Partager

Erick

Auteur: Viih Felix
last update Date de publication: 2026-02-05 06:21:46

Erick Narrando

Há algum tempo, o RH veio até mim com uma proposta. Um projeto social, segundo eles. Parceria com instituições, oportunidade para jovens entre 18 e 23 anos, primeiro contato com o mercado corporativo. Estagiários.

— Precisamos da sua autorização final, Erick — disseram.

Assenti sem dar muita atenção. Sinceramente, aquilo não estava no topo das minhas prioridades. Estágio nunca foi algo que me interessasse acompanhar de perto. Para mim, resultado sempre falou mais alto do que discurso bonito.

O problema é que o RH voltou. Uma vez. Duas. Três.

— A empresa vai concorrer a uma premiação estadual com esse projeto — explicaram, insistentes.

Foi aí que aceitei.

Não por caridade.

Por estratégia.

A primeira etapa ficou totalmente nas mãos deles: análise de currículo, perfil psicológico, entrevistas iniciais. A segunda etapa, no entanto, seria comigo. Do meu jeito.

No fim da tarde, deixaram uma pasta sobre minha mesa. Currículos impressos, relatórios anexados, avaliações detalhadas. Abri por obrigação. Passei o olho por cima. Rapidamente.

Tudo igual.

Mesmas palavras bonitas. Mesmas promessas. Mesmos objetivos genéricos. Papel não me diz nada. Nunca disse.

Eu gosto de pressionar olhando nos olhos. Ver quem sustenta o olhar, quem treme, quem mente, quem aguenta. É ali que eu decido se alguém me serve ou não. Currículo não define caráter. Nem resistência.

Fechei a pasta e fiz o que sempre faço: escolhi de forma aleatória.

Cinco garotas.

Cinco nomes. Cinco horários. Uma delas trabalhará diretamente comigo. Isso não estava no plano inicial do RH, mas eu decidi. Quero ver quem aguenta a rotina. Quem sobrevive à pressão. Espero que dure pelo menos um mês. A maioria não passa da primeira semana.

Quando já estava pronto para encerrar o dia, recebi uma ligação.

— Erick, preciso te avisar de uma mudança em um dos projetos institucionais — disse o diretor de comunicação, cauteloso demais.

— Fala.

— A Fundação D'Ávila decidiu o rosto da Campanha.

— Quem? — perguntei, sentindo um incômodo estranho no estômago.

Houve um segundo de silêncio antes da resposta.

— Angel.

O nome bateu como um soco.

— Como é que é? — minha voz saiu baixa, perigosa.

— Ela vai estar na cidade nos próximos meses. É a cara do projeto. A decisão já foi aprovada.

A decisão.

Sem me comunicar.

Sem me consultar.

— Se não fosse a reputação da Corsan, eu tiraria o patrocínio agora mesmo. — rosnei. — Vocês têm ideia do que estão fazendo?

— Erick.

— Não. Chega.

Desliguei.

— Desgraçada maldita — murmurei, fechando os punhos.

Saí da empresa batendo a porta do escritório. Os corredores ficaram em silêncio. Não me importei. Entrei no carro com a cabeça em ebulição. Só de pensar que, em poucos meses, eu estaria no mesmo ambiente que Angel, meu corpo reagia. O sono simplesmente não veio naquela noite.

Rolei na cama. Levantei. Sentei. Deitei de novo. A imagem dela insistia em aparecer. O sorriso falso. A traição pública. A humilhação que quase me quebrou anos atrás.

Quando finalmente o dia clareou, eu me sentia exausto.

Levantei com o corpo pesado, a mente lenta. Tomei a medicação indicada pelo médico para noites mal dormidas. Cochilei em intervalos curtos. Nada profundo. Nada reparador.

Decidi nadar.

A piscina estava fria. Do jeito que eu gosto. Entrei sem pensar. A água gelada despertou meus músculos, trouxe o foco de volta. Cada braçada era uma tentativa de expulsar pensamentos que não me serviam mais. Fiquei ali até o corpo reagir.

Depois, banho. Demorado. Água quente. Silêncio.

