LOGINAurora Bianchi
O caminho de volta para casa parece mais longo do que o normal. Meu coração ainda está acelerado, e não tem nada a ver com medo. Tem a ver com ele. Guilhermo D'Angelis. Ele não deveria ter aparecido no café. Não deveria ter sentado à minha mesa, me chamado de passarinha, falado daquele jeito despreocupado, como se tudo fosse um jogo. Como se eu fosse livre para jogar também. Mas eu não sou. Sou Aurora Bianchi, filha de Máximo Bianchi. A futura esposa de Domenico Rizzi. Não há escolha. Respiro fundo quando o carro para em frente à mansão da minha família. O portão se abre lentamente, e as luzes da entrada estão acesas, me esperando. Sinal de que meu pai já sabe que cheguei mais tarde do que deveria. Engulo em seco. Saio do carro e caminho pelo longo corredor de mármore. Meus saltos ecoam pelo chão, e tudo está silencioso demais. Mas quando entro na sala, o silêncio se desfaz. — Onde você estava? — A voz de meu pai corta o ar como uma lâmina. Meu corpo se enrijece. Meu pai está sentado em sua poltrona de couro, uma taça de uísque na mão. Seus olhos, frios como sempre, me analisam como se eu fosse uma peça de xadrez que ele precisa manter sob controle. — Saí para tomar um café. — Minha voz sai calma, controlada. Sei que qualquer traço de hesitação será usado contra mim. Ele inclina levemente a cabeça, observando-me com um olhar afiado. — E por que o subchefe dos D'Angelis estava com você? Meu estômago se revira. Ele já sabe. É claro que sabe. Meu pai tem olhos e ouvidos em todos os lugares. Mantenho minha expressão impassível. — Ele apareceu sem ser convidado. Sentou-se à minha mesa e tentou puxar conversa. Meu pai solta um riso seco, descrente. Então se levanta, ajeitando o paletó com calma e dá alguns passos lentos na minha direção. — Não me faça de idiota, Aurora. Eu vi como ele olhava para você na festa de Vincenzo. E agora aparece no seu café favorito, no mesmo horário que você? Você acha que eu não sei o que está acontecendo? A tensão cresce no ambiente. Seguro minha bolsa com força, mantendo a postura reta. — Não há nada acontecendo. Ele para à minha frente, seus olhos cravados nos meus. — Se acha que esse D'Angelis quer algo mais do que te usar, está se iludindo. Homens como ele não se envolvem com mulheres como você. No máximo, vão brincar até se cansarem. Você sabe o que acontece quando isso ocorre, não sabe? Sinto um frio na espinha. — Ele não... — Minha voz morre na garganta quando vejo o sorriso cruel do meu pai. — Ele não o quê? Não te usaria? Não te jogaria fora depois? Não faria como todos os outros chefes fazem com suas amantes? — Ele balança a cabeça. — Não seja ingênua, figlia. Guilhermo D'Angelis é um soldado da máfia antes de ser um homem. Ele nunca vai escolher você. Para um homem como ele, você não passa de uma distração temporária. Minha respiração falha. Ele está mentindo? Não. Ele está dizendo o que sempre me disseram. O que eu sempre soube. Mulheres como eu não têm escolhas. Eu aperto os punhos ao lado do corpo. — E Domenico? Isso quer dizer que ele realmente me quer? — Minha voz sai amarga. — Ou só quer mais uma esposa para exibir até se cansar dela? Meu pai aperta minha mandíbula com força, seus olhos ganhando um brilho perigoso. — Domenico é o melhor que você pode conseguir. Um casamento com ele garante que você continue viva e intocável. Uma vida de luxo, poder e respeito. — Ele solta meu rosto com brutalidade. — E estou garantindo que você continue respirando. O peso de suas palavras me atinge em cheio. Se eu quebrar esse noivado, há consequências. Para mim. Para ele. E de repente, o rosto de Guilhermo D'Angelis surge na minha mente. Seu sorriso despreocupado. Seu olhar afiado. Sua promessa velada de que poderia me ajudar. Mas ele não entende. E se meu pai estiver certo? E se ele for como todos os outros? E se eu acabar sendo só mais uma distração passageira? Preciso esquecê-lo. Então, apenas abaixo a cabeça e murmuro: — Boa noite, papà. E subo para o meu quarto, fechando a porta atrás de mim. Me jogo na cama, o corpo tremendo de raiva e frustração. O mundo ao meu redor é uma gaiola, e a cada dia as barras ficam mais apertadas. Mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, um pensamento perigoso surge em minha mente. E se... E se Guilhermo estivesse certo? ••• O sol mal havia nascido quando fui chamada para descer. Domenico estava aqui. Meu estômago se revira. Visto um vestido azul-claro, discreto, mas elegante, e desço as escadas com a postura impecável que me foi ensinada desde criança. A sala de jantar está impecável, a mesa posta com porcelana fina e um café da manhã farto. Meu pai já está sentado à cabeceira, conversando tranquilamente