FAZER LOGINMelanie Narrando
Hoje fiz algo que eu não fazia há muito tempo. Fugi para a cama da minha mãe no meio da noite, como quando eu era criança e o mundo parecia grande demais para eu enfrentar sozinha. Ela sentiu quando eu me deitei ao lado dela. Minha mãe sempre sente. Abriu os olhos ainda sonolenta e passou a mão nos meus cabelos. — Melzinha, o que houve, filha? Engoli em seco. — Cheguei e você já estava deitada, não jantou com a gente, e agora está aqui — ela continuou, com a voz carregada de preocupação. Foi ali que eu decidi falar. Não dava mais para guardar. — Mãe, eu fui demitida — disse, sentindo a voz falhar. — Disseram que eu atrapalho as pessoas. Que eu sou desorganizada, que não gostam do meu trabalho. As palavras saíram pesadas, como se eu estivesse arrancando algo de dentro de mim. Aquilo doeu mais do que eu queria admitir. Não porque perdi o emprego, isso já tinha acontecido antes, mas porque mexeu com algo mais fundo, com a minha autoestima, com a sensação de nunca ser suficiente. Minha mãe me puxou para mais perto e me abraçou forte, ali mesmo, deitada. — Isso é injusto — ela disse, firme. — Você sempre foi esforçada, dedicada. Quem perde são eles. Foi aí que eu chorei. Chorei de verdade. Chorei porque estou cansada. Porque parece que eu carrego um peso grande demais sozinha. Chorei até o corpo relaxar e o sono me vencer. Acordei sozinha na cama. Nem vi minha mãe sair. Devia estar exausta, e eu dormi pesado demais. Olhei o relógio: 7h30 da manhã. Levantei, fui para o meu quarto e fiz minha rotina matinal no automático. Lavei o rosto, prendi o cabelo, vesti uma roupa simples. Fui no quarto do meu irmão e imprimi alguns currículos. O barulho da impressora parecia marcar um recomeço, mesmo que tímido. Tomei apenas um café forte. Não senti fome. Peguei a bolsa e saí. Um novo dia. Novas oportunidades. Ou pelo menos era isso que eu precisava acreditar. Entrei em uma padaria para ver vagas no mural, quando reparei nos jornais logo na entrada. Peguei um e fui direto ao classificado. Meus olhos correram as páginas até travarem em um anúncio. “Empresa Cosan contrata estagiárias para diversos setores.” Meu coração acelerou. Os olhos brilharam. — Essa é a minha chance — murmurei para mim mesma. Quem sabe ser secretária. Quem sabe começar de outro jeito. Desisti de deixar currículo na padaria. Aquilo já não fazia sentido. Dobrei o jornal, saí apressada e fui direto para o ponto de ônibus. O vento batia no rosto, e, pela primeira vez desde a demissão, senti algo diferente da tristeza. Esperança. Quem sabe hoje é o meu dia. Desci do ônibus e fiquei alguns segundos parada, tentando processar o que meus olhos viam. A parada era bem em frente à empresa. Olhei para cima, e meu pescoço sequer conseguiu alcançar o topo do prédio. Imponente. Vidros espelhados, linhas modernas, uma presença que parecia dizer, sem palavras, que ali dentro só entravam pessoas importantes. Respirei fundo. — É aqui — murmurei para mim mesma. Subi os degraus largos da calçada, sentindo o coração bater forte no peito. Cada passo parecia ecoar dentro de mim. Empurrei a porta de vidro e entrei. O ar-condicionado gelado me envolveu de imediato, junto com o cheiro de ambiente caro, limpeza e sucesso. Tudo ali era chique. Pessoas bem vestidas passavam apressadas, saltos altos ecoando pelo piso brilhante. Fui direto até a recepção. — Bom dia — falei, com a voz mais firme do que me sentia. A recepcionista sorriu de forma profissional. — Posso ajudar? Mostrei o classificado dobrado. — Vim pela vaga de estágio. Ela assentiu, me entregou uma ficha e uma caneta. — Preencha, por favor. Preenchi tudo rapidamente, tentando não errar nada. Nome, idade, escolaridade, telefone. Endereço completo. Minhas mãos tremiam um pouco, mas respirei fundo e segui. Quando terminei, ela recolheu a ficha, conferiu e apontou para um corredor. — Pode ir para aquela sala, a Seletiva acontecerá em alguns minutos. Agradeci e segui. Abri a porta e senti