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5 - Gaiola de ouro

Author: B sweet
last update publish date: 2026-07-22 01:15:07

Aurora Bianchi

O caminho de volta para casa parece mais longo do que o normal. Meu coração ainda está acelerado, e não tem nada a ver com medo.

Tem a ver com ele. Guilhermo D'Angelis.

Ele não deveria ter aparecido no café. Não deveria ter sentado à minha mesa, me chamado de passarinha, falado daquele jeito despreocupado, como se tudo fosse um jogo. Como se eu fosse livre para jogar também.

Mas eu não sou.

Sou Aurora Bianchi, filha de Máximo Bianchi. A futura esposa de Domenico Rizzi.

Não há escolha.

Respiro fundo quando o carro para em frente à mansão da minha família. O portão se abre lentamente, e as luzes da entrada estão acesas, me esperando. Sinal de que meu pai já sabe que cheguei mais tarde do que deveria.

Engulo em seco.

Saio do carro e caminho pelo longo corredor de mármore. Meus saltos ecoam pelo chão, e tudo está silencioso demais. Mas quando entro na sala, o silêncio se desfaz.

— Onde você estava? — A voz de meu pai corta o ar como uma lâmina.

Meu corpo se enrijece. Meu pai está sentado em sua poltrona de couro, uma taça de uísque na mão. Seus olhos, frios como sempre, me analisam como se eu fosse uma peça de xadrez que ele precisa manter sob controle.

— Saí para tomar um café. — Minha voz sai calma, controlada. Sei que qualquer traço de hesitação será usado contra mim.

Ele inclina levemente a cabeça, observando-me com um olhar afiado.

— E por que o subchefe dos D'Angelis estava com você?

Meu estômago se revira. Ele já sabe. É claro que sabe. Meu pai tem olhos e ouvidos em todos os lugares.

Mantenho minha expressão impassível.

— Ele apareceu sem ser convidado. Sentou-se à minha mesa e tentou puxar conversa.

Meu pai solta um riso seco, descrente. Então se levanta, ajeitando o paletó com calma e dá alguns passos lentos na minha direção.

— Não me faça de idiota, Aurora. Eu vi como ele olhava para você na festa de Vincenzo. E agora aparece no seu café favorito, no mesmo horário que você? Você acha que eu não sei o que está acontecendo?

A tensão cresce no ambiente. Seguro minha bolsa com força, mantendo a postura reta.

— Não há nada acontecendo.

Ele para à minha frente, seus olhos cravados nos meus.

— Se acha que esse D'Angelis quer algo mais do que te usar, está se iludindo. Homens como ele não se envolvem com mulheres como você. No máximo, vão brincar até se cansarem. Você sabe o que acontece quando isso ocorre, não sabe?

Sinto um frio na espinha.

— Ele não... — Minha voz morre na garganta quando vejo o sorriso cruel do meu pai.

— Ele não o quê? Não te usaria? Não te jogaria fora depois? Não faria como todos os outros chefes fazem com suas amantes? — Ele balança a cabeça. — Não seja ingênua, figlia. Guilhermo D'Angelis é um soldado da máfia antes de ser um homem. Ele nunca vai escolher você. Para um homem como ele, você não passa de uma distração temporária.

Minha respiração falha.

Ele está mentindo?

Não. Ele está dizendo o que sempre me disseram. O que eu sempre soube.

Mulheres como eu não têm escolhas.

Eu aperto os punhos ao lado do corpo.

— E Domenico? Isso quer dizer que ele realmente me quer? — Minha voz sai amarga. — Ou só quer mais uma esposa para exibir até se cansar dela?

Meu pai aperta minha mandíbula com força, seus olhos ganhando um brilho perigoso.

— Domenico é o melhor que você pode conseguir. Um casamento com ele garante que você continue viva e intocável. Uma vida de luxo, poder e respeito. — Ele solta meu rosto com brutalidade. — E estou garantindo que você continue respirando.

O peso de suas palavras me atinge em cheio.

Se eu quebrar esse noivado, há consequências. Para mim. Para ele.

E de repente, o rosto de Guilhermo D'Angelis surge na minha mente. Seu sorriso despreocupado. Seu olhar afiado. Sua promessa velada de que poderia me ajudar.

Mas ele não entende.

E se meu pai estiver certo? E se ele for como todos os outros?

E se eu acabar sendo só mais uma distração passageira?

Preciso esquecê-lo.

Então, apenas abaixo a cabeça e murmuro:

— Boa noite, papà.

E subo para o meu quarto, fechando a porta atrás de mim.

