LOGINFallon Hayes
O soluço que me escapou foi o único resquício de que a noticia tinha me matado por dentro. Segurei o choro, o rosto vermelho e as lagrimas embaçando os meus olhos, enquanto ele parecia me segurar com mais força, talvez temendo que minha fraqueza me fizesse desmaiar.
A palidez não era pelo sangramento, muito menos a falta de comida adequada. Foi a noticia o que me devastou, mas me recusei a permanecer daquela forma, ou dar a ele o prazer e a satisfação de saber que tinha me atingido como queria.
O empurrei e pela primeira vez Killian permitiu. Dois metros de altura, era o que aquele homem tinha, então eu sabia que não teria me soltado se não fosse isso o que ele queria.
— Fallon... — A voz dele parecia um pouco mais mansa, quase suave.
Isso me deixou com tanta raiva.
Pensei em perguntar com quem, mas eu já sabia. Claro, o conselho sempre quis que fosse assim, mas o Killian que eu conhecia era orgulho demais para um casamento por contrato apenas por benefícios. Ele dizia queria que fosse por amor, e eu acreditei.
Mas o amor dele não confia.
Ele nunca teve confiança em mim, e por isso me perderia para sempre.
Arranquei o colar do meu pescoço, onde a nossa aliança era usada em segredo a anos, apenas por que só nós dois sabíamos, e porque não era oficial. — Esse casamento nunca foi real, assim como o seu amor. Não tenho razões para usar isso! — Disse, em lagrimas. Então arremessei a corrente contra ele.
A aliança dourada brilhou quando bateu em seu peito, os olhos de Killian, arregalados, só provava que ele não esperava aquela reação de mim. Era me machucar, me ter implorando aos seus pés o que pretendia, e quando não dei o que queria, ele reagiu, indo para cima de mim como se ainda pudesse exigir qualquer coisa. — Não se atreva...
Isadora apareceu de longe, com o semblante assustado de alguém que não esperava que seu marido estivesse ao meu lado. Ela ainda usava um vestido branco.
Todas as madrugadas em que ele jurou me amar e me proteger para sempre, as flores raras, os presentes e a fidelidade evaporaram no ar, assim como meu coração. A verdade era que, enquanto eu me escondia e cuidava dele nas sombras, Killian andava com Isadora a seu lado. Sempre foi assim, e eu tentava me convencer de que eram amigos, mas agora eu via a realidade, e percebia que foi ingenuidade me enganar por tanto tempo.
— Não se atreva ou o que? Vai me matar? Vai me machucar mais? Me jogar no inferno, porque, olhe ao redor, eu já estou nele! Nós estamos e...
Mas antes que eu reagisse, que gritasse como queria e dissesse o quanto ele havia destruído a nossa única chance, os alarmes soaram altos demais. E antes que qualquer um conseguisse reagir, os portões caíram. Uma quantidade enorme de mortos vivos invadiu a fortaleza. O tipo de coisa que nunca havia acontecido antes, mas estavam todos desatentos, mais preocupados com o casamento do líder.
— Vem, vou te levar de volta para a cela. — Killian disse.
Isadora estava lutando. Ao contrario de mim, ela sempre foi forte, mas, de repente, olhou para o lado e nos viu saindo. Foi o que bastou para arremessar a foice no chão e gritar por ajuda.
Killian parou de andar, soltou meu braço e encarou a esposa que gritava enquanto tentava controlar ao menos três deles. Haviam tantos, e o cheiro que carregava era de lodo e cemitério.
— Killian... — Murmurei, desesperada. Isadora sabia lutar, ela daria conta. No passado eu já a tinha visto com muito mais do que aquilo, mas ela havia feito de proposito, e eu soube quando me encarou por cima do ombro e sorriu, ao lado do Killian, que a defendeu de cada um deles sem se preocupar em olhar para mim duas vezes.
Eu, por outro lado, tinha sangue, o cheiro do bebe em risco seco nas pernas e seria rastreada. O medo me paralisou no lugar, enquanto Haven tentava me puxar.
Eram duas vidas. Duas, que ele não pensou duas vezes antes de deixar em risco.
— Corra e tranque tudo! — Foi o que disse antes de me virar as costas e correr para outra mulher.
