LOGINDepois de tomar apenas algumas colheradas do café da manhã, Mia caminhou pelos corredores da Mansão Alfa.
Os guardas faziam uma breve reverência sempre que ela passava. Ela ainda não conseguia se acostumar. Até poucas semanas atrás… Era apenas uma sem-lua. A garota de quem muitos sentiam pena. Agora, os mesmos guardas abaixavam a cabeça quando ela passava. As portas dos aposentos reais permaneciam abertas. Antes mesmo que pudesse anunciar sua presença, uma voz suave a recebeu. — Mia. Elowin sorriu assim que a viu. Ou pelo menos tentou. Caminhou até ela sem qualquer cerimônia. Como fazia desde que Mia ainda era criança. Segurou delicadamente seu rosto entre as mãos. — Você não dormiu direito outra vez. Mia abaixou os olhos. Não havia como esconder. Elowin abriu os braços. Mia aceitou o abraço imediatamente. Era o abraço de uma mãe. Quente. Seguro. Exatamente como ela precisava. Por alguns segundos, permitiu-se apenas permanecer ali. — Vai ficar tudo bem. A voz de Elowin saiu baixa. — Eu sei que agora parece impossível… mas vai. Mia respirou fundo. — Não vai. Elowin afastou-se apenas o suficiente para olhá-la. — Ian ama você. Sempre amou. Muito antes da profecia. Muito antes de descobrir quem você realmente era. Mia sorriu sem qualquer alegria. — Talvez fosse verdade antes. Agora… Ele só está seguindo em frente porque não tem escolha. Elowin franziu levemente a testa. — O que quer dizer? — A cerimônia de hoje. Mia desviou o olhar. — Ian só vai se casar comigo porque eu sou a Loba Branca. Porque o futuro Rei Alfa precisa estar ao lado da Luna da Profecia. É uma obrigação. Não uma escolha. Elowin permaneceu em silêncio. Havia tristeza em seu olhar. Mas também uma serenidade que Mia jamais conseguia compreender. Ela apenas segurou sua mão. — Conheço meu filho. Mais do que qualquer outra pessoa. E também conheço o jeito como ele olha para você. Mia não respondeu. Não conseguia acreditar naquelas palavras. Não depois de tudo o que acontecera. Elowin acariciou seus cabelos. — Entre. Ele está esperando por você. Mia assentiu. Respirou fundo. E entrou no quarto. O Rei Alfa estava próximo à janela. A cadeira de rodas permanecia voltada para os jardins. Ao ouvir seus passos, virou-se lentamente. Assim que a viu, abriu um sorriso. — Mia. Ela sorriu de volta. Aproximou-se devagar. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Theron apoiou as mãos nos braços da cadeira e tentou se levantar. — Não. Mia chegou até ele rapidamente. Segurou seus ombros. — Por favor… Não faça isso. Theron soltou uma breve risada. — Eu deveria fazer uma reverência diante da Luna da Profecia. Os olhos de Mia marejaram imediatamente. — Nunca. Ele segurou sua mão. — Ah, pequena criança… Quem diria? Você esteve debaixo dos nossos narizes esse tempo todo. Mesmo quando todos acreditavam que você era apenas uma sem-lua… Eu sempre enxerguei algo diferente em você. Algo especial. Mia baixou os olhos. Theron sorriu. — E hoje… Você vai se casar com meu filho. Tenho certeza de que serão muito felizes. O coração dela apertou. Ele não sabia. Não fazia ideia da rejeição. Nem da distância que Ian mantinha desde aquele dia. Continuava acreditando que aquele casamento era a realização do amor dos dois. Theron apertou levemente sua mão. — Fiz uma promessa ao seu pai. Os olhos de Mia voltaram para ele. — Diante da pira funerária dele. Sua voz carregava a firmeza de quem jamais quebraria uma palavra. — Prometi que cuidaria de você, Elara e Lucca como se fossem meus próprios filhos. O olhar do Rei Alfa caiu por um instante sobre a cadeira de rodas. Um sorriso cansado surgiu em seus lábios. — E é