FAZER LOGIN"Ana"
A casa estava silenciosa. Analisei as paredes adornadas com quadros caros e raros, os móveis de design que eu poderia tentar vender, o piano que um dia pertencera à minha mãe, uma peça rara, agora acumulando pó no canto da sala.
Caminhei até o escritório do meu pai; não entrava ali desde o dia da morte dele. O ambiente ainda estava impregnado com o cheiro fantasma de charuto e uísque caro.
A escrivaninha continuava abarrotada de papéis, e a imponente cadeira de couro já acumulava poeira. Meu pai havia se trancado ali por anos, ignorando qualquer coisa que não fosse seu glorioso império. A Figueira já tinha sido a maior empresa de investimentos do país.
O filho doente, a filha... nada daquilo importava para ele. Quando minha mãe morreu, eu tinha apenas doze anos. Ele foi trabalhar no dia seguinte. Não olhou na minha cara, não perguntou como os filhos estavam. Apenas contratou babás e delegou a nossa criação como se fôssemos mais uma burocracia da empresa.
E agora eu descobria que o plano dele para tentar se salvar era me vender.
Vasculhei os papéis. Números e mais números. Eu entendia um pouco de contabilidade e percebi que doutor Castillo estava sendo generoso: a situação real era muito pior do que eu imaginava. Meu coração apertou ao pensar em Caleb. Se eu estivesse sozinha, daria um jeito. Poderia trabalhar com qualquer coisa, dar aulas de inglês, de piano, o que fosse. Moraria em um cubículo. Não importava. Mas eu tinha Caleb, e ele dependia de mim para respirar.
Não adiantava nada mofar naquele escritório. Peguei minhas coisas e fui direto para o escritório de Castillo. Para minha surpresa, Maya, minha melhor amiga e filha dele, estava lá ao lado do pai.
— Ana, eu não acredito em uma coisa dessas! — Maya disparou assim que passei pela porta, os olhos acesos de revolta. — Ninguém pode te obrigar a casar em pleno século vinte e um!
— Eu sei... — respondi, mas meu tom de voz já não tinha a menor convicção.
Olhei para o advogado, buscando um fio de esperança.
— O senhor tem alguma outra solução, doutor? Podemos vender a mansão com tudo dentro. Tem muita coisa de valor lá.
Pensei nas joias da minha mãe. Meu peito doeu; eu não queria me desfazer delas, mas, em último caso, faria esse sacrifício.
Castillo suspirou, ajeitando os óculos.
— É complicado, Ana. Qualquer dinheiro vindo da venda dos bens do seu pai cairia direto no bloqueio judicial para pagar os credores trabalhistas. Você não veria a cor desse dinheiro.
— E se vendermos o que sobrou da empresa para o Diego, mas retirando a cláusula do casamento?
— Seu pai deixou estipulado no testamento que você não pode vender as ações de forma direta. É uma cláusula antiga de blindagem que ele mesmo criou. Diego poderia investir dinheiro, tentar salvar alguma coisa, mas a verdade é que gastaria muito dinheiro à toa. Enfim, Diego quer a empresa em nome dele, total e integralmente, mas só pode fazer isso casando com você.
Era isso. Um beco sem saída perfeito. Maya me olhou, indignada com a postura do pai.
— Mas, pai, nós podemos ajudar a Ana! Ela pode morar lá em casa com a gente. Nós damos um jeito de dividir as despesas do hospital do Caleb!
Maya era minha amiga desde a infância. Eu sabia que ela faria isso por mim sem piscar, mas eu jamais conseguiria me aproveitar da bondade da família dela daquela forma. Aquela cruz era minha.
E ali compreendi que não havia saída. Não uma fácil e simples. Só existia uma forma de garantir que o hospital continuasse sendo pago. Se aquele era o único caminho para manter meu irmão estável, então que fosse assim.
— Pode avisar ao advogado dele que o acordo continua de pé — anunciei, engolindo o resto do meu orgulho. — Nós sabemos quais são as intenções reais de Diego Martins e o que ele quer. Mas garanta, por favor, que esteja em contrato: o valor do hospital do Caleb precisa ser pago todos os meses. Ele sabe sobre o estado do meu irmão?
— Não sei — admitiu Castillo. — O advogado dele não mencionou nada sobre Caleb. Até onde eu sei, só nós sabemos sobre o estado de saúde do seu irmão.
Claro. Meu pai jamais admitiria que tinha um filho doente. Mentiu para o mundo, escondeu Caleb, dizia que o filho estudava em um colégio interno na Austrália.