com Domenico, como se fossem velhos amigos. Ele sorri ao me ver. Mas seus olhos... seus olhos nunca sorriem. — Aurora, cara mia. — Ele se levanta, pega minha mão e deposita um beijo frio e calculado. — Domenico. — Forço um sorriso e sento-me à mesa, assumindo meu lugar como a noiva obediente que todos esperam que eu seja. O café da manhã segue tranquilo, ou pelo menos parece. Meu pai e Domenico conversam sobre negócios, sobre alianças e estratégias. Eu me limito a comer em silêncio, mantendo a postura impecável. Mas então, de repente, ele muda de assunto. — Ouvi um boato curioso ontem à noite. — Domenico comenta, girando a colher dentro da xícara de café. Seus olhos castanhos me analisam com calma forçada. Minha mão se aperta ao redor do garfo. — Boato? — Sim. — Ele levanta a xícara, toma um gole demorado e depois sorri. — Disseram-me que você foi vista em um café. Acompanhada. O ar fica pesado. Meu pai apenas continua comendo, como se essa conversa não lhe dissesse respeito. Claro que diz. Ele quer ver como eu lido com isso. — Guilhermo D'Angelis apareceu inesperadamente. — Respondo com neutralidade. — Ele se sentou à minha mesa e tentou puxar conversa. Domenico assente lentamente, fingindo refletir sobre minha resposta. — E? Engulo em seco. — E nada. Ele foi embora depois de um tempo. Silêncio. Domenico deposita a xícara no pires com um clique preciso. Seus olhos afiados encontram os meus, buscando qualquer traço de mentira. — Espero que não tenha dito nada inadequado, mia cara. — Sua voz é suave, mas o peso da ameaça está ali, nas entrelinhas. — Espero que não tenha reclamado de mim. Ou falado alguma besteira. Sinto minha garganta fechar. — Claro que não. — Minha voz sai firme, mas meu coração martela contra o peito. Ele segura meu olhar por um momento a mais, então sorri novamente. — Ótima menina. Terminamos o café da manhã sem mais questionamentos, mas sei que a tempestade ainda não passou. Quando nos levantamos da mesa, ele me segura pelo pulso com firmeza, sem que meu pai perceba. — Venha. — Ele diz baixo, e me puxa para um canto mais isolado do salão. Meus instintos gritam para que eu recue, mas eu não posso. Não posso criar uma cena. As mãos dele se fecham ao redor dos meus braços com força controlada. — Acha que eu engoli aquele acontecimento na festa? — Ele murmura, sua voz carregada de algo sombrio. — Você se comportando como uma vadia, chamando atenção daquele subchefe como se fosse uma mulher disponível? Meu corpo fica tenso, mas não respondo. Ele aperta ainda mais. — Isso não vai mais acontecer. — Ele continua. — Você é minha noiva. Minha. Fecho os olhos por um segundo, tentando manter a calma. — Não fiz nada de errado. — Não importa. — Seu rosto se inclina para perto do meu, e posso sentir o cheiro do café misturado com o da arrogância. — Depois que casarmos, vou garantir que você aprenda como uma mulher deve obedecer ao marido. Minha respiração falha. — Você não pode me tratar assim. Ele solta um riso baixo e cruel. — Posso e vou. Você acha que tem escolha, piccola? Meu estômago se revira. Ele solta meus braços, mas antes de se afastar, desliza os dedos pelo meu queixo, segurando-o com força o suficiente para que eu não vire o rosto. — Agora seja uma boa menina. Pare de brincar com fogo. Ou pode se queimar. Então ele se afasta, ajeitando o terno como se nada tivesse acontecido. Fico ali, imóvel, sentindo o tremor leve nos meus dedos. Não posso mais negar. Preciso sair dessa gaiola.Guilhermo D’Angelis Quando o alarme vibrou no celular de Vincenzo e o aviso surgiu na tela — o botão de emergência havia sido acionado, e o quarto do pânico estava em uso — eu vi o sangue sumir do rosto do meu primo. E não era para menos. Estávamos fora do território, longe demais. Antonella estava sozinha com as crianças, já que os pais dela tinham viajado. Em segundos, avisamos nossos pais e Matteo para correrem até lá, já que estavam mais perto que nós. No carro, Vincenzo tremia. As mãos presas ao volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, os olhos fixos na estrada como se pudesse encurtá-la pela força da vontade. Segurei seu ombro. — Respira, cara. Eles estão bem. O quarto do pânico existe para isso, se eles estão lá, estão bem. A frase era mais para mim do que para ele. Quando entramos em casa, o caos nos engoliu. Meu pai e o tio Alessandro gritavam ao telefone, tentando entender como a segurança havia falhado. Varri a sala com o olhar até encon
