FAZER LOGINNo décimo segundo dia de visitas, Da-on finalmente aceitou que Kang Keaton não era mais um cliente ocasional.
Ele havia se tornado parte da decoração do Café Dajeong.
Assim como o relógio antigo atrás do balcão, a planta que insistia em perder folhas e a máquina de espresso que fazia um ruído estranho sempre que alguém pedia café descafeinado, Keaton aparecia todas as manhãs no mesmo horário.
Sete e cinquenta e oito.
Nem sete e cinquenta e sete, nem oito em ponto.
Sete e cinquenta e oito.
Ele entrava, fazia uma reverência curta, caminhava até a mesa sete e esperava Da-on preparar seu americano. Não precisava fazer o pedido. Não precisava consultar o cardápio. Não precisava sequer falar.
Da-on já conhecia a rotina.
— Seu gato chegou — anunciou Min-ji certa manhã.
Da-on levantou os olhos.
— Não temos um gato.
— Temos aquele homem.
— Ele não é um gato.
Min-ji apoiou o queixo na mão.
— Ele chega cedo, senta sempre no mesmo lugar, bebe a mesma coisa e olha para você até receber atenção.
Da-on olhou para a mesa sete.
Keaton estava exatamente como ela imaginava: sentado de costas retas, uma das mãos sobre a mesa e os olhos acompanhando seus movimentos por trás da tela do celular.
Quando percebeu que estava sendo observado, abaixou o aparelho.
Da-on virou-se para a máquina de café.
— Isso se chama rotina.
— Nos gatos também.
— Ele é um adulto funcional.
— Gatos são muito funcionais quando querem comida.
— Min-ji.
— Só estou dizendo.
Da-on preparou o americano e colocou um biscoito ao lado da xícara. Keaton havia comido o último na tarde anterior, embora tivesse levado quase dez minutos para decidir se aceitava.
Ela levou o pedido até a mesa sete.
— Bom dia, Kang-ssi.
— Bom dia, Da-on-ssi.
— Seu café.
Keaton olhou para a xícara e depois para o biscoito.
— O que é isso?
— Um biscoito.
— Eu sei o que é um biscoito.
— Então não precisa perguntar.
Ele segurou a xícara, mas continuou olhando para o biscoito.
— É cortesia da casa?
— Não.
— Então quanto custa?
— Nada.
— Por quê?
Da-on apoiou uma mão na cintura.
— Porque você sempre chega aqui sem comer.
Keaton permaneceu imóvel.
— Como sabe?
— Você fica olhando para os bolos durante cinco minutos antes de pedir apenas café.
— Estou analisando.
— Está com fome.
— Não estou.
— Seu estômago fez barulho ontem.
— Isso não prova nada.
— Prova que ele discorda de você.
Keaton pareceu considerar a possibilidade de que seu próprio corpo estivesse conspirando contra ele.
Da-on empurrou o biscoito na direção dele.
— Coma.
Ele obedeceu.
A expressão de Keaton não mudou enquanto mastigava, mas seus olhos se fecharam por um segundo quando sentiu o sabor de manteiga e canela.
Da-on percebeu.
Ele gostara.
Era a primeira reação verdadeiramente humana que ela via em seu rosto naquela manhã.
— Está bom? — perguntou.
Keaton abriu os olhos.
— É aceitável.
— Então você gostou.
— Não foi o que eu disse.
— Seu rosto disse.
— Meu rosto não costuma dizer nada.
— Esse é o problema.
Da-on voltou ao balcão antes que ele encontrasse uma resposta.
Durante os dias seguintes, começou a reparar em detalhes que antes ignorava.
Keaton tinha o hábito de escolher a cadeira mais próxima da janela, principalmente quando o sol da manhã atravessava o vidro. Quando não estava usando o notebook, ficava com os olhos semicerrados e o rosto voltado para a luz.
Parecia um gato enorme e mal-humorado procurando o único pedaço quente da casa.
Ele também inclinava levemente a cabeça sempre que Da-on dizia seu nome. Não era um movimento consciente. Acontecia antes que ele pudesse impedir.
Quando ela o chamava para avisar que seu café estava pronto, ele levantava os olhos imediatamente.
Quando ela passava perto da mesa sete, seus dedos paravam de digitar.
Quando ela conversava com outro cliente, Keaton tentava fingir que não estava ouvindo.
Fingia muito mal.
Na manhã de uma sexta-feira, Da-on colocou o americano diante dele e ficou parada.
