LOGINSábado à tarde...
Aysha Chego em casa completamente esgotada. Hoje meu dia no hospital não foi fácil. Desde cedo, os corredores estão cheios, os pacientes precisam de atenção e a equipe parece trabalhar no limite. Passei horas em pé, correndo de um setor para outro, conferindo medicações, acompanhando procedimentos e tentando manter a calma diante de situações que fariam qualquer pessoa perder o controle. Assim que entro em casa, deixo minha bolsa sobre o aparador e retiro os sapatos no caminho até a sala. Meu corpo inteiro pede descanso. Tudo o que desejo é tomar um banho demorado, vestir uma roupa confortável e me jogar no sofá. Mas o pior do meu dia ainda está por vir. Lidar com minha irmã se exibindo para mim tornou-se quase tão cansativo quanto o trabalho no hospital. Faz dois meses que Hanna está saindo com Hakin e, desde então, ela faz questão de mostrar o quanto está satisfeita por ter sido escolhida por ele. Ou melhor: por ele ter escolhido ela, e não a mim. Não que eu tenha demonstrado interesse. Pelo menos, não de maneira evidente. Jamais admitiria diante de Hanna que Hakin mexe comigo. Minha irmã transformaria meus sentimentos em uma arma e passaria o resto da vida me lembrando de que ele preferiu ficar com ela. Hanna está em frente ao espelho quando entro na sala. Ela gira descalça sobre o tapete, observando o próprio reflexo com um sorriso satisfeito. —E então? Estou bem? Ela usa um vestido estilo boho, azul-marinho, com detalhes dourados. A peça é bonita e combina com ela. O tecido solto se movimenta quando Hanna gira, criando uma imagem delicada e feminina. O vestido também é exatamente o tipo de roupa que Hakin aprovaria. Cruzo os braços e a observo. —Está linda para os padrões árabes. O sorriso dela diminui um pouco. —O que isso quer dizer? —Quer dizer que está linda. —Você sabe muito bem que não foi isso que quis dizer. —Então não faça perguntas se não está preparada para ouvir a resposta. Hanna coloca as mãos na cintura e me encara pelo espelho. —Ele sabe que você anda por aí vestida com roupas curtas? —Quem? —Hakin. Sinto meu coração bater um pouco mais rápido, mas faço o possível para não demonstrar. —Não vejo por que ele precisaria saber. —Porque ele é meu namorado. —Exatamente. Seu namorado. Não meu. Ela se vira para mim e ajeita os cabelos sobre os ombros. —E não precisa usar esse tom comigo. Estou apenas dizendo que, se ele a visse na rua com uma dessas roupas que você gosta, talvez não aprovasse. —Tenho certeza de que sobreviveria à desaprovação dele. —Você não entende. Hakin é um homem muito tradicional. —Ele não me pareceu tão tradicional quando o conheci. —Você mal conversou com ele. —O suficiente para perceber que não é tão fácil de impressionar. Hanna abre um sorriso convencido. —Comigo foi diferente. Não respondo. Sei exatamente o que ela quer dizer. Naquela noite, na festa da embaixada, Hakin olhou para ela com interesse. Seus olhos permaneceram em minha irmã, enquanto eu tentava fingir que não estava completamente fascinada pela presença dele. Talvez por isso ainda me incomode tanto lembrar daquele momento. —Se um dia ele me vir na rua —Hanna continua—, eu simplesmente me passo por você. —Não tem vergonha de se passar por algo que não é? —Não vejo problema. Somos iguais. —Fisicamente. Ela franze a testa. —E se você se casar com ele? —pergunto. — Terá que se vestir como uma perfeita árabe. Você conhece nossa cultura. Hanna dá de ombros e volta a olhar para o espelho. —Vestir roupas assim não será problema. Os benefícios que terei ao me casar com Hakin serão muito maiores do que esse pequeno detalhe. Sua maneira de falar me incomoda. —Então é isso que você pensa? Que basta tolerar algumas regras em troca de uma vida confortável? Ela me lança um olhar de lado. —Não vejo nada de errado em querer uma vida boa. —Eu também não. O problema é escolher um homem apenas pelo que ele pode oferecer. —Você fala como se amor pagasse as contas. —Não paga. Mas dinheiro também não compra felicidade. Hanna ri, mas não parece achar graça. —Você sempre foi muito idealista. —E você sempre foi muito prática. —Ainda bem. Alguém precisa ser. Ela caminha até a mesa de centro e pega um pequeno estojo de maquiagem. Abre a tampa e verifica o próprio rosto, embora já esteja perfeitamente maquiada. —Ainda bem que pensa assim —digo. —Você nunca mudará a mente de um homem árabe e ortodoxo como Hakin. Eu mesma não mudaria. Hanna ergue os olhos para mim. —Quem