Eu assisti o instante em que fomos cercadas, e o momento em que ele a resgatou, escolhendo a ela, não a mim. Os murmúrios se tornaram mais próximos enquanto o pavor nos consumia.
Killian quase voltou. Quase, mas Isadora torceu o pé, ou fingiu. Foi o que bastou para que ele a pegasse no colo e sumisse dali, me deixando para trás como se não importasse mais.
Eu não valia o risco, foi o que Killian concluiu.
— Fallon, acorda! Nós temos que sair vivas daqui. Eu preciso entregar os arquivos a Eden ou tudo pelo que passei não terá valido de nada!
Foi o que bastou para minhas pernas voltarem a funcionar. Haven me puxou para uma única brecha, depois de atingir um zumbi. E eu corri ao lado dela, sem ver ou ouvir nada. Mas era a nossa única chance. Meu corpo parecia fora do ar, agindo no automático, o senso de sobrevivência se perdendo junto com o meu amor.
Era um caos. Havia pessoas gritando, alguém sendo devorado, tiros para todos os lados. Por sorte, todos estavam ocupados demais em combater a horda para perceber duas mulheres cruzando um pequeno buraco na tubulação que poucas pessoas conheciam. Fui eu quem precisou guiar Haven, percebendo que seria a nossa única chance. Mas, enquanto corríamos, alguém me puxou pelo braço. Uma mulher jovem de cabelo ruivo e estatura mediana, quase como a minha. Ela arrancou a jaqueta que eu usava, me expondo ao frio. Foi ali que entendi, ela estava sendo devorada pelas pernas.
— M-me... ajuda... Não me deixa aqui...
Em lagrimas, eu a encarei e tentei puxa-la de volta, mas foi em vão. Ela não conseguiria atravessar a passagem.
— Desculpa...
— Fallon, deixe ela, já tarde demais! — Haven me arrancou das mãos da mulher e me arrastou para longe.
— Por favor... por favor, me mata!
Haven me encarou, sabendo o que seria necessário. Lamentei ter que fazer isso quando peguei a faca, precisando equilibrar duas vezes até ter firmeza. Com as mãos tremulas, e a respiração irregular, segurei o cabo, andei até ela, que me encarava com um olhar de dor e alivio pela primeira vez. E então, eu ergui a lâmina.
Fallon HayesHavia um silêncio absurdo dentro do carro depois que deixamos o caos do fogo e de um Killian vingativo como nunca vi antes. A verdade era que não sabia as razões da Dra. Haven, embora pudesse imaginar a preocupação com seu marido, estava estável, mas bem.E, quanto a mim, não esperava que, ao olhar através do fogo, encontrasse os olhos do meu ex-marido em mim, muito menos que ele cairia de joelhos e me encararia como se eu fosse um fantasma diante dos seus olhos.O tiro era para mim, assim como toda a exigência de entrega. Então, talvez eu devesse presumir que ele queria que eu tivesse sido atingida quando disparou algo que atingiu um inocente, não seu alvo. Mas a ideia me magoava a ponto de eu precisar dispensá-la antes mesmo de que se enraizasse no meu cérebro.Somente horas depois da Dr. Haven parou o carro e nos abrigamos em uma casa, em um lugar devastado que eu não conhecia.— Está anoitecendo, então é melhor ficarmos por aqui. — Apenas aceitei. — Fallon, você sabe a
Killian Voss— Era ela... — Levantei com dificuldade, agarrando o primeiro infeliz que encontrei por perto. E, segurando no meu braço direito pelo casaco tático, olhei em seus olhos. — Diga que a viu também. Fala! — implorei, alucinado para perceber que parecia louco.A garganta ardia, e, embora não soubesse distinguir se vinha da fumaça espessa ou do desespero, ignorei a dor. E ignorei porque eu precisava que alguém confirmasse. Mas tudo o que recebi foram olhares de pena. Algo que, normalmente, eu odiaria, mas que naquele momento decidi deliberadamente ignorar apenas em troca da informação que precisava.Mas que inferno, merda! Por que se recusavam a me dizer o que precisava? Ao que parecia, cada um dos vinte homens que me acompanharam naquela noite havia perdido a língua. E ainda no silêncio cortado apenas pelo barulho das chamas perigosamente perto a devorar tudo logo à frente, encarei um e outro.— Fale você! — exigi, depois Jace, meu braço direito.— Senhor, sinto muito. Eu só
