Home / Romance / Entre o Chefe e o Passado / CAPÍTULO 8 – A LINGUAGEM DO IMPERCEPTÍVEL

Share

CAPÍTULO 8 – A LINGUAGEM DO IMPERCEPTÍVEL

Author: Isa S
last update publish date: 2025-11-15 09:53:49

Ethan

Eu nunca gostei de coincidências.

Coincidências, para mim, sempre foram a forma mais preguiçosa de explicar aquilo que não compreendemos. Mas naquela manhã, quando a porta da sala de reunião se abriu e ela entrou… por um instante, eu não consegui dar outro nome para aquilo.

Hanna.

A mulher do bar.

A mulher que eu passei a semana inteira tentando esquecer — e falhando miseravelmente.

Eu lembrava dela apoiada no balcão, a amiga animada ao lado, e ela…

ela silenciosa, mas intensa de um jeito que só os observadores percebem.

Os olhos inquietos. O sorriso educado, mas triste.

O tipo de mulher que não chama atenção pelo óbvio, e sim pelo que esconde.

Eu a tinha encarado por alguns segundos a mais do que deveria naquela noite.

E ela percebeu.

Só não imaginei que voltaria a vê-la. Muito menos ali, na minha sala de entrevista, com uma pasta nas mãos e aquela expressão educada que não combinava com a turbulência que eu ainda lembrava nos olhos dela.

Quando ela sentou diante de mim, eu senti uma pressão estranha no peito.

Um reconhecimento.

Um impacto.

Quase um choque.

Fui profissional, claro. Sempre fui.

Mas a verdade é que desde o instante em que ela disse bom dia, algo dentro de mim se alinhou de um jeito que eu não esperava — e não sabia se queria.

Hanna era diferente.

O tipo de diferente que não deveria me afetar.

Eu nunca misturei trabalho com nada pessoal.

Nunca me envolvi com funcionárias.

Nunca me permiti ser vulnerável o suficiente para sentir… nada.

Mas havia algo nela.

Algo que me prendia.

Algo que me fez prestar atenção demais.

E o pior: ela parecia quebrada por dentro.

Não de um jeito óbvio.

De um jeito silencioso.

De um jeito que só quem também conhece tempestades sabe identificar.

Eu terminei a entrevista com todas as respostas que eu precisava.

Mas saí dela com uma pergunta que não deveria existir:

Quem é você, Hanna?

E por que eu não consigo parar de pensar em você?

Passei o resto do dia com a mente inquieta.

O rosto dela surgia no meio de relatórios, planilhas e reuniões.

A voz dela ecoava nos intervalos entre um e-mail e outro.

Eu tentava ignorar.

Mas quanto mais eu tentava… mais ela voltava.

E então, no fim da tarde, algo em mim se rendeu.

Eu inventei uma desculpa.

Simples.

Segura.

Profissional.

Uma “inconsistência no sistema”.

Um detalhe do treinamento.

Algo que qualquer chefe poderia perguntar.

Mas que, na prática, era absolutamente irrelevante.

Eu só queria ouvir a voz dela de novo.

Eu só queria confirmar aquela sensação absurda de que algo tinha acontecido ali — e que não era só da minha parte.

Quando enviei a mensagem, esperei que ela respondesse horas depois.

Ou no dia seguinte.

Ou talvez nunca.

Mas quando a resposta chegou quase imediatamente, meu peito apertou.

“Claro. Pode ligar.”

E foi aí que eu percebi o problema:

Eu estava sorrindo.

Eu — o homem que raramente reage a qualquer coisa — sorri para a tela do celular como se tivesse 17 anos.

Ridículo.

Mas inevitável.

Respirei fundo e liguei.

A voz dela veio macia, baixa… e exatamente como eu lembrava.

E naquele instante, enquanto eu tentava manter a formalidade, eu entendi com clareza:

Eu estava muito mais interessado nela do que deveria.

Eu percebi o cansaço na respiração dela.

A tensão escondida nas pausas.

A exaustão emocional que ela tentava mascarar.

E eu quase perguntei o que tinha acontecido.

Quase.