o impacto. A sala estava cheia. Muitas meninas. Bonitas. Bem vestidas. Maquiagem impecável, bolsas caras, saltos altos. Por um segundo, me senti deslocada. Olhei para minha roupa simples, minha bolsa gasta, meu sapato confortável. Chegava a ser humilhante diante de tanto luxo e soberba. Engoli em seco. Mesmo nervosa, caminhei até o fundo da sala e me sentei. Fiquei quieta, observando, tentando controlar a ansiedade. Logo chamaram para a primeira seletiva escrita. Prova simples, mas criteriosa. Português, lógica, atenção. Fiz com calma, lembrando de tudo que sabia. Quando o tempo acabou, recolheram as folhas. Alguns minutos depois, começaram a chamar nomes. Muitas foram dispensadas ali mesmo. O clima pesou. Olhares abatidos, algumas lágrimas contidas. Passei para a próxima fase. Veio a entrevista b**e-bola. Perguntas rápidas, diretas. — Por que você quer essa vaga? — O que espera aprender? — Como lida com pressão? Respondi com sinceridade. Não tentei parecer algo que não sou. Mais uma leva foi dispensada. Depois, entrevistas individuais. Uma por uma, as meninas iam sendo chamadas. A espera parecia eterna. Meu estômago já reclamava de fome, mas meu coração batia acelerado, cheio de expectativa. Quando finalmente terminei, saí da empresa já quase três da tarde. Morta de fome, mas com algo diferente dentro de mim. Esperança. Na esquina, comprei uma coxinha. Comi ali mesmo, em pé, como se fosse um banquete. Peguei o ônibus e voltei para casa olhando a cidade pela janela, imaginando possibilidades. Cheguei, tomei banho, almocei tarde. O corpo relaxou. Já era quase seis da tarde quando meu celular tocou. Número desconhecido. Atendi. — Boa tarde, Melanie. Aqui é Victoria, da Corsan. Você foi selecionada para a entrevista final com o senhor Erick Ribeiro, nosso CEO. Meu coração quase saiu pela boca. — S-sério? — consegui responder. — Sim. Parabéns. Te aguardamos, amanhã às nove. Não se atrase. Desliguei com um sorriso que eu não sentia há muito tempo. Hoje, definitivamente, foi o meu dia.Último Capítulo - Erick Narrando Meses depois... E a vida tinha tomado um rumo que, se alguém me contasse lá atrás, eu provavelmente não acreditaria.A barriga da Melanie já está enorme, linda, carregando o nosso filho. O médico já tinha sido claro: licença maternidade, repouso, nada de esforço. E, mesmo assim, ela ainda tentava fazer tudo.— Amor, deixa que eu pego isso — falei, tirando uma sacola da mão dela.— Erick, eu não tô inválida — ela respondeu, fazendo aquela cara.Aproximei, segurando o rosto dela com cuidado.— Eu sei, mas você tá carregando o meu mundo aí dentro.Ela revirou os olhos, mas sorriu.— Dramático.— Realista — corrigi, dando um beijo leve nela.A verdade é que eu não me canso de olhar pra ela. Às vezes eu fico parado, só observando, admirando cada detalhe. A força, a leveza, o jeito dela.E pensando. Pensando no quanto eu fui um idiota no começo.— O que foi? — ela perguntou, me olhando desconfiada.Soltei um suspiro.— Eu tava lembrando de quando tudo come
Penúltimo Capítulo - Melanie O tempo passou voando, quando eu percebi, já não era mais só uma suspeita, nem só aquele comecinho cheio de cuidado. Eu tava grávida de verdade, com tudo acontecendo, consulta, exames, e a descoberta que mudou completamente o rumo da nossa família.Um menino.Eu ainda lembro do momento exato.— Parabéns, mamãe, é um menino — o médico disse, sorrindo.Eu levei a mão à boca, emocionada.— Um menino. — repeti, quase sem acreditar.Mas se eu fiquei feliz, o que dizer dos homens da minha vida?Porque foi simplesmente um surto coletivo.— EU SABIA! — meu irmão gritou, pulando dentro do quarto.— Tinha que ser menino! — o outro completou, rindo.Revirei os olhos, rindo junto.— Vocês nem disfarçam, né?— Claro que não! — ele respondeu. — Menina dá trabalho.— Ah, cala a boca — falei, jogando uma almofada nele.Eles já começaram com os planos.— Eu que vou ensinar ele a jogar bola.— Nada disso, videogame primeiro.— Vai ser o herdeiro!Fiquei olhando aquela cena