exatamente isso que vou fazer. Mesmo preso aqui. O coração de Mia apertou. Ela acompanhou o olhar dele. Até poucas semanas atrás, era impossível imaginar Theron limitado daquela forma. O homem que liderava todas as alcateias agora precisava de uma cadeira de rodas para dar poucos passos dentro do próprio quarto. Uma pergunta atravessou sua mente antes que pudesse impedi-la. Será que, se tivesse contado a verdade antes… Tudo teria sido diferente? Ela respirou fundo. — Me desculpe… Theron voltou a encará-la. — Pelo quê? — Por não ter contado antes. Por esconder de vocês quem eu realmente era. Os olhos do Rei Alfa se encheram de ternura. Ele sorriu do mesmo jeito que Darian costumava sorrir. Calmo. Acolhedor. — Mia… Você não tem absolutamente nada pelo que pedir desculpas. Há segredos que carregamos porque precisamos. E outros… Porque prometemos protegê-los. Se sua mãe pediu que você guardasse esse segredo… Tenho certeza de que tinha um motivo. Ele apertou sua mão mais uma vez. — Nunca carregue uma culpa que não pertence a você. Mia sentiu os olhos arderem. Pela primeira vez desde a morte de Darian… Alguém dividia o peso que ela insistia em carregar sozinha. Ela respirou fundo. Sem perceber, os ombros pareciam um pouco menos pesados. Como se aquelas palavras tivessem alcançado um lugar que ela já acreditava perdido. E, por um breve instante… Mia voltou a acreditar que ainda poderia encontrar um lar. Mesmo que nunca mais fosse o mesmo.Os dias seguintes de regressão foram diferentes. As primeiras lembranças haviam mostrado o amor. A infância. A amizade. A escolha. O casamento. Os sete anos em que Ethan e Serina haviam construído uma vida juntos. Mas, depois daquela sequência de memórias felizes, alguma coisa começou a mudar. E quanto mais as regressões avançavam, menos felizes elas se tornavam. No começo, eram apenas pequenos detalhes. Uma discussão. Um olhar. Um silêncio. Nada que parecesse importante. Mas, conforme os dias passavam, aqueles pequenos detalhes começaram a se repetir. Ethan parecia mais distante. Serina, mais insegura. Às vezes, os dois discutiam por coisas que, para Mia, pareciam insignificantes. Em uma das memórias, Serina perguntou por que Ethan havia demorado tanto para voltar. Ele respondeu que tinha se ocupado com assuntos da alcateia. Ela acreditou. Mas não parecia completamente convencida. Em outra, Ethan chegou aos aposentos e encontrou Serina conv
A próxima regressão começou de maneira diferente. Não havia tensão. Não havia medo. Não havia aquela sensação pesada que costumava acompanhar as memórias anteriores. Dessa vez, quando a escuridão se dissipou, Mia encontrou luz. Muita luz. O som de risadas chegou primeiro. Depois, música. Uma melodia antiga, tocada por instrumentos que ela não reconhecia, mas que parecia familiar de alguma maneira. Quando a visão finalmente se formou, ela viu Serina. Mais velha. Ainda jovem, mas diferente da garota que conhecera nas primeiras memórias. Ela estava sorrindo. Ethan estava diante dela. Os dois dançavam. Não havia ninguém ao redor. Apenas os dois. Ele segurava uma de suas mãos e mantinha a outra em sua cintura, conduzindo-a pelos passos de uma dança antiga. Serina ria quando errava. Ethan ria dela. Então ela pisava no pé dele de propósito. Ele fingia indignação. Ela gargalhava. A memória mudou. Serina e Ethan caminhavam lado a lado por uma floresta. Ele carregava a
