INICIAR SESIÓN"Diego"
Quando Ana apareceu, vestida de noiva, senti um nó preso na garganta. O vestido que eu havia escolhido a dedo — sufocante, fechado até o pescoço, absurdamente caro — pareceu, de repente, uma piada de mau gosto contra mim mesmo. Porque nenhuma camada daquele tecido pesado conseguia esconder o que realmente me irritava, aqueles olhos verdes.
Ana parou na entrada. Por um segundo, meus músculos tensionaram sob o terno. Recue, pensei, torcendo para que ela desse meia-volta. Seria fascinante ver se ela teria a coragem de quebrar o contrato ali mesmo. Mas ela me decepcionou. Ela deu o primeiro passo e avançou.
Conforme ela se aproximava, não podia deixar de admitir que Ana Figueira era linda; ela estava deslumbrante. Os cabelos castanhos emolduravam um rosto expressivo demais, e eu conseguia ler cada traço de sua expressão. Não havia lágrimas, nem um sorriso forçado; havia apenas uma determinação dura, quase insolente.
Eram os mesmos olhos do pai dela, o mesmo olhar altivo de quem cresceu achando que o mundo pertencia aos Figueira, que podia passar por cima das pessoas, que estava acima das leis. Ela ainda acha que tem algum poder aqui? Que o sobrenome dela vale algo? Quando fitei suas pupilas, não encontrei a fragilidade de uma herdeira falida, mas um desafio silencioso.
No entanto, eu a conhecia. Eu sabia que, por trás da máscara de ferro, ela estava em pânico. Quando segurei sua mão no altar, o tremor nos dedos dela a entregou. No mesmo instante, uma corrente elétrica disparou pelo meu corpo — uma onda de raiva pura, avassaladora. Casar com ela, mesmo que em um pedaço de papel maldito, parecia uma traição viva à memória do meu pai. Senti o gosto amargo do sangue na boca. Eu queria que ela chorasse. Queria vê-la implorar, queria que ela esfregasse na minha cara a decadência da sua linhagem. Mas Ana permaneceu imóvel, sustentando meu olhar sem dizer uma palavra, sem recuar.
Ela tem que pagar, repeti para mim mesmo, um mantra que ecoava em minhas veias como um tambor de guerra. O pecado daquela família estava escrito no sangue dela. Eu gastei milhões, movi o mercado de tecnologia, comprei cada centavo de dívida para recuperar o que era meu e, agora, aceitava que ela morasse sob o meu teto. Ela tinha que sentir a ruína. Tinha que sangrar o que meu pai sangrou.
Quebrando o protocolo, dei um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, só para ver se a pose desmoronava e ela recuava, o perfume dela me atingiu. Uma fragrância floral, leve, mas terrivelmente marcante. Única. Uma fragrância que, combinava perfeitamente com ela.
Inclinei-me, minha boca quase roçando sua orelha, sussurrando baixo o suficiente para que o som morresse entre nós:
— Seu pai me tirou tudo. Pena que ele morreu antes de ver que eu fiquei com a única coisa que restou dele. Então sorria para as fotos, Ana, porque estou pagando muito caro por isso.
O queixo dela travou na hora. O impacto do meu golpe ecoou na postura dela, mas ela continuou olhando para a frente, fingindo uma força que eu sabia que estava prestes a ruir. Orgulho ferido de ex-patricinha. Ela podia tentar me encarar o quanto quisesse, mas agora a coleira era minha. Ela estava no meu território. E eu faria questão de lembrá-la, cada segundo de cada maldito dia, de quem era o homem que comandava a sua ruína. Eu queria vê-la de joelhos.
A troca de alianças foi um ato mecânico, frio e protocolar. Não houve beijo. Desde o primeiro segundo dessa negociação, jurei a mim mesmo que jamais tocaria nela. O papel de esposa existia apenas para a sociedade; ela nunca seria, de fato, parte da minha família.
Ana pareceu entender o seu lugar de posse. Cumprimentou os convidados, chegou a sorrir para as câmeras, mas assim que a cerimônia acabou, eu a deixei para trás. Virei as costas na certeza de que, de mim, ela não teria nada além de desprezo. Ela tinha o endereço da mansão; como chegaria lá não era problema meu. Ela tinha dinheiro, que pedisse um carro por aplicativo.
Eu decidiria quando e como ela entraria na minha vida, na minha casa.
