LOGINKang Keaton sabia que o Café Dajeong era importante para Kim Da-on.
Ela havia dito isso no primeiro encontro, embora de maneira tão direta que ele não tivesse compreendido toda a extensão da informação.
— Este é o meu café.
Naquele momento, Keaton havia interpretado a frase como uma forma de carinho. Talvez Da-on trabalhasse ali havia muitos anos. Talvez tivesse ajudado a fundá-lo. Talvez considerasse o estabelecimento seu porque conhecia cada cliente e cada ruído da máquina de espresso.
Ele não havia perguntado.
Em sua defesa, naquela manhã Da-on segurava uma leiteira, dois clientes aguardavam atendimento e ele estava ocupado tentando descobrir por que seu coração acelerava quando ela dizia seu nome.
Além disso, nas semanas seguintes, ela continuara atrás do balcão, preparando bebidas, carregando caixas e discutindo com fornecedores. Para Keaton, aquilo parecia confirmar que ela era uma funcionária extremamente dedicada.
Não lhe ocorreu que ela pudesse ser a proprietária legal.
A descoberta aconteceu numa terça-feira chuvosa.
Keaton chegou ao Café Dajeong no horário habitual, mas Da-on não estava atrás do balcão. Min-ji atendia os clientes, enquanto um homem de meia-idade discutia perto da porta com alguém que Keaton não conhecia.
— Não posso aceitar esse reajuste sem aviso — dizia Da-on.
Ela estava sem o avental. Usava uma blusa creme, calça escura e o cabelo preso de maneira simples. Sem a roupa de trabalho, parecia menos uma barista e mais uma mulher prestes a participar de uma reunião importante.
O homem segurava uma prancheta.
— Kim sajangnim, o preço dos grãos aumentou para todos.
Keaton parou antes de se aproximar.
Sajangnim.
Proprietária. Chefe. Dona do estabelecimento.
Ele olhou para Da-on.
Ela havia colocado as duas mãos sobre o balcão, mantendo a voz calma.
— O preço dos grãos aumentou três por cento. Sua fatura está quinze por cento mais cara.
— O transporte também subiu.
— Então inclua a taxa de transporte separadamente. Não vou assinar uma cobrança que mistura reajuste, taxa administrativa e uma diferença que ninguém explicou.
O fornecedor respirou fundo.
— É apenas um pequeno café.
Keaton sentiu algo frio atravessar seu peito.
Da-on, porém, não pareceu ofendida.
— Justamente por ser pequeno, preciso conferir cada despesa. Se o senhor não quiser manter o contrato, diga diretamente. Se quiser mantê-lo, envie uma nota corrigida até amanhã.
O homem olhou para ela por alguns segundos.
Então abaixou a prancheta.
— Mandarei a nota corrigida.
— Obrigada.
Ele fez uma reverência curta.
— Com licença, Kim sajangnim.
Depois saiu.
Da-on permaneceu imóvel por alguns instantes. Só relaxou os ombros quando a porta se fechou.
Keaton aproximou-se.
— Você é a proprietária.
Da-on virou-se.
— Bom dia para você também.
— Você é a proprietária do Café Dajeong.
— Sou.
— A dona.
— Sim, Kitty-ssi. Essa é geralmente a função de uma proprietária.
Keaton olhou para o balcão, para as mesas, para a máquina de espresso e para o pequeno quadro com o cardápio.
De repente, tudo parecia diferente.
O café não era apenas um lugar onde Da-on trabalhava. Era uma empresa. Pequena, independente e administrada por ela. Cada xícara vendida, cada contrato, cada salário e cada problema passava pelas mãos de Kim Da-on.
— Por que não me contou? — perguntou.
Da-on ergueu uma sobrancelha.
— Eu contei.
— Você disse que o café era seu.
— Exatamente.
— Eu pensei que você estivesse falando de maneira afetiva.
— O que isso significa?
— Que você gostava muito do lugar.
Da-on ficou olhando para ele.
Min-ji, atrás do balcão, virou o rosto para esconder um sorriso.
— Kitty-ssi — disse Da-on lentamente —, quando uma pessoa diz “este é o meu café” e depois fala sobre contratos, aluguel e fornecedores, geralmente significa que o café é dela.
Keaton aceitou a crítica em silêncio.
— Eu deveria ter perguntado.
— Deveria.
— Peço desculpas.
A formalidade com que ele fez a reverência foi tão profunda que Da-on precisou segurar o riso.
