INICIAR SESIÓNO aroma de comida gourmet e o brilho do lustre de cristal na sala de jantar deveriam me transmitir conforto, mas só me davam enjoo, a mesa de carvalho era longa o suficiente para acomodar vinte pessoas, mas apenas duas cadeiras estavam postas, uma em cada ponta.
Dante já estava sentado, cortando uma fatia de carne com precisão cirúrgica, ele vestia apenas uma camisa social preta com os primeiros botões abertos e as mangas dobradas até os antebraços, revelando tatuagens complexas que subiam pelo seu pulso. Ele nem se deu ao trabalho de olhar para cima quando entrei. — Sente-se, Chloe, a comida vai esfriar — disse ele, a voz calma, como se fôssemos um casal comum num jantar de terça-feira. Caminhei a passos lentos e me sentei na ponta oposta, eu me recusava a parecer uma vítima frágil. — Você acha que um jantar caro apaga o fato de que fui trazida para cá contra a minha vontade? — perguntei, mantendo as mãos firmes sobre o guardanapo no meu colo. Dante finalmente ergueu os olhos, o azul-gelado do seu olhar atravessou a mesa, ele tomou um gole do vinho tinto antes de responder. — Nada apaga a realidade, cara mia. Seu pai cometeu um erro grave. Em vez de pagar com a vida dele, ele preferiu entregar a sua. Não fui eu quem te traiu. Foi o sangue do seu próprio sangue. Aquelas palavras doeram mais do que eu gostaria de admitir, ele sabia exatamente onde me ferir. — Ele é um fraco — respondi, ríspida. — Mas você não é melhor do que ele por me aceitar como pagamento. Um sorriso de canto se formou nos lábios dele, Um sorriso perigoso. — Talvez. Mas sob o meu teto, você tem teto, comida e a proteção do sobrenome Rossi. Sob o teto do seu pai, você seria vendida para o primeiro agiota do submundo que não teria metade da minha paciência. Antes que eu pudesse rebater, as portas duplas da sala de jantar se abriram de soco. Dois guardas armados entraram, segurando um homem ensanguentado e de joelhos, o homem vestia o uniforme dos próprios seguranças da mansão, o pânico era visível em seus olhos. Eu me encolhi na cadeira, o coração disparando no peito. — Senhor Rossi! Por favor! Eu não passei as informações para os Moretti! Eu juro pela minha família! — o homem implorou, a voz embargada pelo choro. Dante nem piscou , ele colocou o garfo e a faca devagar sobre o prato de porcelana, limpando os cantos da boca com o guardanapo de pano, a calma dele era aterrorizante. — Você trabalha para mim há três anos, Enzo — Dante falou, a voz baixa, quase macia. — E hoje à tarde, o comboio que trazia as minhas cargas de armas foi interceptado na fronteira. Apenas três pessoas sabiam daquela rota. Duas delas estão mortas. A terceira é você. — Não fui eu! — Enzo gritou, desesperado. Dante se levantou lentamente. Ele não parecia com raiva. Parecia apenas um juiz prestes a assinar uma sentença de rotina. Ele caminhou até o homem, tirou uma pistola prateada de dentro do coldre sob a mesa e destravou a arma com um clique seco que ecoou por todo o salão. — Dante, não! — o grito saiu da minha boca antes que eu pudesse me conter. Ele parou,lentamente , Dante virou a cabeça na minha direção. — Você está me dando ordens na minha própria casa, Chloe? — perguntou ele, arqueando a sobrancelha. — Não faça isso na minha frente... — minha voz tremeu, mas sustentei o olhar dele. — Se você quer provar que não é apenas um monstro, não faça isso. Dante me encarou por longos e angustiantes segundos, o silêncio na sala era tão denso que dava para ouvir a respiração descontrolada do guarda no chão. Por um segundo, achei que tinha conseguido tocá-lo, achei que ele guardaria a arma. Dante deu um passo em minha direção, parando exatamente ao meu lado na mesa, ele se abaixou, ficando com o rosto a centímetros do meu. — Você precisa aprender uma lição muito importante sobre este mundo, Chloe... — ele sussurrou, a