Mag-log inNo Brasil... O último ano de Nayere tinha sido uma espiral descendente, um lento afogamento na dor que a transformou em uma sombra eficiente. Enquanto a multinacional que ela era secretária, fervilhava com a expectativa da chegada do novo CEO, um homem que todos diziam ser implacável e distante, Nayere apenas contava os minutos para o fim do expediente, esperando que a escuridão da noite a engolisse de novo. Todos os dias em sua vida, eram iguais, infelizmente.
Ela esperava por seu novo chefe, mas, na verdade, esperava que ele a ignorasse. O silêncio era seu novo refúgio.
Por longos anos, desde a juventude, Nayere viveu sob o feitiço de um homem que ela acreditou ser o amor de sua vida. Ele era o centro de seu universo, e a relação era seu único pilar emocional. O colapso, quando veio, foi total.
No último ano, ela foi sistematicamente traída, maltratada e manipulada emocionalmente. O abuso não foi apenas físico, mas psicológico, minando cada gota de sua autoestima até que ela não reconhecesse mais o próprio valor.
Quando ele a largou, o mundo real desmoronou.
Nayere caiu em uma depressão profunda, isolando-se em um mundo paralelo alternativo construído de negação e mentiras necessárias. Ela não podia encarar a verdade brutal da sua fragilidade, então vestiu uma armadura de falsidade.
No ambiente de trabalho, onde a excelência profissional era sua única máscara intacta, ela mantinha uma fachada fria e inventada:
"Eu sou casada. Essa era sua principal mentira."
O anel, que ela ainda usava, era o último vestígio de um sonho morto e a desculpa perfeita para evitar qualquer interesse masculino, que agora lhe causava pavor.
Ela não socializava. Almoçava sozinha, evitava confraternizações e mantinha as conversas estritamente profissionais. Seus colegas a viam como reservada e um pouco "estranha", mas extremamente competente.
Quando estava sozinha, o teatro terminava. A casa silenciosa era o palco de sua solitária e profunda tristeza. Passava as noites encarando o teto, sem vaidade, sem hobbies, apenas a escuridão da culpa pelos abus0s sofrid0s e a dor de ter permitido que acontecesse. A antiga Nayere, sonhadora e radiante, estava apagada, coberta por roupas simples baratas, maquiagem zero e o medo paralisante de qualquer intimidade masculina.
Ela estava no fundo do poço, esperando que a vida simplesmente passasse. A chegada de Dominic, o CEO exigente, representava exatamente o tipo de homem que seu trauma a ensinara a temer. Seu ex, era dominante, manipulador, grosso, agressivo e dissimulado.
O luto tóxico e isolamento haviam esculpido um novo Dominic. O homem que retornava ao Brasil para assumir o comando de uma multinacional, era uma versão lapidada pela amargura, mais perigosa e muito menos charmosa que antes.
Ele estava vivendo sozinho desde que Martina morrera, se é que se pode chamar de "viver" o ciclo de trabalho excessivo e prazeres vazios que ele adotara. Seu apartamento, alugado às pressas, em uma cidade que ele não conhecia ninguém, era a antítese do luxo que compartilhara com Martina, era minimalista, funcional, desprovido de qualquer calor ou história pessoal.
A mudança de país e de cargo não trouxe alívio, apenas intensificou sua antipatia pelo passado. Dominic era agora:
Mal-humorado: Sua paciência era inexistente. Qualquer ineficiência, ruído ou deslize era recebido com um olhar de desdém ou um silêncio cortante que gelava a espinha de seus subordinados. Ele raramente sorria, e quando o fazia, era um sorriso cínico.
Era sempre ríspido: A cortesia havia sido descartada como um luxo desnecessário. Suas comunicações eram diretas, objetivas e, muitas vezes, brutalmente francas. As reuniões com ele eram temidas por sua falta de tato e sua capacidade de reduzir egos a pó em segundos. Ele não tinha tempo para gentilezas.
Era exigente: Seu padrão de excelência, que já era alto, atingiu níveis quase impossíveis. Ele exigia perfeição de tudo e todos, desde a pontualidade milimétrica em um relatório financeiro até a temperatura exata do seu café. Essa exigência era um reflexo de sua necessidade neurótica de controle; se ele não podia controlar seu passado ou suas emoções, ele controlaria, implacavelmente, o mundo ao seu redor.
Aos quarenta anos, Dominic era um homem pesado. Seus ternos cinzas e escuros não eram apenas um código de vestimenta, eram a personificação de seu humor. Ele entrava nos ambientes como uma frente fria, sugando a alegria e deixando apenas a tensão. O charme havia sido substituído pela autoridade crua.
Ele estava voltando ao Brasil, mas não para recomeçar. Estava voltando para exercer o poder e se enterrar ainda mais no trabalho, um CEO de luto em tempo integral, preparado para destruir quem ousasse atrapalhar seu isolamento profissional.
E sua nova secretária, seria a primeira pedra, em seu calçado.