— Não precisa se curvar tanto. Você está se desculpando por não ter prestado atenção, não por ter cometido um crime.
Keaton endireitou-se.
— Eu deveria ter prestado atenção.
— Você estava ocupado tentando decidir se eu era sua acompanhante do encontro ou uma funcionária que não queria conversar com você.
— As duas possibilidades pareciam plausíveis.
— Não para uma pessoa normal.
Ele pareceu considerar se aquilo era um insulto.
Da-on decidiu que provavelmente era.
— Há quanto tempo você administra o café? — perguntou Keaton.
— Quase quatro anos.
— Sozinha?
— Com a ajuda da Min-ji e de mais duas pessoas em meio período.
— E o contrato com os fornecedores?
— Eu negocio.
— A folha de pagamento?
— Eu cuido.
— A contabilidade?
— Tenho uma contadora.
— O marketing?
— Eu faço o que consigo.
Keaton olhou para o cardápio.
— O design poderia ser melhorado.
Da-on estreitou os olhos.
— Não comece.
— Eu não disse que estava ruim.
— Você pensou.
— Pensei que poderia ser mais funcional.
— O cardápio foi desenhado pela minha amiga.
— Ele é bonito.
— Mas?
— Poderia ser mais funcional.
Da-on apontou para a mesa sete.
— Sente-se e beba seu café antes que eu aumente o preço.
Keaton obedeceu.
Da-on preparou o americano, mas, dessa vez, não levou a xícara imediatamente. Queria observar a expressão dele.
Keaton havia permanecido quieto desde a descoberta. Não parecia decepcionado. Pelo contrário, seus olhos percorriam o espaço com atenção renovada.
Era como se estivesse vendo o café pela primeira vez.
Quando Da-on colocou a bebida diante dele, ele perguntou:
— Você comprou este lugar?
— Comprei o ponto e reformei.
— Sozinha?
— Com um empréstimo.
— Pagou?
— Há dois anos.
Keaton olhou para ela.
— Em dois anos?
— Você parece surpreso.
— É um bom resultado.
— Obrigada.
— Você aumentou a receita depois da reforma?
— Não vou responder a uma avaliação empresarial durante o café da manhã.
— Não é uma avaliação.
— Parece.
— Estou interessado.
Da-on apoiou a mão no quadril.
— No café ou em mim?
A pergunta saiu antes que ela pudesse impedir.
Keaton segurou a xícara.
Sua expressão continuou séria, mas as pontas de suas orelhas ficaram levemente vermelhas.
— Nos dois.
Da-on ficou quieta.
Min-ji derrubou uma pilha de guardanapos atrás do balcão.
— Desculpem — disse ela, sem parecer arrependida.
Da-on pegou um pano e começou a limpar uma parte do balcão que já estava limpa.
— Você não precisa se interessar pelos meus negócios.
— Eu sei.
— E não precisa tentar ajudar.
— Eu sei.
— Nem sugerir investimentos.
— Eu não sugeriria sem sua permissão.
Da-on olhou para ele.
A resposta era tão cuidadosa que quase parecia sincera.
— Você já pensou em investir?
Keaton não respondeu imediatamente.
— Pensei que o café tem potencial.
— Kitty-ssi.
— Não estou dizendo que você precise do meu dinheiro.
— Ainda bem.
— Estou dizendo que gosto deste lugar.
Da-on abaixou o pano.
Keaton encarava a xícara, não ela.
— E gosto do modo como você o administra.
O elogio poderia ter soado como uma análise empresarial. Em qualquer outra pessoa, provavelmente soaria assim.
Mas Keaton parecia ter escolhido cada palavra com cuidado para não ultrapassar uma linha que ainda não compreendia.
Da-on relaxou.
— O Café Dajeong não é uma empresa da Kang Group.
— Eu sei.
— Não precisa melhorar nada.
— Eu sei.
— Então o que você quer?
Keaton levantou os olhos.
— Quero conhecê-la.
Da-on sentiu o rosto aquecer.
Era irritante o quanto ele conseguia dizer coisas diretas com a expressão de quem estava lendo um relatório financeiro.
— Você já sabe que eu sou dona do café.
— Isso é uma informação profissional.
— E o que seria uma informação pessoal?
Keaton pensou por alguns segundos.
— Você gosta de torta de morango pouco doce. Não gosta de flores muito perfumadas. Dorme mal quando clientes mandam mensagens de madrugada. E fica irritada quando alguém tenta ajudar sem pedir autorização.
Da-on piscou.
— Você guardou tudo isso?
— Sim.
