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Autor: Lu Viana
last update Data de publicação: 2026-03-11 11:01:59
A chuva fina de Belém, aquela névoa úmida que parece se fundir com o asfalto, insistia em cair naquela manhã, lavando as estátuas de mármore e as lápides esquecidas do cemitério. Amélia ajeitou o buquê de lírios brancos no braço, sentindo o peso das flores misturado ao da sombrinha que a protegia.

Depois de dias de absoluto isolamento, trancada no terceiro andar onde o tempo parecia regido apenas pelos batimentos cardíacos de Dimitri, ela finalmente conseguira sair. Klines a tratara como uma p
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Último capítulo

  • Impiedoso    Epílogo: O Menino de Dois Pais

    ​O sol terminava de se esconder no horizonte de Belém, pintando o céu de tons lilases. A noite caía suave sobre a mansão Klines, trazendo consigo a brisa fresca que balançava as folhas das mangueiras no jardim.​Na sala de estar, o som de risadas infantis preenchia o ambiente. Dionísio estava deitado de barriga para baixo no tapete felpudo, com um tablet apoiado na frente do rosto. Na tela, Demétrio sorria diretamente de seu apartamento em Nova Iorque.​— Eu já comprei os ingressos para o Museu de História Natural — a voz de Demétrio soava animada. — Você vai adorar os dinossauros, amigão. Os esqueletos são do tamanho de um prédio.​Dionísio arregalou os olhos castanhos, balançando as pernas no ar.— O T-Rex também?​— Principalmente o T-Rex — Demétrio riu. — Mal posso esperar para o verão chegar. Boa noite, filho. Eu te amo.​— Também te amo, pai Demétrio. Até amanhã! — Dionísio acenou para a câmera e encerrou a chamada.​Amélia e Dimitri observavam a cena do enorme sofá de couro. Am

  • Impiedoso    92

    O tempo, quando não é mais usado como arma, torna-se o melhor dos arquitetos. Ele reconstrói o que foi implodido e assenta tijolos sobre as ruínas do que antes parecia irreparável.​Nos meses que se seguiram àquela noite de fuga e revelações, a vida de todos os que sobreviveram ao furacão Granger começou, finalmente, a encontrar o seu curso natural. O passado não havia sido esquecido — as cicatrizes estavam lá para provar —, mas ele havia perdido o poder de ditar o futuro.​O primeiro grande laço a ser refeito foi entre Nova Iorque e Belém.​Era uma manhã ensolarada de domingo quando o carro de Dimitri estacionou no aeroporto internacional. Demétrio estava com a passagem de volta comprada. As semanas em que o arquiteto do conglomerado Oliver passou na cidade haviam sido dedicadas exclusivamente a consertar o seu maior erro com o filho. Não houve cobranças, nem pressa. Apenas idas à sorveteria, partidas de videogame no tapete da sala e muita paciência.​No saguão de embarque, Demétrio

  • Impiedoso    91

    A luz da manhã invadiu a suíte master no terceiro andar através das pesadas cortinas de linho, banhando o quarto em um tom dourado e morno. O silêncio reinava, quebrado apenas pelo canto distante dos pássaros no jardim da mansão.Dionísio piscou devagar. A claridade o fez franzir o nariz. Ele se mexeu, sentindo a textura incrivelmente macia dos lençóis luxuosos que o cobriam. Ao abrir completamente os olhos, a primeira coisa que notou foi o teto diferente. Depois, o cheiro de cedro e do perfume amadeirado que impregnava o travesseiro e a camisa enorme que vestia.Ele não estava no seu quarto. Estava na cama de Dimitri Klines. O lugar mais restrito da casa inteira.O menino se sentou devagar, agarrando o edredom. O coração deu um pulo assustado quando ele olhou para o lado.Dimitri e Amélia estavam lá. Eles não haviam dormido na cama. Os dois estavam acomodados no largo sofá de veludo encostado na parede oposta do quarto. Amélia estava deitada com a cabeça no colo de Dimitri, que tinha

  • Impiedoso    90

    O pranto desesperado de Dionísio foi perdendo a força aos poucos, transformando-se em soluços espaçados até que a exaustão absoluta cobrasse o seu preço. Ele chorou até adormecer ali mesmo, no asfalto frio, aninhado nos braços da tia. Durante todo o tempo, ele não disse uma única palavra. Não precisava. A dor do menino falava por si só.Amélia continuou embalando-o no escuro, o queixo apoiado nos cabelos finos do sobrinho. O peso do corpo dele, agora relaxado pelo sono, começava a adormecer seus braços. Ele já era um menino grande, pesado demais para ser carregado por ela por muito tempo, embora, naquele instante, parecesse a criatura mais minúscula e frágil do universo.Amélia o apertou contra o peito, o coração transbordando de um amor indescritível. Dionísio havia sido a âncora dela. Quando o seu mundo inteiro havia desmoronado e a vontade de desistir parecia a única saída, foi a existência daquela criança que a manteve de pé. Ele havia lhe devolvido a razão para lutar por algo mai

  • Impiedoso    89

    A palavra ecoou dentro da cabine do carro esportivo, roubando o pouco ar que ainda restava nos pulmões de Dimitri.O cemitério.Amélia fechou os olhos, e uma lágrima quente escorreu, rasgando o seu rosto. Tudo fez um sentido devastador. Dionísio não estava tentando voltar para a rotina do colégio interno. Ele não estava fugindo para um lugar qualquer. Naquela noite, sentindo-se a sobra indesejada de uma família de mentiras, o menino havia percorrido a cidade escura em busca da única pessoa que, na cabeça dele, o quis de verdade.A pessoa que lutou pela vida dele até o último segundo naquela ambulância. A sua mãe.Amélia virou o rosto para Dimitri. O magnata estava paralisado, a mão apertando o rádio comunicador com tanta força que o plástico estalava.— Dimitri — Amélia pediu, a voz embargada, mas carregada de uma urgência absoluta. — Dê a ordem ao Santos. Ninguém pode se aproximar dele. Nenhum segurança, nenhuma luz no rosto. Mandem todos recuarem.Dimitri hesitou, o instinto de prot

  • Impiedoso    88

    O som da taça de cristal estilhaçando nas pedras do jardim foi o único aviso de que o pesadelo havia retornado.A música suave continuava tocando nas caixas de som escondidas pelas árvores, mas, para as poucas pessoas reunidas ali, o mundo havia mergulhado em um silêncio aterrorizante. O sorriso no rosto de Augusto sumiu instantaneamente ao ver a palidez mortal na expressão da irmã e do cunhado.— Como assim ele fugiu? — Demétrio foi o primeiro a quebrar a inércia. A voz do homem, que sempre fora o braço direito inabalável de Dimitri no conglomerado, saiu aguda, estrangulada pelo pânico. Ele avançou na direção do irmão, agarrando os colarinhos do terno de Dimitri. — O portão estava cheio de seguranças! Como uma criança simplesmente sai?!— O buffet, Demétrio — Dimitri respondeu. Ele não revidou o solavanco do irmão, apenas segurou os pulsos dele com firmeza, afastando-o. A mente do magnata, forjada no caos e projetada para o controle absoluto, assumiu as rédeas da situação de forma im

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