voz carregada de uma promessa sombria. — Aqui, a misericórdia é vista como fraqueza. E eu nunca sou fraco. Antes que eu pudesse piscar, Dante apontou a arma para o guarda sem nem olhar para ele e puxou o gatilho. BANG. O som do tiro foi ensurdecedor. O corpo de Enzo caiu pesado no chão de mármore. O cheiro metálico de sangue tomou conta do ar instantaneamente. Eu dei um grito abafado, cobrindo a boca com as mãos, o choque paralisando meus músculos. Gotas de sangue haviam respingado no tecido branco da mesa... e uma gota quente bateu na minha bochecha. Dante guardou a arma na cintura, sem um pingo de remorso. Ele se virou para mim, estendeu a mão com um lenço de linho e limpou suavemente a gota de sangue da minha bochecha. O toque dele era incrivelmente delicado, em um contraste assustador com a barbárie que acabara de cometer. — Limpem a sujeira — Dante ordenou aos outros guardas, sem tirar os olhos de mim. — E levem a senhorita Galli para o meu quarto. Meus olhos se arregalaram. — O quê? Para o seu quarto? — consegui articular, a voz falhando pelo trauma. Dante se aproximou ainda mais, a mão caindo para a minha cintura e me puxando para cima até que nossos corpos ficassem colados. — A casa foi invadida por um traidor hoje, o que significa que há inimigos lá fora querendo a minha cabeça — ele sussurrou perto da minha boca, os olhos queimando com uma mistura de perigo e uma possessividade avassaladora. — E agora que todos sabem que você é a minha garantia, você é o maior alvo deles. A partir de hoje, você dorme onde eu possa te ver. Na minha cama. Ele deu um sorriso sombrio enquanto me soltava. — Suba, Chloe. O diabo não gosta de dormir sozinho.As montanhas de Fujian estavam cobertas por uma névoa densa e por uma chuva torrencial que açoitava a vegetação fechada. O complexo militar da Ordem de Jade, encravado no topo de um vale isolado, parecia uma fortaleza inexpugnável. Torres de vigilância, cercas eletrificadas e mais de duzentos mercenários armados garantiam a segurança do General Chang.Porém, para a máquina de guerra da dinastia Rossi-Romanov, muralhas eram apenas estruturas de concreto prestes a ruir.Nos fundos do complexo, aproveitando o ponto cego da encosta e a tempestade que abafava qualquer ruído, a guarda de elite dos Rossi avançava em silêncio absoluto.À frente da formação estava Alexander Rossi-Romanov. O jovem Don trajava a sua farda tática operacional preta com camuflagem de combate noturno, colete balístico de alta densidade e a pistola da família presa ao coldre peitoral. Ao seu lado, Matteo coordenava a equipe de invasão com a experiência de quem já marchara ao lado de Dante nas guerras mais sangrentas
A garoa de Zurique fora deixada para trás, mas o impacto da vitória financeira de Aurora ressoava por toda a Europa. No início daquela noite, as portas de carvalho da grande sala de conferências do Palácio Rossi, em Milão, fecharam-se com um baque pesado e definitivo.A iluminação do recinto estava ajustada para destacar a imensa mesa de jacarandá polido. Ao centro, um mapa holográfico tridimensional da Ásia Oriental e da Bacia do Pacífico girava lentamente, projetando dados de satélite, rotas de comboios e posições de guarnições militares.Dante Rossi e eu estávamos posicionados na cabeceira superior da mesa. Dante trajava a sua jaqueta tática de couro escuro, mantendo a postura ereta e a imponência de um Don que, embora tivesse entregado o comando executivo, permanecia sendo a fortaleza viva da família. Eu vestia um terno de alfaiataria em tom vinho-profundo, mantendo a serenidade e o olhar afiado da Rainha que ajudara a moldar cada aliança daquele império.Ao nosso lado, Lord Sterl