— Por quê?
— Faz parte da minha estratégia.
Ela soltou uma risada.
— Você é impossível.
— Estou tentando melhorar.
— Está tentando me conquistar.
Keaton ficou imóvel.
A palavra pareceu atingir um ponto sensível.
Da-on cobriu a boca, tarde demais para esconder o sorriso.
— Não negue. Você sempre aparece no mesmo horário, lembra cada coisa que digo e compra sanduíches como se estivesse negociando um contrato.
— Eu não nego.
— Pelo menos é honesto.
— Estou tentando ser.
Da-on pegou um biscoito e colocou diante dele.
— Então escute uma coisa, Kitty-ssi. Se quiser me conquistar, não transforme tudo em uma operação empresarial.
Keaton olhou para o biscoito.
— O que devo fazer?
— Conversar.
— Sobre o quê?
— Qualquer coisa.
— Sem objetivo?
— Sem objetivo.
Keaton pareceu desconfortável com a ideia.
Da-on sorriu.
— Você consegue.
Ele segurou o biscoito.
— Vou tentar.
— E não use a palavra “sinergia”.
— Eu não usaria.
— Nem “potencial”.
— Eu já usei.
— Eu sei.
Naquela tarde, Keaton voltou para a sede da Kang Group.
Hyun-woo o esperava com uma pilha de documentos.
— Descobriu alguma coisa importante no café?
Keaton tirou o paletó.
— Da-on é a proprietária.
— Ela já havia contado isso.
— Eu não tinha entendido.
Hyun-woo fechou os olhos por um instante.
— E agora?
Keaton olhou pela janela do escritório, para as ruas movimentadas de Haedam.
— Agora entendi.
Sobre a mesa, havia uma nova folha.
Dessa vez, Keaton não escreveu nenhum plano.
Apenas uma frase:
Não tentar resolver o que ela não pediu para resolver.
Depois de pensar um pouco, acrescentou outra:
Perguntar antes de ajudar.
Na manhã seguinte, ao entrar no Café Dajeong, ele não trouxe uma proposta, uma análise ou uma sugestão de investimento.
Trouxe apenas seu americano habitual.
E um convite.
— Da-on-ssi — disse ele, aproximando-se do balcão. — Posso conversar com você depois do expediente?
Ela olhou para ele por alguns segundos.
— Sem estratégia?
— Sem estratégia.
— Sem planilhas?
— Sem planilhas.
— Sem falar sobre potencial de mercado?
— Sem falar sobre potencial de mercado.
Da-on sorriu.
— Então pode.
A primeira coisa que Da-on fez na manhã seguinte foi procurar a Mirae Distribution.O site da empresa era elegante, moderno e quase vazio.Havia fotografias de sacas de café, frases sobre excelência e uma lista de hotéis parceiros. Não havia endereço completo, nomes de responsáveis ou informações sobre a origem dos produtos.Da-on rolou a página até o fim.— Isso não é um site — disse Min-ji.— O que é?— Um cartão de visitas com medo de ser interrogado.Da-on abriu a página de contato.— Há apenas um número de telefone e um formulário.— Você vai ligar?— Vou pedir documentos.— Eles vão enviar fotografias de grãos em uma plantação qualquer.— Então pedirei certificados, registros de importação, condições de armazenamento e referências comerciais.Min-ji apoiou-se no balcão.— Você sabe que a maioria das pessoas simplesmente compra o café, prova e decide?— A maioria das pessoas não recebeu uma proposta com uma empresa desconhecida anexada ao contrato.— Isso é verdade.Da-on enviou
Na manhã seguinte, Keaton chegou ao Café Dajeong antes de Da-on.Min-ji o encontrou sentado na mesa sete, com dois documentos impressos, uma xícara de café e uma expressão que fazia o ambiente parecer mais sério do que realmente era.— O presidente veio trabalhar? — perguntou ela.— Vim esperar.— Isso costuma ser feito em silêncio.— Estou em silêncio.— Está encarando os papéis como se eles tivessem cometido um crime.Keaton olhou para as folhas.— Ainda não sei.Min-ji ficou parada.— O quê?— Se cometeram um crime.— São documentos.— Documentos podem esconder coisas.— Eles também podem apenas estar mal escritos.— É uma possibilidade.— Você tomou café?— Dois.— Então talvez esteja vendo conspirações porque exagerou na cafeína.Keaton olhou para a xícara vazia.— Da-on está chegando?— Está. Mas, se você pretende recebê-la com essa expressão, recomendo que esconda os papéis.— Por quê?— Ela detesta quando você parece prestes a comprar uma empresa.Keaton guardou os documentos
