FAZER LOGINMelanie Narrando
Acordei cedo, como sempre. O corpo desperta antes mesmo do despertador tocar, costume de anos. Fiz minha rotina matinal sem pressa, algo raro e precioso. Agora não preciso mais levar os meninos para a escola, eles cresceram, ganharam asas, e eu ganhei esse pequeno silêncio da manhã. Consegui tomar café da manhã sentada, olhando o relógio sem desespero, respirando fundo antes de enfrentar o dia. O café foi simples: pão com manteiga, café preto bem forte. Enquanto comia, já organizava mentalmente o que me esperava no trabalho. Cozinha não perdoa distração. Lavei a xícara, peguei a bolsa e saí. Moro em Osasco. Quem conhece sabe que nada é perto e tudo exige paciência. Primeiro ônibus até o centro. O ponto já estava cheio, gente com cara de sono, outros olhando o celular, alguns cochilando em pé. Quando o ônibus chegou, veio lotado como sempre. Entrei espremida, segurei firme no ferro e deixei o balanço do caminho me levar. O trânsito estava pesado. Ônibus parando a cada esquina, vendedor ambulante subindo, música alta no fone de alguém vazando. Olhei pela janela e vi a cidade acordando do jeito que só quem pega transporte público entende. Desci no centro e caminhei rápido até o outro ponto. O segundo ônibus era o que me levava direto para a região do restaurante. Estou nesse serviço a duas semanas. Esse costuma demorar mais. Quando chegou, entrei já calculando o horário. Sentei perto da janela, mochila no colo, olhos atentos no relógio do celular. O caminho é longo, passa por avenidas cheias, semáforos intermináveis, e sempre tem alguém reclamando do atraso. — Esse trânsito tá impossível — ouvi uma mulher comentar atrás de mim. — Todo dia a mesma coisa — outra respondeu. Assenti sozinha. Cheguei perto do horário. Desci quase correndo, atravessei a rua com cuidado e segui direto para os fundos do restaurante. Nem parei para respirar direito. Entrei, cumprimentei rápido quem estava por ali e fui direto ao vestiário. — Bom dia, Melanie — alguém falou. — Bom dia — respondi, já tirando a jaqueta. Coloquei o avental por cima da roupa, já estava com a blusa da farda, amarrei rápido, prendi o cabelo e entrei na cozinha. O cheiro já estava no ar, panelas no fogo, pedidos chegando. Não tem cerimônia. A cozinha te engole se você não entrar no ritmo. — Melanie, corta a cebola pra mim — pediram do outro lado. — Já vai — respondi. Peguei a faca, a tábua, e comecei. Meu papel aqui é ajudar, adiantar, observar. Sou ajudante de cozinha, mas aprendo todo dia. Gosto disso. Gosto do movimento, da pressão, do som das panelas batendo, dos pedidos sendo gritados. — Cuidado com o ponto desse molho — alguém alertou. — Tô de olho — respondi, mexendo com atenção. Mesmo chegando no limite do horário, ninguém reclamou. Todos ali sabem como é depender de ônibus, de trânsito, de uma cidade que não espera ninguém. Melanie chegou, vestiu o avental e trabalhou. É isso que importa. Depois do almoço, a cozinha virou um campo de guerra. Panelas, tachos enormes, travessas, pratos, talheres, taças de cristal. Tudo sujo. Tudo empilhado. E, como quase sempre, fui eu que fiquei para lavar tudo sozinha. Água quente, vapor subindo, mãos ardendo de detergente. Um prato atrás do outro. Um tacho pesado atrás do outro. O barulho constante da água batendo, da louça se chocando, do cansaço entrando no corpo. Não reclamo. Nunca reclamei. É trabalho. Quando terminei, o relógio já passava das quatro da tarde. Só então me dei conta de que ainda não tinha comido nada. O estômago roncava alto, as pernas tremiam de fome. Todo dia é assim. Trabalho primeiro, como depois, quando sobra. Para piorar, enquanto lavava uma faca, escorregou. Senti o ardor na hora. Um corte no dedo. Nada grave, mas ardia. Lavei rápido, apertei com papel toalha e segui. Sempre sigo. Peguei meu prato, comi rápido, quase sem sentir o gosto. Era só para não cair dura. Lavei meu próprio prato, como faço sempre, sequei