MasukCapítulo 59: O ponto de vista de RafeA luz da casa apaga-se às dez e quarenta e sete; reparo no horário sem querer. Há onze dias que reparo nas horas sem querer... quando a luz do quarto dela se acende, quando se apaga, quando a luz da cozinha permanece acesa depois da meia-noite — o que significa que ela não está a dormir —, quando a luz de presença em forma de lua do Landon aparece na janela — o que significa que ele também não está a dormir.Esta noite, a luz apaga-se às dez e quarenta e sete e permanece apagada; isso significa que ela está a tentar.Fico parado entre as árvores, a ouvir a floresta e a tentar não contar as horas.*****À meia-noite, a porta da frente abre-se e eu fico imóvel... não por alarme; conheço os seus passos, o som da porta e a qualidade específica do ruído que indica que está a sair para a varanda por vontade própria, e não a ser empurrada para lá por algo exterior. Ela já o fez duas
Capítulo 60: O ponto de vista de ElaraQuatorze dias; já passaram 14 dias. Sei isto porque deixei de contar no onze e depois recomecei no treze, pois deixar de contar não me fez deixar de saber.Esta manhã pareceu-me normal e comum, exatamente como todas as outras desde que a fotografia chegou: preparo o pequeno-almoço do Landon, verifico as alças da mochila dele — que ele ainda não ajusta bem —, tomo o meu chá junto à janela da cozinha e observo o Forte Landon sob a luz do início do dia. A ponte de corda balança ligeiramente com o vento. O caixote de observação está virado para as árvores. O painel do tejadilho que Ronan instalou continua perfeitamente nivelado.Catorze dias, e o forte ainda lá está.Não sei por que razão continuo a reparar nisso. É uma estrutura de madeira e corda num quintal; não vai a lado nenhum. Mas reparo nisso todas as manhãs, mesmo assim — da forma como se repara em algo que permanece quando,
Capítulo 58: O ponto de vista de Ryker— Ela ainda não mandou mensagem — diz Ronan.— Eu sei — digo.— Onze dias.— Eu sei, Ronan.Atira-se para o sofá, tapa o rosto com o braço e não diz mais nada; é assim que sei que ele está pior do que aparenta. O estado natural de Ronan é falar, e, quando as palavras acabam, é porque algo de real está a acontecer por baixo da superfície.Rafe está à janela. Tem passado ali a maior parte da manhã. Isto também é típico do Rafe — mas a natureza disto tem mudado ultimamente. Menos vigilância, mais espera. A diferença é subtil, mas conheço-o há vinte e oito anos e sei reconhecê-la.Abro o meu portátil. Fecho-o. Abro-o novamente.— A resposta do Conselho chegou hoje de manhã — digo. — Um reconhecimento preliminar. Sinalizaram os pontos referentes a colocar a criança em risco para uma análise acelerada. Quatro semanas, talvez três.
Capítulo 57: O ponto de vista de ElaraO processo clínico nas minhas mãos pertence a um doente que já atendi hoje.Apercebo-me disso quando já vou a meio da leitura: as notas com a minha própria letra, o plano de tratamento que registei há duas horas... depois, coloco-o sobre o balcão, apoio as duas mãos espalmadas na superfície e respiro fundo.Esta é a terceira vez esta semana que recebo o registo de saúde errado."Elara." A voz de Marcus vem da porta, muito baixa e alarmada; tem-me observado toda a semana com o cuidado específico de quem sabe que não deve fazer comentários directos. "Tem um paciente no quarto três.""Eu sei." Pego no prontuário correto. "Obrigada."Afasta-se para me deixar passar e não diz mais nada — o que é a atitude mais útil que poderia tomar e exatamente o que Marcus faz quando avalia a situação corretamente… dá-me o que preciso sem que eu tenha de pedir.Vou pa
Capítulo 56: O ponto de vista de RafeA luz da cozinha acende-se às onze e catorze.Não é a Elara... é a Mira. Reconheço pelo movimento, pelo ritmo da silhueta atrás da cortina. O Elara move-se mais rápido nas cozinhas, com mais determinação. Mira move-se como alguém que passou tempo suficiente em todas as cozinhas onde já esteve para saber onde fica tudo sem ter de olhar.Aprendi a ler a casa no escuro da mesma forma que aprendi a lê-la à luz do dia — com uma precisão que reconheço como devoção ou obsessão, e decidi que a diferença não importa agora.Onze e vinte e três. A porta dos fundos abre-se.Mira pisa a varanda.Tem vestido o seu casaco de malha grosso e roupa de dormir, com duas chávenas nas mãos, olhando para a linha das árvores com a expressão de quem está acordada há algum tempo, ocupada com coisas que não são dormir.Ela ergue uma das chávenas em direção às árvores.
Capítulo 55: O ponto de vista de Elara— Mãe. Deixou-o cair outra vez.Olho para baixo. A ficha está no chão. Não me lembro de a ter deixado cair.— Eu levo. — Agacho-me, pego no papel e levanto-me; Penda observa-me com a expressão que tem mantido durante toda a semana — não a de curiosidade de antes, mas algo mais cauteloso, o olhar de quem decidiu não perguntar por achar que não iria receber uma resposta sincera.Ela tem razão quanto a isso.— Vá fazer a sua pausa mais cedo — diz ela. — Tapo os próximos vinte minutos.— Estou bem...— Elara. — A voz dela é gentil, mas firme. — Vá sentar-se um pouco. Por favor.******A sala de descanso está vazia; Sento-me à secretária, apoio os cotovelos na superfície, pressiono as mãos contra o rosto e respiro — lentamente, da mesma forma que respirava nos primeiros meses em Silverveil, quando a doença da rejeição surgia







