Compartilhar

Trauma

last update Data de publicação: 2026-07-10 01:14:46

Eu havia comprado aquele apartamento algum tempo atrás. Havia algo naquele lugar que me pareceu certo desde o primeiro instante, mesmo quando Frederick não conseguiu enxergar valor algum ali.

E, assim que cruzei a porta do apartamento pela primeira vez sozinha, compreendi o motivo.

Aquele lugar tinha algo que a mansão nunca conseguiu me oferecer.

Liberdade.

Um sorriso leve surgiu em meus lábios enquanto observava o ambiente silencioso ao meu redor.

Não havia empregados circulando. Não havia olhares. Não havia tensão.

Apenas paz.

Servi uma taça do meu Cabernet Sauvignon-Malbec, caminhei lentamente até a varanda e respirei fundo. O vento do final da tarde tocou meu rosto com suavidade.

Por alguns segundos, apenas fiquei ali, sentindo uma estranha sensação de recomeço crescer silenciosamente dentro do peito.

Ergui a taça em um brinde solitário.

— À minha vida de verdade… — murmurei baixinho, como se estivesse selando um pacto comigo mesma.

Foi nesse instante que meu celular começou a tocar.

Ao olhar para a tela e encontrar o nome da minha filha, atendi imediatamente.

— Oi, meu amor!

Minha voz saiu carregada de saudade.

Mãe… — a voz suave de Eduarda atravessou a linha. — Eu vi a notícia. Você está bem?

Meu peito se apertou na mesma hora. A humilhação ainda doía. Mais do que eu gostaria de admitir.

Eduarda sempre fora perceptiva demais. Talvez exatamente por isso tivesse escolhido sair de casa tão cedo.

— Estou, meu amor… ou pelo menos tentando ficar.

Respirei fundo antes de continuar.

— Eu pedi o divórcio ao seu pai.

Houve alguns segundos de silêncio do outro lado da linha. Então um suspiro baixo atravessou a ligação. Mas não parecia surpresa.

Parecia alívio.

Até que enfim, mãe… — a emoção na voz de Eduarda apertou meu peito. — Eu só queria que a senhora tivesse feito isso antes… por você.

Um sorriso pequeno surgiu em meus lábios.

Pela primeira vez desde que tudo acontecera, não senti culpa ao ouvir aquelas palavras.

— Eu sei, filha. Mas ainda não estava pronta.

— A senhora acredita que tudo isso seja verdade? — perguntou depois de um instante. — Que o papai vai ter outro herdeiro?

A pergunta me pegou completamente de surpresa.

Meu sorriso desapareceu imediatamente.

Outro herdeiro?

Aquilo era novidade para mim.

— Duda… eu realmente não sei o que é verdade ou não — respondi com calma, tentando controlar o desconforto que voltou a crescer dentro de mim. — Tenho evitado acompanhar as notícias ao máximo.

Soltei um pequeno suspiro antes de continuar.

— E, se posso te dar um conselho… faça o mesmo.

Do outro lado da linha, houve um breve silêncio antes de Eduarda responder.

— A senhora está certa, mamãe. E… eu estou muito orgulhosa da sua atitude. Apesar de ele ser meu pai, é impossível não ficar decepcionada com tudo o que fez a senhora passar durante todos esses anos.

Fechei os olhos por um instante.

Durante muito tempo, tentei proteger minha filha daquela realidade. Mas, no fundo, talvez ela sempre tivesse enxergado tudo com muito mais clareza do que eu imaginava.

— Supere isso, meu amor — murmurei com suavidade. — A única coisa com que você precisa se preocupar agora é a sua carreira… e a sua felicidade.

Vou fazer isso, mamãe. Amo a senhora.

— Também amo muito você, minha filha.

Desliguei a ligação sentindo o coração um pouco mais leve, apesar do turbilhão que ainda cercava minha vida.

Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, consegui deitar sem sentir o peso sufocante do casamento que havia deixado para trás.

Não houve espaço para culpa. Nem para medo. Nem para arrependimento.

Apenas a certeza silenciosa de que eu finalmente havia dado o primeiro passo em direção à vida que sempre quis.

Mas a paz durou pouco.

Já passava da metade da noite quando o celular voltou a tocar.

O número não era local. E também não era de Eduarda. Um pressentimento estranho atravessou meu peito.

Atendi imediatamente — só então percebendo que havia prendido a respiração.

— Senhora Helena Vaughn?

— Sim…

A voz do outro lado da linha era formal.

— Aqui é a polícia de Milão. Precisamos falar sobre sua filha.

Eduarda havia sofrido um grave acidente de carro. Disseram que o carro capotou várias vezes antes de parar completamente destruído à margem da estrada.

Mas foram as palavras seguintes que realmente me dilaceraram — minha filha lutava pela vida em um hospital.

Mal consegui respirar depois que a ligação terminou.