Vesti um terno escuro, simples. Sem excessos. Na cozinha, apenas um café preto. Forte. Amargo. Como eu.

Peguei as chaves e saí.

O caminho até a empresa foi automático. Quando cheguei, o prédio já estava em movimento. Entrei direto. Elevador. Último andar. Minha sala.

Hoje não será um dia qualquer.

Hoje eu escolherei minha nova assistente estagiária.

Cinco garotas aguardavam em salas separadas. Cinco histórias que eu ainda não conhecia. Uma delas pisaria todos os dias no meu território. Trabalharia sob meu olhar. Sob minha cobrança.

Ajustei os punhos da camisa, respirei fundo e me levantei.

— Assim que as candidatas estiverem prontas, pode chamar uma por uma.

O Dia passou corrido, e o almoço com a diretoria durou mais que o esperado.

Assim que abri o meu computador, já tinha uma matéria, estampada. O evento beneficente da Fundação D’Avila, patrocinado pela empresa Corsan, anunciou sua presença na lista de convidados.

Top model, capa da Vogue, palestrante sobre empoderamento feminino.

Quase ri. A mulher que um dia me fez acreditar que o amor era um investimento seguro agora discursava sobre poder. Bonito isso.

Cínico, mas bonito.

E foi ali que decidi: se ela vai estar lá, eu também vou.

Mas não sozinho. Nem por baixo.

A diferença entre o homem que ela abandonou e o homem que vai aparecer naquele salão é simples: agora eu jogo com as cartas à mostra e com a vantagem de quem já não sente nada.

— Senhor Ribeiro? — a voz da minha secretária me arrancou dos pensamentos.

— Diga, Ananda.

— A Última candidata, está disponível. Posso mandar entrar?

Olhei para o relógio. Eram quase três da tarde. Eu já devia estar encerrando o expediente, já que amanhã eu viajo logo cedo, mas alguma parte de mim gostava de testar o nervosismo dos recém-chegados.

As últimas quatro, foram uma negação. Vamos ver se essa semana escapa.

— Mande entrar.

Ouvi a porta se abrir com um estalo discreto. E, em seguida, passos leves, incertos. Quando ergui os olhos, vi uma garota parada à frente da mesa e por um instante, o contraste entre nós me arrancou um meio sorriso.

Ela devia ter, no máximo, vinte e poucos anos. O cabelo castanho preso num coque desalinhado, e uma pasta contra o peito como se fosse um escudo. Vestia uma calça social simples e uma camisa branca que, claramente, não fora feita sob medida.

Não havia nada de extraordinário nela. E, ainda assim, havia algo desarmante.

— Boa tarde, senhor Ribeiro. — a voz saiu suave, trêmula. — Eu sou a Melanie. Melanie Duarte.

— Eu sei quem é. — apoiei o cotovelo sobre a mesa, estudando-a como quem analisa uma equação complexa. — A nova aprendiz, certo?

Ela assentiu, mordendo o lábio inferior.

— Sim, senhor. É… é uma oportunidade incrível trabalhar aqui. Eu… agradeço muito por…

— Respira. — interrompi, sem alterar o tom. — Está parecendo que vai desmaiar.

Ela piscou rápido, surpresa.

— Desculpe. É que… é o meu primeiro emprego de verdade.

— E o primeiro susto também, imagino. — inclinei me ligeiramente para frente. — Dica profissional: não peça desculpas por respirar. Aqui, fraqueza tem cheiro, e quem sente esse cheiro, morde.

Ela pareceu engolir as palavras, e por um segundo, percebi a pontada de medo misturada à determinação nos olhos dela.

Interessante.

Enquanto ela falava, sobre a faculdade, o estágio, os sonhos modestos de crescer na área, eu observava mais do que ouvia. Os gestos pequenos, as pausas, a forma como desviava o olhar e depois voltava, teimosa. Era o tipo de inocência que o mundo ainda não conseguiu corromper. E talvez por isso chamasse tanto atenção.

Quando ela terminou, fiz um breve silêncio.

— Está contratada.

— Mas, o senhor nem me entrevistou direito.

