LOGINOs dias seguintes de regressão foram diferentes. As primeiras lembranças haviam mostrado o amor. A infância. A amizade. A escolha. O casamento. Os sete anos em que Ethan e Serina haviam construído uma vida juntos. Mas, depois daquela sequência de memórias felizes, alguma coisa começou a mudar. E quanto mais as regressões avançavam, menos felizes elas se tornavam. No começo, eram apenas pequenos detalhes. Uma discussão. Um olhar. Um silêncio. Nada que parecesse importante. Mas, conforme os dias passavam, aqueles pequenos detalhes começaram a se repetir. Ethan parecia mais distante. Serina, mais insegura. Às vezes, os dois discutiam por coisas que, para Mia, pareciam insignificantes. Em uma das memórias, Serina perguntou por que Ethan havia demorado tanto para voltar. Ele respondeu que tinha se ocupado com assuntos da alcateia. Ela acreditou. Mas não parecia completamente convencida. Em outra, Ethan chegou aos aposentos e encontrou Serina conv
A próxima regressão começou de maneira diferente. Não havia tensão. Não havia medo. Não havia aquela sensação pesada que costumava acompanhar as memórias anteriores. Dessa vez, quando a escuridão se dissipou, Mia encontrou luz. Muita luz. O som de risadas chegou primeiro. Depois, música. Uma melodia antiga, tocada por instrumentos que ela não reconhecia, mas que parecia familiar de alguma maneira. Quando a visão finalmente se formou, ela viu Serina. Mais velha. Ainda jovem, mas diferente da garota que conhecera nas primeiras memórias. Ela estava sorrindo. Ethan estava diante dela. Os dois dançavam. Não havia ninguém ao redor. Apenas os dois. Ele segurava uma de suas mãos e mantinha a outra em sua cintura, conduzindo-a pelos passos de uma dança antiga. Serina ria quando errava. Ethan ria dela. Então ela pisava no pé dele de propósito. Ele fingia indignação. Ela gargalhava. A memória mudou. Serina e Ethan caminhavam lado a lado por uma floresta. Ele carregava a
A escuridão voltou a envolvê-los. Dessa vez, Mia já sabia que não seria uma lembrança fácil. Ela sentia isso na forma como o peito apertava antes mesmo de a visão se formar completamente. O ancião havia explicado que as memórias não vinham necessariamente em ordem. Algumas mostravam momentos felizes. Outras revelavam acontecimentos que haviam mudado tudo. E aquela parecia ser uma dessas. A primeira coisa que Mia ouviu foi uma voz. — Desde quando? Ela reconheceu imediatamente. Isaac. A visão começou a tomar forma. Uma sala simples. Paredes de pedra. Uma janela aberta para a noite. Ethan estava de pé próximo à mesa, enquanto Serina permanecia ao lado dele. Os dois pareciam tensos. Isaac estava diante deles. Os braços cruzados. O olhar fixo nos dois. — Desde quando vocês estão juntos? Serina abaixou os olhos. Ethan respirou fundo. — Isaac… — Não. Isaac levantou uma mão. — Eu quero saber. Ethan permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então respondeu: — Há
Quando a regressão terminou, Mia demorou alguns segundos para abrir os olhos. Ainda conseguia sentir. A emoção. A felicidade. O amor que havia atravessado aquela memória como algo quase físico. Quando finalmente abriu os olhos, encontrou Ian olhando para ela. Os dois permaneceram em silêncio. Nenhum deles parecia saber exatamente o que dizer. Então Mia sorriu. Um sorriso pequeno, emocionado. — Eles se escolheram. Ian apertou sua mão. — Se escolheram. A palavra pareceu ganhar um peso diferente entre eles. Escolha. Serina poderia ter esperado que a Lua decidisse seu destino. Poderia ter desejado um vínculo que confirmasse aquilo que sentia. Mas não. Quando recebeu a liberdade de escolher, escolheu Ethan. Porque o amava. Porque queria estar com ele. Porque, naquele momento, não havia dúvida alguma em seu coração. Mia sentiu os olhos arderem. — Ela realmente amava ele. Ian se aproximou. — Amava. — E ele também amava ela. — Sim. Mia soltou uma risada baixa, ain
O rosto de Ethan perdeu um pouco da cor. Serina sentiu o próprio coração afundar. Então seus olhos se moveram. Isaac. Ela olhou para ele. Por um instante, o silêncio pareceu durar uma eternidade. Mas novamente… Nada. Nenhum vínculo. Nenhuma resposta da loba. Serina respirou fundo. E, inesperadamente, sentiu alívio. Não havia vínculo com Isaac. Para ela, aquilo apenas confirmava aquilo que sempre acreditara. Eles eram amigos. Família. Irmãos de coração. Mas Isaac continuava olhando para ela. E seu olhar mudou no instante em que percebeu que também não havia vínculo entre os dois. Por alguns segundos, ele pareceu perdido. Serina não percebeu aquilo. Para ela, Isaac apenas parecia surpreso. Talvez até confuso. E foi justamente por isso que seu primeiro pensamento foi falar com ele. Ela não queria que o amigo interpretasse sua escolha de outra maneira. Não queria feri-lo. O ancião observava tudo com atenção. Então sua expressão mudou.
A escuridão da regressão começou a se desfazer lentamente. A cachoeira desapareceu. O som da água foi ficando distante até desaparecer por completo. Mia sentiu o próprio corpo novamente. A respiração. O peso da mão de Ian entrelaçada à sua. Quando abriu os olhos, encontrou o teto da sala de regressão. Ian também despertou ao seu lado. O ancião estava diante do círculo, mas, dessa vez, sua expressão era diferente. Mais séria. — Chega por hoje. Mia ainda estava tentando recuperar o fôlego. — Não. O ancião a encarou. — Mia… — Eu quero continuar. Ian virou o rosto para ela. — Você tem certeza? Ela assentiu. — Tenho. O ancião permaneceu em silêncio por alguns segundos. — As memórias que estão vindo agora podem ser mais intensas. — Eu sei. Mia apertou a mão de Ian. — Quero saber. O ancião finalmente assentiu. — Então vamos continuar. As runas voltaram a brilhar. As chamas das velas se ergueram. E a escuridão os envolveu novamente.







