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Reunião com o Conselho.

Author: M Souza
last update publish date: 2025-08-24 08:29:30

Narrado por Dmitri Volkov

A sede da Bratva parecia sempre a mesma: o corredor comprido, o piso de mármore negro refletindo as luzes frias, os quadros antigos mostrando rostos de homens que comandaram Moscou pela sombra. O cheiro de madeira envernizada, uísque caro e pólvora antiga vivia ali, impregnado nas paredes como uma oração silenciosa. Entrei sem pressa, o casaco escuro caindo pesado sobre os ombros, e dois seguranças abriram a porta dupla do salão como se estivessem abrindo um tribunal.

A mesa do conselho era uma cruz de carvalho maciço. Sobre ela, castiçais prateados, papéis, anéis grossos estalando contra a madeira quando os velhos se mexiam. Eram homens que tinham sobrevivido a guerras, traições e invernos. Homens que conheciam a palavra medo só no dicionário e mesmo assim a reescreviam. Eu os respeitava. Não por afeto, mas porque eram parte da máquina que eu iria herdar.

Conselheiro Ivanov: — Dmitri, o casamento está próximo. Com ele, vêm responsabilidades que você não pode ignorar.

Parei atrás da cadeira de couro, deixei a mão escorregar pelo encosto. O couro era frio, mas não mais do que eu.

Dmitri: — Eu sei.

Me sentei. O ranger baixo da cadeira soou como uma ponta final. A respiração do salão diminuiu.

Conselheiro Morozov, sempre o mais teatral, inclinou-se para frente. A pele dele parecia papel de cigarro esticado sobre os ossos.

Conselheiro Morozov: — Talvez seja de bom tom visitar a clínica. Descongelar seu sêmen. Iniciar o processo na sua noiva.

Inclinei a cabeça, como quem observa um detalhe irrelevante numa pintura famosa.

Dmitri: — Por quê, exatamente?

Conselheiro Sokolov: — Porque você precisa de herdeiros. Para que o nome Volkov não seja apenas eco, mas voz.

Herdeiros. Uma palavra pesada demais para algo tão pequeno e barulhento quanto uma criança. Eu lembrava muito bem do dia em que congelei meu material: foi um ato clínico, asséptico, sem sentimento. Um investimento frio. Um cofre que eu não pretendia abrir.

Dmitri: — Eu odeio crianças. Não quero me casar. Só aceito essa união porque a aliança é útil. Vocês sabem disso. Se me obrigam a ir além, não confundam meu silêncio com obediência.

O ar mudou. Alguns olharam para as próprias mãos. Outros sustentaram meus olhos. Ivanov, que me viu crescer, foi o primeiro a romper o silêncio.

Conselheiro Ivanov: — Você não é mais um menino, Dmitri. Já tem trinta anos. A cidade te chama de lobo, mas às vezes ladra para a lua errada. Você está enrolando Catarina.

O nome dela entrou como gelo pelo ouvido. Catarina Smirnova. O noivado arranjado, a festa silenciosa num salão de cristal, o sorriso dela que não alcançava os olhos. Eu tinha encontrado aquela mulher três vezes: uma apresentação, um jantar com quatro frases e um brinde sem contato visual. Bastou para saber que ela falava muito e dizia pouco.

Conselheiro Morozov: — O pai dela está em surto. Você sabe o quanto ele foi importante para os negócios e para o seu pai. A união das famílias Volkov e Smirnov precisa ser consolidada.

Meu pai. O fantasma que ainda atravessava corredores. Eu cresci ouvindo os conselheiros repetirem a mesma ladainha: legado, honra, sangue. Cresci aprendendo que sentimentos são um luxo que os reis não podem comprar.

Dmitri: — Eu sei. Sei melhor do que qualquer um aqui. Catarina é um erro necessário. Ela me irrita até quando respira, mas a família Smirnov é uma peça que quero do meu lado, não do outro. Em dois meses estarei casado, como está previsto.

Passei os dedos sobre a borda do copo diante de mim, girando o líquido âmbar sem prová-lo. Eu detestava a sensação de ser empurrado. Preferia empurrar.

Dmitri: — Se querem que eu vá à clínica antes, tanto faz. Não me importo.

Conselheiro Sokolov: — É prudente que você leve Catarina.

A palavra prudente me fez sorrir por dentro. Prudência era o nome que os velhos davam aos próprios medos.

Dmitri: — Preciso mesmo arrastar aquela mulher atrás de mim?

Conselheiro Ivanov: — Ela vai carregar o seu filho. É de bom tom que você se aproxime. Que demonstre algum… interesse. Vocês estão noivos há meses e não trocaram uma palavra que preste.

Respirei fundo. Na minha cabeça, a imagem de Catarina surgia como um vestido caro mal ajustado: bonito para a foto, incômodo para a pele. Eu via nela a utilidade, não o valor.

Dmitri: — E nem quero trocar. Ela é insuportável.

Conselheiro Morozov: — Não se trata do que você quer. Trata-se de uma aliança de sangue. A família Smirnov precisa se sentir respeitada, e nós precisamos de herdeiros.

A palavra voltou. Herdeiros. Pequenos príncipes que choram, quebram coisas e olham para você como se você fosse um mundo. Eu preferia que o mundo me olhasse, não o contrário. E, ainda assim, eu sabia contar. Sabia calcular riscos. A matemática da Bratva não tem poesia: soma-se poder, multiplica-se obediência, divide-se o medo.

