Beranda / Romance / Entre dois Irmãos / Meses depois, na mansão dos Fernandez.

Share

Meses depois, na mansão dos Fernandez.

Penulis: Sandra Rummer
last update Tanggal publikasi: 2025-05-06 18:25:44

Raul Romero Fernandez

A chuva tamborila contra as janelas da biblioteca, insistente, quase agressiva, como se tentasse atravessar o vidro. O som se mistura ao estalo baixo da lenha queimando na lareira, criando uma melodia irregular que preenche o silêncio pesado do cômodo.

Estou sentado na poltrona de couro que pertenceu ao meu pai.

Ela range levemente quando me movo, como se protestasse contra o peso que carrego agora — um peso que, um dia, também foi dele. Giro o copo de uísque entre os dedos, observando o líquido dourado refletir a luz tremulante do fogo. Não bebo. Apenas observo.

É tarde.

Rafael ainda não voltou para casa.

A tensão no meu peito não é novidade. Ela se instalou ali há meses, talvez anos, como uma presença constante. Invisível, mas impossível de ignorar. As noites seguem sempre o mesmo padrão: eu esperando, e ele se perdendo em madrugadas que não deixam rastros — apenas consequências.

Uma batida discreta na porta da biblioteca interrompe meus pensamentos.

— Entre.

Teodora surge no vão da porta. A governanta nos acompanha há tanto tempo que se tornou parte da estrutura da casa, quase como as paredes antigas e os móveis herdados. Ela carrega um sorriso contido, mas os olhos… os olhos denunciam cansaço. Conhecimento demais. Silêncios demais guardados.

— Rafael ainda não chegou? — pergunta, mesmo sabendo a resposta.

Balanço a cabeça, sentindo a frustração escorrer em cada gesto.

— Deve estar em algum bar. Ou festa. — Faço uma pausa curta. — Mas hoje eu preciso falar com ele.

Meu olhar retorna ao copo. O uísque permanece intacto.

Teodora inclina levemente a cabeça, avaliando-me como sempre faz quando percebe que estou indo longe demais.

— Raul… você não acha que está ocupando o lugar do seu pai?

As palavras me atingem com força.

Por um instante, não respondo. O silêncio se alonga, pesado, desconfortável.

— Alguém precisa segurar esta casa — digo, por fim, a voz mais dura do que pretendia. — E Rafael claramente não será essa pessoa. Ele tem um filho, Teodora. Um filho.

Ela não se abala.

— Sim, ele tem. — Aproxima-se um pouco mais. — Mas me diga… quem está cuidando de você?

Antes que eu consiga formular qualquer resposta, o som seco da porta da frente batendo ecoa pela mansão.

Rafael chegou.

Coloco o copo sobre a mesa com mais força do que o necessário.

— Fique aqui — digo, levantando-me.

Teodora segura meu braço, cautelosa.

— Raul, não hoje. Ele bebeu. Amanhã vocês conversam melhor.

Retiro meu braço com cuidado, mas firme.

— Não. — Minha voz sai baixa, contida. — Se eu não falar agora, nunca falo.

Caminho até o hall.

Rafael está ali, tirando o casaco encharcado e jogando-o sobre o aparador como se nada tivesse valor. O cabelo molhado, o olhar turvo, o sorriso torto que ele usa sempre que sabe que está errado — mas não pretende admitir.

— Ora, ora… — diz, ao me ver. — Meu irmão responsável ainda acordado?

— Rafael, por Dios… isso precisa acabar.

Ele ri. Um riso vazio, arrastado, enquanto ergue a garrafa de uísque em minha direção.

— Quer um pouco? Ajuda a aliviar essa sua cara de funeral.

Respiro fundo.

— Não quero uísque. Quero que você acorde. — Dou um passo à frente. — Perdemos um cliente hoje porque você não apareceu.

Por um segundo, ele parece tentar entender. O cérebro lento pelo álcool processa a informação com dificuldade. Então, ele ri de novo.

— Ah… isso? Meu carro deu problema.

Fecho os punhos ao lado do corpo.

— Seu carro deu problema… ou você estava de ressaca?

O sorriso dele cresce, provocador.

— Que diferença faz? — Ele dá de ombros e se j**a na poltrona com desdém. — E você? Onde estava?

A pergunta vem carregada de intenção. Ele sempre tenta virar o jogo.

— Resolviendo um problema fora da empresa.

— Problema? — Ele arqueia a sobrancelha. — Que tipo de problema?

