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Você está com inveja

Penulis: Sandra Rummer
last update Tanggal publikasi: 2026-09-15 19:04:33

Sábado à tarde...

Aysha

Chego em casa completamente esgotada.

Hoje meu dia no hospital não foi fácil. Desde cedo, os corredores estão cheios, os pacientes precisam de atenção e a equipe parece trabalhar no limite. Passei horas em pé, correndo de um setor para outro, conferindo medicações, acompanhando procedimentos e tentando manter a calma diante de situações que fariam qualquer pessoa perder o controle.

Assim que entro em casa, deixo minha bolsa sobre o aparador e retiro os sapatos no caminho até a sala. Meu corpo inteiro pede descanso. Tudo o que desejo é tomar um banho demorado, vestir uma roupa confortável e me jogar no sofá.

Mas o pior do meu dia ainda está por vir.

Lidar com minha irmã se exibindo para mim tornou-se quase tão cansativo quanto o trabalho no hospital. Faz dois meses que Hanna está saindo com Hakin e, desde então, ela faz questão de mostrar o quanto está satisfeita por ter sido escolhida por ele.

Ou melhor: por ele ter escolhido ela, e não a mim.

Não que eu tenha demonstrado interesse. Pelo menos, não de maneira evidente. Jamais admitiria diante de Hanna que Hakin mexe comigo. Minha irmã transformaria meus sentimentos em uma arma e passaria o resto da vida me lembrando de que ele preferiu ficar com ela.

Hanna está em frente ao espelho quando entro na sala. Ela gira descalça sobre o tapete, observando o próprio reflexo com um sorriso satisfeito.

—E então? Estou bem?

Ela usa um vestido estilo boho, azul-marinho, com detalhes dourados. A peça é bonita e combina com ela. O tecido solto se movimenta quando Hanna gira, criando uma imagem delicada e feminina. O vestido também é exatamente o tipo de roupa que Hakin aprovaria.

Cruzo os braços e a observo.

—Está linda para os padrões árabes.

O sorriso dela diminui um pouco.

—O que isso quer dizer?

—Quer dizer que está linda.

—Você sabe muito bem que não foi isso que quis dizer.

—Então não faça perguntas se não está preparada para ouvir a resposta.

Hanna coloca as mãos na cintura e me encara pelo espelho.

—Ele sabe que você anda por aí vestida com roupas curtas?

—Quem?

—Hakin.

Sinto meu coração bater um pouco mais rápido, mas faço o possível para não demonstrar.

—Não vejo por que ele precisaria saber.

—Porque ele é meu namorado.

—Exatamente. Seu namorado. Não meu.

Ela se vira para mim e ajeita os cabelos sobre os ombros.

—E não precisa usar esse tom comigo. Estou apenas dizendo que, se ele a visse na rua com uma dessas roupas que você gosta, talvez não aprovasse.

—Tenho certeza de que sobreviveria à desaprovação dele.

—Você não entende. Hakin é um homem muito tradicional.

—Ele não me pareceu tão tradicional quando o conheci.

—Você mal conversou com ele.

—O suficiente para perceber que não é tão fácil de impressionar.

Hanna abre um sorriso convencido.

—Comigo foi diferente.

Não respondo. Sei exatamente o que ela quer dizer. Naquela noite, na festa da embaixada, Hakin olhou para ela com interesse. Seus olhos permaneceram em minha irmã, enquanto eu tentava fingir que não estava completamente fascinada pela presença dele.

Talvez por isso ainda me incomode tanto lembrar daquele momento.

—Se um dia ele me vir na rua —Hanna continua—, eu simplesmente me passo por você.

—Não tem vergonha de se passar por algo que não é?

—Não vejo problema. Somos iguais.

—Fisicamente.

Ela franze a testa.

—E se você se casar com ele? —pergunto. — Terá que se vestir como uma perfeita árabe. Você conhece nossa cultura.

Hanna dá de ombros e volta a olhar para o espelho.

—Vestir roupas assim não será problema. Os benefícios que terei ao me casar com Hakin serão muito maiores do que esse pequeno detalhe.

Sua maneira de falar me incomoda.

—Então é isso que você pensa? Que basta tolerar algumas regras em troca de uma vida confortável?