Dormi em paz, sabendo que ela estaria do lado de fora. Queria que ela ligasse implorando, pedindo para entrar. No fundo, minha mãe estava certa, essa mulher não deveria ter espaço dentro da nossa casa.
Quando acordei no meu horário habitual, peguei o celular. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Um silêncio incômodo.
Antes mesmo de abrir a porta do quarto, o cheiro de café fresco invadiu o corredor. Desci as escadas a passos largos, lá estava ela.
Ana estava sentada à mesa, segurando uma xicara de café. Vestia uma camisola de seda que desenhava seu corpo, sem um único vinco ou sinal de quem havia passado a noite ao relento. Ela ergueu os olhos verdes para mim e soltou, com a voz sarcastica.
— Acho que você vai precisar trocar a fechadura.
Meu sangue ferveu instantaneamente. Passei direto por ela, pisando duro em direção à cozinha, a fechadura da porta estava arrombada. Suas malas estavam jogadas no chão do quartinho de serviço ao lado da cozinha. E ali, jogado em um canto como lixo, estava o vestido de noiva. Encardido, rasgado, manchado de terra e reduzido a farrapos. Uma fortuna destruída.
Quem essa desgraçada pensa que é para invadir a minha casa e ditar as regras?
Voltei para a sala de jantar, parando bem na frente dela. Minha voz saiu como um rosnado.
— Cadê as joias?
— Vai ter que procurar no mato — respondeu, sem pressa, levando a xícara aos lábios.
— Você jogou um conjunto de esmeraldas de milhares de reais no mato, Ana? — Dei um passo à frente, a fúria vibrando nas minhas mãos.
— Pensei que era bijuteria. — Ela desviou o olhar para mim. Sob a luz forte da manhã, as esmeraldas dos seus olhos pareciam ainda mais claras, quase translúcidas, magnéticas. — Não achei que você me daria joias de verdade.
Ela sabia. A cínica sabia perfeitamente o valor daquelas pedras.
— Filho. — A voz da minha mãe quebrou a tensão quando ela desceu as escadas. Seu olhar para Ana era puro veneno. — Você já está atrasado. Não perca seu tempo precioso com quem não merece. Vá para a empresa, eu cuido disso aqui.
Eu e Ana teríamos um acerto de contas, mas minha mente tentou se agarrar à racionalidade: eu tinha uma reunião importante naquela manhã. Precisava ir. Dei as costas; mais tarde, lidaria com Ana.
— Se você quiser procurar... — a voz de Ana me travou perto da porta. Olhei para trás por cima do ombro. Ela me encarava com um sorrisinho ainda mais cínico — Acho que joguei perto da árvore florida.
O sangue subiu à minha cabeça com tanta força que minha visão ficou turva. Se aquela mulher achava que podia ter algum domínio dentro da minha casa, estava muito enganada.
"Ana"O médico movia os lábios, mas o som chegava até mim como se eu estivesse debaixo d'água. As palavras não tinham forma, não tinham peso. Nada mais fazia sentido. Senti braços me envolvendo, um toque distante tentando me segurar no chão, mas o meu corpo não respondia. Eu estava anestesiada, paralisada pelo choque de compreender a minha nova realidade, que agora estava completamente sozinha no mundo.Depois de dias de angústia, batalhando contra a piora repentina de Caleb, o tempo virou um borrão cinzento. E agora o médico me dava o veredito final: apesar de tudo, o coração do meu irmão tinha parado.Não me sobraram lágrimas. Não sobrou ar, não sobrou nada. Fiquei ali, petrificada, digerindo a verdade cruel de que eu nunca mais ouviria a sua voz ou a sua risada, À minha volta, o mundo continuava girando. Ouvi Diego murmurar que cuidaria do velório, mas sua voz parecia vir de outra dimensão. Deixei que me levassem. Fui um corpo sem alma enquanto enterrava o último pedaço da minha v
