INICIAR SESIÓNPOV Eva Monteiro
Chegou a hora da cerimônia. Eu lutei contra minha vontade de colocar minha dignidade na mala e levar embora comigo, mas eu queria encarar de frente. Olhar nos olhos dele e ver se ele teria coragem de olhar pra mim como quem diz que ama. Se iria ter coragem de fazer os votos e fingir afeto na frente de tantos convidados.
Tudo estava muito lindo. Demais até.
Flores brancas, trilha instrumental tocando baixinho, convidados emocionados. Tudo tão falso, tão bem decorado, tão hipócrita… que chegava a me dar enjoo.Meu sorriso? Pintado no rosto como o de uma boneca cara e quebrada.
O vestido ainda era o mesmo. Mas agora ele não me vestia. Me sufocava.
Cada passo até o altar era um lembrete: você viu. Você ouviu. Você gravou. E ainda assim, estava ali.Mas por pouco tempo.
Gustavo me esperava de pé, terno alinhado, sorriso idiota nos lábios.
Ele realmente achava que ia se safar. Que eu nunca descobriria. Que eu era só uma noiva bonita e conformada.Idiota! Ele é tão burro!
Do lado dele, Constantine, o melhor amigo. O homem designado para soltar o vídeo dos “momentos do casal” antes dos votos.
Só que agora, graças a uma pequena troca de celular feita mais cedo com ajuda do meu pai, o que ele ia soltar era a verdade nua e crua em tela cheia.
Faltavam minutos.
Meu coração batia no ritmo da trilha sonora.— Eva Monteiro e Gustavo Lacerda unirão suas vidas hoje em uma cerimônia de amor e confiança… — dizia o cerimonialista, com a voz melosa.
Confiança… Quase ri.
Observei Gustavo com nojo. O sorriso dele era um convite pra uma boa humilhação pública.
Ele coçava o queixo nervoso, aquele tique idiota que sempre aparecia quando mentia. E agora eu percebo, percebo as tantas vezes que deixei passar. Nos alertas ignorados. Nas migalhas de afeto. Nos momento em que implorei atenção enquanto sorria para a tela do celular.Eu achei que estava ficando louca, vendo coisas… Pelo menos foi isso que a Sabrina reforçava tanto na minha cabeça. Como fui ingênua quanto a ela.Minha cabeça zumbia, mas eu sabia o que estava por vir. Meu plano estava cronometrado.
Posicionada na saída do salão, estacionada discretamente: a moto que eu mesma dei a Gustavo no aniversário dele, depois de uma promoção que ralei muito pra conseguir.
Ironia é pouco.“Eu fui burra” pensei, sem dó. Burra por valorizar um homem que se envergonhava de mim nas rodas de amigos, que fazia piada com meu curso, que me dizia pra não sonhar tão alto. Burra por achar que amor era insistência.E agora, eu ia ensinar uma nova palavra pra ele:
Consequência.As luzes diminuíram.
Os convidados sorriram, achando que assistiriam a um vídeo com fotos românticas, beijos no pôr do sol, aqueles clichês de casal apaixonado. O cerimonialista anunciou: — Agora, um vídeo preparado com muito carinho pelo melhor amigo do noivo…Constantine apertou o play.
E a verdade veio à tona.
Sabrina. Gemendo. Gustavo. Tocando, rindo, sussurrando:
— “A idiota nem desconfia…”O salão explodiu em reações.
Gritos. Murmúrios indignados.
Convidados levantando.A mãe da Gustavo desmaiando.A filmagem seguiu com detalhes. Claros. Indiscutíveis.E Gustavo? Tentou correr até Constantine, mas era tarde.
— Isso é um mal entendido! — ele gritou, desesperado. — É tudo culpa da Sabrina! Ela me seduziu!
A plateia se virou. Todos encaravam ele como o rato que era.
— Você é um covarde — disse uma tia dele.
Gustavo correu até mim no altar.
— Eva, amor, você sabe que eu te amo. Isso foi um erro, uma fraqueza… A culpa é dela! Ela se jogou pra cima de mim! Você sabe como a Sabrina é!Minha garganta ardia. Meus olhos queimavam.
Mas eu não ia dar o show que ele esperava.Cheguei mais perto. Olhei bem nos olhos dele.
— Você tá certo numa coisa, Gustavo…
— A Sabrina sempre foi ótima em catar o que não presta.E então…O tapa estalou no salão. O rosto dele virou pro lado como se tivesse levado um soco do destino.— E vocês se merecem.
As vozes das pessoas que testemunharam ficaram mais altas.
“Isso mesmo, garota!” “O inferno não tem fúria como uma mulher traída!”Eu já imaginava que iriam gravar, tirar fotos, postar. A Sabrina ficaria famosa como ela queria o Gustavo ia perder a “reputação” que ele tanto se gabava. E eu.. Eu estava pronta para recomeçar.Meu pai apareceu do lado. Rosto sério. Orgulhoso. Me estendeu o braço.
— Vamos embora, filha.E fomos.
No estacionamento, tirei os saltos e montei na moto. Nunca transferida. Ainda no meu nome. Estava feliz por nunca ter tomado essa atitude.
Ele correu atrás, gritando:
— Eva! Você não pode pegar essa moto! É minha!Liguei o motor. Olhei pra ele uma última vez por cima do ombro. E acelerei.
Deixei o noivo, os olhares e a vergonha pra trás.E fui embora.