Aurora Bianchi ( D’ Angelis) A sala estava fria, e o som de cada passo de Domenico ecoava em minha mente. Eu sabia que a tortura começaria assim que ele adentrasse aquele espaço, mas já estava preparada. Matteo sempre dizia que, em momentos como este, a melhor defesa era a frieza. Então, eu me mantive impassível, meus olhos fixos em sua figura enquanto ele entrava com a mala, sentindo a tensão em cada músculo do meu corpo. Domenico era sorrateiro, como uma cobra, e sua presença ali era como um presságio do tormento que se seguiria. Ele colocou a mala sobre a mesa e dela retirou uma adaga, sua lâmina reluzindo como se soubesse o sofrimento que causaria. O coração acelerou um pouco, mas minha expressão permaneceu vazia. Não deixaria que ele visse minha dor. Não falaria, não mostraria fraqueza. Nenhuma palavra. O metal cortou meu braço com precisão, a dor extrema me fez morder forte o lábio, a vontade de gritar era imensa, mas eu me recusei. Eu não deixaria que ele soubesse o im
Guilhermo D’ Angelis Quando o alarme no celular de Vincenzo vibrou e o aviso apareceu na tela — o botão de emergência havia sido acionado, e o quarto do pânico estava em uso — eu vi o sangue sumir do rosto do meu primo. E não era para menos. Estávamos fora do território, longe demais, e Antonella estava sozinha com as crianças, já que os pais dela tinham viajado. Em segundos, avisamos nossos pais e Matteo para que corressem para lá até conseguirmos voltar. No carro, Vincenzo estava à beira do colapso, as mãos tremendo no volante, os olhos fixos na estrada como se pudesse encurtá-la pela força da vontade. Eu tentava mantê-lo de pé, repetindo que Antonella e os bambinos estavam bem, que o quarto do pânico existia justamente para isso, que nada de mal havia acontecido… mas cada vez que eu dizia, parecia que eu falava mais para mim mesmo do que para ele. Quando entramos em casa, o caos nos engoliu. Meu pai e o tio Alessandro gritavam ao telefone, tentando entender como diabos a s
Aurora Bianchi Meses depois … A noite estava tranquila. Eu, Giulia e Antonella estávamos na sala, jogadas no sofá com potes de pipoca e copos de refrigerante nas mãos, assistindo a MVs do BTS na TV. O pequeno Enrico já balançava os bracinhos animado, acostumado com as músicas que eu sempre colocava em casa. Giovanna, mais quieta, apenas observava, de olhos atentos, como Guilhermo e Vicenzo viajaram a “negócios” aproveitamos para dormir todas juntas na casa de Antonella para fazer companhia a ela e os bebês. Tudo parecia normal. Até que não era mais. Um estrondo violento cortou o som da música. Não foi uma batida de porta, nem um trovão distante. Foram tiros. Altos. Próximos. O ar pareceu se solidificar ao nosso redor. Meu coração disparou no mesmo instante, e o refrigerante escorregou da minha mão, caindo no tapete. — Merda. — Giulia sussurrou, já se levantando. Antonella ficou pálida. Mas sua voz foi firme ao dizer: — No escritório de Vincenzo tem um quarto do
Aurora D’Angelis (Bianchi) Meses depois … O celular do Guilhermo tocou de forma ensurdecedora, cortando o silêncio da madrugada como um trovão inesperado. Ele se levantou num pulo, os olhos ainda semicerrados, o corpo tenso. Meu coração disparou, sentindo a urgência no ar antes mesmo de entender o motivo. Acordei atordoada, sentando-me na cama enquanto meu olhar buscava o relógio digital ao lado: 03:00. A hora das almas, como dizia minha nonna, mas naquela noite, seria a hora de uma nova vida. Guilhermo atendia com a voz grave e baixa, dizendo apenas: — “Aham.” — “Certo.” E por fim: — “Logo estaremos aí.” Com essas palavras, senti um frio percorrer minha espinha — não de medo, mas de expectativa. Nossos olhos se encontraram, e ali, naquele instante silencioso, compreendi antes que ele dissesse. — Ella entrou em trabalho de parto. Nossa famiglia ganhará mais um membro — anunciou ele, com um brilho nos olhos que não via há semanas. Suspirei aliviada, e um sorriso s
Aurora D’Angelis A segunda-feira chegou com céu limpo, mas o ar estava carregado daquele tipo de tensão que a gente sente antes de uma mudança. Depois do café com Guilhermo, encontrei Giulia no pátio de treino, ambas de roupa esportiva, com o cabelo preso e a determinação no olhar. Já estávamos alongando quando o som de passos firmes ecoou no cimento. Me virei e vi Matteo se aproximando… e ao lado dele, para surpresa geral, vinha Elena. Giulia parou o movimento na hora, o maxilar levemente travado. Elena usava uma roupa justa de treino, expressão neutra e o cabelo preso num rabo de cavalo impecável. Não olhava para ninguém em especial, mas sua presença soava quase como uma provocação silenciosa. — Meninas — começou Matteo, com aquele tom casual demais para a bomba que estava prestes a soltar — conversei com Elena no sábado. Ela vai treinar com vocês a partir de hoje. A cabeça de Giulia virou lentamente na direção dele, o olhar cortante como uma lâmina embainhada. — E vo