Keaton chegou ao Café Dajeong quinze minutos depois de receber o e-mail.Entrou pela porta da frente, mas não foi até a mesa sete. Caminhou diretamente até o balcão, onde Da-on estava com o documento aberto no computador.— Você veio rápido — disse ela.— Eu estava na torre.— Então veio rápido demais.— Hyun-woo estava no carro.— Isso explica.Keaton tirou o paletó e colocou-o sobre uma cadeira.— Posso ver?Da-on virou o monitor em sua direção.A proposta ocupava oito páginas. Havia informações sobre o novo hotel da Kang Group, estimativas de consumo, prazos de fornecimento e condições de pagamento.Na última página, a frase sobre a “relação de confiança com a família Kang” aparecia destacada.Keaton leu em silêncio.— Isso não deveria estar aqui.— Eu sei.— A contratação deveria ser baseada em capacidade, preço e qualidade.— E não na minha relação com você.— Exatamente.— Foi Tae-jun quem escreveu?— O nome dele aparece como responsável.— Isso não significa que ele tenha escri
A avó de Keaton convidou Da-on para almoçar no domingo.O convite chegou por meio de uma mensagem curta.Venha tomar café. Minha filha está preparando comida demais.Da-on mostrou a mensagem a Keaton.— Sua avó está me convidando ou tentando evitar sobras?— As duas coisas podem ser verdade.— Quem estará lá?— Minha mãe, minha avó e alguns parentes.— “Alguns” significa quantos?— Não sei.— Como você não sabe quantas pessoas da sua própria família estarão no almoço?— Eu nunca contei.— Você cresceu naquela casa.— Eu contava os talheres, não as pessoas.Da-on suspirou.— Vou levar alguma coisa.— Minha avó disse que você não precisava.— Eu sei.— Então por que vai levar?— Porque não consigo chegar à casa de alguém com as mãos vazias.— Você pode levar o café.— Isso é previsível.— Ela gosta.— Vou levar café e alguma coisa para comer.— Minha mãe vai interpretar isso como uma formalidade.— É uma formalidade.— Minha avó vai interpretar como carinho.— Também é carinho.Keaton o
A ligação da Fundação Kang chegou numa terça-feira de manhã.Da-on estava conferindo uma entrega de leite quando o telefone tocou.— Café Dajeong, bom dia.— Senhorita Kim? Aqui é a diretora Han, da Fundação Kang.— Bom dia.— Gostaríamos de solicitar um serviço para uma reunião da Kang Group na próxima semana.Da-on pegou um bloco.— Quantas pessoas?— Vinte e quatro.— Horário?— Oito da manhã.— Local?— Torre Kang, décimo nono andar.— Precisam de atendimento no local?— Apenas entrega e montagem da mesa de café.— Quantos itens?A diretora começou a responder.Da-on anotou tudo, fez perguntas sobre equipamentos, restrições alimentares e horário de desmontagem. Ao final, enviou uma proposta formal.A resposta chegou no mesmo dia.Aprovada.Keaton soube do contrato por uma mensagem de Da-on.Vou trabalhar na Torre Kang na terça-feira.Ele respondeu quase imediatamente.Eu posso cancelar a reunião da manhã.Não.Posso mudar a sala.Também não.Posso pedir que ninguém incomode você.
No domingo seguinte, Keaton chegou ao Café Dajeong às nove da manhã.Dessa vez, não mandou mensagem avisando que estava a caminho.Também não enviou uma lista, um roteiro ou uma pergunta sobre o trânsito.Apenas entrou pela porta e colocou sobre o balcão uma pequena sacola de papel.Da-on olhou para a sacola.— Você trouxe um presente?— Não.— Com essa resposta, provavelmente trouxe.— É apenas uma coisa.— As coisas que você chama de “apenas uma coisa” costumam vir em caixas com certificados.Keaton abriu a sacola.Dentro havia dois sanduíches embalados e uma garrafa de suco.Da-on examinou os pacotes.— Você comprou café da manhã.— Sim.— Para nós dois?— Sim.— Você perguntou se eu queria?— Não.— Então é um presente.Keaton pareceu considerar.— É um café da manhã não solicitado.— Isso é ainda pior.Ele colocou os sanduíches sobre o balcão.— Escolhi o mesmo lugar da semana passada.— Por quê?— Você disse que as batatas estavam boas.— Eu disse que a batata era uma batata.—