Com força.Com coragem.E com a certeza de que nenhum homem presta!POV: DominicEu não dormi.Passei a madrugada olhando para o teto, repetindo cada palavra de Eva como se pudesse encontrar uma resposta escondida entre elas.Uma transa não era um relacionamento.Eu sabia disso. O problema era que nunca precisei explicar a ninguém o que queria depois de uma noite juntos. As mulheres que passaram pela minha vida sempre entenderam os limites antes mesmo de entrarem no meu quarto.Com Eva, eu não queria limites.Queria encontrá-la na minha cama, na minha cozinha, no banco ao lado do meu carro e no lugar que ela já ocupava dentro da empresa. Queria discutir com ela antes do café e ouvir sua voz me desafiando até quando eu estivesse errado.Principalmente quando eu estivesse errado.Às sete da manhã, desisti de fingir que dormiria e fui para o escritório.Eva chegou às oito e quinze.Eu soube porque reconheceria o som dos saltos dela mesmo no meio de um incêndio.Esperei.Ela não entrou na minha sala.Às nove, mandei uma mensagem.“Precisamos conversar.”E
POV: Eva MonteiroAssim que abri a porta, o ar frio do salão bateu no meu rosto.Victoria e Isadora estavam nos esperando a alguns metros de distância. Não perto o suficiente para terem ouvido alguma coisa. Mas perto o bastante para perceberem que meu batom não estava igual, que o cabelo tinha perdido a perfeição de Cléo e que Dominic ainda segurava minha mão como se pretendesse impedir que eu desaparecesse.Eu devia estar com vergonha.Só conseguia sentir tudo ao mesmo tempo.O corpo ainda tremia por causa dele. A cabeça tentava alcançar o que tinha acabado de acontecer. Meu primeiro orgasmo de verdade. Minha primeira vez com Dominic. Minha primeira vez depois de Gustavo.E o desgraçado tinha transformado o momento em cobrança de contrato antes mesmo de a minha respiração voltar ao normal.Soberbo demais. Mesmo para ele.— Finalmente — Victoria disse quando nos aproximamos. O olhar dela desceu até nossas mãos entrelaçadas. — Você desaparece no meio da inauguração da própria empresa e
POV: DominicFechei a distância entre nós antes que Eva encontrasse outra pergunta capaz de me fazer recuar.Minha boca tomou a dela.Por um segundo, ela ficou imóvel. Então seus dedos agarraram a lapela do meu paletó e me puxaram com força, acabando com qualquer dúvida que eu pudesse ter. O beijo deixou de ser uma confissão e virou uma disputa. A língua dela encontrou a minha, provocadora, enquanto eu apertava sua cintura e sentia o cetim deslizar sob meus dedos.— Dominic? — Isadora bateu novamente. — Você me ouviu?Afastei minha boca apenas o suficiente para responder.— Vá embora, Isadora.Eva abriu os olhos.— Você acabou de mandar a embaixadora da sua campanha embora.— Tenho outras prioridades.— Sua mãe está esperando.— Ela vai sobreviver alguns minutos.Voltei a beijá-la, mas Eva colocou a mão no meu peito.— O que você está fazendo?— O que eu deveria ter feito desde o começo, em vez de procurar outro homem para você.— Isso não é uma resposta.— Então aqui está: se quiser
POV: Eva MonteiroDurante três segundos, o salão inteiro ficou em silêncio.Depois, o inferno abriu a boca.— Senhor Castellan, há quanto tempo vocês estão juntos?— Eva, o relacionamento começou antes ou depois de você se tornar assistente dele?— Isso é uma confirmação oficial?As perguntas vinham de todos os lados. Flashes estouravam diante dos meus olhos e a mão de Dominic continuava presa à minha, como se ele tivesse medo de que eu fugisse.O que não era uma preocupação absurda. Eu tinha experiência no assunto.— Não haverá perguntas sobre a minha vida pessoal esta noite — Dominic respondeu, recuperando a máscara fria. — Estamos aqui para celebrar a Holding.A resposta não serviu para nada. Eles continuaram perguntando.Olhei para Victoria. Ela não piscava. Isadora mantinha o sorriso, mas apertava a haste da taça com tanta força que eu esperava vê-la quebrar.Puxei Dominic pela mão.— Venha comigo.— Eva...— Agora.Atravessei o salão sem esperar autorização. Encontrei um corredo
Capítulo 43POV: Eva MonteiroO sábado chegou com a delicadeza de um caminhão sem freio.Às sete da noite, eu estava no meio da sala de Camila, usando o Midnight Sky, enquanto Cléo circulava ao meu redor com alfinetes na boca. O cetim azul, quase negro, deslizava pelo meu corpo e deixava minhas costas expostas até um ponto que deveria ser ilegal em pelo menos três países.— Para de prender a respiração — Cléo ordenou, puxando o tecido na minha cintura. — O vestido foi feito para o seu corpo. Não para a versão desmaiada dele.— Eu não estou prendendo a respiração.— Está sim — Camila disse, sentada no sofá, já pronta em um vestido dourado que fazia a pele dela brilhar. — Desde que acordou.Revirei os olhos, mas não discuti.A inauguração da Holding não era só uma festa. Victoria, Isadora e a avó de Dominic estariam lá. E, em algum lugar entre champanhes caros e sorrisos falsos, Dominic talvez cumprisse a promessa de me apresentar alguém.Só pensar nisso me dava uma sensação azeda.— Se
POV DominicA porta se fechou, mas o eco da presença dela ainda habitava a sala, um fantasma sensual que envenena o ar que eu respirava. O silêncio, outrora minha aliado, agora era opressivo. Fiquei de pé, minhas mãos apoiadas na fria superfície de mármore da escrivaninha, tentando encontrar um ponto de equilíbrio que parecia ter fugido de mim.Era um vazio estranho, uma sensação de ausência que se misturava com uma negação feroz. A moralidade básica de um homem que não deveria se apaixonar pela sua própria assistente.