— Então mantenha assim. Para o resto do mundo, Caleb estuda em um internato do outro lado do mundo. Deixe que todos acreditem que nada mudou na nossa dinâmica familiar.
— Você acha que Diego pode tentar fazer alguma coisa contra ele? — Maya perguntou, preocupada.
— Não sei. Eu não conheço Diego. Mas, por tudo o que já ouvi falar, é melhor prevenir.
Maya segurou minhas mãos, os olhos marejados.
— Ana... você tem certeza disso?
Não. Eu não tinha certeza de absolutamente nada. Mas, se aquele maldito contrato continuasse pagando o tratamento que mantinha meu irmão respirando, então minhas certezas não importavam.
A história entre meu pai, Omar Figueira, e Diego Martins tinha começado antes mesmo de eu nascer, mais de vinte anos atrás. O pai de Diego era sócio do meu pai no início de tudo. O passado era nebuloso, cheio de segredos enterrados, mas o resumo que circulava na alta sociedade era cruel: meu pai havia dado uma rasteira monumental no sócio, roubando patentes, dinheiro e tudo o que o pobre coitado tinha. O homem foi deixado na miséria com um filho de dez anos e uma esposa grávida.
Pouco tempo depois, o pai de Diego morreu em circunstâncias trágicas, em um caso registrado como suicídio. Anos mais tarde, o garoto miserável ressurgiu do nada como Diego Martins: o gênio da tecnologia que meu irmão tanto admirava na televisão, um bilionário implacável disposto a destruir e recuperar tudo o que os Figueira roubaram da família dele.
Eu não era ingênua. Conhecia a história, assim como a de outros inimigos do meu pai — e eram muitos. Mas o fato era que agora Diego tinha a oportunidade perfeita para conseguir o que queria. O problema era que, no pacote, vinha a obrigação de se casar com a filha do inimigo.
— Doutor Castillo, você pode marcar uma reunião entre nós dois? Acho justo eu conhecer meu futuro marido antes do casamento.
Castillo desviou o olhar, parecendo desconfortável.
— Desculpe, Ana... mas o advogado dele já deixou os termos bem claros. Se você aceitasse, não haveria encontros prévios. Nenhum telefonema, nenhuma reunião. Vocês só vão se ver no dia do casamento. E Diego faz questão de uma pequena cerimônia para alguns convidados da familia e da sociedade.
Eu queria rir da ironia absurda daquela situação. Queria pegar minha moto, invadir a empresa de Diego e fazer um escândalo exigindo olhar aquele desgraçado cara a cara. Mas controlei meus impulsos. Aquilo era um jogo de aparências e vingança. Se era assim que Diego Martins queria jogar, então jogaríamos nos termos dele.
"Ana"Durante dias não saí do hospital. Maya trazia comida que eu mal conseguia engolir, roupas limpas que eu trocava no banheiro minúsculo, e eu trabalhava com o notebook no colo, dividida entre alunos e o medo constante. Mal consegui perceber o movimento ao meu redor, eu não saía do lugar; minha alma havia estacionado naquela UTI.Elena mantinha a mãe e Susanna longe. Por mais olhares venenosos, resmungos e comentários hostis que as duas fizessem, elas nunca mais falaram comigo diretamnte, e eu não também não fazia questão. Minha cabeça estava em total suspensão. Percebia algumas coisas estranhas à minha volta — sussurros abafados no corredor, olhares desviados às pressas — só que a exaustão era tanta que eu não conseguia me concentrar direito para juntar as peças.Diego melhorou aos poucos e quando finalmente ficou fora de perigo, respirei aliviada, ele sobreviveria e isso era o mais importante no momento. Depois de tantos dias vendo aquele monitor cardíaco, tentando manter o otim
"Ana"Um dia de cada vez.Esse era o meu mantra, o que me impedia de afundar. Todo santo dia eu me levantava, me forçava a ficar de pé e, aos poucos, tentava dar forma àquela casa. Voltei a dar aulas de inglês, conquistei novos alunos, forcei uma rotina de sobrevivência. Mas a dor e a saudade de Caleb estavam comigo em cada passo, um buraco dentro do meu peito que alguns dias eu achava que jamais fecharia. A ausência dele era dura dificil. Por vezes, eu me pegava em prantos no meio da tarde, paralisada ao lembrar, que eu não podia mais pegar o telefone e ligar para o meu irmão. Maya fazia o que podia: ligava todos os dias, chegou a dormir lá uma noite. Mas ela tinha a vida dela. Por mais que me olhasse com medo de me ver sozinha, eu me recusava a ser esse peso na vida de alguém.Eu sabia me virar. Tinha sido assim a vida inteira.Ser solitária talvez fosse meu destino, quem sabe? Mas, no meio desse turbulento recomeço, fui pega de surpresa por uma saudade que eu jamais imaginei senti