As lágrimas nublavam minha visão, mas eu sabia que não tinha tempo para desmoronar. Precisava chegar até ela imediatamente.

Peguei o celular e tentei ligar para Frederick, mas todas as minhas chamadas foram encaminhadas para caixa postal. Uma após a outra.

Desesperada, abri o MacBook e providenciei um jatinho particular. Naquele momento, pela primeira vez em muitos anos, o sobrenome Vaughn realmente pareceu útil.

Durante o voo, cada minuto se arrastou como uma eternidade. O silêncio elegante da cabine contrastava brutalmente com o caos dentro da minha cabeça.

Eu não conseguia pensar em nada além de Eduarda. Na última ligação. No “eu te amo” que ela havia dito poucas horas antes. E senti medo de verdade.

Quando cheguei ao Hospital San Marco di Milano, meu coração parecia prestes a escapar do peito.

O táxi mal havia parado na entrada quando saltei para fora. Vários jornalistas já se aglomeravam diante do hospital, e bastou um deles me reconhecer para que eu fosse imediatamente cercada.

— Senhora Vaughn! Como está sua filha?

— O acidente foi causado por excesso de velocidade?

— O senhor Frederick Vaughn já chegou à Itália?

Baixei a cabeça e continuei andando sem responder. Perguntas vinham de todos os lados enquanto microfones eram empurrados diante do meu rosto e flashes explodiam ao redor.

Assim que atravessei as portas automáticas do hospital, o barulho ficou para trás. Ainda assim, os olhares curiosos continuaram me acompanhando — mas nada daquilo importava.

Só existia uma coisa que eu precisava naquele momento: saber notícias de minha filha.

Respirando fundo, aproximei-me da recepção e tentei controlar a tremedeira nas mãos antes de me identificar.

— Bom dia, meu nome é Helena Vaughn. Sou mãe de Eduarda Vaughn… preciso falar imediatamente com o médico responsável pelo caso dela.

A atendente lançou-me um olhar carregado de pesar. Talvez soubesse quem eu era. Ou tivesse visto as notícias. Naquele momento, porém, eu já não me importava com nada disso.

Depois de alguns minutos, fui conduzida até um consultório.

Assim que entrei, um homem de cabelos escuros e expressão séria levantou-se para me receber.

— Bom dia, Sra. Vaughn. Sou o médico responsável pelo caso de sua filha, Dr. Luca Moretti.

Assenti rapidamente.

— Dr. Moretti, agradeço por me receber — falei, tentando manter a voz firme apesar da ansiedade que me consumia por dentro. — Qual é a real situação da minha filha? Sou médica, então preciso que o senhor seja completamente honesto comigo.

O médico sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder.

— O acidente de Eduarda foi extremamente grave. A verdade é que foi quase um milagre ela ter sido encontrada com vida.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Helena — Amor Proibido — Meu Ex Genro   Verdades

    HELENAVer Julian cuidar de Eduarda e consolá-la aqueceu meu coração. O ciúme que havia me incomodado minutos antes, ainda no quarto dele, simplesmente desapareceu.Era reconfortante saber que minha filha não dependia apenas de mim — Julian também estava ali por ela. Isso ganhou ainda mais significado depois de tudo o que conversamos na noite anterior.Mesmo assim, um pensamento persistente não me deixava em paz: a possibilidade de que o jornalista tivesse sido pago.Meus dedos apertaram a borda da xícara.E se o dinheiro tivesse saído da conta de Frederick?Engoli em seco.Minha atenção voltou-se para Julian ao lado dela. Será que Eduarda veria nosso relacionamento como mais uma decepção?Aquilo me inquietava.Doía imaginar tudo o que ainda estava por vir.A última coisa que queria era me tornar, para ela, mais uma fonte de sofrimento — como o pai havia sido durante toda a sua vida.Passei a mão pela perna, tentando conter a inquietação e, junto com ela, o medo. Não de falhar como mã

  • Helena — Amor Proibido — Meu Ex Genro   Fragilidade

    Aproximei-me da cama e observei a respiração de Helena por alguns segundos, como se ainda precisasse me certificar de que ela realmente estava bem.Então me inclinei e beijei delicadamente suas costas.— Helena... — murmurei. — Preciso que você acorde.Ela resmungou algo incompreensível e tentou se esconder sob o travesseiro.Sorri.Era impossível não sorrir diante daquela reação.— Baby...Deixei alguns beijos leves sobre os ombros e a nuca.— Odeio te acordar assim, mas Eduarda precisa da sua ajuda.Foi o suficiente.— Duda...Helena despertou quase imediatamente e tentou se levantar.— Calma — pedi, segurando-a de leve pelos ombros. — Ela está bem. Só precisa de ajuda com algumas situações mais íntimas.Helena me encarou por alguns segundos.Então entendeu.— Certo. Entendi.Ela se sentou na cama.— Vou apenas ao banheiro rapidinho.— Enquanto você se arruma, vou transferir a Duda para a cadeira de banho e adiantar o que puder.A expressão que surgiu em seu rosto me surpreendeu.Ir