as mãos e já estava pronta para ir embora. Mochila nas costas, corpo pesado, cabeça cansada. Foi quando ouvi alguém me chamar. — Melanie? Era uma das meninas do caixa. — O gerente quer falar com você. Meu coração deu um pulo estranho. Respirei fundo. Não tinha feito nada errado. Pelo menos, não que eu soubesse. Ajustei a mochila no ombro e fui até a sala dele. Bati na porta. — Entra. O gerente estava sentado atrás da mesa, braços cruzados, expressão fechada. Nem me ofereceu para sentar. — Melanie, vou ser direto — ele começou. — A nossa chefe de cozinha não está gostando do seu trabalho. Senti um frio subir pela espinha. — Como assim? — perguntei, ainda tentando entender. — Você é atrapalhada — ele disse, sem rodeios. — Acaba atrapalhando o andamento do serviço. Aquilo doeu mais do que o corte no dedo. — Eu nunca atrapalhei ninguém — falei, baixo, mas firme. — Sempre faço o que me pedem. Ele suspirou, impaciente. — Não é o que ela me passou. Decidimos encerrar por aqui. Engoli em seco. O nó na garganta veio forte, mas não deixei cair nenhuma lágrima. Não ali. Nunca ali. — Entendo — respondi, mesmo não entendendo nada. Ele abriu a gaveta, pegou um envelope pardo e estendeu na minha direção. — Aqui estão os dias trabalhados. Pode ir. Peguei o envelope com a mão que não estava machucada. — Obrigada — falei, por educação. Por costume. Saí da sala com o peito apertado. Atravessei o restaurante sem olhar para ninguém. Peguei o mesmo caminho de sempre. Primeiro ônibus. Depois outro. O mesmo percurso. As mesmas paradas. Só que agora com um peso diferente no peito. Olhei pela janela enquanto a cidade passava. A cabeça cheia de pensamentos, o coração pesado de tristeza. A sensação de ter fracassado mais uma vez. Mesmo sabendo, lá no fundo, que eu nunca atrapalhei ninguém. Cheguei em casa cansada, desempregada e com a certeza amarga de que, para quem vem de baixo, cair parece sempre mais fácil do que ficar de pé.Último Capítulo - Erick Narrando Meses depois... E a vida tinha tomado um rumo que, se alguém me contasse lá atrás, eu provavelmente não acreditaria.A barriga da Melanie já está enorme, linda, carregando o nosso filho. O médico já tinha sido claro: licença maternidade, repouso, nada de esforço. E, mesmo assim, ela ainda tentava fazer tudo.— Amor, deixa que eu pego isso — falei, tirando uma sacola da mão dela.— Erick, eu não tô inválida — ela respondeu, fazendo aquela cara.Aproximei, segurando o rosto dela com cuidado.— Eu sei, mas você tá carregando o meu mundo aí dentro.Ela revirou os olhos, mas sorriu.— Dramático.— Realista — corrigi, dando um beijo leve nela.A verdade é que eu não me canso de olhar pra ela. Às vezes eu fico parado, só observando, admirando cada detalhe. A força, a leveza, o jeito dela.E pensando. Pensando no quanto eu fui um idiota no começo.— O que foi? — ela perguntou, me olhando desconfiada.Soltei um suspiro.— Eu tava lembrando de quando tudo come
Penúltimo Capítulo - Melanie O tempo passou voando, quando eu percebi, já não era mais só uma suspeita, nem só aquele comecinho cheio de cuidado. Eu tava grávida de verdade, com tudo acontecendo, consulta, exames, e a descoberta que mudou completamente o rumo da nossa família.Um menino.Eu ainda lembro do momento exato.— Parabéns, mamãe, é um menino — o médico disse, sorrindo.Eu levei a mão à boca, emocionada.— Um menino. — repeti, quase sem acreditar.Mas se eu fiquei feliz, o que dizer dos homens da minha vida?Porque foi simplesmente um surto coletivo.— EU SABIA! — meu irmão gritou, pulando dentro do quarto.— Tinha que ser menino! — o outro completou, rindo.Revirei os olhos, rindo junto.— Vocês nem disfarçam, né?— Claro que não! — ele respondeu. — Menina dá trabalho.— Ah, cala a boca — falei, jogando uma almofada nele.Eles já começaram com os planos.— Eu que vou ensinar ele a jogar bola.— Nada disso, videogame primeiro.— Vai ser o herdeiro!Fiquei olhando aquela cena
