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[Alguns anos antes…]
Aos 35 anos, Dominic não comemorava aniversários, ele apenas contabilizava vitórias, relacionadas a carreira. Era estranho para quem olhava de fora, porque aquele homem, com seu terno caro perfeitamente ajustado, a pele negra sempre reluzindo sob as luzes de qualquer ambiente e a postura de quem nasceu para comandar, parecia alguém que tinha tudo para celebrar.
Mas não, Dominic não celebrava. Ele controlava os gatilhos, as lembranças da infância miserável com a mãe negligente. Controlava pessoas, contratos, destinos, salas inteiras apenas com um levantar de sobrancelha. Nada escapava dele. Nada o surpreendia. E talvez por isso, naquela noite, a boate lotada não significasse absolutamente nada além de mais um cenário onde ele reinaria.
A área VIP brilhava, com pessoas lindas e promessas vazias. Era cheia de modelos magérrimas treinadas para sorrir sem sentir nada, influencers que viviam do brilho dos outros, empresários que se escondiam atrás de bebidas caras e do próprio sobrenome. A elite de São Paulo, cuidadosamente filtrada, circulava como se estivesse desfilando para um rei invisível.
Naquela noite Dominic estava sentado, indiferente, com uma taça cara nas mãos sentindo o peso de ser como era, um ceo que transformava tudo que tocava em lucro, medo ou admiração.
Ele estava entediado e Dominic entediado era um perigo silencioso.
O sorriso de predador aparecia só quando ele escolhia uma presa, e naquela noite ele escolheu antes mesmo de perceber que tinha sido igualmente escolhido. No meio da pista, coberta por luzes de néon que alternavam entre violeta e azul, uma moça dançava sozinha, completamente alheia ao resto. Loira, jovem, corpo flexível, expressão livre.
Ela tinha algo que incomodava e atraía ao mesmo tempo: audácia. Não era uma beleza cara montada, era uma beleza viva, que queimava no próprio ritmo.
Era Martina, 19 anos, a personificação da fome de ascensão. Tinha apenas cinquenta reais amassados na bolsa, salto emprestado, perfume barato e uma ambição que brilhava mais que qualquer luz ali. E por mais que fingisse que estava dançando para si mesma, ela sabia exatamente quem estava no andar de cima. Ela sabia quem ele era. Ela sabia o que queria. E o olhar dela, quando encontrou o dele, deixou claro que iria buscar.
Dominic não piscou, ela também não. Foi o flerte mais silencioso e mais barulhento que aquele lugar já testemunhou.
Ele levantou a taça, como quem concede permissão para que ela o provoque mais um pouco. Ela sorriu, continuou dançando, mas o corpo mudou, ficou mais lento, mais marcado, mais consciente da própria sensualidade. Dominic inclinou o rosto, intrigado. Não estava acostumado a meninas tão jovens e tão descaradas. A maioria fingia ter muita postura diante dele. Martina não. Martina se oferecia sem se oferecer, deu até tchau. Provocava sem tocar. Dizia “eu te vejo” sem abrir a boca.
E isso mexeu com ele. Com um gesto simples, discreto, chamou o segurança, a mostrou e falou.
— Traga-a aqui.
Martina não esperou o convite completo. Subiu para o VIP como se tivesse nascido no meio deles, como se fosse dona de tudo aquilo. Chegou até ele com a postura perfeita, nem tímida, nem exagerada. Só... consciente do próprio valor, ou do valor que fingia ter. Estendeu a mão com um sorriso de influencer acostumada a aparentar mais do que realmente tinha.
— Martina — disse, suave.
— Estudante de direito. E entrei de penetra.
Ele a analisou como se estivesse lendo um contrato, reparou no cabelo loiro claro longo, na maquiagem impecável marcante.
— Dominic, formado em administração. Não que seja do seu interesse. Vim comemorar o meu aniversário.
Ela o abraçou espontaneamente parabenizando, ele começou a rir do jeito dela, notou que era "humilde", ofereceu um drink.
Ela recusou a bebida cara, alegando manter o “corpo fitness”. Ele arqueou a sobrancelha, dizendo que não ia batizar o copo dela. Ela sustentou o olhar, dizendo que não tinha pensado naquilo, mas brincou dizendo que era possível, pediu uma água, começou a fazer perguntas sobre a faculdade. Ele se interessou muito, pela personalidade dela.
Dominic não gostava de obstáculos, mas adorava desafios. E Martina era exatamente isso: um desafio embalado em perfume doce barato e unhas recém-feitas demais para quem dizia ser tão disciplinada. Ela era contraditória. Ambiciosa. Descaradamente consciente da própria juventude e imaturidade.
