FAZER LOGINJúlia Cavalcante
Meus pés descalços queimavam no asfalto frio da calçada de Porto Alegre enquanto eu tentava, desesperadamente, manter a dignidade com o vestido amassado e o cabelo que era a prova viva de um crime contra a monotonia. Eu carregava meus saltos na mão esquerda e minha bolsa na direita, caminhando como se estivesse fugindo de uma cena de explosão. E, de certa forma, eu estava. A explosão da minha antiga vida. Ao longe, vi a silhueta de Sabrina encostada no seu carro, em frente à boate que agora parecia um castelo abandonado sob a luz cinzenta da manhã. Quando ela me viu, não fez uma cara de alívio; ela parecia pronta para me matar e me ressuscitar logo em seguida. — Júlia Cavalcante! — O grito dela ecoou pela rua deserta. — Eu juro por tudo que é mais sagrado que se você não estivesse inteira, eu mesma terminava o serviço! — Shhh! — Pedi, aproximando-me com o coração na boca. — Por favor, não grita. Minha cabeça parece que vai abrir ao meio. — Sua cabeça? E a minha? — Ela enfiou a mão no bolso e puxou o meu celular, que eu devia ter deixado cair na mesa do bar, essa é a única explicação. — Essa porcaria descarregou faz três horas, mas antes disso... Júlia, o Logan não parou de ligar. Ele mandou mensagens que oscilavam entre o "onde você está, meu amor?" e o "você está brincando comigo?". Eu bloqueei o número dele temporariamente porque meu dedo estava coçando para mandar ele para o inferno. O nome de Logan agiu como um balde de água gelada. A lembrança da noite anterior — não a parte do prazer, mas a parte do desprezo dele — voltou a arder. — Eu não vou voltar, Sa. Nunca mais — minha voz saiu firme, apesar do tremor nas mãos. — Ele acha que eu não sou nada? Pois ele vai descobrir que o "nada" acabou de ter a melhor noite da vida dela com um homem que nem o nome eu sei. Sabrina arregalou os olhos, a raiva sendo substituída por uma curiosidade voraz. — Pera... o bonitão do relógio de platina? Você foi mesmo? - Olhei para ela. - Estevão me falou, ele que guardou o seu telefone. Passei a mão na testa querendo expulsar a dor. — Fui. E foi... — Fechei os olhos por um segundo, sentindo o rastro do perfume de sândalo que ainda teimava em grudar na minha pele. — Foi além de qualquer coisa que eu pudesse imaginar. Mas agora eu preciso focar. Eu não vim aqui para ser a acompanhante de um desconhecido. Eu vim para mudar de vida. — O emprego — Sabrina lembrou, batendo no teto do carro. — Entra logo. A última fase da entrevista é hoje, não é? — Em duas horas — respondi, entrando no banco do passageiro e sentindo o peso da exaustão me atingir. — Eu vou conhecer o CEO. O grande chefe. O homem que decide se eu vou ter um salário de verdade ou se vou ter que morar no seu sofá para sempre. - Que os jogos comecem... O apartamento de Sabrina cheirava a café forte e liberdade. Enquanto ela colocava meu celular para carregar — que imediatamente começou a vibrar com notificações de chamadas perdidas de Logan, as quais eu ignorei com um prazer quase físico —, eu me enfiei debaixo do chuveiro. A água quente levava embora o suor, o álcool e o cheiro daquele homem. Eu passava a esponja com força, tentando limpar a marca das mãos dele da minha cintura, mas minha mente traidora voltava para a forma como ele me olhou. Como se eu fosse valiosa. Como se eu fosse a única mulher no mundo. “Esquece isso, Júlia”, ordenei a mim mesma no espelho embaçado. “Ele era um estranho. Um escape. Hoje você conhece o seu futuro. E o seu futuro não tem espaço para distrações, muito menos para homens que te tratam como um troféu de uma noite só.” Saí do banheiro e Sabrina já tinha separado uma roupa para a entrevista: uma saia lápis preta, uma blusa de seda branca impecável e um blazer bem cortado. Eu precisava parecer a personificação da competência. Precisava esconder a mulher que, há poucas horas, estava gritando o nome de um desconhecido em uma suíte de luxo. E Logan nunca foi muito otimista — Toma — Sabrina me entregou uma xícara de café preto sem açúcar e dois comprimidos para dor de cabeça. — Bebe tudo. Você precisa estar afiada. Dizem que o dono dessa empresa, a Bianchi Investimentos, é um tubarão. Se ele sentir cheiro de sangue — ou de uísque — ele te devora viva. — Lian Bianchi — murmurei o nome, sentindo o peso da autoridade que ele carregava. — Eu li sobre ele. Dizem que ele é implacável. Que nunca