulo 79

    Eu e Caio descemos direto pra boca. A viela já tava fervendo, as notícias correndo mais rápido que o vento: Daniela morta, a base em chamas, polícia atônita. A quebrada olhava pra gente como se visse dois fantasmas de guerra. Só que vivos. Só que donos. No QG, Aziza já nos esperava, postura firme, como sempre. Do lado dela, Diguinho sentado, peito enfaixado, boca inchada, mas ainda com aquele ar debochado de quem não perde a chance de provocar. --- O AGRADECIMENTO Aziza se levantou quando me viu. Sem palavra nenhuma, me abraçou. Forte. Foi rápido, mas foi o bastante pra eu sentir o peso sair dos ombros dela. — “Obrigada.” — disse baixo, mas firme. — “Tu salvou meu irmão. Se não fosse tu, Julião já tava no chão, sendo mais um corpo sem nome.” Afastei devagar, segurei no rosto dela. — “Não agradece, não. A gente só protegeu o que era nosso. Julião é trincheira, e trincheira não se deixa tombar.” Ela assentiu, os olhos brilhando de orgulho e dor misturados. --- O DESABAF

  • Entre a farda e o fuzil.   capitulo 78

    📍 CAPÍTULO — SANGUE, FOGO E ADRENALINA Narrado por Alana --- O CORPO NO CHÃO Daniela jazia caída no meio da sala, o sangue espalhando pelo piso branco da delegacia como uma bandeira vermelha. Eu ainda sentia o peso da lâmina vibrando nos meus dedos, como se a faca tivesse virado parte do meu osso. Caio encostou a Glock na cintura, os olhos queimando como se fosse a primeira vez que me visse. E ele sorriu. Aquele sorriso torto, sujo, de quem nasceu pra viver no caos. — “Tá pronta, Fagulha?” — ele perguntou, voz baixa. — “Eu nasci pronta.” — respondi, cuspindo sangue no canto da boca e puxando o capuz da jaqueta. --- O INFERNO COMEÇA NA PORTA A gente saiu do gabinete como sombra. Eu puxei o capuz, Caio puxou o dele. Dois vultos em silêncio, mas com a adrenalina roncando mais alto que motor de moto em madrugada de baile. E então veio o primeiro policial no corredor. Ele mal teve tempo de abrir a boca. PFT! PFT! Dois disparos secos, abafados pelo silenciador que Caio en

  • Entre a farda e o fuzil.   capitulo 77

    📍 NARRADO POR ALANA (continuação — acerto de contas: loba contra cobra, sem plateia, sem desculpa) --- O PRIMEIRO MOVIMENTO Daniela largou o paletó sobre a mesa, como se aquilo fosse uma preparação de ringue. Os olhos dela queimavam ódio, mas o corpo se mantinha firme, postura de quem treinou a vida toda pra nunca dar as costas. — “Quer me matar, Alana? Então vem de frente. Sem tiro, sem emboscada. Vamo ver se tu é isso tudo mesmo.” Arrogância pura. Mas eu aceitei. Soltei a Glock sobre a cadeira, e o barulho ecoou como gongo de início de luta. Cerrei os punhos. Estalei o pescoço. Respirei fundo. E avancei. --- O CHOQUE DE DUAS FERAS Ela foi rápida, mais do que eu esperava. Primeiro soco veio direto na boca do estômago — pesado, treinado, cheio de raiva. O ar me escapou por um segundo, mas a dor só acendeu a chama dentro de mim. Respondi com um gancho de esquerda, que pegou de raspão no queixo dela. O impacto fez o batom borrar no canto da boca. Ela cuspiu sangue e

  • Entre a farda e o fuzil.   capitulo 76

    📍 NARRADO POR ALANA (continuação — a invasão, a hora da cobra) --- A CHEGADA AO COVIL A base da Daniela era uma fortaleza mascarada de quartel. Vidro limpo, portão eletrônico, duas guaritas. Policial em cada canto, farda engomada, arma na cintura. Mas fachada é fachada. E todo muro tem rachadura. Eu e Caio chegamos por trás, pela viela que a maioria nem sabia que existia. Ele matou o motor da caminhonete a uns cinquenta metros, me olhou no escuro, e falou baixo: — “Aqui é silêncio, Fagulha. Não é tiro de rua. É veneno na sombra.” Assenti. Vestimos os coletes leves, colocamos as máscaras pretas no rosto. Silenciadores encaixados. Cada movimento, ensaiado na mente. O coração batia forte — mas não era medo. Era a adrenalina do acerto. --- O PRIMEIRO GUARDIÃO Dois passos no mato e já avistamos o primeiro. Um soldadinho na guarita, segurando café, cochilando em pé. Muralha foi na frente. Um golpe seco no pescoço, o corpo caiu antes de pensar em

  • Entre a farda e o fuzil.   capítulo 75

    📍 NARRADO POR ALANA (continuação — briga de rua, sem escapatória, sem misericórdia) --- O PRIMEIRO SOCO É SEM CERIMÔNIA Ele veio com tudo. Punho fechado, cheio de ódio e testosterona inútil. Mas raiva não vence experiência. Eu me abaixei no reflexo, o soco dele passou zunindo pelo meu cabelo. Apontei o joelho direto na costela, e o estalo foi música. Vilela cambaleou, tossiu seco — já sentiu que não ia ser fácil. — “Não vai ter rádio, Vilela. Não vai ter reforço. Vai ter é chão, asfalto e tua cara ralada.” — rosnei, girando no próprio eixo. Ele veio de novo. E aí acertou. Um soco direto na boca. Doeu. Rasgou o lábio. Mas a raiva que me alimentava queimava mais que a dor. Cuspi sangue no chão e sorri. — “Isso é tudo que tu tem?” --- A COBRA TENTA PICAR Ele tentou usar o peso a favor, jogou o ombro contra mim, querendo me derrubar no baque. Não conseguiu. Eu rolei pro lado, chutei o joelho dele com força. Ele caiu de lado e tentou se reerguer na fúri

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status