Dmitri: — Muito bem. Mandem uma mensagem para Catarina. Digam a ela que me encontre amanhã, às nove da manhã, em frente à clínica.

Levantei-me. Minhas mãos ajustaram o paletó por hábito.

Dmitri: — Eu não vou buscá-la em casa.

Conselheiro Ivanov: — Dmitri…

Girei o rosto devagar. O velho conhecia o limite do meu tédio.

Dmitri: — Eu disse que ela que me encontre lá. Às nove. Pontualidade é respeito.

Dei as costas. As portas pesadas se abriram mais uma vez, e o ruído do mundo voltou aos meus ouvidos. No corredor, Mikhail me esperava, como sempre. Leal, calado, eficiente.

Mikhail: — Precisará do carro preto ou do cinza?

Dmitri: — Preto. E envie a mensagem. Amanhã, nove da manhã, clínica Serebryanaya. Catarina que chegue sozinha.

Mikhail apenas assentiu. Eu gostava de homens que entendiam o jogo sem pedir regras escritas.

Caminhei até a janela do fim do corredor. Do alto, Moscou parecia uma fera adormecida. O rio cortava a cidade como uma cicatriz antiga. Senti o frio do vidro na palma da mão. Minha mente voltou, por um instante, à palavra proibida: criança. Tentei imaginar se aquele cofre de nitrogênio que eu mantinha esquecido em um hospital privado guardava a chave de um futuro que eu não queria.

Meu pai costumava dizer que um Volkov não pede; toma. Eu aprendi a lição tão bem que, às vezes, esquecia de perguntar a mim mesmo o que, de fato, eu queria. Talvez porque a resposta fosse simples demais: eu queria paz. E paz não combina com herdeiros, alianças, sorrisos falsos em fotografias de casamento.

Ainda assim, eu não era um menino. A cidade cobrava, a máfia requeria, o nome Volkov sustentava impérios. E impérios não se constroem com caprichos. Se precisavam de um herdeiro para calar o conselho, eu entregaria um herdeiro. Do meu jeito. No meu tempo. E se Catarina servis­se para isso, que servisse.

Desci as escadas em passos lentos. A cada degrau, o som da casa antiga ecoava como um relógio sem ponteiro. Ao cruzar o saguão, dois jovens guardas endireitaram a postura. O respeito deles não me alimentava; me lembrava de que eu já comia na mesa de cima.

Lá fora, o vento trouxe cheiro de neve e óleo de motor. Entrei no carro e deixei a cidade escorrer pelos vidros. Pessoas apressadas, luzes em neon, uma igreja num cruzamento lançando sombras longas na calçada. Minha cabeça já estava na clínica. Em como atravessar aquele ambiente de jalecos e sussurros sem sentir que estava deixando estranhos tocarem meus planos. Sempre odiei ambientes onde o poder veste branco e fala baixo. Prefiro quando o poder olha nos seus olhos e não pisca.

Meu telefone vibrou. Mikhail me encaminhou o comprovante: a mensagem havia sido enviada para a assessora de Catarina. Um convite que não era convite. Uma instrução.

Mikhail: — Responderam. “Senhorita Catarina confirma presença às 9h.”

Dmitri: — Ótimo.

Fechei os olhos por um segundo, sentindo o motor ronronar. Um casamento em dois meses, uma clínica amanhã, um conselho que me observava como quem confere as cercas antes da tempestade. Era curioso: quando você aceita a jaula, a chave deixa de importar.

Abri os olhos. A cidade continuava em frente, indiferente à minha agenda. Pensei em Catarina com seu perfume doce demais, educação precisa demais, risadas que aconteciam sempre um segundo depois das dos outros. Seria mãe de um Volkov. Seria uma rainha por decreto — e nada em mim acreditava que ela tinha nascido para isso. Mas coroas, no nosso mundo, raramente ficam na cabeça mais preparada. Ficam na cabeça mais útil.

Passei a língua pelos dentes, buscando um gosto que não vinha. Herdeiros. Crianças. Um legado que respira. O conselho queria aquilo como quem cobra imposto. Eu daria. Porque, no final, eu sempre entrego o que me pedem, desde que eu decida a forma.

O carro dobrou a esquina e estacionou diante do meu prédio. Desci, o casaco pesando como um veredito. No hall, o espelho me devolveu um rosto que não parecia cansado, mas carregava uma sombra nas pupilas. Não era dúvida. Era cálculo.

Amanhã, às nove, a clínica. Catarina chegando sozinha. O nitrogênio abrindo a boca fria para cuspir o futuro. E eu, ao lado dela, lembrando ao mundo, e a mim mesmo que o lobo não ladra para a lua errada. Ele escolhe a noite.

Dmitri: — Mikhail, às oito e quarenta. Na porta.

Mikhail: — Sim, senhor.

Subi no elevador em silêncio. O número do andar acendeu como um contador regressivo. Em dois meses, uma aliança. Em menos tempo, um procedimento. O conselho ficaria satisfeito. A família Smirnov, acalmada. O pai dela, controlado. E eu, no centro, como sempre o homem que odeia crianças tomando providências para criar uma.

Sorri sem mostrar os dentes. Às vezes, a melhor maneira de manter o controle é abraçar o que você despreza e moldá-lo com suas próprias mãos.

Amanhã, a clínica. Depois, o resto. E se o destino ousasse atravessar meu caminho, ele aprenderia a lição que todos aprendem cedo ou tarde nesta cidade:

Dmitri Volkov não pede. Dmitri Volkov toma.

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