INICIAR SESIÓN"Diego"
Encarei os olhos verdes de Ana na foto da minha futura esposa. Jovem demais, com toda certeza imatura demais para saber onde estava se metendo.
— Eu avisei o doutor Castillo que não haverá encontros antes do casamento— meu advogado disse, pegando os documentos que eu tinha acabado de assinar. — E ele mandou algumas cláusulas para serem incluídas no contrato. Ela pediu uma espécie de mesada para ser depositada todos os meses em uma conta no nome dela.
Olhei para a foto mais uma vez. Já podia imaginar que era uma menina mimada, acostumada ao luxo e a uma vida fácil. Claro que pediria dinheiro; tudo o que importava para os Figueira era dinheiro.
— Pode incluir a cláusula, mas deixe claro para o advogado que não pretendo pagar nem um centavo a mais do que está previsto no contrato.
Ana Figueira era apenas um mal necessário. Eu não tinha nenhuma intenção de ter qualquer tipo de envolvimento com ela; se o pai dela não tivesse amarrado tudo ao nome da filha, eu a jogaria na rua sem pensar duas vezes.
— Tem certeza de que quer ir até o fim com isso, meu filho? Não tem uma forma de reaver o que é nosso sem ter essa mulher dentro da nossa casa? — A voz fria e cortante de minha mãe ecoou pelo escritório.
Celina Martins estava parada perto da janela, observando o movimento lá fora com amargura. A morte do meu pai havia arrancado dela qualquer traço de gentileza que um dia teve. Criar um filho sozinha, sem apoio e grávida, foi uma batalha dura que deixou a minha mãe exausta e endurecida pela vida. Para ela, aquele casamento não era uma vitória, era um sacrifício intragável.
— O sangue daquele canalha corre nas veias dessa garota — Celina continuou, virando-se para me encarar com os olhos cheios de um rancor antigo. — Ver o sobrenome Martins ligado ao dos Figueira me dá náuseas. Aquela família nos destruiu, Diego. O pai dela empurrou o seu para o caixão. Ela não merece a nossa corda de salvamento, merece a sarjeta.
— Ela vai pagar, mãe — respondi, olhando mais uma vez para a foto de Ana antes de bloquear o celular. — Mas vai pagar sob as minhas regras. Ela vai carregar o nosso sobrenome como uma coleira. Quero que ela sinta o que é perder tudo.
Em duas semanas eu me casaria com Ana. Era um plano que vinha sendo desenhado há meses, desde que retornei ao país com a minha empresa consolidada. Meu objetivo inicial era destruir Omar Figueira, mas o homem já estava falido. Ainda assim, era orgulhoso; fazia de tudo para manter as aparências, fingindo para a sociedade que o seu império ainda tinha salvação.
Ele sabia quem eu era. Sabia o que eu tinha conquistado.
Não fiquei surpreso quando Omar me procurou primeiro. Ele foi direto ao assunto, sem mencionar o meu pai, sem admitir o roubo do passado. No início de tudo, ele e meu pai eram sócios, até que Omar decidiu que deveria ser o único dono da empresa de finanças — o dono de tudo. Ele tirou tudo o que pertencia ao meu pai. E, mesmo quebrado e falido, não teve a decência de admitir que não passava de um ladrão.
Omar me venderia tudo, aceitaria o meu dinheiro para salvar o que restava do seu nome, desde que eu me casasse com a filha dele. É claro que o velho queria dar um jeito de manter a empresa na família, e a melhor forma de garantir isso ainda era o matrimônio.
Ana não estava presente nas reuniões. Tudo foi acertado diretamente com o pai, e eu não tinha dúvidas de que ela participava daquele jogo de interesse. Mas Omar não era tão invencível assim, a morte o levou antes que eu pudesse mostrar a ele qual era o seu lugar de verdade. Ele morreu antes de ver sua ruína.
Ainda assim, como tudo continuava amarrado à filha, eu iria até o fim. Não importava. Eu finalmente teria de volta o que era do meu pai, o império que ele criou de verdade e que foi usurpado de forma tão baixa.
