LOGINWashinton, DC
Gabriel Vincent
— Gabriel, você foi magnífico!
— Mas Se quer ganhar essa eleição, vai ter que mudar esse seu jeito fechado. Não vejo outra saída. Se fizer isso, não tem como a sua candidatura não ser aceita pelo partido — Marcus, meu chefe de gabinete, está empolgado.
— Não costumo cantar vitória antes do tempo, Marcus e para de implicar com o meu jeito.
Odeio essa mania dele querer me fazer sorrir o tempo todo.
— Vamos aguardar a decisão deles, e isso só acontecerá em uma semana. Enquanto isso, precisamos arrecadar mais fundos para a campanha. Isso sim é importante!
A equipe de segurança abre espaço entre a infinidade de repórteres que se acotovelam, famintos por uma declaração.
Os seguranças contêm a multidão com braços firmes, criando um corredor de proteção impecável até a porta do veículo.
Sento-me no banco do carro, cruzo as pernas e olho pela janela fumê, sentindo a adrenalina do poder pulsar em minhas veias — exatamente onde planejei estar.
— O que ainda temos na agenda para hoje?
— Temos um almoço em uma hora com os grandes empresários do setor farmacêutico. Você precisa convencê-los de que tem o melhor projeto para a área da saúde no seu mandato, Gabriel.
— Tente parecer mais simpático e empático desta vez. Ao menos sorria um pouco e evite essa carranca de quem vive com raiva do mundo — aconselha ele.
Respiro fundo, sentindo a mandíbula travar diante das palavras do Marcus.
Essa é a minha maior fraqueza nesta campanha: a obrigatoriedade de ser simpático e agradável com todos. Odeio esse lado cínico da política.
Detesto ter que distribuir sorrisos falsos e cordialidade até para aqueles que sei que adorariam me cravar um punhal nas costas.
Mas, se esse é o preço a pagar para alcançar o topo do poder e alcançar os meios de lutar pelos menos favorecidos, eu o pagarei sem pestanejar.
O almoço com os empresários do setor farmacêutico não me deixou tão seguro de que eles realmente iriam doar para a minha campanha.
Foi um encontro até agradável. Mas havia uma cobrança incessante sobre a minha vida privada que me irritava imensamente por dentro.
— Eu te falei para se mostrar mais simpático com os empresários, Gabriel — Marcus reclama no banco do SUV, enquanto estou indo para casa.
— Se quer mesmo entrar no mundo da política, precisa ser mais maleável e deixar que as pessoas se identifiquem com você.
— Esse é o meu jeito, caralho! E foi justamente com ele que eu cheguei até onde estou hoje — respondo, perdendo completamente a paciência.
— Me irrita essa insistência descabida para que eu ande por aí com um sorriso congelado no rosto aonde quer que eu vá.
— Você chegou até aqui no mundo jurídico, como um advogado, onde todos buscam um homem implacável...
— Mas na política, além de implacável, você precisa passar para os eleitores e doadores a ideia de que tem empatia pelas causas deles.
— Eu tenho empatia. Não só tenho, como deixo isso evidente em cada um dos meus projetos.
Fico tenso de tão irritado.
— Mas as pessoas precisam perceber isso, Gabriel. Você já olhou bem para as suas fotos de campanha? — ele ironiza, virando-se para mim.
— Você parece que anda constantemente com um limão na boca! Está sempre com essa mesma carranca. Vamos ter que treinar você para aprender a sorrir.
— Não enche a porra do saco, Marcus — encaro a paisagem lá fora, já completamente de saco cheio daquela conversa.
— Se quer ganhar essa eleição, vai ter que mudar esse seu jeito fechado. Não vejo outra saída. Já te falei isso.
— Os empresários gostaram de você, transmitiu confiança e segurança. Mas falta carisma. Entendeu o problema?
Carisma é o caralho!
É difícil andar sorrindo por aí quando já tive que conviver com as dores traumas que essas pessoas nem sequer conseguem imaginar.
Desde a morte do meu irmão — e da maneira imunda como tudo foi jogado para debaixo do tapete enquanto meu pai saía impune, — perdi a vontade de sorrir.
Se hoje eu continuo vivo e luto, é para buscar justiça por ele e por tantas outras crianças indefesas que sofrem maus-tratos dentro de casa.
Chego finalmente à minha casa, onde moro sozinho em um espaço amplo, imponente e silencioso.
Subo os degraus até minha suíte e começo a tirar a roupa, que parece pesar toneladas sobre meu corpo de tão esgotado que me sinto.
Entro no banheiro e ligo o chuveiro, deixando a água quente jorrar com força sobre minha cabeça e meus ombros tensos.
Mas no instante em que a água molha meu rosto e escorre pelos meus olhos fechados, a sensação de sufocamento me golpeia com violência.
O som da água caindo se transforma no ruído aterrorizante que lembram as águas do lago em Blackwood Bay.
As memórias traumáticas voltam em um tsunami devastador, me arrastando de volta para aquele dia maldito de dezoito anos atrás.
