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Fui embora da Alcateia: Arrependimento e Destino
Fui embora da Alcateia: Arrependimento e Destino
Autor: Aetheria

Capítulo 1

Autor: Aetheria
— O que disse? Repita! — O pai se levantou de um salto de seu trono feito de ossos de feras, as pupilas de seus olhos de lobo se contraindo em fendas estreitas de puro choque.

O Norte era um lugar de frio cortante e implacável; raramente alguma loba aceitava casar-se na Alcateia dos Lobos de Neve, de modo que aquele casamento era, sem exceção, por conveniência.

Desta vez, era a vez de nossa alcateia pagar o preço. Ou Selina iria, ou eu iria.

Mas todos sabiam: os lobos daquela alcateia eram extremamente possessivos. Uma vez cruzadas as fronteiras das Terras Gélidas, não havia mais volta.

Em minha vida anterior, foi Selina quem partiu. E não chegou a sobreviver um ano nas Terras Gélidas — não resistiu à hostilidade do clima.

Alguém precisava ser sacrificada. Ou eu, ou Selina.

Minha voz soou calma, mas firme:

— Pai, eu vou. Aceito me casar com o Alfa dos Lobos de Neve.

Selina era minha meia-irmã — e a mulher que habitava o coração de Lucien.

Naquela vida passada, o pai havia escolhido sacrificar Selina. E por causa disso, Lucien guardou ódio de mim por toda a sua existência.

Me odiava por ser a irmã mais velha que, com frieza, assistira a frágil e doente Selina ser enviada para um destino certo nas Terras Gélidas.

Durante os dez anos em que fomos unidos, por mais que eu tentasse agradá-lo com todo cuidado, nunca consegui conquistar seu coração.

Só quando os vampiros nos atacaram e Lucien se colocou à minha frente, recebendo uma lâmina de prata em meu lugar, foi que ele, com a vida se esvaindo, finalmente revelou o que sentia:

— Sylvia... por favor, na próxima vida, poupe a mim e a Selina.

Ele amava Selina. Quanto a mim, eu não passava de um dever.

Mesmo sendo unidos pelo destino, cada vez que ele me tocava, era em Selina quem pensava.

Agora, renascida, eu me sentia exausta. Não queria mais ter qualquer laço com ele.

— Sylvia, você faz ideia de quem é o Alfa dos Lobos de Neve? Está caminhando para a própria morte! Perdeu o juízo?

As sobrancelhas do pai se juntaram profundamente, e o olhar que ele me dirigia carregava um turbilhão de sentimentos.

Eu havia crescido orgulhosa, incapaz de suportar sequer a menor injustiça; Selina, por sua vez, era dócil e submissa. O pai acreditava que ela suportaria melhor a desolação das Terras Gélidas.

Ele sentia imensa culpa por minha mãe, que já havia partido, e a ideia de me enviar para uma morte certa naquelas terras era algo que mal conseguia aceitar.

Mas se eu não fosse, Selina teria de ir.

— Eu sei. E assumo todos os riscos. Só peço a sua bênção.

Olhei firme em seus olhos, de brilho ferino. O pai permaneceu em silêncio por longos instantes, até finalmente assentir.

Com sua autorização, senti um alívio tomar conta de mim.

Nosso contrato de união havia sido firmado após negociações entre as duas alcateias. Agora, eu precisava também da aprovação da mãe de Lucien, a Anciã Sofia.

Fui procurá-la de imediato — e encontrei Lucien ajoelhado do lado de fora da porta de seus aposentos.

Sofia abriu a porta, parecendo irritada, e também surpreendeu-se ao me ver.

— Mãe, Selina não tem condições de sobreviver ao rigor das Terras Gélidas. Peço-lhe, não a force a este casamento por conveniência — suplicava Lucien, com desespero na voz.

O pelo de Sofia eriçou-se de raiva.

— Cale-se! Se Selina não for, então será Sylvia! Ela foi escolhida pela Deusa da Lua para ser sua companheira de destino!

Na vida anterior, a cena havia sido exatamente assim.

Lucien havia desafiado os Anciãos e a própria mãe em nome de Selina, e estava prestes a ser condenado à masmorra.

Naquela época, eu o amava com toda a minha vida. Corri para protegê-lo, suplicando aos Anciãos que tivessem piedade.

E ele, em troca, interpretou tudo como prova de que eu detestava Selina. Acusou-me de me recusar a ajudá-la, de assistir com indiferença enquanto ela era levada para morrer nas Terras Gélidas.

Naquele momento, Lucien me viu chegar. Uma sombra de hesitação cruzou seus olhos âmbar.

— Sylvia... ainda bem que você chegou.

— Pense em alguma forma de salvar Selina. Ela é frágil desde a infância; jamais sobreviverá àquela dureza.

Ele me olhou com súplica desesperada, e cada palavra parecia cravar-se em meu peito como uma lâmina de prata.

Para ele, Selina vinha sempre em primeiro lugar. Nunca, uma única vez, pensou em mim.

Respirei fundo, reprimindo a dor que latejava em meu peito.

— Fique tranquilo. Selina não irá mais às Terras Gélidas.

A expressão de Lucien se iluminou de imediato, em pura alegria.

Sofia permaneceu calada, o semblante severo.

— Sylvia, você...

Eu a interrompi.

— Não me unirei a você. Está livre para escolher Selina como sua companheira.

Virei-me para ele, com o olhar sereno como as águas de um lago no inverno.

Lucien paralisou. Franziu o cenho, impaciente, e questionou:

— Chega! Por que faz essas cenas para chamar minha atenção? — Seus olhos faiscavam de irritação. — Sei que não gosta de Selina, mas não precisa dizer coisas tão cruéis.

Meu coração deu um salto dolorido dentro do peito.

Não importava o que eu dissesse, ele sempre acreditava que eu era apenas uma mulher difícil e inconsequente.

— Você deveria aprender com Selina — prosseguiu ele, em tom de repreensão. — É tão doce e generosa. Só porque me preocupo com ela, fica a fazer cenas de ciúmes sem parar. Que sentido há nisso?

As palavras que estavam prestes a sair de minha garganta ficaram presas. Eu ia dizer-lhe que tomaria o lugar de Selina e iria em seu nome às Terras Gélidas.

Mas de que adiantava? Eu não queria mais ter qualquer laço com ele. Se falasse, ele apenas imaginaria que eu fazia mais um drama.

Que tal deixar que Selina tome meu lugar ao seu lado, no dia da cerimônia de união? Seria, sem dúvida, uma surpresa e tanto para ele.

Assenti com a cabeça, decidida a não dizer mais uma palavra.

Quando ele se afastou e saiu, as lágrimas que eu segurava finalmente rolaram pelo rosto, sem cessar.

Sofia me olhou com compaixão e, com voz suave, deu-me todas as orientações sobre os cuidados que eu deveria tomar na Alcateia dos Lobos de Neve.

— Minha boa menina... respeito sua escolha. Que a Deusa proteja seus passos.

A carruagem rumo às Terras Gélidas partiria ao amanhecer, daqui a três dias — justamente o dia em que seria realizada nossa cerimônia de união.

Três dias. Adeus, Lucien.

Nunca mais farei nenhuma cena por sua causa.

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