Keaton ergueu os olhos.
— Aconteceu alguma coisa?
— Estou pensando em mudar seu pedido.
Ele franziu a testa.
— Por quê?
— Você bebe americano sem açúcar há quase duas semanas. Seu paladar está triste.
— Meu paladar está satisfeito.
— Ele não parece.
— Você conversa com o meu paladar?
— Às vezes.
Keaton olhou para a xícara.
— O que você recomendaria?
Da-on sorriu pela primeira vez naquela manhã.
— Um latte de mel.
— É doce?
— Sim.
— Não.
— Você perguntou o que eu recomendaria.
— E você recomendou algo doce.
— Porque você é amargo.
Keaton ficou tão imóvel que Da-on percebeu ter exagerado.
— Foi uma brincadeira — acrescentou.
— Eu entendi.
— Não pareceu.
— Estou apenas avaliando a observação.
— Você avalia tudo?
— Quase tudo.
— Deve ser cansativo.
— É eficiente.
Da-on apoiou as mãos no balcão.
— Sabe o que seria eficiente? Você parar de tratar cada conversa como uma entrevista.
Keaton pareceu sinceramente surpreso.
— Eu faço isso?
— Faz.
— Com você?
— Especialmente comigo.
Ele permaneceu em silêncio.
Da-on esperou uma defesa, uma explicação ou, pelo menos, uma mudança de assunto. Em vez disso, Keaton abaixou os olhos.
— Vou tentar não fazer.
A resposta simples desarmou a irritação dela.
— Não precisa tentar tanto.
— Você acabou de dizer que é cansativo.
— É cansativo para mim. Para você, talvez seja um problema de fábrica.
Keaton soltou um ruído baixo.
Da-on levou alguns segundos para perceber que ele havia rido.
Não foi exatamente uma gargalhada. Foi apenas uma breve respiração pelo nariz, quase imperceptível.
Mesmo assim, a expressão dele mudou.
O rosto ficou mais jovem. Menos severo. Quase bonito demais para um homem que discutia com uma barista sobre a própria fome.
Da-on apontou para ele.
— Você riu.
— Não.
— Riu, sim.
— Foi uma reação respiratória.
— Claro.
— Uma reação respiratória involuntária.
— Vou anotar.
Keaton tomou um gole do americano para esconder o canto da boca.
Da-on voltou ao trabalho, mas o sorriso continuou ali.
Mais tarde, quando o café ficou cheio, um cliente derrubou uma bandeja perto da mesa sete. O barulho fez Keaton levantar-se imediatamente.
— Não se machucou? — perguntou ele.
Da-on olhou para os cacos no chão.
— Eu não.
— Tem certeza?
— Sim.
— Sua mão está sangrando?
Ela olhou para os próprios dedos.
Havia apenas uma pequena mancha de café.
— Isso é café.
Keaton ainda parecia preocupado.
— Tem certeza?
Da-on respirou fundo.
Então compreendeu.
Ele não era apenas estranho. Era persistente. Preocupava-se com tudo em silêncio, mas, quando decidia demonstrar, fazia perguntas até obter uma resposta satisfatória.
Exatamente como um gato que empurrava um objeto da mesa apenas para ter certeza de que alguém o recolocaria no lugar.
Da-on pegou a vassoura.
— Kitty-ssi, sente-se.
Keaton congelou.
O café continuou funcionando ao redor deles. A máquina chiou. Min-ji chamou o pedido da mesa quatro. Um casal riu perto da janela.
Mas Keaton permaneceu parado.
— O que você disse?
Da-on só percebeu o apelido depois de ouvi-lo em voz alta.
— Kitty-ssi.
— Por quê?
— Porque você chega cedo, escolhe sempre o mesmo lugar, espera ser alimentado e fica me observando para ver se vou prestar atenção em você.
Keaton olhou para a própria xícara.
— Eu não espero ser alimentado.
Da-on apontou para o biscoito que ele havia comido.
— Você comeu.
— Era um gesto de cortesia.
— Você voltou no dia seguinte.
— O café é bom.
— E continua olhando para mim.
— Estou atento ao ambiente.
— Claro, Kitty-ssi.
Keaton encarou-a.
Da-on esperou que ele reclamasse. Talvez dissesse que era um executivo importante demais para ser chamado de gatinho. Talvez pedisse que ela usasse seu sobrenome, como uma pessoa normal.