Capítulo 200Sorri, falei que sim, ele disse que já não estava mais bêbado, falei que eu não ia esquecer, naquela semana ele já tinha me aparecido com um vestido novo, que comprou na minha loja com a Cris, eu estava desanimada com as vendas, ele sabia disso, postou nas redes sociais o embrulho, me ajudando a divulgar, à noite, no sábado, a Amara estava de mala pronta pra ir dormir na tia Cris, a super melhor amiga dela, lá era o paraíso para as crianças, João e Cris eram incríveis com os sobrinhos, eu só não a deixei por causa do chá, tínhamos combinado dela ir no dia seguinte ficar lá.Durante meses ele me tratou ainda como na época que estávamos casados, se eu tinha dúvidas, elas se esgotaram, agradeci o vestido, falando que experimentei, fiquei só esperando ansiosa o encontro, fui dormir sozinha.No domingo cedo ele já deu bom dia perguntando do encontro, falei que estava de pé, perguntei que horas seria, ele ficou rindo, levando na brincadeira, fomos no shopping com as crianças de
Capítulo 199Eu não falei nada, correspondi ao abraço e logo fui dormir. Após alguns meses, o Paulo me chamou pra conversar, estávamos no chá de bebê da Cris, eu tinha ido só com as crianças, o Tariq não quis ir e foi pra casa da Samira em uma reunião familiar.Era um chá revelação que parecia mais um aniversário de um ano, eu quase não falava com o Paulo há muito tempo, na maioria das vezes trocávamos recados pela Ana ou mensagens, nos afastamos do pessoal, ele estava com o Otávio no colo, começou a falar que eu estava um pouco diferente, falei que era a vida dupla de mãe e empreendedora, ele respondeu me olhando nos olhos:— Entendi, é complicado mesmo. Não sei se você também acha isso estranho, mas, levando em conta que você casou com o viúvo da minha irmã e cria a minha sobrinha como sua filha, a nossa história é toda estranha, quero te falar uma coisa, te considero muito e somos amigos.— Resolvi ficar com a Isabelly, já tem um tempo que estamos tentando, eu fui sincero com ela s
Capítulo 198Ele perguntou se podia fazer algo por mim, falei que não, a Eduarda entrou com o Samir, estavam falando dos familiares dela, que estavam especulando sobre os dois, levantei, fomos para a sala, a Eduarda estava animada, rindo, conversando, perguntou se eu não podia ir comprar as bebidas com o Tariq, falei que iria, ela respondeu:— Sem pressa, tá?— Se quiser, leva as chaves de casa, uma aventura é sempre bem-vinda.Falei que não precisava, achei melhor sair, fomos no mercado, ele disse que a Amara havia perguntado se ele não gostava mais de mim como "marida", porque uma amiguinha disse que só casais que não se gostavam dormiam separados, comecei a rir, perguntei o que ele tinha respondido, ele me olhou, sorriu:— Eu disse a verdade apenas.Perguntei qual era a verdade, ele respondeu cínico:— E isso importa, Kamile?Falei que não sabia o quanto, no mercado ele começou a escolher bebidas sem álcool pra mim, vários sucos, danones, tentei interagir com o pessoal, fiquei brig
Capítulo 197Falei que sim, que só tinha muita fome, ela começou a falar que o Samir conversou muito com ela todos os dias enquanto ele estava viajando, e ela ia deixar acontecer, eles fizeram um acordo sobre se conhecerem melhor, sem ficar, porque ela mesma nem poderia se envolver fisicamente com ele por causa da gravidez de risco, a médica proibiu qualquer tipo de relação porque a excitação causava contrações e não era bom pra ela, o que mais me surpreendeu foi ele aceitar aquilo.Ela disse que só estava mentindo para a Suzi pela última vez, porque, após conversarem pessoalmente, ela ia abrir o jogo em casa, ficou falando da importância de falar a verdade sempre, super concordei, mas com medo dela ir pra casa e ver que estávamos dormindo separados.O Samir foi buscar ela pra sair, achei que ela ia embora pra casa dela depois, à noite eles dois foram pra minha casa, ela foi curta e grossa, perguntou até quando eu ia esconder dela o que estava acontecendo, ele se desculpou comigo, dis
Capítulo 196Fiquei chateada, ele disse que tinha certeza, porque quanto mais me mostrava que me queria, mais distante eu ficava, falei:— Não ia adiantar você continuar sendo incrível comigo porque eu não quero isso, não como você quer.— Eu gosto de estar com você, já te falei isso, me sinto realizada na cama, com você tive um relacionamento super diferente de todos os anteriores, só que temos três crianças no meio disso.Ele respondeu chateado:— Tá bom, fiz o que pude, mas no fundo eu sabia, você não é do tipo que joga com os sentimentos das pessoas.— O que você quer fazer agora?— Como vão ficar as coisas entre nós?Falei que já tinha pensado em tudo, eu ia procurar uma casa próxima ali no bairro, colocar o Otávio na escola em período integral, dividir os horários com a Amara, ele disse que também já tinha pensado em tudo, só que infelizmente achava que seria muito difícil morarmos separados de início, com um bebê a caminho, ficamos horas conversando madrugada adentro, ele inici
Capítulo 195Eu já não sabia mais como me comportar com ele, às vezes parar pra pensar me colocava em estado de pânico, com uma angústia enorme, era sexta-feira à noite, quando cheguei em casa vi que o carro dele já estava lá, a Amara entrou chamando por ele, fui na cozinha guardar um pote com comida que a Cris tinha mandado, ouvi a Amara falando:— Ahhh, pai, por quê? Eu quero ir junto.Encostei na porta, falei pra ele:— Oi, tudo bem? Como foi seu dia?Ele levantou, se aproximou, parou na minha frente e respondeu sério:— Estou bem, e você? Já arrumou tudo?— Eu ia te ligar, mas acabei ficando ocupado com um cliente, aquele que te falei esses dias que estava afastado por acidente de trabalho.Falei que sim, perguntei se ele queria comer, ele respondeu:— Não, obrigado, vou tomar banho.— Você precisa de algo da rua?— Não vai levar o Otávio mesmo?Falei que já estava quase tudo certo, que eu não ia levar ele, fui terminar de arrumar o que faltava, organizei o quadro das tarefas e os