Mas me contive.

Eu não era ninguém para invadir a dor de uma mulher que mal conheço.

Quando finalizei os detalhes, algo em mim se recusou a desligar.

As palavras saíram antes que eu pudesse evitar:

– Hanna… pode me chamar de Ethan.

Ela hesitou por um segundo — eu senti.

E quando ela disse meu nome…

“Ethan”.

Era como se eu tivesse esperado aquilo sem saber.

A ligação terminou.

Mas o efeito não.

Porque, pela primeira vez em muitos anos…

eu me vi envolvido por alguém.

Alguém que não estava tentando me impressionar.

Alguém que sequer sabia o impacto que causava.

E enquanto eu guardava os documentos naquela noite, me peguei olhando para a cadeira onde ela sentou.

E pensando, sem conseguir controlar:

O que aconteceu hoje…

não foi coincidência.

Foi o início de alguma coisa.

E eu não fazia ideia do que isso significava.

Mas queria descobrir.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Entre o Chefe e o Passado   CAPÍTULO 66 — RETORNO À TEMPESTADE

    HannaO cheiro de querosene e plástico frio do avião é o meu novo perfume para a madrugada. Estou sentada na poltrona da janela, o celular no modo avião, o bilhete na mão — prova física da loucura que acabamos de cometer. O relógio marca pouco mais de meia-noite. Porter só apareceria de manhã, e eu tinha que chegar antes.A ansiedade é um motor vibrando em meu peito, fazendo minhas mãos tremerem. Eu fecho os olhos e recito o plano de Ethan: chegar antes de Porter e contar a verdade primeiro.— Mãe, eu preciso ser honesta. Eu não estou mais casada com Porter. — Ensaio baixinho, sentindo o nó na garganta.Não é só dizer sobre o divórcio. É sobre a traição, sobre Porter ser um mentiroso, sobre como ele me quebrou e sobre como ele está manipulando tudo para me fazer parecer a vilã.— Ele me traiu. Ele tinha um caso com a assistente dele. E é por isso que ele está tentando manipular você agora.A voz da minha mãe, a decepção em seu rosto, o medo de ela me julgar em vez de Porter… tudo isso

  • Entre o Chefe e o Passado   CAPÍTULO 65 — O PLANO DE VOOS

    HannaEthan me afasta, mas ainda segura meus braços, e o brilho em seus olhos é a única coisa que me impede de desabar. Não é mais apenas o meu chefe; é o homem que decide ir para a guerra por mim.— Que plano? — Minha voz é pura ansiedade, misturada com uma ponta de esperança desesperada.— Eu não vou deixar ele controlar a narrativa. Ele está voltando com os papéis do divórcio e com uma história manipulada. Ele quer que sua mãe pense que você é a traidora que fugiu para os braços do chefe rico.— Ele faria isso — murmuro, fechando os olhos. O medo de decepcionar minha mãe, de ter minha vida reescrita por Porter, é paralisante.— E nós vamos impedi-lo.Ethan pega o meu celular novamente. Eu já sabia que ele havia acionado o advogado no Brasil na noite anterior para uma notificação legal, mas agora o jogo havia mudado.— Eu já enviei um Cessa e Desista através do meu advogado para Porter. Ele sabe que estou de olho. Mas a próxima jogada dele será amanhã de manhã, na casa da sua mãe, p

  • Entre o Chefe e o Passado   CAPÍTULO 64 — DIA 2: UM NOVO LUGAR DE PAZ

    Hanna Acordo com o braço de Ethan me envolvendo com firmeza, a luz do sol lutando contra as cortinas fechadas. O peso dele sobre mim não é sufocante; é uma âncora que me impede de flutuar de volta para o caos que Porter tentou impor ontem. O Dia 2 começa com uma sensação de trégua. Uma trégua forçada, talvez, mas que eu aceito de bom grado. Eu me viro devagar para olhar para ele. Ethan já está acordado, me observando com aqueles olhos verdes profundos que sempre parecem ler minha alma. Havia uma sombra de cansaço em sua expressão, mas a determinação da noite anterior — de que ele cuidaria de tudo — ainda estava lá. — Dormiu? — pergunto, a voz rouca. — Sim. Depois de enviar algumas mensagens. Eu sei exatamente para quem. Para o advogado no Brasil, acionando o contra-ataque contra Porter. A simples ideia de Ethan usando todo o poder dele para me proteger acalma os demônios que Porter cria. — Obrigada — digo, e a voz falha um pouco. Não só pelo que ele fez, mas pelo que ele é para