— Não preciso. — dei de ombros. — Já vi o suficiente.

Ela arregalou os olhos, confusa.

— O suficiente pra quê?

— Pra saber que vai me ser útil.

Ela piscou, desconcertada, e eu deixei o peso das palavras pairar no ar antes de continuar:

— Relaxe, senhorita Duarte. Não é uma ameaça. É um elogio. — me levantei, contornando a mesa com calma. — Ananda vai te mostrar a área de projetos amanhã cedo. Hoje, quero que descanse. Amanhã será um dia longo.

Ela assentiu, claramente aliviada, mas antes que virasse as costas, acrescentei:

— Ah, Melanie…

Ela parou na porta.

— Sim, senhor?

— Não se atrase. Odeio desperdício de tempo.

Ela abriu um pequeno sorriso, tenso, e saiu. Melanie, gostei de você.

Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application
Commentaires (1)
goodnovel comment avatar
Helena Darc Soares
aaaehhhh garota,vc conseguiu.parabens!!
VOIR TOUS LES COMMENTAIRES

Dernier chapitre

  • Esposa de mentirinha para o CEO    Erick

    Último Capítulo - Erick Narrando Meses depois... E a vida tinha tomado um rumo que, se alguém me contasse lá atrás, eu provavelmente não acreditaria.A barriga da Melanie já está enorme, linda, carregando o nosso filho. O médico já tinha sido claro: licença maternidade, repouso, nada de esforço. E, mesmo assim, ela ainda tentava fazer tudo.— Amor, deixa que eu pego isso — falei, tirando uma sacola da mão dela.— Erick, eu não tô inválida — ela respondeu, fazendo aquela cara.Aproximei, segurando o rosto dela com cuidado.— Eu sei, mas você tá carregando o meu mundo aí dentro.Ela revirou os olhos, mas sorriu.— Dramático.— Realista — corrigi, dando um beijo leve nela.A verdade é que eu não me canso de olhar pra ela. Às vezes eu fico parado, só observando, admirando cada detalhe. A força, a leveza, o jeito dela.E pensando. Pensando no quanto eu fui um idiota no começo.— O que foi? — ela perguntou, me olhando desconfiada.Soltei um suspiro.— Eu tava lembrando de quando tudo come

  • Esposa de mentirinha para o CEO    Melanie

    Penúltimo Capítulo - Melanie O tempo passou voando, quando eu percebi, já não era mais só uma suspeita, nem só aquele comecinho cheio de cuidado. Eu tava grávida de verdade, com tudo acontecendo, consulta, exames, e a descoberta que mudou completamente o rumo da nossa família.Um menino.Eu ainda lembro do momento exato.— Parabéns, mamãe, é um menino — o médico disse, sorrindo.Eu levei a mão à boca, emocionada.— Um menino. — repeti, quase sem acreditar.Mas se eu fiquei feliz, o que dizer dos homens da minha vida?Porque foi simplesmente um surto coletivo.— EU SABIA! — meu irmão gritou, pulando dentro do quarto.— Tinha que ser menino! — o outro completou, rindo.Revirei os olhos, rindo junto.— Vocês nem disfarçam, né?— Claro que não! — ele respondeu. — Menina dá trabalho.— Ah, cala a boca — falei, jogando uma almofada nele.Eles já começaram com os planos.— Eu que vou ensinar ele a jogar bola.— Nada disso, videogame primeiro.— Vai ser o herdeiro!Fiquei olhando aquela cena

  • Esposa de mentirinha para o CEO    Erick

    Erick Narrando A Angel já tava sendo procurada por estelionato fazia dias. Sumida, entocada em algum buraco, fugindo de tudo e de todos, mas resolveu aparecer. E justo onde não devia. Na minha festa. No meu momento. No que era, só meu e da Melanie.Quando vi aquela cena na entrada, ela gritando, tentando invadir, eu não senti surpresa.Senti desprezo.— Tira ela daqui — falei, seco.Ela ainda tentou forçar.— Erick, você não pode fazer isso comigo!Olhei direto pra ela, sem emoção nenhuma.— Posso sim. E vou.Dei um passo mais perto, a voz baixa, mas firme.— Você escolheu o lugar errado pra fazer escândalo.Ela riu, completamente descompensada.— Isso tudo era pra ser meu!Balancei a cabeça, sem paciência.— Nunca foi.Fiz um sinal pros seguranças.— Leva pra delegacia.— NÃO! — ela gritou, se debatendo. — Você vai se arrepender!— Eu já me arrependi uma vez — respondi, virando as costas. — E aprendi.Os seguranças imobilizaram ela e arrastaram pra fora enquanto ela gritava, xingava

