FAZER LOGINA sala de reuniões do advogado era pequena e austera. Nada de luxos, nada de desvios. Apenas uma mesa de madeira gasta, estantes abarrotadas de livros de direito, e um homem de cabelos brancos e olhos cansados que ouviu a história de Isla sem interromper.O Dr. Almeida era amigo de Clara — mais um dos seus contactos misteriosos. Fora procurador durante trinta anos antes de se reformar e dedicar-se a casos pro bono. "Contra gente como o teu pai", explicou ele."E então?", perguntou Isla depois de lhe entregar a pen. "É suficiente?"Almeida enfiou a pen no computador e passou longos minutos a ler. O silêncio era ensurdecedor.Finalmente, tirou os óculos e esfregou os olhos."É suficiente para abrir uma investigação. Para congelar contas. Para deter preventivamente." Ele fez uma pausa. "Mas não é suficiente para o manter preso. O teu pai tem advogados. Tem contactos. Tem um império.""Então não serve de nada.""Não disse isso. Serve para comprar tempo. Serve para o enfraquecer. E serve p
Três dias se passaram sem notícias de Viktor. Três dias de silêncio tenso, de olhares para a porta cada vez que a campainha tilintava, de dormir com um olho aberto.Kai mantinha a padaria a funcionar, mas a rotina estava diferente. Havia farinha no balcão e medo no ar. Os clientes habituais não notavam nada, mas Isla via tudo — a forma como Kai verificava a rua antes de abrir, o taco de baseball que agora estava encostado atrás do balcão, a nova fechadura na porta das traseiras."Estás a transformar a padaria num bunker", disse ela naquela manhã, enquanto bebia o café."Estou a ser prudente.""Estás a ser paranóico.""São coisas diferentes." Ele sorriu, mas o sorriso não chegou aos olhos.A campainha tilintou. Ambos se viraram, tensos.Era Clara. Mas não vinha sozinha. Atrás dela, um homem de cabelos escuros com entradas prematuras, óculos de aro fino, e um ar de quem passara demasiadas noites em claro."Bom dia", disse Clara, como se aparecer com um estranho fosse a coisa mais normal
A padaria fechou mais cedo nesse dia.Kai baixou as persianas com movimentos calmos, mas Isla via a tensão nos seus ombros. Clara partira logo após a mensagem, dizendo que tinha "assuntos a tratar". O quadro das papoilas estava agora pendurado na parede da padaria, as flores vermelhas a contrastarem com o ambiente rústico."Devias ir embora", disse Isla, pela terceira vez. "Devias desaparecer por uns dias. Eu enfrento-o sozinha.""Já falámos sobre isso.""Kai...""Não." Ele virou-se para ela, os olhos duros mas não frios. "Não vou fugir. E tu também não.""Não é fuga. É estratégia.""É fuga. E eu não fujo."Isla passou as mãos pelo cabelo, frustrada. "Tu não sabes do que ele é capaz. Eu vi o que ele fez a pessoas que o tentaram enfrentar. Não são só ameaças. Ele arruína vidas. Ele compra pessoas. Ele...""Ele o quê? Ele é um homem. Um velho com dinheiro, como tu disseste." Kai aproximou-se. "Eu não tenho medo de velhos com dinheiro. Tenho medo de perder quem amo. Isso sim."A palavra
Na manhã seguinte, Isla apareceu na padaria.Era a primeira vez que ia lá desde a noite em que fugira. A fachada modesta, o toldo verde, a montra onde Kai expunha os pães como obras de arte. O cheiro de fermento e açúcar queimado que saía pela porta entreaberta e envolvia a rua como um abraço.Ela parou na entrada. O coração martelava."Vais ficar aí parada o dia todo, ou vais entrar?" A voz de Kai veio do interior, abafada mas divertida.Isla empurrou a porta. A campainha tilintou.Kai estava atrás do balcão, as mãos cobertas de farinha, o avental manchado. Parecia exausto — provavelmente não dormira —, mas os olhos brilhavam quando a viu."Bom dia", disse ele, como se ela aparecer ali fosse a coisa mais natural do mundo."Bom dia.""Há croissants acabados de sair do forno. E café. Muito café."Ela sentou-se a uma das mesas pequenas, as mãos a tremerem ligeiramente. Kai trouxe-lhe um prato com um croissant dourado e uma caneca de café preto."Não pus açúcar. Lembrei-me que não gostas
O passado de Isla não era uma história bonita.Começava num bosque. Sempre começava num bosque. Ela tinha oito anos, um vestido amarelo que a mãe cosera à mão, e um pai que ainda não se tinha transformado no monstro que o dinheiro criaria. Nesse bosque, ela apanhava flores silvestres. Margaridas. Papoilas."O meu pai era um homem bom", disse Isla, sentada no chão da cave da galeria, as costas apoiadas na parede fria. Kai estava ao seu lado, não a tocava, apenas ouvia. "Antes do dinheiro. Antes da empresa. Antes de tudo."Ela contou-lhe como o pai herdara uma fortuna inesperada de um tio distante. Como o dinheiro o transformara lentamente, como uma doença. Primeiro, vieram os carros. Depois, as festas. Depois, as mulheres. Depois, a crueldade."A minha mãe morreu quando eu tinha doze anos. Não foi o dinheiro que a matou. Foi a tristeza. Ele destruiu-a aos poucos, com silêncios, com ausências, com desprezos. E quando ela se foi, eu fiquei sozinha com ele."Kai não disse nada. Mas a sua
Clara aproximou-se lentamente, os sapatos de sola macia quase não fazendo som no chão de madeira. O cabelo prateado brilhava sob as luzes da galeria, e o seu sorriso enigmático permanecia no lugar."Bem", disse ela, a voz neutra como a de uma jurada num tribunal. "Isso foi bastante mais interessante do que catalogar gravuras."Isla endireitou-se. "Desculpe, Clara. Eu não queria trazer problemas para a galeria.""Problemas?" Clara arqueou uma sobrancelha. "Minha querida, eu vendo arte. A arte é feita de problemas. De paixão. De fogo." Ela olhou para o quadro das papoilas. "Aquele ali chama-se 'Ignis'. Fogo. Sabem porquê?"Kai e Isla ficaram em silêncio."Porque o artista o pintou depois de perder tudo. A casa. A família. A sanidade. Durante um ano, ele não conseguiu pintar nada. Estava bloqueado. Destruído. E então, uma noite, ele pegou na tinta mais vermelha que encontrou e despejou-a toda. Sem pensar. Sem planear. Apenas sentindo." Clara virou-se para eles. "O fogo não destrói apenas