disse que ele é ortodoxo? Estremeço levemente. —Não é? —Não. A família dele é tradicional, mas ele não é conservador. Se fosse, não beberia álcool. Hakin bebe vinho e uísque. Ele é perfeito. Entorto os lábios. —É? Então por que me desaprovou logo no início? A lembrança volta com força. O modo como ele analisou meu vestido. A forma como desviou os olhos para Hanna, como se eu fosse uma presença inconveniente. Mais tarde, minha irmã contou que ele havia me chamado de “laranja podre”. Não esqueço isso. —Imagine me julgar daquele jeito —continuo. Hanna cruza os braços. —Ele apenas fez um comentário. —Um comentário bastante desagradável. —Você se ofendeu porque sabe que ele estava certo. —Não preciso da aprovação de Hakin. —É claro que não. O tom dela é provocador. Conheço minha irmã o bastante para saber que está se divertindo com meu desconforto. Seus olhos brilham nos meus. —Querida, ele não é para você, mas é perfeito para mim. E, depois, ele é rico, poderoso e muito respeitado. Um homem como ele só aparece uma vez na vida, e eu quero que seja meu. —Você fala como se estivesse comprando uma joia rara. —Hakin vale muito mais do que qualquer joia. —Não tenho tanta certeza. —Sabe onde ele me levará hoje? —A algum restaurante caro? —Ao Menagerie. Ela diz o nome com satisfação, como se esperasse que eu ficasse impressionada. —Jantaremos com os pais dele e depois sobrevoaremos a cidade de helicóptero. Ele me prometeu. —De helicóptero? —Sim. —Isso parece perigoso. —É romântico. —Você já andou de helicóptero? —Ainda não. Mas hoje será a primeira vez. O sorriso de Hanna se torna sonhador. Ela parece realmente feliz. Por mais que eu discorde de suas escolhas, não consigo negar que minha irmã sabe o que quer. Ela quer uma vida de luxo e encontrou um homem disposto a oferecê-la. —Que maravilha —digo. —E seu namoro está ficando sério, hein? Você vai jantar com os pais dele... —Está. Eu estou nas nuvens por causa disso. Ela se aproxima do espelho novamente e verifica os cabelos. —A mãe de Hakin é muito elegante. Preciso causar uma boa impressão. —Você sempre causa. —Preciso parecer uma mulher digna de fazer parte da família Osman. —Tenho certeza de que já ensaiou todas as respostas. Hanna me ignora. —O pai dele também estará lá. E o irmão. Hakin disse que eles estão ansiosos para me conhecer melhor. —Conhecer você melhor ou aprovar a futura esposa? —É praticamente a mesma coisa. —Para você, talvez. Ela se vira rapidamente. —Você está com inveja? A pergunta me atinge de maneira inesperada. Por um segundo, fico sem resposta. —De você? —De mim e de Hakin. Solto uma risada. —Não seja ridícula. —Você sempre muda de assunto quando menciono isso. —Porque não existe assunto. —Você ficou interessada nele desde a festa. Meu estômago se contrai. —Hakin não é meu tipo. —Não? —Não gosto de homens que se acham superiores aos outros. —Ele não se acha superior. —Você não o conhece há tempo suficiente para perceber.A vida prossegue.Alex viaja poucos dias depois, e eu me envolvo cada vez mais com o trabalho. Procuro ocupar todos os espaços da minha rotina para não pensar demais no que aconteceu naquele almoço, no olhar de Hakin ou na sensação que me invade sempre que ele está perto.Aos sábados e domingos, evito me encontrar com o noivo da minha irmã.Sei o quanto ele não gosta de mim. Também sei o quanto eu me sinto afetada por sua presença. É mais fácil manter distância do que correr o risco de dizer ou fazer alguma coisa capaz de comprometer a felicidade de Hanna.Durante algumas semanas, consigo manter esse afastamento.Até o dia em que tudo muda.Fecho os olhos e estremeço quando me lembro do momento em que Hakin me confundiu com Hanna.Isso ocorre três meses depois do noivado, poucos dias antes do casamento dele com a minha irmã.Naquela manhã, a costureira deveria ter chegado cedo para fazer os ajustes finais no vestido que Hakin havia dado de presente a Hanna. O embrulho chegou logo no i
Ao término do almoço, somos convidados a voltar para a sala.A mudança de ambiente faz com que todos se acomodem nos sofás e nas poltronas dispostos ao redor da grande sala. Ainda sinto o sabor da comida na boca e o peso do silêncio que acompanhou toda a refeição. Alex permaneceu quieto, respeitando os costumes da família, mas percebo que está ansioso para conversar comigo novamente.Hakin, porém, não se senta.Ele permanece de pé, sério, com os ombros largos e a expressão controlada. Seu olhar passa pelos presentes até encontrar Hanna.—Hanna, venha ficar ao meu lado.Ela parece surpresa com o gesto. Por alguns segundos, fica olhando para ele sem entender o motivo de seu pedido. Depois, ajeita o caftã e se levanta.Hanna caminha até Hakin com um sorriso tímido. Ele a espera ao lado do sofá, mantendo uma das mãos dentro do bolso da calça. Existe algo diferente em sua postura, como se estivesse se preparando para um momento importante.Meu coração começa a bater mais depressa.Não sei