  • Helena — Amor Proibido — Meu Ex Genro   Esperança

    Depois que Lorenzo foi embora, voltei para o meu quarto.Abri a porta com cuidado e encontrei Helena exatamente onde a havia deixado. Dormia profundamente, com o rosto sereno repousando contra o travesseiro, como se o desmaio de horas antes nunca tivesse acontecido.Aproximei-me devagar.Sua respiração era calma e regular, e, por alguns segundos, aquilo foi suficiente para aliviar parte da tensão que ainda carregava no peito.Afastei uma mecha de cabelo que havia caído sobre seu rosto, esperando por algum movimento.Não se mexeu.Fiquei ali, observando-a em silêncio.Por fora, parecia perfeitamente bem. Mas eu ainda conseguia sentir o peso daquele instante em meus braços, a maneira como seu corpo simplesmente havia cedido, deixando-me completamente apavorado.Eu não gostava daquela sensação de impotência.Talvez porque estivesse acostumado a resolver problemas. A encontrar respostas. A agir quando alguma coisa saía do controle.Com Helena, porém, não havia nada que eu pudesse fazer na

  • Helena — Amor Proibido — Meu Ex Genro   Presságio

    JULIANQuando senti o corpo de Helena ceder nos meus braços, algo dentro de mim entrou em alerta. A princípio, pensei que fosse apenas cansaço — até que ela ficou completamente sem reação, mole demais.O ar pareceu desaparecer dos meus pulmões.— Helena… — chamei, tentando trazê-la de volta.O pânico veio rápido.Nenhuma reação.Nunca tinha visto alguém reagir daquela forma depois de um momento intenso. Sem pensar duas vezes, a peguei no colo.O corpo dela estava mole, e o silêncio… me inquietava de um jeito difícil de explicar.Levei-a até a cama com cuidado.A leveza dela em meus braços contrastava com o peso crescente que se instalava dentro de mim.Afastei uma mecha de cabelo do seu rosto, observando cada detalhe.Então, de repente, ela puxou o ar com força. Os olhos começaram a se abrir devagar, como se ela estivesse retornando de muito longe.O alívio me atingiu de uma vez, atravessando meu peito com tanta intensidade que minhas pernas quase cederam.— Ei… está tudo bem… — murm

  • Helena — Amor Proibido — Meu Ex Genro   Vertigem

    Quando ele se aproximou ainda mais, segurou meus quadris com firmeza, me abrindo para ele sem pressa — sem deixar espaço para qualquer recuo.Ao sentir a língua dele em minha intimidade, meu corpo inteiro se contraiu, tomado por uma onda intensa de calor e arrepio ao mesmo tempo.Apesar de ser bem mais jovem, Julian tinha uma segurança desconcertante — e parecia saber exatamente como arrancar cada reação de mim.— Você é deliciosa, baby.Ele me afastou apenas o suficiente para se posicionar melhor entre minhas pernas, enquanto as mãos firmes me guiavam de volta para perto.— Quero que apoie uma das pernas no meu ombro… — murmurou, os olhos queimando nos meus. — Vou me deliciar com você até que esqueça o próprio nome, Helena.Hesitei.O chão estava escorregadio, e a posição exigia equilíbrio. Eu já não era tão jovem — tinha resistência, sim —, mas ainda temi que um deslize terminasse em acidente.— Helena, confie em mim. Eu não vou deixar você cair. Vem aqui — disse, estendendo a mão.

  • Helena — Amor Proibido — Meu Ex Genro   Refúgio

    HELENAPor um instante, enquanto ele me envolvia em seus braços ali na cozinha, percebi que não conseguiria enfrentar tudo aquilo sem Julian. Em tão pouco tempo, ele havia se tornado meu refúgio quando o mundo parecia desabar.— Que tal um banho? — sugeriu, com a voz calma e o olhar firme. — Vai fazer bem relaxar um pouco.Suspirei, sentindo o cansaço pesar em cada parte do meu corpo.— Eu preciso ficar com a Duda.— Eu sei. Mas, por enquanto, Lorenzo está com ela — respondeu, deslizando as mãos pelos meus braços com carinho. — Você também precisa cuidar de si, Helena. A Duda precisa de você inteira ao lado dela.A preocupação com Duda ainda estava ali, mas, pela primeira vez naquela noite, permiti-me pensar também em mim.Antes que eu dissesse qualquer coisa, Julian entrelaçou os dedos nos meus e me puxou com suavidade.— Vem comigo — murmurou. — Deixa eu cuidar um pouco de você.Deixei que me conduzisse até o quarto dele e, quando a porta se fechou atrás de nós, algo dentro de mim f

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status