A água do chuveiro parece me afogar, trazendo o gosto amargo do pavor, da impotência e da dor que tranco no fundo da alma.
E ali, no isolamento do meu box de mármore, o homem inabalável de Washington desmorona por completo.
É somente ali, no oculto do meu quarto, longe dos olhares do mundo e da política, que me permito expor minhas fraquezas mais sangrentas.
Choro pelo meu irmão, pela promessa que falhei em cumprir e pelo monstro em que precisei me transformar para sobreviver neste mundo cruel.
Fui vencido pelo cansaço e por essa tristeza profunda que tento fazer todos acreditarem que não passa de mau humor e acabei dormindo.
Acordo com o barulho incessante do despertador. Me levanto, ainda sentindo o cansaço pelos dias incessantes da campanha.
Depois de tomar banho e me vestir, desço para tomar meu café da manhã, deparando-me com o Senador Thomas Sterling me esperando na sala.
— Bom dia, filho! Não perde o costume de acordar cedo e estar impecável a esta hora da manhã — ele comenta, vindo na minha direção e me abraçando calorosamente.
Thomas Sterling é meu mentor e a figura mais próxima de um pai que já conheci na vida.
Foi ele quem me estendeu a mão e me ajudou a chegar até aqui, quando confiou no potencial de um advogado recém-formado e ambicioso.
— Bom dia, Senador! O que o traz aqui tão cedo, mesmo sabendo que eu já estaria de pé e impecavelmente vestido?
— Vim tomar o café da manhã com o meu filho postiço — que o meu filho biológico não ouça isso — e aproveitar para conversarmos sobre sua campanha.
Sentamo-nos à mesa já posta por minha governanta.
— Eu conversei com alguns dos empresários com quem você almoçou ontem — Thomas começa, entrando direto no assunto espinhoso que sei que vai me aborrecer.
— E o que eles têm a dizer? — pergunto, com o maxilar travado, já me preparando para as críticas.
— Não conversei só com eles, Gabriel — Thomas continua, encarando-me com seriedade.
— Também tenho a decisão antecipada do partido. A conversa com esses empresários e outros que sondei antes me fez concordar com o que decidiram.
— E o que o partido decidiu, Thomas? Eles não vão aprovar minha candidatura ao Senado? — sinto meu coração acelerar desordenado.
— Nós precisamos de um candidato que pareça com o povo, que sinta e pense como a grande maioria dos cidadãos americanos — ele explica serenamente.
— Somos uma nação de maioria conservadora, Gabriel. Isso é algo que você sabe tão bem quanto eu.
— O partido exige que você apresente uma namorada, noiva ou até mesmo uma esposa o quanto antes para dar mais peso e verdade a campanha — revela o senador, soltando a bomba.
— O povo e os doadores precisam acreditar que você compartilha dos mesmos valores familiares e tradicionais que eles.
— Está me dizendo que vou ter que aparecer publicamente ao lado de uma mulher se passando por minha namorada...?
— De preferência noiva... — Thomas corrige.
— Isso é um verdadeiro absurdo! —fico irritado com essa condição esdrúxula e invasiva.
— Essa é a condição inegociável do partido para aceitar sua indicação e concorrer ao Senado — Thomas deixa claro que não tenho para onde correr.
Apoio os cotovelos na mesa e coloco as mãos na cabeça, sentido uma tempestade se formar no meu cérebro.
E agora? Onde diabos vou achar uma noiva disposta a me ajudar a fingir para uma nação inteira e que não queira nada além de viver de aparências?
Minha vida e meu coração fechado não têm espaço para nada além do meu trabalho e do objetivo obsessivo de me tornar senador.
