LOGINMIA O duplex de Tribeca parecia uma extensão da personalidade de Adrian: impecável, caro, silencioso e organizado demais para um lugar onde alguém realmente morava. As janelas ocupavam quase toda a parede da sala e mostravam Manhattan iluminada lá embaixo, enquanto poucos objetos pessoais quebravam a perfeição dos móveis escuros e das superfícies limpas. Uma mala fechada permanecia perto da escada, outra estava aberta sobre um banco, e duas camisas ainda envolvidas em capas de viagem pendiam perto da entrada. Eu só precisava olhar ao redor para entender que aquele apartamento servia mais como ponto de passagem do que como casa. — Você mora aqui ou faz conexão? — Tirei os sapatos perto do sofá e olhei para a mala. — Só falta painel anunciando embarque para Londres. — Eu cheguei ontem. — Adrian deixou duas pastas sobre a mesa e tirou o paletó. — Algumas pessoas trabalham fora da própria cidade. — Algumas pessoas também desfazem malas. — Caminhei até a janela e observei a vista. — Vo
CAPÍTULO 308ADRIAN As telas da sala de integração mostravam três versões diferentes do mesmo problema desde pouco depois das sete da manhã. Um contrato europeu estava ameaçado, uma auditoria interna tinha encontrado documentos incompletos da antiga administração e o cronograma de entrega já começava a sofrer impacto. A equipe técnica trabalhava em silêncio diante dos notebooks, enquanto mensagens chegavam de Londres, Albuquerque e Frankfurt numa velocidade que tornava inútil qualquer tentativa de fingir que aquilo seria resolvido com uma reunião curta. O cliente queria garantias antes do fim do dia. Caso não recebesse, suspenderia a renovação e transferiria parte do fornecimento para um concorrente. Entrei na sala depois de uma chamada com Londres e encontrei Mia inclinada sobre a mesa, comparando duas planilhas com um contrato aberto no tablet. Desde a discussão na recepção, dois dias antes, ela mantinha comigo uma cordialidade irritantemente profissional. Aceitara ficar em Nova Y
MIA O salão do hotel ocupava quase todo o último andar, cercado por janelas altas que mostravam Manhattan iluminada e grupos de empresários espalhados entre mesas, taças e arranjos discretos. A recepção reunia investidores, executivos, representantes de fundos e clientes internacionais da Langford Meridian, e a quantidade de ternos caros por metro quadrado provavelmente financiaria uma cidade pequena. Eu ainda estava no quarto quando comecei a me arrumar, tentando decidir se o vestido preto que escolhera servia para três horas de conversas sobre dinheiro, expansão e empresas que alguém pretendia comprar. O celular tocou sobre a cama enquanto eu terminava de colocar os brincos. Chloe apareceu na tela com Liza apoiada contra o peito, usando a expressão cansada e feliz que começava a fazer parte dela desde o nascimento da filha. — Quero ver o vestido. — Chloe ajeitou Liza e aproximou o telefone do rosto. — Você está demorando demais para aparecer inteira. — Você ligou para fiscalizar
ADRIAN A sede da Langford Meridian ocupava vários andares de uma torre de vidro em Manhattan, com corredores silenciosos, salas cercadas por divisórias transparentes e uma movimentação constante de executivos que pareciam carregar duas reuniões atrasadas dentro da mesma pasta. Do quadragésimo andar, a cidade se espalhava sob uma manhã cinzenta, atravessada por táxis, pedestres e prédios que quase escondiam o céu. A equipe de Albuquerque tinha recebido uma sala temporária próxima ao setor de integração internacional, e o nome de Mia já aparecia na porta ao lado dos profissionais enviados pela empresa adquirida. Adrian chegou pouco antes das oito, depois de uma ligação com Londres e outra com Chicago, e encontrou Mia sozinha diante de dois monitores, comparando contratos com um relatório operacional. Ela estava em Manhattan havia menos de vinte e quatro horas e já tinha recusado três vezes a ajuda da equipe administrativa para organizar a agenda. Também rejeitara o hotel escolhido pel
MIALiza se mexia no colo da mãe e os documentos da certificação ocupavam metade da mesa. A manhã na mansão tinha começado cedo, embora a casa ainda mantivesse um silêncio confortável. Chloe lia uma página enquanto segurava a filha com um braço e interrompia o estudo sempre que Mia acrescentava outro detalhe sobre o primeiro dia da aquisição. — Ele literalmente falou: “A partir de amanhã você participa da integração comigo”. — Mia imitou o tom autoritário de Adrian e pegou a xícara. — Como se tivesse comprado a empresa e recebido todos os funcionários dentro da embalagem. — Isso é muito Adrian. — Chloe riu e ajeitou Liza contra o peito. — Ele costuma transformar opinião em comunicado oficial. — Isso é muito sequestrador corporativo. — Mia bebeu café e soltou uma respiração irritada. — O pior é que a integração precisa de alguém que conheça a operação. — Então você está pensando em aceitar. — Chloe fechou o material de estudo e voltou toda a atenção para a amiga. — Só ainda quer fi
ADRIAN O ambiente da empresa adquirida estava tenso desde cedo. Engenheiros atravessavam os corredores falando baixo, gerentes carregavam relatórios entre setores e parte da diretoria acompanhava a equipe da Langford Meridian pela área operacional com a cautela de quem ainda tentava descobrir o que uma aquisição significaria na prática. A companhia tinha tecnologia competitiva, contratos importantes e crescimento suficiente para justificar o investimento, embora os custos tivessem aumentado rápido demais sob uma administração pouco disciplinada. A Langford Capital estruturara financeiramente a operação, enquanto a Meridian assumiria a integração e a reorganização estratégica. Adrian caminhava entre as instalações acompanhado por três executivos quando encontrou uma linha experimental que consumia uma quantia elevada e ainda não gerava receita. Ouviu durante alguns minutos a explicação do diretor responsável, conferiu os números no tablet e perdeu o interesse antes que o homem termin







