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7. Cecile

last update publish date: 2026-09-30 03:46:08

Longe dali, o casarão Conte nunca parecera tão silencioso.

Mattia apoiou as mãos na sacada do segundo andar, sentindo o frio do mármore atravessar a pele. No pátio abaixo, homens armados se moviam em rotas bem conhecidas, atentos a qualquer sinal de ameaça. Desde que a saúde do patriarca, Jiuliano Conte, se agravara, a casa vivia em estado de espera, como um animal ferido que ainda não sabiam se sobreviveria.

Seu avô, o consigliere, sempre dissera que o verdadeiro perigo da máfia não estava nos tiros, mas nos momentos em que ninguém falava nada. Era ali que as decisões mais cruéis eram tomadas. Também repetia outro conselho, desde que Mattia era menino: homem que mistura coração com negócios acaba enterrando um dos dois. Na época, ele achava exagero. Naquela noite, pela primeira vez, entendeu o peso da frase.

Pensava nisso enquanto descia a longa escadaria que dava para o jardim.

— Você anda se adiantando demais, Giuseppe — disse Mattia, sem se virar.

Atrás dele, Giuseppe Conti respondeu com um riso baixo, quase divertido.

— Lugares vazios não ficam vazios por muito tempo. Alguém sempre acaba ocupando.

Mattia se virou devagar e fitou Giuseppe. O terno bem cortado, mas a postura relaxada demais para quem disputava poder. Nos olhos, porém, havia algo inquieto, impaciente.

— O padrinho não está morto — Mattia respondeu com firmeza. — E mesmo quando estiver, decisões impulsivas nunca foram o que manteve essa família viva.

O sorriso de Giuseppe desapareceu.

— Você fala como se tivesse autoridade para me dizer isso.

— Falo como alguém que tenta evitar uma guerra — rebateu Mattia. — Ou você acha que eu não sei do galpão afastado?

O ar pareceu pesar entre eles.

Giuseppe não negou. Apenas cruzou os braços, avaliando-o.

— Um laboratório de drogas sem o aval do padrinho, sem ouvir o Consigliere — continuou Mattia. — Você está cruzando limites perigosos.

— O mundo mudou — Giuseppe respondeu, avançando um passo. — A família precisa acompanhar essa mudança ou vai desaparecer. Você vive preso a conselhos antigos demais.

Mattia sentiu o estômago se revirar. Aquilo não era apenas ambição; era imprudência disfarçada de visão de futuro.

Uma pontada atravessou seu flanco, lembrando-o do ferimento que nem fechara ainda. Por um instante, a memória da emboscada se impôs com força. Os tiros, o vidro quebrando, a dor súbita e o caos. Se não fosse por Christophe, certamente estaria morto.

Mattia nunca tivera provas, mas agora, olhando para Giuseppe, a suspeita parecia cada vez menos absurda.

— Você está indo longe demais — disse, a voz mais baixa. — E sabe disso.

Giuseppe sustentou o olhar por alguns segundos antes de se afastar.

— Cuidado, Mattia. No nosso mundo, quem tenta ficar no meio acaba esmagado.

Ele saiu, deixando para trás um silêncio pesado e uma certeza desconfortável: aquela disputa estava apenas começando.

Adentrou seu próprio escritório e observou pelo canto do olho os homens trabalhando, calculavam os pagamentos por proteção, agendavam os repasses de armamentos, outros apenas descansavam.

Sentou-se no sofá de couro e fechou os olhos. A dor ainda pulsava, mas era controlável. Ele respirava fundo quando ouviu passos se aproximarem.

— Vou trocar o curativo — avisou Cecile.

Ela se sentou ao lado dele, concentrada, com gaze e antisséptico nas mãos. Mattia observou seus movimentos cuidadosos enquanto ela habilidosamente tratava o ferimento de bala.

— Avise se doer — disse ela.

Quando o antisséptico foi aplicado, ele tensionou os músculos, mas não reclamou. Cecile limpou a ferida com calma, examinando a cicatriz com atenção profissional.

— Está cicatrizando melhor do que eu esperava — comentou. — Você teve sorte.

— Não costumo acreditar muito em sorte — respondeu ele.

Ela ergueu o olhar por um instante, mas nada disse.

Enquanto trabalhava, os dedos dela tocavam sua pele com cuidado. Mattia percebeu como aquele gesto simples o desarmava. Não havia julgamento ali, nem medo visível. Apenas alguém fazendo o que sabia fazer.

— Você fez um bom serviço — disse ele. — Mas isso não é trabalho para mulher, pode ir embora. Os caras não vão impedir.

Cecile pareceu pensar um pouco.

— Se eu for, vocês vão contratar qualquer um e morrer de sepse. — resmungou.

Ele soltou um riso abafado.

— Quanto você deve? — perguntou, já não estava mais sorrindo.

Ela hesitou antes de responder.

— O suficiente para isso — falou, apontando ao redor. — Não ser uma ideia ruim.

Ela jamais diria a ele que sentia-se mais protegida agora — rodeada por homens armados — do que antes. 

Quando terminou, Cecile se afastou um pouco, limpando as mãos.

— Não sei o seu nome — disse ele, depois de um tempo. 

— Cecile.

Ele assentiu.

E então, a viu indo embora, depois de receber  seu pagamento. Os homens a tratavam com uma educação que ele nem sabia serem capazes — havia certo incentivo seu, claro.

Eles já a chamavam de a médica do chefe.

Aquela rotina vinha se repetindo há alguns dias. Cecile vinha ao escritório, tratava seus ferimentos, medicava-os, recebia o pagamento e ia embora. Nunca conversavam mais do que o necessário.

O que ela não sabia era que ele estava sempre observando-a. Inicialmente, queria saber se tinha algum contato com as facções inimigas, mas agora, queria apenas manter sua segurança.

Tudo o que ela pedia eles compravam, e aos poucos, Mattia começava a aprender mais sobre aquela mulher tão calada. Sabia sobre as noites mal dormidas, sobre a solidão e os problemas no hospital que trabalhava. 

Cecile não perguntava sobre a máfia e ele não precisava dar explicações.

Ele se pegava, surpreso, esperando por ela. Foi quando, enfim, entendeu o que estava acontecendo. Não foi repentino nem dramático. Foi uma constatação simples e assustadora.

Ele estava se apaixonando.

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