A escuridão voltou a envolvê-los. Dessa vez, Mia já sabia que não seria uma lembrança fácil. Ela sentia isso na forma como o peito apertava antes mesmo de a visão se formar completamente. O ancião havia explicado que as memórias não vinham necessariamente em ordem. Algumas mostravam momentos felizes. Outras revelavam acontecimentos que haviam mudado tudo. E aquela parecia ser uma dessas. A primeira coisa que Mia ouviu foi uma voz. — Desde quando? Ela reconheceu imediatamente. Isaac. A visão começou a tomar forma. Uma sala simples. Paredes de pedra. Uma janela aberta para a noite. Ethan estava de pé próximo à mesa, enquanto Serina permanecia ao lado dele. Os dois pareciam tensos. Isaac estava diante deles. Os braços cruzados. O olhar fixo nos dois. — Desde quando vocês estão juntos? Serina abaixou os olhos. Ethan respirou fundo. — Isaac… — Não. Isaac levantou uma mão. — Eu quero saber. Ethan permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então respondeu: — Há
Quando a regressão terminou, Mia demorou alguns segundos para abrir os olhos. Ainda conseguia sentir. A emoção. A felicidade. O amor que havia atravessado aquela memória como algo quase físico. Quando finalmente abriu os olhos, encontrou Ian olhando para ela. Os dois permaneceram em silêncio. Nenhum deles parecia saber exatamente o que dizer. Então Mia sorriu. Um sorriso pequeno, emocionado. — Eles se escolheram. Ian apertou sua mão. — Se escolheram. A palavra pareceu ganhar um peso diferente entre eles. Escolha. Serina poderia ter esperado que a Lua decidisse seu destino. Poderia ter desejado um vínculo que confirmasse aquilo que sentia. Mas não. Quando recebeu a liberdade de escolher, escolheu Ethan. Porque o amava. Porque queria estar com ele. Porque, naquele momento, não havia dúvida alguma em seu coração. Mia sentiu os olhos arderem. — Ela realmente amava ele. Ian se aproximou. — Amava. — E ele também amava ela. — Sim. Mia soltou uma risada baixa, ain
O rosto de Ethan perdeu um pouco da cor. Serina sentiu o próprio coração afundar. Então seus olhos se moveram. Isaac. Ela olhou para ele. Por um instante, o silêncio pareceu durar uma eternidade. Mas novamente… Nada. Nenhum vínculo. Nenhuma resposta da loba. Serina respirou fundo. E, inesperadamente, sentiu alívio. Não havia vínculo com Isaac. Para ela, aquilo apenas confirmava aquilo que sempre acreditara. Eles eram amigos. Família. Irmãos de coração. Mas Isaac continuava olhando para ela. E seu olhar mudou no instante em que percebeu que também não havia vínculo entre os dois. Por alguns segundos, ele pareceu perdido. Serina não percebeu aquilo. Para ela, Isaac apenas parecia surpreso. Talvez até confuso. E foi justamente por isso que seu primeiro pensamento foi falar com ele. Ela não queria que o amigo interpretasse sua escolha de outra maneira. Não queria feri-lo. O ancião observava tudo com atenção. Então sua expressão mudou.
A escuridão da regressão começou a se desfazer lentamente. A cachoeira desapareceu. O som da água foi ficando distante até desaparecer por completo. Mia sentiu o próprio corpo novamente. A respiração. O peso da mão de Ian entrelaçada à sua. Quando abriu os olhos, encontrou o teto da sala de regressão. Ian também despertou ao seu lado. O ancião estava diante do círculo, mas, dessa vez, sua expressão era diferente. Mais séria. — Chega por hoje. Mia ainda estava tentando recuperar o fôlego. — Não. O ancião a encarou. — Mia… — Eu quero continuar. Ian virou o rosto para ela. — Você tem certeza? Ela assentiu. — Tenho. O ancião permaneceu em silêncio por alguns segundos. — As memórias que estão vindo agora podem ser mais intensas. — Eu sei. Mia apertou a mão de Ian. — Quero saber. O ancião finalmente assentiu. — Então vamos continuar. As runas voltaram a brilhar. As chamas das velas se ergueram. E a escuridão os envolveu novamente.