Meu maxilar se contrai.

— Não é da sua conta.

O riso que escapa dele agora é diferente. Mais amargo. Mais afiado.

— Sempre perfeito, não é, Raul? Sempre o herói da família. Sempre consertando tudo. — Ele inclina a cabeça. — Mas como viu hoje… a vida gosta de surpreender.

Dou mais um passo, reduzindo a distância entre nós.

— Quando você vai começar a levar isso a sério?

Ele não responde de imediato. Apenas gira o líquido dentro da garrafa. O silêncio cresce entre nós.

— Não estou pedindo perfeição — continuo, a voz firme. — Estou pedindo responsabilidade. Faça isso pelo seu filho. Uma vez na vida.

Por um instante, algo passa pelo olhar dele. Dor. Culpa. Algo que ele não sabe nomear.

— Eu sou um bom pai… — murmura. — Tenho meus momentos.

— Momentos não bastam. — Minha voz baixa não perde força. — Pai é constância. Presença. Não aparições.

Rafael desvia o olhar.

— Boa noite, Raul.

E sobe as escadas.

Sozinho outra vez, fico ali, com a certeza incômoda de que algumas batalhas não se vencem — apenas se repetem.

Lanjutkan membaca buku ini secara gratis
Pindai kode untuk mengunduh Aplikasi

Bab terbaru

  • Entre dois Irmãos   Final

    Terça-feira, amanhecerAnnaAcordo com a luz suave invadindo o quarto em faixas douradas. Raul ainda dorme, deitado de lado, com o braço estendido na minha direção, como se me procurasse até nos sonhos. Meu peito aperta — daquela forma estranha de quando algo bonito acontece em meio ao caos.Me levanto com cuidado. O roupão ainda tem o perfume do meu pai. Misturado ao de café da manhã de ontem. Misturado ao toque de Raul.O tempo parece flutuar. Tudo dentro de mim ainda dói, mas há uma nova clareza no fundo do peito. Algo que pulsa. Que pede movimento.Volto ao quarto com duas xícaras de café. Raul já está acordado, sentado à beira da cama, mexendo no celular. Ele sorri quando me vê — e é aquele sorriso calmo, sereno, que ele só usou comigo ontem.— Bom dia — ele diz, com a voz rouca de sono. — Dormiu bem?— O suficiente. — Estendo a xícara. — Fiz café... e tomei coragem.— Coragem? — ele pergunta, franzindo a testa.— Para voltar. — Respiro fundo. — Hoje vou com você. Quero trabalhar

  • Entre dois Irmãos   nteiro. Presente. Real. Simplesmente Raul. 

    AnnaAcordo antes do sol nascer completamente. A claridade suave entra pela fresta da cortina, dourando o quarto com um tom calmo, quase triste. O silêncio é diferente de ontem. Ainda dói..., mas é menos áspero.Me viro devagar. Raul ainda está ao meu lado.Dormindo.O braço dele repousa sobre minha cintura, como uma promessa silenciosa de que está aqui. Que ficou. O rosto sereno, os traços relaxados. Tão diferente do homem tenso de dias atrás.Observo por alguns minutos, sem pressa.Meu corpo ainda carrega o toque dele e meu coração pulsa com algo que não é só luto.É cuidado.É esperança.Me mexo um pouco, tentando não o acordar. Mas ele sente. Os olhos abrem devagar, sonolentos.— Já é manhã? — ele murmura, a voz rouca.— Já. — Respondo, passando os dedos devagar pelos cabelos bagunçados dele. — Você vai trabalhar hoje?Ele esfrega os olhos, respira fundo e me olha por um instante. Um daqueles olhares que dizem mais do que qualquer palavra. Carrega tudo: o que vivemos ontem, o que

  • Entre dois Irmãos   Domingo, fim de noite

    Domingo, fim de noiteRaulO domingo escorre pelas paredes da casa em forma de silêncio.Depois que deixei o apartamento de Dara, não fui para lugar nenhum. Voltei para casa. Tirei os sapatos no corredor, joguei as chaves no móvel da entrada e apenas… me sentei.Fiquei ali. Por horas.Com os braços apoiados nos joelhos e os olhos presos num ponto qualquer da parede. Sem som. Sem celular. Sem distrações. Só o peso daquilo que terminei, do que deixei, do que ainda está por vir.A dor de Dara ainda está aqui, alojada num canto de mim que sei que vai demorar a se curar. Eu a decepcionei. A abandonei no pior momento. Não tem palavra que alivie isso.Mas também sei que, se eu continuasse, eu a machucaria mais. Porque já não era amor. Já não era inteiro.Fecho os olhos. Penso nela. No lenço azul na cabeça. No sorriso que esconde a exaustão. Na força que ela carrega mesmo quando se sente frágil. E penso… que mulher. Que coragem.Mas não é a imagem dela que me acompanha quando me deito no sofá

  • Entre dois Irmãos   Porque amar Anna não foi escolha, mas deixar Dara… foi a decisão mais difícil que já tomei.