—Como vai, Bennett?Ele conhece Alex?Hakin estende a mão para ele, que aperta sua mão.—Muito bem, Oman. Quando Aysha me convidou, não imaginava que participaria de um almoço em sua casa.Pisco, surpresa.—Vocês se conhecem?—Sim. Sempre que posso, participo dos eventos filantrópicos com meu pai —Alex explica.Os olhos de Hanna brilham para ele.—Você é filho do duque Henry Bennett? Alexandro Bennett Terceiro?Duque?Não me admiro que ela saiba. Hanna ama a coluna social e conhece os nomes das famílias mais importantes. É claro que não perderia a oportunidade de reconhecer alguém tão influente.—Exato.—Que incrível —Hanna diz, quase suspirando.Mas Hakin nem olha para ela.Seu olhar está fixo no meu.No mínimo, deve estar achando que eu escolhi Alex encantada por sua posição social.Um bastardo!Um cretino!Não estou com Alex por interesse. Eu nem sabia que ele era filho de um duque. Não tenho culpa se o conheci no hospital, como médico e colega de trabalho.Um senhor e uma senhora
AyshaA semana passou ligeira. O sábado chegou a galope e, com ele, o almoço na casa de Hakin.Desde que recebi o convite, tento não pensar demais no encontro. Sei que será apenas um almoço entre as famílias, uma ocasião para que os pais de Hakin conheçam melhor Hanna e estreitem os laços com o nosso baba.Mesmo assim, a simples ideia de estar novamente perto de Hakin me deixa inquieta.Não deveria me importar com a maneira como ele me vê. Hakin é o noivo da minha irmã e, em breve, será meu cunhado. Preciso me acostumar com isso e controlar as reações que surgem sempre que ele aparece diante de mim.Escolho um lindo vestido que comprei especialmente para esse grande evento. Ele é mostarda, tem decote redondo e um babado sobreposto que deixa a peça elegante. Cobre meus joelhos, embora evidencie minhas formas.Passo algum tempo diante do espelho, observando meu reflexo. Não quero parecer ousada demais para os padrões da família Osman, mas também não desejo vestir algo que não combine co
Não consigo entender por que me importo tanto com o que ele pensa a meu respeito.Mas me importo.Essa constatação me irrita ainda mais.—Você não deveria falar de assuntos que desconhece —digo, tentando manter a calma. —Não sabe nada sobre os homens com quem me relacionei, nem sobre o que procuro em alguém.—Não parece procurar nada além de liberdade.—E isso é um problema?—Para mim, não.—Então por que está tão preocupado?Ele não responde.As palavras ficam suspensas entre nós. A tensão cresce de maneira quase visível. Sinto como se uma corrente elétrica percorresse o espaço entre os nossos corpos.Hanna surge na sala, interrompendo-nos.Ela está completamente alheia às faíscas que parecem saltar dos nossos olhos, cheios de animosidade e algo que não desejo nomear.—Habibi, perdoe-me pelo atraso —ela diz, aproximando-se com um sorriso lindo.Hakin desvia os olhos de mim e encara minha irmã.—Já estou acostumado —ele responde, dando de ombros.Hanna passa os olhos por mim e depois
Dois meses depois...AyshaEstou no corredor, observando Hakin sentado ao lado do meu baba. Com certeza, ele está esperando por minha irmã, que, como sempre, está atrasada.Hanna possui muitas qualidades, mas pontualidade definitivamente não é uma delas. Ela pode passar horas escolhendo o vestido perfeito, combinando os acessórios, refazendo a maquiagem e testando diferentes perfumes antes de sair de casa. Depois, ainda espera que todos compreendam o atraso como se fosse algo natural.Eu, ao contrário, não suporto fazer os outros esperarem.Talvez por isso tenha aprendido a chegar cedo a todos os compromissos. No hospital, alguns minutos podem fazer diferença. Um paciente pode piorar enquanto alguém decide se está ou não pronto para cumprir sua função. Minha profissão me ensinou a ser prática, responsável e atenta.Mas, quando Hakin está por perto, toda a minha praticidade desaparece.Gostaria de dizer que fiz progressos e que já não me sinto afetada pela presença dele. Gostaria de af