sorri. Que demite secretárias como quem troca de camisa. — Então seja a camisa de ferro dele, Ju. Mostra que o Logan estava errado. Mostra que você é a melhor profissional que esse cara já viu. Eu me olhei no espelho uma última vez. A maquiagem escondia as olheiras, o batom nude dava um ar de sobriedade e o coque apertado prendia a Júlia selvagem da noite anterior em um cofre bem fechado. Eu estava pronta. Ou pelo menos, fingia estar. — Deseja-me sorte — falei, pegando minha pasta com o currículo e o bendito cartão da empresa. — Você não precisa de sorte. Você é uma sobrevivente — Sabrina disse, dando-me um abraço rápido. — E se esse tal de Bianchi for babaca, lembra que você já sobreviveu ao Logan... ou está tentando. Nada mais pode te machucar. Eu saí do apartamento sentindo uma estranha mistura de adrenalina e medo. O Uber já esperava lá embaixo. Enquanto o carro cortava o trânsito de Porto Alegre em direção ao edifício de vidro e aço da sede da empresa, eu mantive meus olhos fixos na paisagem. Eu estava fechando um ciclo de dor e abrindo uma porta para o desconhecido. O que eu não sabia, enquanto subia pelo elevador panorâmico até o 42º andar, era que o destino tem um senso de humor muito cruel. A recepção era silenciosa, cheia de mármore e pessoas que pareciam ter sido esculpidas em gelo. — Júlia Cavalcante? — Uma secretária com um coque tão perfeito que me deu inveja chamou meu nome. — O Sr. Bianchi a receberá agora. Pode entrar. Meu coração disparou. As palmas das minhas mãos suaram. Eu dei um passo à frente, abri a porta de carvalho maciço e entrei na sala mais imponente que já vi na vida. O homem estava de costas, olhando a vista da cidade através da parede de vidro. Ele estava sem o paletó, apenas com a camisa branca de linho, as mangas dobradas até o antebraço. Ele se virou lentamente. O ar sumiu dos meus pulmões. O currículo na minha mão quase caiu no chão. Os olhos. Aqueles mesmos olhos abissais. O relógio de platina brilhando no pulso. O cheiro de sândalo que preenchia a sala... o mesmo cheiro que eu tinha tentado lavar da minha pele há uma hora. O estranho da boate. O homem que me possuiu com fúria e paixão. O homem que eu deixei nu em uma cama de hotel sem dizer adeus. Lian Bianchi. Meu futuro chefe. Ele não parecia surpreso. Ele me analisou de cima a baixo, um sorriso de canto, gélido e predatório, surgindo em seus lábios. — Ora, ora... — a voz dele, aquele barítono que ainda ecoava nos meus sonhos mais quentes, preencheu o silêncio da sala. — Então a mulher que foge ao amanhecer resolveu aparecer para trabalhar? Eu queria que o chão se abrisse. Eu queria morrer. Mas, acima de tudo, eu percebi que a minha "liberdade" acabara de se tornar a minha maior emboscada. E agora?Cloe Avelar O tom de voz dele começou a atrair olhares curiosos de algumas pessoas que passavam pela calçada. Senti o sangue ferver nas minhas veias. A raiva que subiu não foi de pena ou de dúvida; foi de puro desprezo pela soberba dele de achar que sabia o que era melhor para a minha vida.— Terminou o seu show de pitaco alheio, Rafael? — perguntei, a voz saindo gélida e afiada como uma lâmina. — Porque a minha vida, as minhas escolhas e os meus sentimentos não passam pelo seu crivo de aprovação. Se eu decidi dar uma chance ao Leonardo, a responsabilidade é inteiramente minha. E quer saber? Ele pode ter tido defeitos, pode ter sido o herdeiro arrogante que você conheceu na sede, mas ele teve a coragem de descer do pedestal, admitir os próprios erros e construir algo real. Coisa que você claramente não tem maturidade nem para compreender.Rafael paralisou. Ele me encarou por longos segundos, com os olhos arregalados, digerindo o tamanho do fora que levou. Mas, em vez de se envergonha
Cloe Avelar O escritório da construtora parecia vibrar em uma frequência completamente nova, e o epicentro dessa mudança tinha nome e sobrenome. Leonardo estava muito diferente, e isso todos tinham notado. A aura de rigidez intocável, o hábito de esmagar qualquer tentativa de aproximação com um olhar de gelo e a postura de autômato corporativo haviam evaporado. No lugar daquele herdeiro distante, havia um homem presente, firme nas decisões, mas com uma leveza que pegava todo mundo desprevenido.A diretoria ainda tentava digerir a guerra fria que ele comprou com o próprio pai por causa do processo contra a terceirizada caloteira, mas para quem circulava pelo andar operacional, a transformação era palpável. Ele caminhava pelos corredores com o passo firme, os ombros relaxados e, toda vez que cruzava com a minha mesa, um sorriso discreto e cúmplice despontava no canto dos seus lábios. Era como se ele tivesse finalmente tirado uma armadura de ferro que pesava toneladas e, pela primeira v