Em vez disso, ele perguntou:
— Você sempre dá apelidos aos clientes?
— Não.
— Só para mim?
— Só para você.
A resposta pareceu satisfazê-lo.
— Kitty-ssi está bem.
Da-on estreitou os olhos.
— Está?
— É um apelido aceitável.
— Você não precisa fingir que gostou.
— Não estou fingindo.
— Isso é preocupante.
Keaton sentou-se novamente.
Da-on terminou de limpar o chão e voltou ao balcão. Alguns minutos depois, ouviu a voz dele:
— Da-on-ssi.
— Sim?
— Kitty-ssi não deveria receber um biscoito?
Ela olhou para a mesa sete.
Kang Keaton estava sentado com a mesma postura séria de sempre, segurando a xícara entre as mãos.
Mas havia uma expectativa quase infantil em seus olhos.
Da-on pegou outro biscoito e colocou ao lado do café.
— Só porque hoje você não reclamou enquanto eu limpava.
— Eu nunca reclamo.
— Exatamente. É por isso que estou recompensando o comportamento.
Keaton observou o biscoito.
— Posso levar um para depois?
Da-on ficou olhando para ele.
— Você está mesmo se comportando como um gato.
— Gatos não bebem americano.
— Você é um gato com problemas de cafeína.
Pela segunda vez naquela manhã, Keaton riu.
Dessa vez, Da-on viu.
E, sem perceber, começou a sorrir também.
Naquela noite, Kang Keaton voltou ao escritório com uma nova anotação no calendário.
Café Dajeong — 7h58.
Abaixo, depois de hesitar por alguns segundos, acrescentou:
Kitty.
Ele encarou a palavra por tempo demais.
Então bloqueou a tela do celular antes que alguém pudesse vê-la.
O apelido não era elegante.
Não combinava com um CEO.
Não deveria significar nada.
Ainda assim, pela primeira vez, Keaton gostou de ser chamado por um nome que não vinha acompanhado de seu cargo, sobrenome ou patrimônio.
No dia seguinte, chegou ao Café Dajeong às sete e cinquenta e oito.
Da-on estava esperando por ele com um americano e dois biscoitos.
— Bom dia, Kitty-ssi.
Keaton parou na porta.
Seu coração, que enfrentava reuniões e crises empresariais sem alterar o ritmo, falhou por um instante.
— Bom dia, Da-on-ssi.
A primeira coisa que Da-on fez na manhã seguinte foi procurar a Mirae Distribution.O site da empresa era elegante, moderno e quase vazio.Havia fotografias de sacas de café, frases sobre excelência e uma lista de hotéis parceiros. Não havia endereço completo, nomes de responsáveis ou informações sobre a origem dos produtos.Da-on rolou a página até o fim.— Isso não é um site — disse Min-ji.— O que é?— Um cartão de visitas com medo de ser interrogado.Da-on abriu a página de contato.— Há apenas um número de telefone e um formulário.— Você vai ligar?— Vou pedir documentos.— Eles vão enviar fotografias de grãos em uma plantação qualquer.— Então pedirei certificados, registros de importação, condições de armazenamento e referências comerciais.Min-ji apoiou-se no balcão.— Você sabe que a maioria das pessoas simplesmente compra o café, prova e decide?— A maioria das pessoas não recebeu uma proposta com uma empresa desconhecida anexada ao contrato.— Isso é verdade.Da-on enviou
Na manhã seguinte, Keaton chegou ao Café Dajeong antes de Da-on.Min-ji o encontrou sentado na mesa sete, com dois documentos impressos, uma xícara de café e uma expressão que fazia o ambiente parecer mais sério do que realmente era.— O presidente veio trabalhar? — perguntou ela.— Vim esperar.— Isso costuma ser feito em silêncio.— Estou em silêncio.— Está encarando os papéis como se eles tivessem cometido um crime.Keaton olhou para as folhas.— Ainda não sei.Min-ji ficou parada.— O quê?— Se cometeram um crime.— São documentos.— Documentos podem esconder coisas.— Eles também podem apenas estar mal escritos.— É uma possibilidade.— Você tomou café?— Dois.— Então talvez esteja vendo conspirações porque exagerou na cafeína.Keaton olhou para a xícara vazia.— Da-on está chegando?— Está. Mas, se você pretende recebê-la com essa expressão, recomendo que esconda os papéis.— Por quê?— Ela detesta quando você parece prestes a comprar uma empresa.Keaton guardou os documentos