Me jogo na cama, o corpo tremendo de raiva e frustração. O mundo ao meu redor é uma gaiola, e a cada dia as barras ficam mais apertadas.

Mas hoje, pela primeira vez em muito tempo, um pensamento perigoso surge em minha mente.

E se...

E se Guilhermo estivesse certo?

•••

O sol mal havia nascido quando fui chamada para descer. Domenico estava aqui.

Meu estômago se revira.

Visto um vestido azul-claro, discreto, mas elegante, e desço as escadas com a postura impecável que me foi ensinada desde criança. A sala de jantar está impecável, a mesa posta com porcelana fina e um café da manhã farto. Meu pai já está sentado à cabeceira, conversando tranquilamente com Domenico, como se fossem velhos amigos.

Ele sorri ao me ver. Mas seus olhos... seus olhos nunca sorriem.

— Aurora, cara mia. — Ele se levanta, pega minha mão e deposita um beijo frio e calculado.

— Domenico. — Forço um sorriso e sento-me à mesa, assumindo meu lugar como a noiva obediente que todos esperam que eu seja.

O café da manhã segue tranquilo, ou pelo menos parece. Meu pai e Domenico conversam sobre negócios, sobre alianças e estratégias. Eu me limito a comer em silêncio, mantendo a postura impecável.

Mas então, de repente, ele muda de assunto.

— Ouvi um boato curioso ontem à noite. — Domenico comenta, girando a colher dentro da xícara de café. Seus olhos castanhos me analisam com calma forçada.

Minha mão se aperta ao redor do garfo.

— Boato?

— Sim. — Ele levanta a xícara, toma um gole demorado e depois sorri. — Disseram-me que você foi vista em um café. Acompanhada.

O ar fica pesado.

Meu pai apenas continua comendo, como se essa conversa não lhe dissesse respeito.

Claro que diz. Ele quer ver como eu lido com isso.

— Guilhermo D'Angelis apareceu inesperadamente. — Respondo com neutralidade. — Ele se sentou à minha mesa e tentou puxar conversa.

Domenico assente lentamente, fingindo refletir sobre minha resposta.

— E?

Engulo em seco.

— E nada. Ele foi embora depois de um tempo.

Silêncio.

Domenico deposita a xícara no pires com um clique preciso. Seus olhos afiados encontram os meus, buscando qualquer traço de mentira.

— Espero que não tenha dito nada inadequado, mia cara. — Sua voz é suave, mas o peso da ameaça está ali, nas entrelinhas. — Espero que não tenha reclamado de mim. Ou falado alguma besteira.

Sinto minha garganta fechar.

— Claro que não. — Minha voz sai firme, mas meu coração martela contra o peito.

Ele segura meu olhar por um momento a mais, então sorri novamente.

— Ótima menina.

Terminamos o café da manhã sem mais questionamentos, mas sei que a tempestade ainda não passou.

Quando nos levantamos da mesa, ele me segura pelo pulso com firmeza, sem que meu pai perceba.

— Venha. — Ele diz baixo, e me puxa para um canto mais isolado do salão.

Meus instintos gritam para que eu recue, mas eu não posso. Não posso criar uma cena.

As mãos dele se fecham ao redor dos meus braços com força controlada.

— Acha que eu engoli aquele acontecimento na festa? — Ele murmura, sua voz carregada de algo sombrio. — Você se comportando como uma vadia, chamando atenção daquele subchefe como se fosse uma mulher disponível?

Meu corpo fica tenso, mas não respondo. Ele aperta ainda mais.

— Isso não vai mais acontecer. — Ele continua. — Você é minha noiva. Minha.

Fecho os olhos por um segundo, tentando manter a calma.

— Não fiz nada de errado.

— Não importa. — Seu rosto se inclina para perto do meu, e posso sentir o cheiro do café misturado com o da arrogância. — Depois que casarmos, vou garantir que você aprenda como uma mulher deve obedecer ao marido.

Minha respiração falha.

— Você não pode me tratar assim.

Ele solta um riso baixo e cruel.

— Posso e vou. Você acha que tem escolha, piccola?

Meu estômago se revira.

Ele solta meus braços, mas antes de se afastar, desliza os dedos pelo meu queixo, segurando-o com força o suficiente para que eu não vire o rosto.

— Agora seja uma boa menina. Pare de brincar com fogo. Ou pode se queimar.

Então ele se afasta, ajeitando o terno como se nada tivesse acontecido.

Fico ali, imóvel, sentindo o tremor leve nos meus dedos.

Não posso mais negar.

Preciso sair dessa gaiola.

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