Eu não culpava a minha mãe por guardar tanto rancor. Foram anos difíceis depois do golpe e da morte do meu pai, passamos privações, chegamos a passar fome, mas eu consegui vencer. Trabalhei dobrado, estudei fora, passei noites em claro e montei o meu próprio império. Agora, os Figueira pagariam cada centavo daquela humilhação.
— E o irmão? — perguntei ao advogado.
Omar guardava a sete chaves as informações sobre sua família. Até mesmo Ana era reservada. Ao contrário de outras mulheres da idade dela, tinha pouca interação nas redes sociais e, pelo que vi, não fazia nada da vida, não trabalhava nem estudava.
— O doutor Castillo disse que o rapaz estuda há muitos anos em um colégio interno na Austrália — o advogado respondeu, checando as notas. — Ele só vem para o país durante as férias, e a instituição já está totalmente paga. Disse também que ele é mais afastado da família por ter sido criado tão longe, e que provavelmente nem voltará quando terminar os estudos.
— Ótimo. Eu não tinha a menor intenção de dar abrigo a mais nenhum membro da família Figueira.
— Eu compreendo a sua questão com essa família e a sua... necessidade de casar com a moça — o advogado ponderou, ajeitando os óculos. — Mas, como seu assessor jurídico, devo avisar que é recomendável manter o mínimo de aparências. Você é um homem importante agora, influente no mercado. Com essa fusão, mesmo que a empresa dos Figueira seja um poço de dívidas, seu nome vai ficar ainda mais em voga. Por isso, mantenha esse casamento de forma... estável aos olhos do público. Você vai precisar manter as aparências, principalmente em eventos sociais.
— Isso não será um problema. Mandei providenciar uma cerimônia justamente por esse motivo. Todos devem saber que Ana Figueira agora é minha esposa.
O advogado não pareceu muito convencido, mas eu não havia chegado onde cheguei sem saber exatamente como o mundo funcionava. Ana seria minha esposa e, ainda que jamais viesse a frequentar a minha cama, seria extremamente útil para ser exibida como meu troféu de vitória.
"Ana"O médico movia os lábios, mas o som chegava até mim como se eu estivesse debaixo d'água. As palavras não tinham forma, não tinham peso. Nada mais fazia sentido. Senti braços me envolvendo, um toque distante tentando me segurar no chão, mas o meu corpo não respondia. Eu estava anestesiada, paralisada pelo choque de compreender a minha nova realidade, que agora estava completamente sozinha no mundo.Depois de dias de angústia, batalhando contra a piora repentina de Caleb, o tempo virou um borrão cinzento. E agora o médico me dava o veredito final: apesar de tudo, o coração do meu irmão tinha parado.Não me sobraram lágrimas. Não sobrou ar, não sobrou nada. Fiquei ali, petrificada, digerindo a verdade cruel de que eu nunca mais ouviria a sua voz ou a sua risada, À minha volta, o mundo continuava girando. Ouvi Diego murmurar que cuidaria do velório, mas sua voz parecia vir de outra dimensão. Deixei que me levassem. Fui um corpo sem alma enquanto enterrava o último pedaço da minha v
"Elena"O mundo desmoronava para o meu irmão e eu não sabia como ajudar, ainda mais porque ele não queria a minha ajuda.Ana, dentro do hospital, estava alheia ao resto do mundo, enquanto minha mãe preferia — como sempre — fingir que nada acontecia, mergulhada no ódio. Engoli o meu orgulho e contratei uma babá. Se alguma coisa acontecesse, eu precisava ajudar e, sem uma rede de apoio para ficar com Alice em caso de emergência, o melhor era mesmo ter uma babá, eu sentia que precisava estar preparada.Talvez tudo isso tenha prejudicado o meu juízo. Pedro tinha mandado uma mensagem de outro celular depois que eu o bloqueei, pedindo desculpas e querendo tentar mais uma vez reatar a amizade. Eu deveria ser forte, mas respondi. E assim continuei respondendo, mesmo sentindo culpa por esconder a verdade. A cada conversa, me sentia mais confusa. Era assim que eu me sentia: perdida. Até que o amigo de Diego ligou para avisar que tinha uma emergência. Eu já esperava que uma ligação assim foss
