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Dimitri acabará de sair do quarto quando deu de cara com o sogro no corredor, o homem o encara de forma acusatória do mesmo modo que a sogra faz há dez anos, se não fosse pelo fato de Amélia ter 25% da casa ele poderia colocar pessoas tão indesejáveis na rua.— Soube que deixou seu filho sozinho de novo, como pode ser tão cruel com seu próprio sangue? — Seu Olavo não resiste a chance de alfinetar o genro. Ele poderia não ser alguém que convivia com o neto, mas sO sol terminava de se esconder no horizonte de Belém, pintando o céu de tons lilases. A noite caía suave sobre a mansão Klines, trazendo consigo a brisa fresca que balançava as folhas das mangueiras no jardim.Na sala de estar, o som de risadas infantis preenchia o ambiente. Dionísio estava deitado de barriga para baixo no tapete felpudo, com um tablet apoiado na frente do rosto. Na tela, Demétrio sorria diretamente de seu apartamento em Nova Iorque.— Eu já comprei os ingressos para o Museu de História Natural — a voz de Demétrio soava animada. — Você vai adorar os dinossauros, amigão. Os esqueletos são do tamanho de um prédio.Dionísio arregalou os olhos castanhos, balançando as pernas no ar.— O T-Rex também?— Principalmente o T-Rex — Demétrio riu. — Mal posso esperar para o verão chegar. Boa noite, filho. Eu te amo.— Também te amo, pai Demétrio. Até amanhã! — Dionísio acenou para a câmera e encerrou a chamada.Amélia e Dimitri observavam a cena do enorme sofá de couro. Am
O tempo, quando não é mais usado como arma, torna-se o melhor dos arquitetos. Ele reconstrói o que foi implodido e assenta tijolos sobre as ruínas do que antes parecia irreparável.Nos meses que se seguiram àquela noite de fuga e revelações, a vida de todos os que sobreviveram ao furacão Granger começou, finalmente, a encontrar o seu curso natural. O passado não havia sido esquecido — as cicatrizes estavam lá para provar —, mas ele havia perdido o poder de ditar o futuro.O primeiro grande laço a ser refeito foi entre Nova Iorque e Belém.Era uma manhã ensolarada de domingo quando o carro de Dimitri estacionou no aeroporto internacional. Demétrio estava com a passagem de volta comprada. As semanas em que o arquiteto do conglomerado Oliver passou na cidade haviam sido dedicadas exclusivamente a consertar o seu maior erro com o filho. Não houve cobranças, nem pressa. Apenas idas à sorveteria, partidas de videogame no tapete da sala e muita paciência.No saguão de embarque, Demétrio
A luz da manhã invadiu a suíte master no terceiro andar através das pesadas cortinas de linho, banhando o quarto em um tom dourado e morno. O silêncio reinava, quebrado apenas pelo canto distante dos pássaros no jardim da mansão.Dionísio piscou devagar. A claridade o fez franzir o nariz. Ele se mexeu, sentindo a textura incrivelmente macia dos lençóis luxuosos que o cobriam. Ao abrir completamente os olhos, a primeira coisa que notou foi o teto diferente. Depois, o cheiro de cedro e do perfume amadeirado que impregnava o travesseiro e a camisa enorme que vestia.Ele não estava no seu quarto. Estava na cama de Dimitri Klines. O lugar mais restrito da casa inteira.O menino se sentou devagar, agarrando o edredom. O coração deu um pulo assustado quando ele olhou para o lado.Dimitri e Amélia estavam lá. Eles não haviam dormido na cama. Os dois estavam acomodados no largo sofá de veludo encostado na parede oposta do quarto. Amélia estava deitada com a cabeça no colo de Dimitri, que tinha
O pranto desesperado de Dionísio foi perdendo a força aos poucos, transformando-se em soluços espaçados até que a exaustão absoluta cobrasse o seu preço. Ele chorou até adormecer ali mesmo, no asfalto frio, aninhado nos braços da tia. Durante todo o tempo, ele não disse uma única palavra. Não precisava. A dor do menino falava por si só.Amélia continuou embalando-o no escuro, o queixo apoiado nos cabelos finos do sobrinho. O peso do corpo dele, agora relaxado pelo sono, começava a adormecer seus braços. Ele já era um menino grande, pesado demais para ser carregado por ela por muito tempo, embora, naquele instante, parecesse a criatura mais minúscula e frágil do universo.Amélia o apertou contra o peito, o coração transbordando de um amor indescritível. Dionísio havia sido a âncora dela. Quando o seu mundo inteiro havia desmoronado e a vontade de desistir parecia a única saída, foi a existência daquela criança que a manteve de pé. Ele havia lhe devolvido a razão para lutar por algo mai
A palavra ecoou dentro da cabine do carro esportivo, roubando o pouco ar que ainda restava nos pulmões de Dimitri.O cemitério.Amélia fechou os olhos, e uma lágrima quente escorreu, rasgando o seu rosto. Tudo fez um sentido devastador. Dionísio não estava tentando voltar para a rotina do colégio interno. Ele não estava fugindo para um lugar qualquer. Naquela noite, sentindo-se a sobra indesejada de uma família de mentiras, o menino havia percorrido a cidade escura em busca da única pessoa que, na cabeça dele, o quis de verdade.A pessoa que lutou pela vida dele até o último segundo naquela ambulância. A sua mãe.Amélia virou o rosto para Dimitri. O magnata estava paralisado, a mão apertando o rádio comunicador com tanta força que o plástico estalava.— Dimitri — Amélia pediu, a voz embargada, mas carregada de uma urgência absoluta. — Dê a ordem ao Santos. Ninguém pode se aproximar dele. Nenhum segurança, nenhuma luz no rosto. Mandem todos recuarem.Dimitri hesitou, o instinto de prot
O som da taça de cristal estilhaçando nas pedras do jardim foi o único aviso de que o pesadelo havia retornado.A música suave continuava tocando nas caixas de som escondidas pelas árvores, mas, para as poucas pessoas reunidas ali, o mundo havia mergulhado em um silêncio aterrorizante. O sorriso no rosto de Augusto sumiu instantaneamente ao ver a palidez mortal na expressão da irmã e do cunhado.— Como assim ele fugiu? — Demétrio foi o primeiro a quebrar a inércia. A voz do homem, que sempre fora o braço direito inabalável de Dimitri no conglomerado, saiu aguda, estrangulada pelo pânico. Ele avançou na direção do irmão, agarrando os colarinhos do terno de Dimitri. — O portão estava cheio de seguranças! Como uma criança simplesmente sai?!— O buffet, Demétrio — Dimitri respondeu. Ele não revidou o solavanco do irmão, apenas segurou os pulsos dele com firmeza, afastando-o. A mente do magnata, forjada no caos e projetada para o controle absoluto, assumiu as rédeas da situação de forma im







