INICIAR SESIÓNETHAN A ligação do advogado chegou pouco depois das dez da manhã, quando a casa já tinha retomado o silêncio habitual dos dias úteis. Chloe estava na HelioGrid desde cedo, e a equipe doméstica circulava apenas pela parte inferior da mansão, deixando o escritório isolado do restante da propriedade. O assunto anunciado pela secretária jurídica parecia simples: Henrique precisava organizar as providências ligadas ao encerramento do período previsto no contrato de casamento. A conversa deveria durar poucos minutos. Ainda assim, quando o advogado mencionou que havia alternativas caso os dois preferissem adiar qualquer decisão definitiva, Ethan fechou o documento que analisava e passou a prestar atenção em cada palavra. — Existem algumas possibilidades que eu queria apresentar antes de preparar a documentação final. Henrique falava através do viva-voz, com a objetividade de quem enxergava o casamento como mais um instrumento jurídico. — A primeira é simplesmente deixar o período contratua
CHLOE O número trinta e dois apareceu na cabeça de Chloe antes mesmo que o despertador tocasse. Ela abriu os olhos ainda deitada sobre o peito de Ethan, sentindo uma das mãos dele repousada em sua cintura e a respiração lenta perto de seus cabelos. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, aproveitando o calor do corpo ao lado e a tranquilidade daquela manhã, até se lembrar de que trinta e dois dias os separavam do fim do período previsto no contrato. A informação entrou no quarto sem qualquer utilidade e alterou imediatamente a sensação de conforto. Chloe fechou os olhos outra vez, irritada consigo mesma. Na noite anterior, tinha decidido dormir ali, transado com Ethan e adormecido em seus braços. Nenhuma dessas escolhas precisava servir como resposta sobre o mês seguinte, embora seu cérebro começasse a transformar cada momento numa contagem regressiva. Ethan se mexeu alguns minutos depois e passou a mão pelas costas dela antes de abrir os olhos. Chloe percebeu quando ele despert
ETHAN A mala desapareceu do quarto de Chloe na manhã seguinte ao retorno. As roupas voltaram para o closet, os produtos de higiene ocuparam outra vez o banheiro e o carregador do celular reapareceu na tomada ao lado da cama. Pequenos sinais devolviam à mansão a presença que faltou durante seis dias, e nenhum deles parecia importante o bastante para justificar a satisfação que causava. A diferença estava no significado. Chloe conheceu a possibilidade de viver longe dali, voltou para o apartamento, trabalhou, dormiu sozinha, saiu com Ethan como namorada e teve liberdade suficiente para continuar naquela vida pelo tempo que desejasse. No sexto dia, colocou as coisas dentro da mala e voltou. Dessa vez, nenhum contrato conduziu seus passos até a casa. Nos três dias seguintes, a rotina se reorganizou com uma facilidade que Ethan recebeu com mais prazer do que pretendia demonstrar. Chloe tomou café com ele pela manhã, saiu para a HelioGrid usando o próprio carro, voltou no fim da tarde e a
CHLOE A mala ocupava o centro da cama outra vez, embora naquela manhã estivesse aberta por uma razão muito diferente da que a deixou escondida durante meses no fundo do armário. As roupas entravam dobradas com calma, escolhidas entre as peças que Chloe levara para passar uma semana no apartamento e algumas que ainda permaneciam ali desde antes do casamento. O sexto dia começou com uma certeza simples. A experiência já tinha produzido a resposta que ela procurava, e continuar longe apenas para cumprir os sete dias planejados transformaria uma decisão emocional em calendário. Durante aquela semana, o apartamento cumpriu uma função importante. Chloe acordou sozinha, voltou da HelioGrid sem encontrar Ethan na cozinha, assistiu a filmes com Mia, dormiu na cama estreita do antigo quarto e retomou pequenas rotinas que existiram muito antes da mansão. Esperava que aquele espaço devolvesse algum senso automático de identidade, como se as paredes, os móveis e os objetos pudessem reconectá-la
ETHAN A mala aberta sobre a cama ocupava pouco espaço no quarto e, ainda assim, conseguiu trazer de volta uma noite que Ethan lembrava com detalhes demais. A marca lateral continuava no mesmo lugar, a etiqueta antiga permanecia presa à alça e algumas roupas tinham sido afastadas para que Chloe pudesse encontrá-la no fundo do armário. Ele não precisava perguntar o que tinha acontecido. A expressão dela, a posição do objeto e a tensão que encontrou assim que entrou no apartamento deixavam claro qual fragmento tinha voltado. Por alguns segundos, ficou perto da porta, sentindo a mesma pressão no peito que experimentou quando a viu arrumar aquela mala pela primeira vez, meses antes, depois da publicação da matéria de Rebecca Sloan. Naquela ocasião, Chloe estava humilhada, furiosa e exausta. A reportagem transformou mentiras, omissões e circunstâncias reais numa narrativa em que ela aparecia como uma oportunista que seduziu um homem rico, conseguiu emprego por influência e usou um casamen
CHLOE O armário antigo ocupava quase toda a parede do quarto e guardava mais coisas do que Chloe imaginou quando decidiu passar alguns dias no apartamento. Mia tinha dito pela manhã que talvez ainda existisse ali uma pasta com anotações sobre a certificação profissional que ela pretendia retomar, e a busca parecia simples até que roupas antigas, caixas de documentos e objetos esquecidos começaram a aparecer nas prateleiras superiores. Depois de quase meia hora, Chloe já tinha colocado metade do conteúdo sobre a cama e começava a desconfiar de que a organização anterior ao acidente era muito menos eficiente do que gostaria de acreditar. Ainda assim, continuou procurando, interessada em qualquer registro que ajudasse a reconstruir planos profissionais sem depender das informações fornecidas por outras pessoas. A noite anterior continuava aparecendo em pequenos intervalos enquanto ela mexia nas caixas. Ethan tinha entrado naquele apartamento pela primeira vez como convidado, transado c