Capítulo 200Sorri, falei que sim, ele disse que já não estava mais bêbado, falei que eu não ia esquecer, naquela semana ele já tinha me aparecido com um vestido novo, que comprou na minha loja com a Cris, eu estava desanimada com as vendas, ele sabia disso, postou nas redes sociais o embrulho, me ajudando a divulgar, à noite, no sábado, a Amara estava de mala pronta pra ir dormir na tia Cris, a super melhor amiga dela, lá era o paraíso para as crianças, João e Cris eram incríveis com os sobrinhos, eu só não a deixei por causa do chá, tínhamos combinado dela ir no dia seguinte ficar lá.Durante meses ele me tratou ainda como na época que estávamos casados, se eu tinha dúvidas, elas se esgotaram, agradeci o vestido, falando que experimentei, fiquei só esperando ansiosa o encontro, fui dormir sozinha.No domingo cedo ele já deu bom dia perguntando do encontro, falei que estava de pé, perguntei que horas seria, ele ficou rindo, levando na brincadeira, fomos no shopping com as crianças de
Capítulo 199Eu não falei nada, correspondi ao abraço e logo fui dormir. Após alguns meses, o Paulo me chamou pra conversar, estávamos no chá de bebê da Cris, eu tinha ido só com as crianças, o Tariq não quis ir e foi pra casa da Samira em uma reunião familiar.Era um chá revelação que parecia mais um aniversário de um ano, eu quase não falava com o Paulo há muito tempo, na maioria das vezes trocávamos recados pela Ana ou mensagens, nos afastamos do pessoal, ele estava com o Otávio no colo, começou a falar que eu estava um pouco diferente, falei que era a vida dupla de mãe e empreendedora, ele respondeu me olhando nos olhos:— Entendi, é complicado mesmo. Não sei se você também acha isso estranho, mas, levando em conta que você casou com o viúvo da minha irmã e cria a minha sobrinha como sua filha, a nossa história é toda estranha, quero te falar uma coisa, te considero muito e somos amigos.— Resolvi ficar com a Isabelly, já tem um tempo que estamos tentando, eu fui sincero com ela s
Capítulo 198Ele perguntou se podia fazer algo por mim, falei que não, a Eduarda entrou com o Samir, estavam falando dos familiares dela, que estavam especulando sobre os dois, levantei, fomos para a sala, a Eduarda estava animada, rindo, conversando, perguntou se eu não podia ir comprar as bebidas com o Tariq, falei que iria, ela respondeu:— Sem pressa, tá?— Se quiser, leva as chaves de casa, uma aventura é sempre bem-vinda.Falei que não precisava, achei melhor sair, fomos no mercado, ele disse que a Amara havia perguntado se ele não gostava mais de mim como "marida", porque uma amiguinha disse que só casais que não se gostavam dormiam separados, comecei a rir, perguntei o que ele tinha respondido, ele me olhou, sorriu:— Eu disse a verdade apenas.Perguntei qual era a verdade, ele respondeu cínico:— E isso importa, Kamile?Falei que não sabia o quanto, no mercado ele começou a escolher bebidas sem álcool pra mim, vários sucos, danones, tentei interagir com o pessoal, fiquei brig
Capítulo 197Falei que sim, que só tinha muita fome, ela começou a falar que o Samir conversou muito com ela todos os dias enquanto ele estava viajando, e ela ia deixar acontecer, eles fizeram um acordo sobre se conhecerem melhor, sem ficar, porque ela mesma nem poderia se envolver fisicamente com ele por causa da gravidez de risco, a médica proibiu qualquer tipo de relação porque a excitação causava contrações e não era bom pra ela, o que mais me surpreendeu foi ele aceitar aquilo.Ela disse que só estava mentindo para a Suzi pela última vez, porque, após conversarem pessoalmente, ela ia abrir o jogo em casa, ficou falando da importância de falar a verdade sempre, super concordei, mas com medo dela ir pra casa e ver que estávamos dormindo separados.O Samir foi buscar ela pra sair, achei que ela ia embora pra casa dela depois, à noite eles dois foram pra minha casa, ela foi curta e grossa, perguntou até quando eu ia esconder dela o que estava acontecendo, ele se desculpou comigo, dis
Capítulo 196Fiquei chateada, ele disse que tinha certeza, porque quanto mais me mostrava que me queria, mais distante eu ficava, falei:— Não ia adiantar você continuar sendo incrível comigo porque eu não quero isso, não como você quer.— Eu gosto de estar com você, já te falei isso, me sinto realizada na cama, com você tive um relacionamento super diferente de todos os anteriores, só que temos três crianças no meio disso.Ele respondeu chateado:— Tá bom, fiz o que pude, mas no fundo eu sabia, você não é do tipo que joga com os sentimentos das pessoas.— O que você quer fazer agora?— Como vão ficar as coisas entre nós?Falei que já tinha pensado em tudo, eu ia procurar uma casa próxima ali no bairro, colocar o Otávio na escola em período integral, dividir os horários com a Amara, ele disse que também já tinha pensado em tudo, só que infelizmente achava que seria muito difícil morarmos separados de início, com um bebê a caminho, ficamos horas conversando madrugada adentro, ele inici
Capítulo 195Eu já não sabia mais como me comportar com ele, às vezes parar pra pensar me colocava em estado de pânico, com uma angústia enorme, era sexta-feira à noite, quando cheguei em casa vi que o carro dele já estava lá, a Amara entrou chamando por ele, fui na cozinha guardar um pote com comida que a Cris tinha mandado, ouvi a Amara falando:— Ahhh, pai, por quê? Eu quero ir junto.Encostei na porta, falei pra ele:— Oi, tudo bem? Como foi seu dia?Ele levantou, se aproximou, parou na minha frente e respondeu sério:— Estou bem, e você? Já arrumou tudo?— Eu ia te ligar, mas acabei ficando ocupado com um cliente, aquele que te falei esses dias que estava afastado por acidente de trabalho.Falei que sim, perguntei se ele queria comer, ele respondeu:— Não, obrigado, vou tomar banho.— Você precisa de algo da rua?— Não vai levar o Otávio mesmo?Falei que já estava quase tudo certo, que eu não ia levar ele, fui terminar de arrumar o que faltava, organizei o quadro das tarefas e os







