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CAPÍTULO 4 - O FILHO DO DEMÔNIO

last update 公開日: 2024-07-11 00:35:44

Uma semana depois...

Lucie acordou com o estômago revirado. Era o dia. O maldito dia.

Ela desceu para o jardim ao amanhecer, pés descalços tocando a terra fria. Respirou fundo, tentando absorver a paz que o pequeno paraíso sempre lhe oferecera. O perfume das flores, o zumbido baixo das abelhas, a brisa suave — tudo isso costumava acalmá-la. Hoje, parecia uma despedida cruel.

Sentou no banco de pedra e tocou as pétalas com dedos trêmulos. O enorme muro ao redor do jardim, mandado construir pelo pai anos atrás, bloqueava o mundo exterior. Hoje, aquele muro parecia uma prisão.

— Hoje você se casa, Lucie — murmurou para si mesma, a voz carregada de amargura. — Com o Filho do Demônio.

Kassiani observava da janela da cozinha, o rosto marcado por angústia. Lucie acenou com um sorriso fraco. A governanta retribuiu, mas seus olhos estavam vermelhos.

Na sexta-feira, o pacote chegara como uma sentença de morte. Dentro, um vestido de noiva escandalosamente revelador: alças finas, costas completamente nuas, fenda profunda na coxa e decote ousado. Servira perfeitamente, como se medissem cada centímetro de seu corpo. Junto, um bilhete frio e autoritário:

“Seu vestido de núpcias, querida. Nem pense em não usá-lo.

Local: Du Palais de La Méditerranée

Hora: 22:30”

Kassiani quase rasgara o bilhete.

— Esse monstro acha que pode mandar em você como se fosse um objeto — cuspiu ela na ocasião. — Maldito!

Lucie não respondeu. Apenas ficou olhando o tecido caro, sentindo o pavor crescer. Nem sabia como era o rosto do noivo. Nunca vira uma foto. Apenas sabia que seria esposa do filho de Maxime Durand, o homem que destruíra sua família com uma carta de pôquer.

Sentada no jardim, as memórias dos sonhos voltaram com força. Quase todas as noites daquela semana, ela revivera a guerra através dos olhos de sua mãe. Sangue, gritos, asas rasgando o ar. Mulheres lutando desesperadamente enquanto caíam.

No sonho mais intenso, ela estava ferida, sangrando no braço, sentindo a vida esvair. As guerreiras perdiam a esperança. Então, uma menina ruiva linda apareceu, flutuando sobre uma prancha estranha, usando um capacete curioso. Ao lado dela, um homem alto e forte.

— Você me chamou, Alexandra? — perguntara a menina com voz suave.

Antes que Lucie pudesse responder, Eleni atacara, furiosa:

— Maldita bruxa! Vou acabar com você!

As sobreviventes avançaram. Lucie gritara em desespero:

— Parem! Eles são amigos!

E acordara suando frio.

Os sonhos pararam na sexta. O silêncio deles a aterrorizava mais que tudo. O que estava acontecendo com ela? Por que via a vida da mãe de forma fantasiosa? como se tivesse lendo um conto de fadas sombrio?

Lucie apertou as mãos contra o banco. O nó no estômago apertava cada vez mais. Virgem, com apenas 18 anos, prestes a se formar, sua vida estava sendo arrancada. Entregue como pagamento de dívida a um homem que provavelmente era tão cruel quanto o pai.

— Será que ele vai me tocar hoje à noite? — pensou, sentindo bile subir pela garganta. — Será que vai me tratar como propriedade?

O medo era sufocante. Ela imaginava mãos brutas, olhos frios, um sorriso predatório. O Filho do Demônio. Era assim que Kassiani o chamava agora, com ódio e terror na voz.

Levantou-se abruptamente, o coração acelerado. O sol subia, mas para ela parecia o começo de uma longa noite escura. Depois do pôr do sol, não haveria mais volta. Seria esposa de um desconhecido perigoso, presa numa jaula dourada.

Uma lágrima quente escorreu por seu rosto.

— Será que vou sobreviver a isso? — sussurrou para as flores.

Kassiani apareceu na porta do jardim, incapaz de ficar longe. Aproximou-se e abraçou Lucie por trás, apertando com força.

— Minha menina... — murmurou, a voz embargada. — Tenho tanto medo. Esse homem... ele vai te destruir.

Lucie fechou os olhos, sentindo o calor da única mãe que lhe restava.

— Eu também tenho medo, Kassiani. Mas não tenho escolha.

O jardim, antes refúgio, agora parecia um cemitério de suas últimas horas de liberdade. As flores, que sempre lhe deram força, hoje pareciam murchas sob o peso de seu destino.

A noite se aproximava. E com ela, o Filho do Demônio.

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