As ruas de paralelepípedos e os edifícios neoclássicos de Zurique pareciam imóveis sob a garoa fina do amanhecer. No entanto, por trás da fachada de neutralidade e dos cofres inexpugnáveis das velhas instituições financeiras da Suíça, travava-se a verdadeira guerra pelo controle dos fluxos de capitais do submundo global.No trigésimo andar da torre de vidro do Banco Helms & Cie, a sala de reuniões executiva oferecia uma vista limpa sobre o Lago de Zurique.Sentados ao redor da grande mesa de mármore negro, cinco banqueiros e investidores da alta sociedade europeia ouviam, em pânico contido, o zumbido tenso dos seus terminais de dados. Nas telas de negociação, milhões de dólares em ativos ligados à Ordem de Jade e ao General Chang estavam sendo liquidados ou bloqueados em uma velocidade que desafiava qualquer protocolo bancário conhecido.— Isso é impossível! — esbravejou Hans Helms, o presidente do conselho, batendo com o punho fechado na mesa. — Os nossos servidores contavam com crip
A fumaça industrial do Porto de Roterdão misturava-se à névoa fria que subia do Mar do Norte, cobrindo o labirinto de milhares de contêineres empilhados como torres de aço. Sob a escuridão da meia-noite, a operação do General Chang e da Ordem de Jade parecia transcorrer sem sobressaltos. Mercenários armados com submetralhadoras com supressores vigiavam as docas do Setor 7, enquanto guindastes de grande porte descarregavam a carga contrabandeada com o selo clonado da aliança Rossi-Romanov.A quinhentos metros dali, no topo de um contêiner elevado, Alexander Rossi-Romanov observava a movimentação através de um monocular de visão noturna.O novo Don vestia um traje tático urbano inteiramente preto, com o colete balístico camuflado e a pistola customizada da família presa ao peito. Ao seu lado, Matteo verificava a frequência encriptada do canal de rádio com a precisão de quem cobria o setor há mais de duas décadas.— O cerco tático está montado, Don Alexander — reportou Matteo em voz baix
Dois anos haviam se passado desde a cerimônia no Palácio Romanov. A transição de poder na aliança Rossi-Romanov ocorrera com a precisão de um mecanismo suíço, mas a calmaria no topo do submundo global era, por natureza, uma ilusão mantida pelo terror da retaliação.No centro de operações subterrâneo do Palácio Rossi, em Milão, os monitores de alta definição projetavam o mapa holográfico do Porto de Roterdão. O aroma de café forte misturava-se ao cheiro de poeira e componentes eletrônicos aquecidos.De pé diante da mesa central, vestindo um terno cinza-chumbo perfeitamente alinhado e com as mangas levemente dobradas, estava Alexander Rossi-Romanov.Aos trinta anos, o novo Don ostentava a mesma presença física dominante e intimidadora do pai, temperada pela postura analítica e fria que herdara da mãe. O seu olhar azul-aço varria os relatórios de carga marítima com uma velocidade que poucos conseguiam acompanhar.Ao seu lado, Aurora operava o terminal de inteligência cibernética. Com vin
A brisa suave do Mar Tirreno trazia o perfume dos limoeiros e o som sereno das ondas que banhavam as rochas da Costa Amalfitana. Longe da névoa gélida de São Petersburgo e da agitação tática de Milão, a mansão de pedra encravada na falésia de Positano era o segredo mais bem guardado do submundo. Ali, o império não entrava sem convite; as armas davam lugar ao silêncio, e o dever se transformava em paz.No terraço ensolarado com vista para o horizonte infinito do Mediterrâneo, a mesa de café da manhã estava posta.Dante Rossi, vestindo uma camisa de linho branco levemente aberta no colarinho e sem o peso dos coldres táticos que o acompanharam por décadas, apreciava o seu café preto enquanto observava o mar. Os seus cabelos e a sua barba trazinham mais fios prateados, dando-lhe a imponência de um rei que voluntariamente entregara a sua coroa após vencer todas as batalhas.Aproximei-me devagar, trajando um vestido fluido de seda clara. Os meus passos eram calmos, desprovidos da tensão con







