Herança de Sangue: O segredo do promotor e sua subordinada

Herança de Sangue: O segredo do promotor e sua subordinada

last updateLast Updated : 2026-10-14
By:  Srta. ArthemisUpdated just now
Language: Portuguese
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Christophe Conti é um promotor implacável e herdeiro de uma poderosa família mafiosa. Conhecido como o Carrasco, ele vive entre a justiça e o crime, até que sua subordinada, Olívia, passa a fazer parte de sua vida. Além de enfrentar uma paixão proibida pelo próprio chefe, Olívia possui um dom sobrenatural: consegue enxergar espíritos. Entre eles, uma misteriosa menina de sapatos vermelhos que parece guardar uma ligação com o passado de Christophe. Em meio a disputas pelo poder, segredos familiares e mortes, os dois descobrirão que algumas heranças são impossíveis de escapar.

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Chapter 1

1. O conflito

Era tarde da noite quando o telefone residencial tocou sobre o criado-mudo, quebrando o silêncio pesado do apartamento. Ele hesitou por alguns segundos antes de atender. Era o número do telefone do carro de Mattia, mas ele não costumava ligar àquela hora, e isso, por si só, já era um mau presságio.

— Conte — atendeu, a voz baixa e cautelosa.

— Christophe — respondeu a voz do outro lado da linha, rouca, quase irreconhecível. — Você pode vir me buscar?

O coração de Christophe acelerou.

— Onde você está?

Houve uma pausa longa demais.

— Eu estou… na rua… perto do… — Mattia falava com dificuldade, como se cada palavra exigisse um esforço imenso.

A ligação caiu.

Christophe não pensou duas vezes. Pegou as chaves e saiu em disparada, ignorando semáforos, limites de velocidade e qualquer senso de prudência. Enquanto dirigia, um nó se formava em seu estômago. Conhecia Mattia o suficiente para saber que aquilo não era apenas um contratempo.

Quando chegou ao local indicado, o cenário confirmou seus piores receios. O carro de Mattia estava parado no meio da rua, completamente cravejado de balas. Vidros estilhaçados, lataria retorcida. Christophe desceu do carro por um instante, o olhar correndo freneticamente ao redor.

— Mattia… — murmurou.

Não o viu em lugar nenhum.

O sangue de Christophe gelou, mas não houve tempo para se entregar ao pânico. O estalo seco dos tiros ecoou no ar, e em segundos seu próprio carro começou a ser atingido por uma chuva de balas. Ele se jogou de volta ao banco do motorista e acelerou com força, confiando que a blindagem aguentaria por mais algum tempo.

Um dos atiradores foi atropelado — imprudente o bastante para permanecer no meio da rua — e, logo adiante, Christophe finalmente avistou Mattia, ferido, tentando se proteger atrás de um carro estacionado. Ao lado dele, o motorista, que também servia como guarda-costas, ainda disparava a esmo, embora estivesse visivelmente debilitado.

Sem pensar muito, Christophe tomou uma decisão drástica. Jogou o carro contra o veículo atrás do qual eles se escondiam, empurrando-o para frente e deixando a porta do passageiro aberta.

— Entrem! — gritou.

Mattia e o guarda-costas se arrastaram para dentro do carro sob novos disparos.

— Vocês estão bem? — perguntou Christophe, os olhos atentos em busca de uma rota de fuga.

— Acho que Mattia perdeu muito sangue — respondeu o guarda-costas, com a respiração pesada.

— Merda! — Christophe resmungou entre dentes.

Ele desviava de uma pista para a outra, tentando despistar os perseguidores, mas eles permaneciam em seu encalço. Um impacto violento o lançou para frente, fazendo sua cabeça bater contra o volante. Por um breve segundo, tudo ficou escuro.

Quando recobrou a consciência, sentiu o sangue escorrendo da testa para o olho. A adrenalina falou mais alto. Ele girou o volante bruscamente, fez uma curva fechada, mudou de pista e entrou em um beco estreito.

— Um, dois, três… — contou em voz baixa, ouvindo o próprio coração pulsar nos ouvidos.

Então saiu do beco em alta velocidade, retornando à rodovia metros atrás dos perseguidores. Aproveitou o momento para avançar sobre a contenção e invadir a contramão. Por sorte — ou milagre — os outros carros conseguiram desviar a tempo.

Quando finalmente se viu longe o suficiente, Christophe acelerou ainda mais. Sabia que precisaria trocar de carro na estação. Nem teve tempo de se despedir daquele veículo que, provavelmente, seria queimado em algum lugar antes do amanhecer.

— Vou ter que fazer um boletim de ocorrência — pensou, exausto.

No armazém, uma mulher vestida de enfermeira já os aguardava. Era jovem, tinha os cabelos cacheados presos em um coque desleixado e os olhos arregalados de medo. Suas mãos tremiam visivelmente.

Christophe observou em silêncio, perguntando-se como ela conseguiria trabalhar naquele estado. O tempo pareceu passar rápido demais, até que foi tirado de seus pensamentos quando a viu se aproximar para cuidar do corte em sua testa.

— Não — ele disse, afastando a mão dela com delicadeza. — Como ele está?