  • Entre o Chefe e o Passado   CAPÍTULO 63 — O CONTRA-ATAQUE

    Ethan O beijo termina, mas a fúria não. Não é minha. É um instinto protetor primitivo que me consome. A maneira como ele a ameaçou, como ele tenta arrastá-la de volta para o pântano que criou… isso me faz querer atravessar a cidade e arrancar aquele sorriso cínico da cara dele. Hanna ainda está nos meus braços, o coração dela batendo rápido contra o meu peito, mas eu sinto a tensão retornando. — O que foi, amor? — pergunto, segurando o rosto dela, forçando-a a olhar para mim. — O que sua irmã disse na mensagem? Ela balança a cabeça, tentando se desvencilhar do pensamento, mas eu não deixo. Porter não vai estragar isso. — Ele a ameaçou — Hanna murmura, os olhos arregalados de indignação. — A Sabrina. Ele disse que se ele "cair", arrasta as duas. Ele está controlando tudo, Ethan. Ele está jogando. Minha mandíbula trava, um músculo pulsando perto da têmpora. — Jogando? Ele não está jogando. Está se afogando — rosno. — E quando se afoga, agarra qualquer coisa para tentar subir. El

  • Entre o Chefe e o Passado   CAPÍTULO 62 — A VISITA

    PorterEu pratico o sorriso no retrovisor antes de tocar a campainha.Relaxo a postura. Ombros abertos. Expressão calma. O marido perfeito.A campainha ecoa, e três segundos depois a porta se escancara.— Porter! — A mãe de Hanna diz, surpresa, mas feliz. — Meu Deus, quanto tempo! Entra!Entro como se nada tivesse mudado.Como se a minha vida não estivesse desmoronando pelas mãos de uma garota que tomou decisões precipitadas e influenciada pela pessoa errada.Como se eu ainda pertencesse àquele lugar.— Senti falta de vocês — digo, com o tom exato de saudade doce.Ela abre espaço, mas o olhar dela demora meio segundo a mais no meu rosto.Um detalhe mínimo, mas eu percebo tudo.Talvez ela tenha ouvido algo.Talvez esteja começando a juntar as peças.Não importa.Eu controlo a narrativa.— Sabrina está aí? — pergunto, casual.A resposta vem antes da mãe abrir a boca.— Tô aqui. — Sabrina aparece no corredor com os braços cruzados.Aí está a insolência.— Sabrina — digo, sorrindo. — Semp

  • Entre o Chefe e o Passado    CAPÍTULO 61 — DIA 1

    HannaA tarde está ensolarada, mas há um frio constante no meu peito — daquele tipo que não importa a temperatura, nunca vai embora.E, mesmo assim, estou feliz.Quase flutuando.Ethan caminha ao meu lado, segurando minha mão como se tivesse medo de me perder de vista. O polegar dele faz círculos lentos na minha pele, e aquilo sozinho já me desmonta.— Parece que estou sonhando — murmuro.Ele me olha por cima dos óculos escuros, com aquele sorriso que bagunça tudo dentro de mim.— Pode tocar pra conferir. Eu sou real.— E é isso que eu tô fazendo — respondo, apertando a mão dele.Ele ri, aquele riso baixo que arrepia minha espinha.No restaurante, ele puxa minha cadeira antes de se sentar — um gesto pequeno, mas que sempre me pega desprevenida.O garçom mal se afasta, e Ethan já me encara como se tivesse esperado dois meses por isso.— Que foi? — pergunto, rindo.— Nada. — Ele passa o dedo pela minha mão devagar. — Eu só… tinha esquecido como você fica bonita na luz do dia.Meu rosto

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status