  • Esposa de mentirinha para o CEO    Melanie

    Melanie Narrando Chegou o dia que eu esperei, sonhei, e que quase não aconteceu. O noivado que foi adiado, reorganizado, repensado em cada detalhe, e que agora finalmente estava acontecendo do jeito que eu sempre quis.Acordei com o coração acelerado, aquela ansiedade boa misturada com um nervosismo que eu não conseguia controlar. Olhei pro teto por alguns segundos e sorri sozinha.— Hoje eu fico noiva. — sussurrei pra mim mesma.Minha mãe já tava de pé quando eu levantei, toda animada, mais nervosa do que eu, parecia até que era o noivado dela.— Anda, menina! — ela disse, apressada. — A gente tem horário no salão.Ri, pegando minha bolsa.— Calma, mãe!Fomos juntas, e só o caminho já parecia diferente. O dia tava lindo, leve, como se tudo estivesse conspirando a favor.Assim que chegamos no salão, fomos recebidas como se fôssemos importantes de verdade. Sabe aquele cuidado que a gente só vê em filme? Foi exatamente assim.— Sejam bem-vindas — disseram, sorrindo.Troquei um olhar co

  • Esposa de mentirinha para o CEO    Erick

    Erick Narrando A notícia chegou como um soco. Não só pra mim, mas pro país inteiro.Eu tava no escritório quando meu celular começou a tocar sem parar. Mensagens, ligações, notificações, tudo ao mesmo tempo. Peguei o aparelho já imaginando que fosse mais alguma repercussão do caso da Valéria, mas quando abri a primeira manchete, fiquei em silêncio.— Renalida Barbalho surta e mata marido e amante grávida.Fiquei alguns segundos olhando pra tela, absorvendo aquilo.— Caralho. — murmurei, passando a mão no rosto.As informações começaram a chegar mais detalhadas conforme os minutos passavam. Renalida descobriu tudo, perdeu o controle e terminou da pior forma possível. Barbalho morto. Valéria também, Grávida.Mesmo sabendo de tudo que eles tinham feito, de toda armação, de toda sujeira. aquilo não deixou de pesar.— Que merda… — falei baixo, mais pra mim mesmo.Dias depois, a situação dela só piorou. Foi internada em um hospício, completamente fora de si, sem qualquer condição de respon

  • Esposa de mentirinha para o CEO    Valéria

    Valéria Narrando Assim que eu abri a porta e dei de cara com a Renalida, eu nem tive tempo de reagir.— Sua desgraçada! — ela gritou.O tapa veio com força, estalando no meu rosto. Eu perdi o equilíbrio na hora, e antes que eu pudesse me segurar, ela me empurrou com tudo.Caí no chão.E foi ali que senti. Uma pontada forte na barriga.— Aí! — gritei, levando a mão imediatamente ao ventre. — Socorro!A dor veio intensa, cortante, como se algo estivesse rasgando por dentro. Meu corpo se encolheu sozinho, e eu comecei a chorar sem conseguir controlar.— Pelo amor de Deus — minha voz saiu falha.Ouvi a porta bater com força atrás dela.Barbalho veio na minha direção, desesperado.— Valéria!Mas antes que ele chegasse até mim, Renalida puxou uma arma de dentro da bolsa.— Fica parado. — ela gritou.O som do destravar da arma ecoou pela sala.Barbalho congelou na hora, levantando as mãos devagar.— Renalida, calma — ele disse, tentando manter a voz firme.Ela estava completamente fora de s

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status