"Diego"Minha mãe não negava. Apenas chorava, enquanto Elena dizia absurdos que não faziam o menor sentido.Minha cabeça girou, trazendo lembranças daquele dia terrível em que tudo mudou. A fúria do meu pai, o desespero — no que até aquele momento eu acreditava ser apenas o choque ao ver um homem que julgava amigo e confiável dar uma rasteira, roubar tudo: o nome, o dinheiro do meu pai.Eu era apenas uma criança, não entendia quase nada, mas, quando bati na porta do escritório e não escutei a voz do meu pai, sabia que tinha alguma coisa errada. Lembro-me de esmurrar a porta gritando, e do silêncio do outro lado. Tudo era confuso, revivi esse momento durante anos, sempre sonhava esmurrando aquela porta no silêncio, a porta se abrindo e meu pai sem vida.Minha mãe não estava em casa.Ali, olhando para ela, que chorava sem parar, essa lembrança me atingiu com força. Ela não estava em casa.Eu corri para a casa do vizinho, que arrombou a porta do escritório. Depois disso, não lembro direi
"Elena"Minha mãe recuou um passo com a minha pergunta. Não havia mais dúvida alguma. Aquele silêncio covarde e a expressão de raiva dizia tudo.Senti o chão sumir sob meus pés e o mundo inteiro rodar. Todas as peças se encaixavam da pior forma possível. Eu era meia-irmã de Ana... que agora era minha cunhada.— Como você pôde? — perguntei, chocada, a voz falhando pelo nó na garganta. — Como teve coragem de fazer isso?— Não ouse falar nada para o Diego! — ela sussurrou de volta, a voz esganiçada e o rosto pálido de puro pavor. Ela olhou para os lados desesperada, provavelmente com medo de que as paredes tivessem ouvidos. — Você não entende nada! Não sabe como as coisas aconteceram!Anos e anos da minha vida. Por décadas, assisti a essa mulher alimentar o ódio e o rancor de Diego, alimentando uma sede de vingança por uma tragédia que todos acreditavam ter sido causada unicamente pela ganância do tal do Omar. Quando, na verdade, ela mesma tinha um caso com o homem que destruiu a nossa
"Elena"— Acho que não fui claro o suficiente. O que pensa que está fazendo aqui?Da última vez que tinha encontrado Horácio pessoalmente, tinha me deixado intimidar pelo seu tom arrogante e pelo terno impecável que parecia gritar autoridade. Agora, olhando bem para a cara dele, não sentia mais tanto medo; só um nojo profundo daquele homem que achava que podia ameaçar a mim e a minha família como se fôssemos descartáveis.— O que você tem contra a minha família e a minha mãe? — dei um passo à frente, fincando os pés no chão. — Não vou aceitar ser ameaçada dessa forma. Eu tenho uma filha, a Alice. Ela é sua neta, uma menininha maravilhosa que não tem culpa de nada e merece conhecer o pai.— Não ouse pronunciar o nome do meu filho ou daquela criança aqui! — Ele se levantou bruscamente da cadeira de couro, apoiando as duas mãos sobre a mesa de madeira nobre. A expressão de fúria distorcia suas feições.— Um exame de DNA pode sanar todas as dúvidas — mantive a voz o mais firme que pude, a
"Elena"— Não acredito que você deixou ela ir embora!Encarei meu irmão, indignada. Diego estava sentado na cadeira do escritório com a expressão cansada, mas obstinada. Eu conseguia ver o seu sofrimento, mas ele era teimoso demais para admitir o próprio erro. Me recusava a aceitar que ele tinha deixado a Ana partir assim, em um momento tão vulnerável.— Já falamos sobre isso, Elena — Diego respirou fundo, sem me olhar nos olhos. — Eu não posso obrigá-la a ficar. Quando ela já foi forçada a se casar, não quero obrigá-la a mais nada e essa discussão acabou. — Eu sei, eu entendo, mas ela está de luto! Não está pensando direito, não pode ficar sozinha. Ela não tem mais ninguém, Diego! Nós somos a família dela agora.Ele não tinha nenhuma intenção de ir atrás dela, de implorar ou de dizer que a amava. Eu compreendia que o começo fora péssimo, com atitudes horrorosas do meu irmão, mas as coisas tinham mudado, e eu esperava ao menos uma postura diferente. — A Ana não vai ficar desamparada







