Masuk(Eleonor)O sol nem sequer alcançara o topo das torres brancas da Nova Velia quando a comitiva real cruzou os grandes portões de bronze da acrópole. O cansaço da cavalgada noturna sob o vento gelado dos desfiladeiros fora completamente eclipsado pela determinação implacável que queimava no meu peito. Eu não trazia no rosto os sinais da exaustão, mas sim a frieza de uma soberana pronta para expurgar a traição da sua própria casa.Kaelen cavalgava ao meu lado direito, firme como uma rocha de granito, enquanto o meu pai, Rowland, vinha logo atrás com a escolta de elite da Guarda Imperial. Na bolsa de couro presa à sela do capitão, o pingente de prata com o brasão do falcão repousava como uma sentença de morte anunciada para as ambições de Lorde Thanos.Assim que pisamos o pátio central, ordenei a convocação imediata de uma sessão extraordinária do Conselho Imperial. Não houve tempo para avisos prévios, mensagens secretas ou articulações nos bastidores. As cornetas de bronze ecoaram pelas
(Eleonor) A noite caía sobre os desfiladeiros de pedra cinzenta que marcavam a transição entre o calor temperado do vale de Velia e as muralhas geladas do extremo norte. O vento soprava com força cortante, chicoteando as capas de lã escura da nossa comitiva enquanto avançávamos a cavalo pelas trilhas estreitas e sinuosas. Apenas o som ritmado dos cascos batendo contra a rocha e o tilintar abafado das armaduras da Guarda Imperial quebravam o silêncio pesado da montanha. Eu cavalgava na vanguarda, lado a lado com Kaelen e com o capitão da minha guarda pessoal. A alguns passos atrás, o meu pai, Rowland, supervisionava o agrupamento tático. O local da emboscada ficava num desfiladeiro isolado conhecido como a Garganta do Corvo — um ponto estratégico onde os comboios de suprimentos costumavam passar a caminho das colônias do norte. Ao chegarmos ao fundo do vale, a cena que se apresentou sob a luz pálida da lua era desoladora. Os escombros de três grandes carroças de madeira fumegava
(Eleonor)A notícia da vitória diplomática no Salão Dourado espalhou-se pela acrópole com a velocidade do vento que soprava do topo das montanhas. A aceitação formal de Kaelen como Emissário do Extremo Norte não apenas silenciara a oposição mais ruidosa do Conselho, como também mudara drasticamente a dinâmica nos corredores do castelo.Na manhã seguinte à nossa promessa sob a lua, caminhei ao lado de Kaelen pelos pátios abertos da Grande Academia. As sentinelas imperiais que antes o seguiam a passos curtos e com as mãos postas no punho das espadas mantinham agora uma distância respeitosa e protocolar. O povo da acrópole e os jovens sábios olhavam para ele com uma mistura renovada de fascínio e curiosidade. Ele já não era visto como um intruso misterioso capturado nas fronteiras, mas como a ponte viva entre o império e as lendas esquecidas do gelo.Parei no parapeito da grande varanda da biblioteca, observando o movimento dos cidadãos lá embaixo, na praça principal da Nova Velia.— Lor
(Eleonor) Os dias de convívio pacífico na acrópole serviram para acalmar os ânimos da guarda, mas a verdadeira prova de fogo aproximava-se com a rapidez de uma tempestade de outono. A manhã da Reunião Plenária do Conselho Imperial amanheceu cinzenta, com nuvens pesadas cobrindo as cúpulas douradas da Nova Velia e o vento soprando frio pelas frestas das altas janelas de ogiva. No meu gabinete privado, diante do grande espelho de moldura prateada, ajeitei o pesado manto de veludo azul-profundo que ostentava o brasão unificado do império. O meu reflexo mostrava uma jovem soberana, com o olhar firme e o maxilar ligeiramente cerrado. Por baixo do tecido pesado, a pele do meu pulso esquerdo formigava com um calor constante — um lembrete silencioso de que Kaelen estava lá fora, aguardando o momento de enfrentar os homens mais céticos e poderosos do continente. A porta abriu-se e o meu pai, Rowland, entrou. Os seus olhos, marcados pelas rugas da sabedoria e pelas cicatrizes de uma vida de
(Eleonor)Os primeiros dias após a coroação passaram como um vendaval de deveres administrativos e encontros diplomáticos. Como soberana, a minha agenda estava repleta: renegociar tratados de abastecimento com os clãs do Oeste, fiscalizar a ampliação da Grande Academia e assinar os decretos de outono. No entanto, em cada pausa entre uma audiência e outra, o meu pensamento inevitavelmente voltava-se para o visitante do norte.Seguindo o nosso acordo, Kaelen fora alojado na ala oriental da acrópole e recebera a insígnia formal de Emissário do Extremo Norte. Embora estivesse sob a vigilância discreta de dois guardas imperiais por exigência expressa do meu pai, ele transitava pela fortaleza com uma serenidade que intrigava a todos. Ele não se comportava como um prisioneiro, tampouco como um nobre altivo; caminhava pelos pátios com a curiosidade atenta de um sábio e a postura ereta de quem conhecia a vastidão dos desfiladeiros gelados.A nossa convivência inicial começou de forma sutil, en
O silêncio que se abateu sobre o gabinete tornou-se denso, quase palpável. Kaelen absorveu cada sílaba, cada argumento, e o vinco na sua testa aprofundou-se enquanto as peças do quebra-cabeça finalmente se encaixavam na sua mente. A confusão inicial deu lugar a uma compreensão profunda e madura da nossa realidade geopolítica e cultural.— É por essa exata razão que a reação do meu pai ontem foi tão dura e desconfiada — continuei, baixando ligeiramente o tom de voz, tornando-o quase confidencial. — Para Rowland, para a Guarda Imperial e para os líderes do Conselho dos Anciãos, um homem que surge do nada nas fronteiras, sem documentos ou explicações, e alega ter um laço de alma com a Imperatriz recém-coroada não é apenas um estrangeiro curioso. Para eles, você soa como um impostor perigoso. Vão acusá-lo de ter estudado as nossas crônicas antigas, de ter inventado ou simulado essa marca no seu pulso, e de usar o mito mais sagrado da minha família para tentar manipular a coroa e infiltrar