Erick Narrando A Angel já tava sendo procurada por estelionato fazia dias. Sumida, entocada em algum buraco, fugindo de tudo e de todos, mas resolveu aparecer. E justo onde não devia. Na minha festa. No meu momento. No que era, só meu e da Melanie.Quando vi aquela cena na entrada, ela gritando, tentando invadir, eu não senti surpresa.Senti desprezo.— Tira ela daqui — falei, seco.Ela ainda tentou forçar.— Erick, você não pode fazer isso comigo!Olhei direto pra ela, sem emoção nenhuma.— Posso sim. E vou.Dei um passo mais perto, a voz baixa, mas firme.— Você escolheu o lugar errado pra fazer escândalo.Ela riu, completamente descompensada.— Isso tudo era pra ser meu!Balancei a cabeça, sem paciência.— Nunca foi.Fiz um sinal pros seguranças.— Leva pra delegacia.— NÃO! — ela gritou, se debatendo. — Você vai se arrepender!— Eu já me arrependi uma vez — respondi, virando as costas. — E aprendi.Os seguranças imobilizaram ela e arrastaram pra fora enquanto ela gritava, xingava
Melanie Narrando Chegou o dia que eu esperei, sonhei, e que quase não aconteceu. O noivado que foi adiado, reorganizado, repensado em cada detalhe, e que agora finalmente estava acontecendo do jeito que eu sempre quis.Acordei com o coração acelerado, aquela ansiedade boa misturada com um nervosismo que eu não conseguia controlar. Olhei pro teto por alguns segundos e sorri sozinha.— Hoje eu fico noiva. — sussurrei pra mim mesma.Minha mãe já tava de pé quando eu levantei, toda animada, mais nervosa do que eu, parecia até que era o noivado dela.— Anda, menina! — ela disse, apressada. — A gente tem horário no salão.Ri, pegando minha bolsa.— Calma, mãe!Fomos juntas, e só o caminho já parecia diferente. O dia tava lindo, leve, como se tudo estivesse conspirando a favor.Assim que chegamos no salão, fomos recebidas como se fôssemos importantes de verdade. Sabe aquele cuidado que a gente só vê em filme? Foi exatamente assim.— Sejam bem-vindas — disseram, sorrindo.Troquei um olhar co
Erick Narrando A notícia chegou como um soco. Não só pra mim, mas pro país inteiro.Eu tava no escritório quando meu celular começou a tocar sem parar. Mensagens, ligações, notificações, tudo ao mesmo tempo. Peguei o aparelho já imaginando que fosse mais alguma repercussão do caso da Valéria, mas quando abri a primeira manchete, fiquei em silêncio.— Renalida Barbalho surta e mata marido e amante grávida.Fiquei alguns segundos olhando pra tela, absorvendo aquilo.— Caralho. — murmurei, passando a mão no rosto.As informações começaram a chegar mais detalhadas conforme os minutos passavam. Renalida descobriu tudo, perdeu o controle e terminou da pior forma possível. Barbalho morto. Valéria também, Grávida.Mesmo sabendo de tudo que eles tinham feito, de toda armação, de toda sujeira. aquilo não deixou de pesar.— Que merda… — falei baixo, mais pra mim mesmo.Dias depois, a situação dela só piorou. Foi internada em um hospício, completamente fora de si, sem qualquer condição de respon
Valéria Narrando Assim que eu abri a porta e dei de cara com a Renalida, eu nem tive tempo de reagir.— Sua desgraçada! — ela gritou.O tapa veio com força, estalando no meu rosto. Eu perdi o equilíbrio na hora, e antes que eu pudesse me segurar, ela me empurrou com tudo.Caí no chão.E foi ali que senti. Uma pontada forte na barriga.— Aí! — gritei, levando a mão imediatamente ao ventre. — Socorro!A dor veio intensa, cortante, como se algo estivesse rasgando por dentro. Meu corpo se encolheu sozinho, e eu comecei a chorar sem conseguir controlar.— Pelo amor de Deus — minha voz saiu falha.Ouvi a porta bater com força atrás dela.Barbalho veio na minha direção, desesperado.— Valéria!Mas antes que ele chegasse até mim, Renalida puxou uma arma de dentro da bolsa.— Fica parado. — ela gritou.O som do destravar da arma ecoou pela sala.Barbalho congelou na hora, levantando as mãos devagar.— Renalida, calma — ele disse, tentando manter a voz firme.Ela estava completamente fora de s