— Não tenho certeza — respondeu a moça, a voz trêmula. — Consegui tirar a bala, mas ele precisa ir para um hospital.

Christophe assentiu.

— Você está aqui por espontânea vontade? — ele perguntou num sussurro, parecendo preocupado.

Antes que ela pudesse responder, um dos homens presentes puxou a enfermeira pelo braço.

— Seu trabalho não é conversar!

— Ei! — Christophe interveio, a voz firme. — Solte-a.

Contudo, o agressor foi interrompido por um soco certeiro. Christophe ergueu o olhar e encontrou Mattia, agora de pé, com o rosto contorcido. A respiração vinha irregular, pesada, e havia um tremor visível em seu corpo, como se cada movimento cobrasse um preço alto demais.

Ele mal se mantinha ereto.

— Que porra você pensa que está fazendo? — rosnou Mattia, a voz falhando por um instante.

Assim que terminou a frase, levou a mão ao ferimento, pressionando o local enfaixado com força. Um gemido baixo escapou, contido entre os dentes cerrados. A dor era evidente — pulsava em cada gesto.

Ainda assim, ele não recuou.

— Você nem deveria ter trazido ela aqui. Onde está o doutor?

O esforço para manter a postura era quase insustentável. Seu rosto estava pálido, o suor escorria pelas têmporas, e seus olhos denunciavam o limite do próprio corpo. Mesmo assim, permanecia ali, sustentado mais pela raiva do que pela força.

— Não o encontramos. Ele mandou ela no lugar — explicou o homem, cuspindo sangue.

Mattia ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, aproximou-se da enfermeira e encarou-a diretamente.

— Certo. Veja o que temos aqui. Você tem duas opções — disse em tom baixo. — Ou você fica de boca fechada e sai com o bolso cheio, ou…

Ele não precisou terminar a frase. Cercada por homens armados, ela entendeu o recado e assentiu rapidamente.

Resolvida a situação, Mattia se voltou para Christophe.

— Você está bem? — perguntou, apertando o ombro dele com força. — Obrigado por ter vindo.

— O que diabos aconteceu? — Christophe retrucou.

— Era só uma transação. Fui apenas com Montanha, mas caímos numa emboscada.

— Coisa do Giuseppe? — Christophe perguntou.

— O que você acha? — respondeu Mattia, pensativo.

Christophe não se surpreendeu.

Mais tarde, já no hospital, Christophe contou aos policiais sobre o ataque e sobre o carro, misturando verdades e omissões até conseguir registrar o boletim de ocorrência. Quando os agentes saíram, o silêncio voltou a ocupar o quarto.

Pouco depois, a porta se abriu novamente e por ela, passou uma mulher. Era alta e elegante, no topo dos seus cinquenta anos de idade.

Eles se encararam em silêncio.

— Para alguém que diz não querer saber nada da família, bastou uma ligação e você veio correndo — disse ela, por fim.

— Não misture as coisas — Christophe respondeu, passando a mão pelo rosto. — Eu só vim porque Mattia me ligou… ah preciso resolver a compra de um carro novo… e isso aqui precisa ser tratado.

Apontou para a testa, onde o corte estava fechado com seis pontos.

— Você continua fingindo que é algo separado — a mulher retrucou, tentando não demonstrar sua irritação. — É óbvio que Giuseppe está perdendo o controle. Vai mesmo ficar apenas observando? Sabe que ele é impulsivo. Não vai esperar pela sucessão.

— Eu não faço parte disso — Christophe respondeu, seco. — Sou promotor, lembra? Meu trabalho é colocar gente como ele na cadeia, não disputar território.

Ela soltou uma risada sem humor.

— Você pode repetir isso o quanto quiser, mas o sangue continua sendo o mesmo. Esse território sempre foi do seu avô.

Christophe manteve o silêncio.

— Quando ele se afastou, todo mundo achou que escolheria um único sucessor — continuou ela. — Mas o velho fez diferente. Dividiu tudo. Norte para um genro, sul para o outro. Funcionou por anos… cada um governando sua parte.

— Então por que você não tomou tudo naquela época? — Christophe retrucou, irritado.

— Porque a divisão não era uma má ideia. Havia equilíbrio. Nós governamos bem — ela explicou com a calma de quem corrige uma criança. — E você sabe que mulheres não assumem o trono. Sou viúva, esqueceu?

Como ele continuou em silêncio, ela continuou.

— Estou cansada disso, filho.

Christophe balançou a cabeça.

— Já disse que tenho outros planos. Não vou assumir nada. Não vou lutar por território.

A mãe acendeu um cigarro, ignorando a placa de proibido fumar, e soltou a fumaça devagar.

— Você pode fingir que não, mas quando essa guerra começar, não vai conseguir ficar de fora.

— Não vejo porquê.

Ela riu, como se não acreditasse.

— Ainda nisso? Boa sorte, então.

Antes que Christophe respondesse, o motorista dela entrou apressado.

— Desculpe interromper, Dona Raffaela, mas os ânimos na cúpula estão esquentando.

A mulher lançou um último olhar para o filho e saiu do quarto, deixando para trás um silêncio ainda mais pesado.

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