Ela me lança um olhar de lado.

—Não vejo nada de errado em querer uma vida boa.

—Eu também não. O problema é escolher um homem apenas pelo que ele pode oferecer.

—Você fala como se amor pagasse as contas.

—Não paga. Mas dinheiro também não compra felicidade.

Hanna ri, mas não parece achar graça.

—Você sempre foi muito idealista.

—E você sempre foi muito prática.

—Ainda bem. Alguém precisa ser.

Ela caminha até a mesa de centro e pega um pequeno estojo de maquiagem. Abre a tampa e verifica o próprio rosto, embora já esteja perfeitamente maquiada.

—Ainda bem que pensa assim —digo. —Você nunca mudará a mente de um homem árabe e ortodoxo como Hakin. Eu mesma não mudaria.

Hanna ergue os olhos para mim.

—Quem disse que ele é ortodoxo?

Estremeço levemente.

—Não é?

—Não. A família dele é tradicional, mas ele não é conservador. Se fosse, não beberia álcool. Hakin bebe vinho e uísque. Ele é perfeito.

Entorto os lábios.

—É? Então por que me desaprovou logo no início?

A lembrança volta com força. O modo como ele analisou meu vestido. A forma como desviou os olhos para Hanna, como se eu fosse uma presença inconveniente. Mais tarde, minha irmã contou que ele havia me chamado de “laranja podre”.

Não esqueço isso.

—Imagine me julgar daquele jeito —continuo.

Hanna cruza os braços.

—Ele apenas fez um comentário.

—Um comentário bastante desagradável.

—Você se ofendeu porque sabe que ele estava certo.

—Não preciso da aprovação de Hakin.

—É claro que não.

O tom dela é provocador. Conheço minha irmã o bastante para saber que está se divertindo com meu desconforto.

Seus olhos brilham nos meus.

—Querida, ele não é para você, mas é perfeito para mim. E, depois, ele é rico, poderoso e muito respeitado. Um homem como ele só aparece uma vez na vida, e eu quero que seja meu.

—Você fala como se estivesse comprando uma joia rara.

—Hakin vale muito mais do que qualquer joia.

—Não tenho tanta certeza.

—Sabe onde ele me levará hoje?

—A algum restaurante caro?

—Ao Menagerie.

Ela diz o nome com satisfação, como se esperasse que eu ficasse impressionada.

—Jantaremos com os pais dele e depois sobrevoaremos a cidade de helicóptero. Ele me prometeu.

—De helicóptero?

—Sim.

—Isso parece perigoso.

—É romântico.

—Você já andou de helicóptero?

—Ainda não. Mas hoje será a primeira vez.

O sorriso de Hanna se torna sonhador. Ela parece realmente feliz. Por mais que eu discorde de suas escolhas, não consigo negar que minha irmã sabe o que quer. Ela quer uma vida de luxo e encontrou um homem disposto a oferecê-la.

—Que maravilha —digo. —E seu namoro está ficando sério, hein? Você vai jantar com os pais dele...

—Está. Eu estou nas nuvens por causa disso.

Ela se aproxima do espelho novamente e verifica os cabelos.

—A mãe de Hakin é muito elegante. Preciso causar uma boa impressão.

—Você sempre causa.

—Preciso parecer uma mulher digna de fazer parte da família Osman.

—Tenho certeza de que já ensaiou todas as respostas.

Hanna me ignora.

—O pai dele também estará lá. E o irmão. Hakin disse que eles estão ansiosos para me conhecer melhor.

—Conhecer você melhor ou aprovar a futura esposa?

—É praticamente a mesma coisa.

—Para você, talvez.

Ela se vira rapidamente.

—Você está com inveja?

A pergunta me atinge de maneira inesperada. Por um segundo, fico sem resposta.

—De você?

—De mim e de Hakin.

Solto uma risada.

—Não seja ridícula.

—Você sempre muda de assunto quando menciono isso.

—Porque não existe assunto.

—Você ficou interessada nele desde a festa.

Meu estômago se contrai.

—Hakin não é meu tipo.

—Não?

—Não gosto de homens que se acham superiores aos outros.

—Ele não se acha superior.

—Você não o conhece há tempo suficiente para perceber.

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