Fallon Hayes— Nos deixe em paz! — Dr. Haven gritou, entrando no carro e abaixando para se proteger.O resto de vidro que nos protegia foi estilhaçado quando ele disparou mais uma vez. A voz do meu Killian nunca tinha sido daquela maneira, tão bravo com a vida. Ele parecia até mesmo triste...Era tão ruim assim perder a maldita vingança? Será que ele não entendia que eu era inocente nessa história? A única vítima de tudo. Fui eu a traída e injustiçada, e sou eu sangrando no banco de trás de um carro, deitada sobre um homem para estancar o sangue que jorra em seu abdômen.Quanto ele vai se cansar de me fazer sofrer?— Não... não vou.Um homem gritou por trás da proteção do carro ao lado: — Vá embora, cara. A gente não quer guerra.— Eu vou, assim que entregarem ela para mim. — Killian exigiu. — Vamos lá, não seja covarde. Prometo não fazer você sofrer muito...Não consegui segurar o choro. A dor na garganta era forte demais, o corpo tremia e eu sentia que, se Killian não me matasse, en
AtualmenteFallon HayesSó percebi que havia sido o cheiro de sangue ainda impregnado nas minhas roupas quando, mesmo tentando me esconder, o morto me achou atrás do sofá. Olhar para cima e dar de cara com o par de olhos brancos é aterrorizante, mas não tanto quanto perceber que há mais de um deles entrando pela porta escancarada.Em desespero, corri e entrei na primeira porta que achei. Me vendo trancada em um cômodo minúsculo do que parecia ser um banheiro não terminado. Fechei os olhos e, por reflexo, tentei puxar o cordão onde minha aliança ficava. A mesma que Killian havia me dado quando se declarou, e que foi minha companheira por anos todas as vezes em que o alarme da fortaleza soou. Agora já não havia mais anel arremessado nele na hora da raiva. Também não existia mais marido ou proteção. Somente eu e a certeza de que ninguém viria por mim.Ninguém. Mas eu tinha uma pessoa para proteger. Por isso minha mão parou na barriga por um momento, ainda tremendo mais do que tudo. Foi
Killian VossSe ela tivesse sido mordida, eu arrancaria a parte do corpo sem pensar, porra. Eu a manteria viva, e não apenas por vingança. A ideia de viver onde ela já não existia era sufocante, desesperadora de tão impensável.Corri ao lado do soldado franzino, tremulo o suficiente para eu saber que havia chegado aqui a pouco tempo e ainda não havia sido treinado como deveria. Foi só quando chegamos ao muro, onde eu sabia que havia uma abertura estratégica na parede. Local onde poucas pessoas conheciam. Fallon era uma delas. Foi que a ficha começou a cair. Ela tentou escapar de mim... Ia mesmo desaparecer, como imaginei que tivesse feito, mas que não esperava que acontecesse. Provavelmente havia se machucado no processo, considerando o rastro de sangue que se espalhava na grama.— Senhor, ela está ali... — Disse, hesitante, levantando o dedo que não parava de tremer. — É ela, não é? — questionou no instante em que a arrastavam para fora.Acompanhei o local com o olhar, sentindo que
Horas mais cedo...Killian VossIrritado com a dor que sentia no coração, levei minha esposa para casa enquanto a mente permanecia estagnada no mesmo lugar.O olhar de decepção da garota doce que jurei proteger desde que chegou aqui, sob minha guarda, era algo que jamais seria capaz de me esquecer. E sabia que, com o casamento, havia condenado a mim mesmo ao inferno. A culpa, no entanto, não foi minha, mas dela, por ter sido uma traidora de merda.Assim que coloquei Isadora no chão, ela se esqueceu de gemer de dor. Meu corpo inteiro entrou em alerta, como alguém que sabia que havia sido manipulado e odiava isso. Claro, ela tentaria tirar Fallon do meu foco, e eu nem ao menos deveria reclamar, já que foi ela quem me salvou de ter a reputação manchada.Perder o respeito nessa comunidade. Antes, no mundo civilizado onde eu existia como CEO de armas, terminar o relacionamento teria bastado. Mas aqui as leis eram diferentes. Perder respeito significava perder tudo.— Você não torceu o pé.