Keaton chegou ao Café Dajeong quinze minutos depois de receber o e-mail.Entrou pela porta da frente, mas não foi até a mesa sete. Caminhou diretamente até o balcão, onde Da-on estava com o documento aberto no computador.— Você veio rápido — disse ela.— Eu estava na torre.— Então veio rápido demais.— Hyun-woo estava no carro.— Isso explica.Keaton tirou o paletó e colocou-o sobre uma cadeira.— Posso ver?Da-on virou o monitor em sua direção.A proposta ocupava oito páginas. Havia informações sobre o novo hotel da Kang Group, estimativas de consumo, prazos de fornecimento e condições de pagamento.Na última página, a frase sobre a “relação de confiança com a família Kang” aparecia destacada.Keaton leu em silêncio.— Isso não deveria estar aqui.— Eu sei.— A contratação deveria ser baseada em capacidade, preço e qualidade.— E não na minha relação com você.— Exatamente.— Foi Tae-jun quem escreveu?— O nome dele aparece como responsável.— Isso não significa que ele tenha escri
A avó de Keaton convidou Da-on para almoçar no domingo.O convite chegou por meio de uma mensagem curta.Venha tomar café. Minha filha está preparando comida demais.Da-on mostrou a mensagem a Keaton.— Sua avó está me convidando ou tentando evitar sobras?— As duas coisas podem ser verdade.— Quem estará lá?— Minha mãe, minha avó e alguns parentes.— “Alguns” significa quantos?— Não sei.— Como você não sabe quantas pessoas da sua própria família estarão no almoço?— Eu nunca contei.— Você cresceu naquela casa.— Eu contava os talheres, não as pessoas.Da-on suspirou.— Vou levar alguma coisa.— Minha avó disse que você não precisava.— Eu sei.— Então por que vai levar?— Porque não consigo chegar à casa de alguém com as mãos vazias.— Você pode levar o café.— Isso é previsível.— Ela gosta.— Vou levar café e alguma coisa para comer.— Minha mãe vai interpretar isso como uma formalidade.— É uma formalidade.— Minha avó vai interpretar como carinho.— Também é carinho.Keaton o
A ligação da Fundação Kang chegou numa terça-feira de manhã.Da-on estava conferindo uma entrega de leite quando o telefone tocou.— Café Dajeong, bom dia.— Senhorita Kim? Aqui é a diretora Han, da Fundação Kang.— Bom dia.— Gostaríamos de solicitar um serviço para uma reunião da Kang Group na próxima semana.Da-on pegou um bloco.— Quantas pessoas?— Vinte e quatro.— Horário?— Oito da manhã.— Local?— Torre Kang, décimo nono andar.— Precisam de atendimento no local?— Apenas entrega e montagem da mesa de café.— Quantos itens?A diretora começou a responder.Da-on anotou tudo, fez perguntas sobre equipamentos, restrições alimentares e horário de desmontagem. Ao final, enviou uma proposta formal.A resposta chegou no mesmo dia.Aprovada.Keaton soube do contrato por uma mensagem de Da-on.Vou trabalhar na Torre Kang na terça-feira.Ele respondeu quase imediatamente.Eu posso cancelar a reunião da manhã.Não.Posso mudar a sala.Também não.Posso pedir que ninguém incomode você.
No domingo seguinte, Keaton chegou ao Café Dajeong às nove da manhã.Dessa vez, não mandou mensagem avisando que estava a caminho.Também não enviou uma lista, um roteiro ou uma pergunta sobre o trânsito.Apenas entrou pela porta e colocou sobre o balcão uma pequena sacola de papel.Da-on olhou para a sacola.— Você trouxe um presente?— Não.— Com essa resposta, provavelmente trouxe.— É apenas uma coisa.— As coisas que você chama de “apenas uma coisa” costumam vir em caixas com certificados.Keaton abriu a sacola.Dentro havia dois sanduíches embalados e uma garrafa de suco.Da-on examinou os pacotes.— Você comprou café da manhã.— Sim.— Para nós dois?— Sim.— Você perguntou se eu queria?— Não.— Então é um presente.Keaton pareceu considerar.— É um café da manhã não solicitado.— Isso é ainda pior.Ele colocou os sanduíches sobre o balcão.— Escolhi o mesmo lugar da semana passada.— Por quê?— Você disse que as batatas estavam boas.— Eu disse que a batata era uma batata.—