"Diego"No segundo dia, o quadro de Caleb piorou. Cancelei reuniões, passei por cima de prazos e fiquei ao lado de Ana. O máximo que consegui para tirá-la do lugar foi alugar um quarto de um hotel ao lado para que pelo menos ela tomasse um banho e dormisse por algumas horas.Caleb era só um garoto — um menino inteligente, risonho, com quem tive pouquíssimo tempo de convivência, mas que já havia encontrado um espaço involuntário no meu peito. E Ana… Ana era a mulher que deveria ser apenas uma cláusula contratual na minha vida, mas vê-la daquela forma me destruía por dentro.Me sentia ridiculamente impotente. Dinheiro, poder, influência… nada disso comprava o ar nos pulmões daquele menino. Aquele era um problema que o meu império, pelo qual eu tinha lutado por anos, não conseguia resolver.O ódio que um dia correu pelas minhas veias parecia ter se diluído. Eu não queria vingança. Não queria esmagar Omar com as minhas próprias mãos. Nunca tinha parado para pensar na família dele como ser
"Ana"Quando cheguei ao hospital, as palavras de Susanna ainda ecoavam nos meus ouvidos. Você é o veneno. Parada ali na porta do quarto, questionei todas as minhas escolhas. O casamento apressado com Diego em um momento em que me vi sem saída, desesperada para continuar dando o suporte necessário ao Caleb. Nosso relacionamento não deveria ter existido daquela forma, e agora eu tinha que lidar com o peso esmagador da culpa.— Ana? Tudo bem? — Olhei para o lado e o médico de Caleb estava parado ali, me olhando com uma expressão preocupada.— Claro, sem problemas. Vim visitar o meu irmão — minha fala saiu sem nexo, atropelada, eu não conseguia raciocinar direito.— Bem... nós íamos te ligar agora. O seu irmão apresentou uma alteração súbita no quadro, a saturação caiu, ele está com dificuldade acentuada para respirar, febre alta e apatia. Estamos investigando uma possível infecção pulmonar. — Não... Mas ele estava bem! Respondendo aos tratamentos, o novo médico, o medicamento novo...
"Ana"Como se minha vida já não estivesse dificil o suficiente, no dia seguinte dei de cara com Susanna e a minha sogra rindo juntas no sofá da sala, sussurrando como duas cúmplices. Nas últimas semanas, Célia mal parava em casa e, quando parava, fazia questão de me ignorar. Era ótimo, na verdade. Um alívio.Mas ver aquela mulher ali, sentada lado a lado com a ex de Diego, fez meu estômago dar um cambalhota. Eu tinha cometido o erro de subestimar o ódio de Célia. Achei que o afastamento dela era resignação, mas ela estava tecendo uma armadilha, a cena ali, atiçou meu instinto, tinha alguma coisa errada. Uma mulher alimentada por tanto rancor jamais aceitaria meu relacionamento com o filho sem lutar.Na noite anterior, a nossa discussão terminou mal resolvida, e mesmo com um monte de coisas não ditas dormimos grudados. Abraçados. As memórias do vestiário ainda queimavam na minha pele, lembrando-me de como ele me dominava com facilidade, de como eu me entregava a ele, cega, sem freios,
"Diego"Uma batida seca na porta me arrancou do transe. Onde eu estava? O vestiário sujo, com cheiro de roupa velha e suor. Ana se virou. O cabelo estava emaranhado, a pele úmida brilhava sob a luz fraca, e a respiração dela ainda estava curta, rápida. O cheiro dela — uma mistura inebriante de sexo e adrenalina — me atingiu, já sentia meu corpo responder novamente, uma necessidade animal que ignorava a razão. Mas tínhamos que ir embora.Ela também se assustou com o barulho e saiu dos meus braços para recolher as roupas espalhadas pelo chão de cimento com movimentos rápidos, quase bruscos. Não havia como esconder o que tínhamos acabado de fazer; nossas marcas estavam por toda parte.Eu tinha perdido a cabeça. A Ana me descompensava, me tirava do eixo de uma forma que jamais imaginei. Eu deveria tê-la confrontado, gritado para saber o que ela fazia ali, naquele lugar perigoso. Mas o desejo tinha sido mais rápido, uma força avassaladora que calava qualquer pergunta.— Onde você vai? — A







