LOGINEMMA A mulher da fotografia tinha os meus olhos. Não eram apenas parecidos. Tinham a mesma forma ligeiramente inclinada, a mesma pálpebra pesada e uma pequena diferença entre o direito e o esquerdo que eu sempre atribuíra ao lado Collins. O homem segurava-me com os dois braços. Parecia assustado com a possibilidade de me deixar cair, embora sorrisse para a câmara. Matteo e Elena Valenti. Os meus pais biológicos. Sentei-me diante da caixa aberta. Sarah ficou ao meu lado. Mikael e Daniel mantiveram-se atrás, em silêncio. O arquivo continha quarenta e três páginas. Havia fotografias, cópias de registos, uma carta e uma lista de bens colocados numa fundação. As últimas folhas mostravam pagamentos feitos nos meses anteriores ao ataque que destruíra os Valenti. Não consegui começar pelos crimes. Abri a carta. Tinha sido escrita pela minha mãe quando eu ainda não completara dois meses. Não era uma despedida. Elena falava sobre noites sem dormir, sobre a forma como eu só me acalmav
EMMA Mikael esperou até Liam e Noah adormecerem. Eu permaneci sentada entre as camas durante mais tempo do que precisavam. Noah dormia com uma mão fechada na manga do irmão. Liam estava virado para a porta comunicante, como se até durante o sono precisasse de confirmar que ninguém entrava. Quando saí, Sarah esperava no corredor. Era a única pessoa que eu ainda chamava família sem precisar explicar a palavra. Os meus pais, Anne e David Collins tinham morrido num acidente quando eu tinha dezoito anos. Depois deles, Sarah esteve comigo nos aniversários, nas mudanças de casa, na gravidez e em todos os momentos em que o silêncio parecia demasiado grande. Não existia nenhum número para o qual eu pudesse ligar quando Mikael destruísse aquilo que acreditava saber. Entrámos numa pequena sala ligada à suite. Daniel colocou a pasta sobre a mesa. — Não pedi que ficasses — disse-lhe. — Os documentos estão comigo. —É só os pôr na mesa e sair. Durante alguns segundos, pensei qu
DANIEL A confirmação da paternidade mudou a posição das crianças dentro da organização antes de mudar a relação que tinham comigo. Liam e Noah continuavam a chamar-me Daniel. Emma continuava a dormir num quarto separado e a observar cada gesto meu como se esperasse descobrir a condição escondida. Nada disso me surpreendia. O que não podia continuar era o compromisso com Bianca. Tinha aceitado aquele casamento porque Elias o apresentara como um acordo entre famílias. Nunca lhe prometera amor e Bianca nunca o exigira. Naquela altura, parecera simples unir os portos dos Romano aos homens dos West e transformar um contrato numa cerimónia. Agora eu tinha dois filhos reconhecidos e a mãe deles vivia sob o meu teto. Manter outra mulher presa a um acordo já não era apenas inútil. Criaria uma guerra dentro da mesma casa. Mandei chamar Bianca e Vittorio nessa tarde. Adrian permaneceu no gabinete. Elias apareceu sem ser conv
DANIEL Os dois laboratórios chegaram à mesma conclusão. Liam e Noah eram meus filhos. Li os relatórios completos antes de permitir que qualquer outra pessoa entrasse no gabinete. As percentagens, marcadores e assinaturas dos técnicos ocupavam várias páginas. Não precisava de compreender cada linha para reconhecer o resultado repetido nos dois documentos. Paternidade confirmada. Durante seis anos, procurei Emma porque acreditava que levara informações capazes de destruir parte da minha organização. Durante os mesmos seis anos, ela criara dois filhos meus sem utilizar o meu nome, dinheiro ou proteção. Eu encontrara-os numa praça sem saber quem eram. Salvara Noah da estrada, ouvira Liam agradecer e regressara ao automóvel convencido de que a familiaridade que sentira não merecia atenção. Agora, cada detalhe parecia uma prova que eu devia ter reconhecido. Adrian entrou quando o autorizei. — Os resultados são seguros? — perguntou. — Dois laboratórios. Equipas separa
EMMAEsperar pelo resultado do ADN era pior do que enfrentar uma resposta imediata.Durante o primeiro dia, Noah perguntou sete vezes se o laboratório já telefonara. Liam não perguntou nenhuma, mas aproximava-se sempre que o aparelho de Sarah tocava.Daniel desapareceu depois do pequeno-almoço.Não sabia se interrogava Marco, procurava os homens que fotografaram a chegada ou preparava documentos para transformar as crianças em herdeiros antes de confirmar que eram filhos dele.Tentei não pensar nisso.Passei o dia com Liam e Noah dentro da ala oeste. Um funcionário trouxe roupa, livros, jogos e uma bola nova. Noah perdoou imediatamente a mansão por não ter uma. Liam perguntou quem escolhera os objetos.— Foi uma ordem do Daniel — respondeu o homem.— Ele não sabe do que gostamos.— Então podem fazer uma lista.Liam não fez.Noah escreveu apenas “baliza” e entregou o papel a um guarda.À noite, nenhum dos dois quis dormir sem mim. Deitei-os, esperei até a respiração de Noah se tornar p
DANIELNoah entrou no meu escritório sem bater às nove da manhã.Um guarda surgiu atrás dele, visivelmente preparado para explicar como permitira que uma criança de seis anos atravessasse dois corredores vigiados.— A mãe está a dormir — anunciou Noah. — O Liam também, mas eu já não tenho sono.Pousei o relatório de Marco.— E a Sarah?— Está com o Mikael. O senhor da porta disse que eu não podia ir à enfermaria.— O senhor da porta tinha razão.Noah entrou mais um passo e olhou em redor. Os olhos demoraram-se nas estantes, na janela e na gaveta onde eu guardara a arma antes de ele chegar.— O que fazes aqui?— Trabalho.— A minha mãe também trabalhava numa secretária, mas tinha mais papéis.— Eu guardo os papéis.— Porque são segredos?— Porque não te dizem respeito.Ele aceitou a resposta sem ficar ofendido.— Tens uma bola?— Não.— A tua casa é muito grande para não ter bolas.O guarda continuava à porta.— Leva-o de volta à ala oeste — ordenei.Noah franziu a testa.— Eu sei o ca