Erick Narrando A Angel já tava sendo procurada por estelionato fazia dias. Sumida, entocada em algum buraco, fugindo de tudo e de todos, mas resolveu aparecer. E justo onde não devia. Na minha festa. No meu momento. No que era, só meu e da Melanie.Quando vi aquela cena na entrada, ela gritando, tentando invadir, eu não senti surpresa.Senti desprezo.— Tira ela daqui — falei, seco.Ela ainda tentou forçar.— Erick, você não pode fazer isso comigo!Olhei direto pra ela, sem emoção nenhuma.— Posso sim. E vou.Dei um passo mais perto, a voz baixa, mas firme.— Você escolheu o lugar errado pra fazer escândalo.Ela riu, completamente descompensada.— Isso tudo era pra ser meu!Balancei a cabeça, sem paciência.— Nunca foi.Fiz um sinal pros seguranças.— Leva pra delegacia.— NÃO! — ela gritou, se debatendo. — Você vai se arrepender!— Eu já me arrependi uma vez — respondi, virando as costas. — E aprendi.Os seguranças imobilizaram ela e arrastaram pra fora enquanto ela gritava, xingava
Melanie Narrando Chegou o dia que eu esperei, sonhei, e que quase não aconteceu. O noivado que foi adiado, reorganizado, repensado em cada detalhe, e que agora finalmente estava acontecendo do jeito que eu sempre quis.Acordei com o coração acelerado, aquela ansiedade boa misturada com um nervosismo que eu não conseguia controlar. Olhei pro teto por alguns segundos e sorri sozinha.— Hoje eu fico noiva. — sussurrei pra mim mesma.Minha mãe já tava de pé quando eu levantei, toda animada, mais nervosa do que eu, parecia até que era o noivado dela.— Anda, menina! — ela disse, apressada. — A gente tem horário no salão.Ri, pegando minha bolsa.— Calma, mãe!Fomos juntas, e só o caminho já parecia diferente. O dia tava lindo, leve, como se tudo estivesse conspirando a favor.Assim que chegamos no salão, fomos recebidas como se fôssemos importantes de verdade. Sabe aquele cuidado que a gente só vê em filme? Foi exatamente assim.— Sejam bem-vindas — disseram, sorrindo.Troquei um olhar co
Erick Narrando A notícia chegou como um soco. Não só pra mim, mas pro país inteiro.Eu tava no escritório quando meu celular começou a tocar sem parar. Mensagens, ligações, notificações, tudo ao mesmo tempo. Peguei o aparelho já imaginando que fosse mais alguma repercussão do caso da Valéria, mas quando abri a primeira manchete, fiquei em silêncio.— Renalida Barbalho surta e mata marido e amante grávida.Fiquei alguns segundos olhando pra tela, absorvendo aquilo.— Caralho. — murmurei, passando a mão no rosto.As informações começaram a chegar mais detalhadas conforme os minutos passavam. Renalida descobriu tudo, perdeu o controle e terminou da pior forma possível. Barbalho morto. Valéria também, Grávida.Mesmo sabendo de tudo que eles tinham feito, de toda armação, de toda sujeira. aquilo não deixou de pesar.— Que merda… — falei baixo, mais pra mim mesmo.Dias depois, a situação dela só piorou. Foi internada em um hospício, completamente fora de si, sem qualquer condição de respon
Valéria Narrando Assim que eu abri a porta e dei de cara com a Renalida, eu nem tive tempo de reagir.— Sua desgraçada! — ela gritou.O tapa veio com força, estalando no meu rosto. Eu perdi o equilíbrio na hora, e antes que eu pudesse me segurar, ela me empurrou com tudo.Caí no chão.E foi ali que senti. Uma pontada forte na barriga.— Aí! — gritei, levando a mão imediatamente ao ventre. — Socorro!A dor veio intensa, cortante, como se algo estivesse rasgando por dentro. Meu corpo se encolheu sozinho, e eu comecei a chorar sem conseguir controlar.— Pelo amor de Deus — minha voz saiu falha.Ouvi a porta bater com força atrás dela.Barbalho veio na minha direção, desesperado.— Valéria!Mas antes que ele chegasse até mim, Renalida puxou uma arma de dentro da bolsa.— Fica parado. — ela gritou.O som do destravar da arma ecoou pela sala.Barbalho congelou na hora, levantando as mãos devagar.— Renalida, calma — ele disse, tentando manter a voz firme.Ela estava completamente fora de s