    RafaelO som da porta se fechando ainda ecoa na minha mente quando estaciono o carro na garagem da casa. Tudo está em silêncio, mas o silêncio aqui não é paz. É peso. Um eco constante de tudo que deixei de fazer.Subo para o quarto como quem carrega uma mochila cheia de pedras. Me jogo na cama sem tirar os sapatos. O quarto ainda tem o cheiro da noite anterior — o amargor do álcool, o suor seco na camiseta, a vergonha impregnada no travesseiro.Olho para o teto por longos minutos. Mas o rosto que vejo... é o dela.Anna.E então, sem conseguir segurar, pego o celular.Abro a conversa com ela.A última mensagem dela é de dias atrás. Curta. Educada. Sem nenhuma pontuação exagerada. O tipo de mensagem que diz muito pelo que não está ali.Começo a digitar.Anna, eu não tenho desculpa para o que aconteceu. Eu deveria ter atendido. Eu deveria ter estado lá.Paro. Leio.Apago.Começo de novo.Eu sou um idiota. E você merece mais do que isso. Mais do que um cara que some quando você mais preci

  • Entre dois Irmãos   "Preciso encará-la com a verdade que venho adiando há tempo demais: meu coração já não pertence a ela. Está perdido — irremediavelmente — em outra história, em outro olhar, em outro amor."

    RaulA porta se fecha atrás de mim com um clique seco. O som ressoa dentro do peito como um lembrete incômodo: eu cruzei uma linha. Respiro fundo e deslizo a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos enquanto caminho lentamente até o portão. O céu está acinzentado. A rua, silenciosa. Mas dentro de mim, tudo é turvo e ruidoso.Antes que eu possa sair, um carro escuro se aproxima em velocidade incomum. Freia bruscamente diante da casa. Rafael desce antes mesmo de desligar o motor, o rosto marcado por tensão e cansaço.— Raul? — ele me encara, a voz carregada de inquietação. — O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? Acabei de ver… há várias chamadas da Anna.Fico em silêncio por um segundo, mas já sei que é tarde demais para disfarces.— E só agora você viu?O olhar dele salta para a porta da casa, depois volta para mim. A expressão se transforma rápido: da surpresa à desconfiança. Da confusão à indignação.— Você passou a noite aqui?— Rafael... — começo, tentando ma

  • Entre dois Irmãos   Não me beije de novo… enquanto ainda tiver outra mulher acreditando que você é dela.

    Horas depois...AnnaA luz que entra pela fresta da cortina é delicada, dourada, quase tímida. Ela beija meu rosto como um afago, mas não me acorda de verdade.O que me desperta... é o calor.O calor de um corpo que ainda está aqui.Abro os olhos devagar, como quem teme que tudo tenha sido só um sonho. Como quem tem medo de que a realidade, sempre tão dura, venha me arrancar o que o coração mal começou a aceitar. Meus dedos deslizam pelo lençol e encontram pele. A dele. Quente. Real. Presente.Raul está deitado de lado, virado para mim. Os olhos fechados, o rosto sereno, os cílios espessos descansando sobre a pele. A respiração dele é lenta, profunda. O peito sobe e desce com um ritmo que embala, que acalma, como se o sono ainda o envolvesse numa paz rara.E pela primeira vez, desde que meu pai se foi... há paz no meu quarto.Uma paz que não grita. Que não pede licença. Que só... se instala.Como se, por alguns minutos, o mundo lá fora tivesse perdido a urgência. Como se a ausência qu

Bab Lainnya
Jelajahi dan baca novel bagus secara gratis
Akses gratis ke berbagai novel bagus di aplikasi GoodNovel. Unduh buku yang kamu suka dan baca di mana saja & kapan saja.
Baca buku gratis di Aplikasi
Pindai kode untuk membaca di Aplikasi
DMCA.com Protection Status