Leonardo Bianchi Deixei Cloe em seu apartamento no meio da manhã, prometendo vê-la mais tarde, e peguei o carro rumo ao escritório central.Assim que atravessei as portas de vidro da diretoria, o clima pesado parecia palpável. A secretária executiva nem ousou erguer os olhos da tela do computador quando passei direto em direção à sala principal. Empurrei a porta de mogno pesado sem bater.Meu pai estava sentado à mesa de vidro escuro, os óculos de leitura apoiados na ponta do nariz, examinando uma cópia impressa da petição judicial que protocolamos contra a empresa terceirizada. Lian estava encostado na estante de livros ao fundo, cruzando os braços com uma expressão que misturava divertimento contido e expectativa de espectador de cinema.— Você perdeu o juízo, Leonardo? — a voz do meu pai cortou o ar da sala, grave, firme e carregada de uma autoridade fria que antes me fazia encolher os ombros. — Processar a nossa própria rede de fornecedores terceirizados na justiça comum? Você te
Leonardo Bianchi Estava vendo eles pelas câmeras. Eu sei, é errado. Minha terapia, minhas próprias convicções e as conversas recentes com a Cloe deveriam ter me ensinado a largar esse vício maldito de monitorar cada metro quadrado do escritório, mas velho hábito tem a casca dura, e eu estava no meio de um processo interno delicado envolvendo a auditoria da terceirizada. Sabia que Cloe estava brava com Rafael. E sabia que ele iria tentar se desculpar, por isso estava vendo o exato momento que aquele idiota se levantou da cadeira para ir até a mesa dela pedir desculpas.Estava na cara dele que ele iria pedir. O desespero por ter cruzado a linha da inveja profissional estampava a testa daquele infeliz. Acompanhei a movimentação pela tela do meu monitor, a mandíbula travada, o sangue começando a ferver na mesma proporção em que ele abria a boca para tentar contornar a merda que fez mais cedo.Antes que eu pudesse levantar da cadeira para impedir a cena pessoalmente, a porta da minha sala
Cloe Avelar O dia arrastou em uma tensão densa e insuportável. Foco era a única palavra de ordem que mantinha minha mente nos trilhos. Revisei minutas, respondi e-mails da diretoria e ignorei solenemente qualquer tentativa de aproximação ou olhar de desculpas que viesse da mesa ao lado. Leonardo estava em reuniões na alta diretoria o dia todo, enfrentando a tempestade com o próprio pai a respeito do processo contra a terceirizada, então não cruzamos os caminhos nos corredores até o fim da tarde.Quando o relógio marcou o horário de encerramento do expediente, respirei fundo, recolhendo meus pertences para ir embora para o meu santuário recém-conquistado.Era uma tentativa patética de tentar consertar a burrada que fez mais cedo, levantou abruptamente da mesa dele assim que peguei minha bolsa, bloqueando o meu caminho em direção à saída do andar.- Posso falar com você? - Suspirei cansada. - Olha Rafael... - Comecei a dizer.— Cloe, espere um segundo... por favor — disse ele, a voz a
Cloe Avelar O silêncio do meu apartamento tinha uma textura diferente. Não era o vazio opressor e sufocante dos corredores daquela mansão, tampouco a imensidão fria de um espaço que não me pertencia; era um silêncio limpo, com cheiro de tinta fresca, papelão desdobrado e uma liberdade recém-conquistada que ainda parecia um pouco boa demais para ser real.Estava instalada em meu apartamento, e Leonardo me deixou sozinha depois de me ajudar com a mudança.A cena dele — o herdeiro engessado da construtora Bianchi — montando a minha estante de livros, sentado no chão comendo pizza barata e rindo da própria rigidez mecânica ainda ecoava na minha mente como a prova irrefutável de que o mundo havia virado de cabeça para baixo da melhor maneira possível. Ele foi embora no fim da noite, não sem antes me dar um beijo calmo e prometer que nos veríamos na sede da empresa no dia seguinte. Mas, pela primeira vez, a despedida não teve aquele amargor de abandono ou incerteza. Ele foi respeitar o meu







