LOGINRenata No meu sonho, não havia seguranças na porta.Não havia câmeras.Não havia Marcelo.Não havia Helena.Não havia medo.Só uma casa.Nem era uma casa enorme como as que combinavam com o sobrenome Monteiro. Era bonita, confortável, iluminada pelo sol que atravessava janelas abertas. Havia brinquedos espalhados pela sala e uma manta jogada sobre o sofá.E Erick estava no meio de tudo aquilo.Descalço.Com nosso bebê nos braços.— Assim? — ele perguntou, parecendo completamente perdido.Eu ri.— Segura a cabecinha.— Estou segurando.— Erick, você administra uma empresa inteira e está com medo de um bebê de quatro quilos?— Empresas não choram quando eu seguro errado.Ri mais alto.Ele me olhou indignado, enquanto nosso filho fazia um barulhinho baixo em seus braços.Então aconteceu.Erick sorriu para o bebê.Não aquele sorriso discreto que ele dava quando tentava esconder sentimentos.Era aberto.Feliz.Livre.Meu coração ficou cheio.Aproximei-me.Ele ergueu os olhos para mim.— V
Erick Existem momentos em que você percebe que o problema é maior do que imaginava.E existem momentos em que descobre que o problema carrega o seu sobrenome.Eu estava encarando a tela do computador pela terceira vez.O relatório continuava igual.O número do aparelho usado para enviar a mensagem anônima para Renata estava ali.Confirmado.Rastreado.Identificado.E cada linha que eu lia fazia meu estômago se revirar mais.— Tem certeza? — perguntei.César assentiu.— Verificamos duas vezes.Passei a mão pelo rosto.— Não pode ser coincidência.— Também não acho.Olhei novamente para o nome.Alberto Mendes.Um funcionário antigo.Muito antigo.Trabalhava para minha família desde antes de eu assumir a empresa.Antes mesmo de eu terminar a faculdade.Antes de eu entender como funcionava o mundo dos Monteiro.Meu maxilar travou.— Ele ainda trabalha para minha mãe?— Sim.O silêncio que tomou conta da sala foi pesado.Perigoso.Porque aquilo não provava que Helena tinha enviado a mensa
Renata A confiança era uma coisa estranha.Levava meses para nascer.Segundos para morrer.Eu estava aprendendo isso da pior forma.A manhã tinha começado tranquila. Erick saiu cedo para uma reunião importante, prometendo voltar para o almoço. Antes de sair, deixou um beijo na minha testa, outro na barriga e me fez prometer que tomaria as vitaminas.Uma cena simples.Bonita.Quase normal.Mas a normalidade nunca durava muito tempo na minha vida.Eu estava sentada na sala, organizando algumas roupinhas do bebê quando o celular vibrou.Sorri automaticamente, pensando que fosse Erick.Mas não era.Número desconhecido.Meu estômago apertou imediatamente.Abri a mensagem."Você realmente acredita que Erick Monteiro contou toda a verdade?"Franzi a testa.Li novamente."Pergunte a ele o que ainda está escondendo sobre Marcelo."Meu coração desacelerou.Depois disparou.A mensagem continuava."Todo mundo mente quando tem algo a perder."As mãos ficaram geladas.A conversa terminava ali.Sem
Erick Acordei antes do despertador.Por alguns segundos, permaneci imóvel, encarando o teto escuro do quarto enquanto tentava entender por que aquela manhã parecia diferente.Então senti.O peso leve da cabeça de Renata apoiada em meu ombro.A mão dela repousava próxima à minha sobre o cobertor. A respiração tranquila preenchia o silêncio do quarto. E, pela primeira vez em muitos anos, eu não acordei pensando em reuniões, contratos ou problemas.Acordei pensando em ficar.Virei o rosto devagar.A luz suave do amanhecer atravessava as cortinas, desenhando sombras delicadas sobre o rosto dela.Era uma cena simples.Mas mexeu comigo de um jeito que nenhuma conquista profissional jamais conseguiu.Porque aquilo parecia lar.Uma palavra que sempre existiu para outras pessoas, nunca para mim.Cresci em uma casa enorme. Cercado de luxo. Cercado de regras.Mas nunca tive isso.Nunca tive paz.Nunca tive alguém dormindo ao meu lado por escolha.Nunca tive uma mulher confiando em mim o suficie
Renata Algumas pessoas conseguem machucar sem levantar a voz.Helena Monteiro era exatamente esse tipo de pessoa.Já tinham se passado dois dias desde a visita dela ao apartamento seguro, mas suas palavras continuavam rondando minha cabeça como uma sombra insistente.Às vezes eu estava distraída, organizando as roupinhas que começavam a chegar para o bebê, e lembrava do olhar dela.Outras vezes estava tomando café e escutava novamente aquela voz elegante e cruel."Você não pertence a esse mundo.""Está ocupando um lugar que não é seu.""Mais cedo ou mais tarde, Erick vai perceber o erro."Eu tentava ignorar.Tentava fingir que não me afetava.Mas afetava.Porque, por mais que eu odiasse admitir, Helena conhecia um medo que eu escondia até de mim mesma.O medo de não ser suficiente.O medo de acordar um dia e descobrir que tudo aquilo era temporário.Que o amor de Erick tinha prazo de validade.Que o mundo dos Monteiro acabaria me engolindo.Suspirei enquanto observava a cidade pela j
Erick A porta do meu apartamento nunca pareceu tão frágil quanto no momento em que Helena Monteiro a atravessou. Não houve pedido de desculpas, não houve hesitação. Apenas o som dos saltos batendo contra o piso de madeira, um ritmo que sempre significou controle, poder e, agora, uma invasão que eu não estava disposto a tolerar.Renata estava na sala, lendo um dos meus relatórios de projeto, com aquela expressão serena que sempre acalmava o caos que minha vida se tornara. Quando os olhos dela encontraram os de Helena, vi a luz se apagar. Vi o medo, não por ela, mas pelo que sabia que aquela mulher representava.— O que você está fazendo aqui? — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, um rosnado contido que, em circunstâncias normais, faria qualquer um recuar.Minha mãe não recuou. Ela parou no centro da sala, olhando para o ambiente com um desdém que me embrulhou o estômago. O olhar dela passou por cima de mim, como se eu fosse um móvel mal posicionado, e fixou-se em Renata e n







