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Capítulo 2

Autor: Aetheria
De volta ao meu quarto, comecei a arrumar minhas coisas.

Na verdade, não havia o que levar. Nada podia ser levado para as Terras Gélidas. Apenas queria manter as mãos ocupadas, para não parecer tão lamentável.

Naquela noite, não preguei os olhos.

Ao amanhecer, me preparei para visitar o lago onde repousavam as cinzas de minha mãe — uma última despedida.

Mal havia saído e vi Lucien parado à porta.

Seu semblante parecia confuso. Segurava uma garrafa em uma das mãos e tinha o aspecto de quem havia passado a noite inteira bebendo.

Assim que me viu, agarrou-me pela mão e me interrogou mais uma vez:

— Sylvia, por que está forçando Selina a aceitar esse casamento por conveniência?

— A saúde dela é frágil demais! Não há como suportar o clima brutal das Terras Gélidas!

— Como você pode assistir de braços cruzados enquanto sua própria irmã caminha para a morte?

Seus olhos estavam vermelhos, e ele exalava cheiro de bebida e fumo. O lobo dele parecia gemer de agonia.

— Sempre a maltratou desde a infância, e agora não se importa nem um pouco com a vida dela?

Fiquei paralisada, sem saber reagir. Que direito ele tinha de me dizer tais coisas?

Senti uma pontada amarga no peito e as lágrimas rolaram sem que eu pudesse conter.

Ao ver minha dor, pareceu recuperar um pouco de si e recuou às pressas.

Fechei os olhos enquanto as lágrimas continuavam a cair, lutando para acalmar o desespero que tomava conta de meu espírito.

Um lampejo de arrependimento cruzou seu olhar. Estendeu a mão, como se fosse me amparar:

— Me perdoe, Sylvia... Bebi demais.

Sacudi sua mão de leve e falei com voz firme:

— Lucien...

"Eu não preciso mais de você."

Mas antes que eu pudesse terminar, um uivo ecoou ao longe.

— Lucien, depressa! Selina se feriu com uma adaga de prata!

Paralisada de novo, vi as lembranças de minha vida anterior voltarem como uma avalanche.

Sempre era assim.

Ele até se importava comigo: me consolava quando eu estava triste, trazia-me presentes com carinho, atendia a cada um de meus desejos.

Mas bastava algo acontecer com Selina e ele me abandonava de imediato.

Eu era sempre a segunda opção.

Como era de se esperar, ao saber que Selina estava ferida, ele se transformou em lobo e partiu a toda velocidade.

Deixando-me ali, sozinha.

A loba que havia em meu peito soltou um uivo de dor, e o coração parecia não suportar tanta mágoa.

Talvez ele sempre tivesse me visto como uma irmã mais nova, e eu, sem perceber, confundi seus gestos com amor — e me prenderei a ele por toda uma vida.

Nesta vida, era hora de acordar.

Voltando do Lago das Lágrimas da Lua, ao entrar no salão principal, deparei-me com uma cena que partia o coração junto à lareira.

Lucien e Selina estavam abraçados no sofá de peles. Ele segurava um vidro com unguento e passava o remédio com todo cuidado no pulso dela.

Os olhos de Selina estavam vermelhos e inchados; parecia uma coelha vitimada pelo mundo.

— Lucien, não dói mais. Por favor, não se preocupe — disse ela, com voz propositalmente trêmula e frágil.

As sobrancelhas de Lucien se juntaram em preocupação, mas seus dedos a tocavam com tanta delicadeza como se estivessem acariciando pétalas.

— Como pôde ser tão descuidada? Arrancou a pele e o corte é profundo.

Aquele olhar doce e protetor era algo que eu jamais havia recebido, nem mesmo nos dez anos de casamento em minha vida anterior.

Uma dor aguda e amarga tomou conta de meu peito.

Selina ergueu o olhar e me viu. Um brilho de triunfo passou-lhe pelos olhos, antes de voltar de imediato àquela expressão de inocência e piedade.

Fiquei imóvel, sentindo um frio percorrer-me o corpo inteiro.

— Eu irei às Terras Gélidas. Assim, nem você nem Sylvia precisarão passar por isso.

O pai certamente já havia dito a ela que seria eu a partir. Mas ela, claramente, não havia contado a Lucien. Queria apenas que ele me julgasse e me odiasse.

Na vida anterior, para escapar do casamento, Selina havia se ferido de propósito com uma lâmina de prata. A ferida não era profunda, mas foi o suficiente para deixá-lo desesperado e firme em sua decisão de protegê-la.

Agora, nesta vida, ela também usava um ferimento para conquistar com facilidade a compaixão dele.

— De forma alguma. Jamais permitirei que vá às Terras Gélidas. Sua saúde é delicada demais. E Sylvia... ela é mais forte.

— Lucien, por favor, não diga isso. A culpa é toda minha. Sou inútil... não tenho forças para ir até lá...

Selina agarrou-se à manga de sua túnica, soluçando como se tivesse sido vítima da maior injustiça do mundo.

Ele a envolveu em seus braços, apoiando o queixo sobre a cabeça dela.

— Selina, nada disso é culpa sua. Eu a protegerei.

Observando aquela cena, senti um amargor tomar conta de mim.

Só porque ela é frágil, preciso eu ceder o meu lugar?

Se ele soubesse que sou eu quem está sendo enviada para longe... será que ainda agiria assim?

Sem querer prolongar minha presença ali, virei-me e voltei ao meu quarto.

Na manhã seguinte, havia um buquê de flores à minha porta, com um bilhete preso a ele.

[Desculpe-me.]

Era assim que costumávamos fazer quando éramos crianças. Sempre que ele me magoava, trazia algo de que eu gostava, como pedido de perdão.

Mas agora, era claro que aquele pedido de desculpas já não significava mais nada.

Não toquei nas flores e desci direto para o andar de baixo.

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