Angel Montgomery Assisti ao meu pai sair da sala e fiquei completamente paralisada com a possibilidade de ter que dormir ao lado de Gabriel na mesma cama. Tínhamos combinado de ficar em um hotel, em quartos separados. Agora me vejo nessa situação constrangedora de dividir a cama com um homem lindo de morrer, que atiça todo o meu corpo com um simples olhar. — Acho melhor eu ir para o hotel que reservei e você ficar aqui. Amanhã bem cedo voltamos para Washington — Gabriel sugere, me encarando de um modo indecifrável. — Qual é o problema de vocês dois dormirem aqui? — Amy dispara, estranhando a ideia de Gabriel. — Eu vou com você, Gabriel. Amanhã eu explico ao papai o motivo de não termos passado a noite aqui — ignoro Amy e aviso meu noivo de mentira sobre a minha decisão. Estava sendo insuportável ficar ali fingindo que estava tudo bem, encarando a cara de pau da minha mãe e a inocência cega do meu pai. Era visível a insatisfação dela ao ver que Jason insistindo em me querer de v
Gabriel Vincent — É exatamente isso o que vai acontecer, Senhora Montgomery. Sou um homem extremamente visado pelas funções que exerço — começo a explicar, encarando a mulher furiosa a nossa frente. — Tenho clientes de altíssima relevância e agora disputo uma cadeira no Senado. Tudo o que envolve meu nome exige um aparato de segurança impecável para garantir que nada atrapalhe minha campanha. Concluo, mantendo a postura indiferente ao seu comportamento, enquanto escaneio cada microexpressão dela. Eleonor claramente odiou a ideia de ser vigiada. — De jeito nenhum! Eu não vou aceitar esses armários gigantes me perseguindo por toda parte! — Eleonor dispara, descarregando o veneno em cima da filha. — Você voltou para virar a nossa vida pelo avesso, Angel! — Por que não ficou bem onde estava depois de nos envergonhar cancelando um casamento que a cidade inteira aguardava ansiosa?! O condado inteiro só falava na sua fuga na calada da noite! — Imagina o que vão inventar agora que você
Eleonor Montgomery — Não vê que essa é a nossa grande chance?! O Richard já está todo cheio de orgulho de ver a filhinha preferida noiva desse figurão! Posso pedir o divórcio e, daqui a um tempo, nós assumimos nossa relação de vez! — dou um passo desesperado na direção dele. Não posso aceitar que o Jason simplesmente me descarte depois de eu ter arriscado meu casamento e a relação com a minha própria filha durante tanto tempo. Sei que a Angel vai superar e, no futuro, voltaremos a ser mãe e filha. Quanto ao Richard, já dediquei anos demais da minha vida a ele; agora é hora de viver como sempre quis. Se o coração dele não aguentar e ele morrer, já vai tarde. — Para de insistir, Eleonor! Entenda de uma vez por todas que eu não quero nada com você! — as palavras dele são como facas cravadas direto no meu peito. — Tudo o que aconteceu entre a gente foi puramente sexo. Você estava carente, precisava de um macho de verdade, e eu me coloquei à disposição para te saciar. Nada além diss
Jason Miller Saio da casa dos Montgomery totalmente ensandecido, cuspindo fogo pelo nariz. A cena daquele engomadinho de merda ajoelhado na frente da Angel e beijando a boca dela descaradamente foi demais para a minha cabeça. Porra! Que merda foi aquela?! Como ela sai da cidade depois de terminar comigo e volta pouco tempo depois noiva daquele mauricinho filho da puta? Sigo dirigindo feito um louco pelas ruas, cego de raiva, socando o volante sem parar. — Eu não vou te perder, Angel! Você é minha e não vai ser de mais ninguém! — vocifero sozinho dentro do carro, a veia do pescoço saltando. Freio cantando pneu bem na frente do prédio do departamento de polícia e salto do veículo bufando igual a um touro enfurecido. — Qual é a da vez, brother? Que bicho te mordeu, Miller? — Lian vem no meu encalço até a sala que dividimos, tentando entender o meu surto. — Bicho nenhum me mordeu, Lian, mas eu estou louco para arrancar a cabeça de um desgraçado! Ou melhor, de um certo alguém com n
Angel Montgomery Ainda me sinto tonta pelo impacto daquele beijo e pela encenação surpreendente de Gabriel quando a voz ríspida de Jason ecoa como um trovão na sala. O choque faz meu corpo congelar, tomado pelo pavor imediato de que o descontrole do meu ex resulte em uma tragédia ali, diante de nós. — Por que esse sujeito está beijando a minha noiva na frente de todo mundo?! — ele esbraveja, encarando meus pais antes de focar seu ódio em Gabriel, que não se abala nenhum pouco. Gabriel, que ainda estava ajoelhado aos meus pés, se ergue com uma elegância impecável, ajusta as lapelas do terno e me puxa para cima, alinhando meu corpo ao seu. — Acredito que o senhor esteja equivocado. Até onde sei, a Angel deixou de ser sua noiva há semanas e decidimos resgatar a história que deixamos pendente anos atrás — rebate com voz grave. Ele me envolve pela cintura com braço firme, colando-me à sua estrutura imponente para demarcar território e deixar claro quem dá as cartas ali. — A Angel e e
Angel Montgomery Todos entramos na casa que exalava o cheiro familiar dos anos que vivi aqui, mas que, estranhamente, já não me trazia qualquer sensação de aconchego. De alguma maneira, as feridas abertas naquele lugar me desconectaram de tudo. Eu era uma estranha sob aquele teto, e esse vazio súbito no peito me assustou. — Entrem e fiquem à vontade — diz o meu pai, indicando os sofás da sala com um gesto de cabeça. — Senhor Vincent, por favor, sinta-se em casa. A perspicácia do meu pai não deixa passar o detalhe: Gabriel não soltou a minha mão em segundo nenhum, mantendo nossos dedos entrelaçados com possessividade. — Imagino que tenham vindo até aqui para me dar algumas explicações sobre isso — pontua Richard, observando nossa proximidade antes mesmo de dizermos uma palavra. — Do que você está falando, querido? O que a nossa filha veio fazer aqui tão rápido, depois de ter saído da cidade quase fugindo? — Eleonor alfineta, transparecendo seu incômodo com a situação. — Como o s