"Elena"O mundo desmoronava para o meu irmão e eu não sabia como ajudar, ainda mais porque ele não queria a minha ajuda.Ana, dentro do hospital, estava alheia ao resto do mundo, enquanto minha mãe preferia — como sempre — fingir que nada acontecia, mergulhada no ódio. Engoli o meu orgulho e contratei uma babá. Se alguma coisa acontecesse, eu precisava ajudar e, sem uma rede de apoio para ficar com Alice em caso de emergência, o melhor era mesmo ter uma babá, eu sentia que precisava estar preparada.Talvez tudo isso tenha prejudicado o meu juízo. Pedro tinha mandado uma mensagem de outro celular depois que eu o bloqueei, pedindo desculpas e querendo tentar mais uma vez reatar a amizade. Eu deveria ser forte, mas respondi. E assim continuei respondendo, mesmo sentindo culpa por esconder a verdade. A cada conversa, me sentia mais confusa. Era assim que eu me sentia: perdida. Até que o amigo de Diego ligou para avisar que tinha uma emergência. Eu já esperava que uma ligação assim foss
"Diego"No segundo dia, o quadro de Caleb piorou. Cancelei reuniões, passei por cima de prazos e fiquei ao lado de Ana. O máximo que consegui para tirá-la do lugar foi alugar um quarto de um hotel ao lado para que pelo menos ela tomasse um banho e dormisse por algumas horas.Caleb era só um garoto — um menino inteligente, risonho, com quem tive pouquíssimo tempo de convivência, mas que já havia encontrado um espaço involuntário no meu peito. E Ana… Ana era a mulher que deveria ser apenas uma cláusula contratual na minha vida, mas vê-la daquela forma me destruía por dentro.Me sentia ridiculamente impotente. Dinheiro, poder, influência… nada disso comprava o ar nos pulmões daquele menino. Aquele era um problema que o meu império, pelo qual eu tinha lutado por anos, não conseguia resolver.O ódio que um dia correu pelas minhas veias parecia ter se diluído. Eu não queria vingança. Não queria esmagar Omar com as minhas próprias mãos. Nunca tinha parado para pensar na família dele como ser
"Ana"Quando cheguei ao hospital, as palavras de Susanna ainda ecoavam nos meus ouvidos. Você é o veneno. Parada ali na porta do quarto, questionei todas as minhas escolhas. O casamento apressado com Diego em um momento em que me vi sem saída, desesperada para continuar dando o suporte necessário ao Caleb. Nosso relacionamento não deveria ter existido daquela forma, e agora eu tinha que lidar com o peso esmagador da culpa.— Ana? Tudo bem? — Olhei para o lado e o médico de Caleb estava parado ali, me olhando com uma expressão preocupada.— Claro, sem problemas. Vim visitar o meu irmão — minha fala saiu sem nexo, atropelada, eu não conseguia raciocinar direito.— Bem... nós íamos te ligar agora. O seu irmão apresentou uma alteração súbita no quadro, a saturação caiu, ele está com dificuldade acentuada para respirar, febre alta e apatia. Estamos investigando uma possível infecção pulmonar. — Não... Mas ele estava bem! Respondendo aos tratamentos, o novo médico, o medicamento novo...
"Ana"Como se minha vida já não estivesse dificil o suficiente, no dia seguinte dei de cara com Susanna e a minha sogra rindo juntas no sofá da sala, sussurrando como duas cúmplices. Nas últimas semanas, Célia mal parava em casa e, quando parava, fazia questão de me ignorar. Era ótimo, na verdade. Um alívio.Mas ver aquela mulher ali, sentada lado a lado com a ex de Diego, fez meu estômago dar um cambalhota. Eu tinha cometido o erro de subestimar o ódio de Célia. Achei que o afastamento dela era resignação, mas ela estava tecendo uma armadilha, a cena ali, atiçou meu instinto, tinha alguma coisa errada. Uma mulher alimentada por tanto rancor jamais aceitaria meu relacionamento com o filho sem lutar.Na noite anterior, a nossa discussão terminou mal resolvida, e mesmo com um monte de coisas não ditas dormimos grudados. Abraçados. As memórias do vestiário ainda queimavam na minha pele, lembrando-me de como ele me dominava com facilidade, de como eu me entregava a ele, cega, sem freios,
"Diego"Uma batida seca na porta me arrancou do transe. Onde eu estava? O vestiário sujo, com cheiro de roupa velha e suor. Ana se virou. O cabelo estava emaranhado, a pele úmida brilhava sob a luz fraca, e a respiração dela ainda estava curta, rápida. O cheiro dela — uma mistura inebriante de sexo e adrenalina — me atingiu, já sentia meu corpo responder novamente, uma necessidade animal que ignorava a razão. Mas tínhamos que ir embora.Ela também se assustou com o barulho e saiu dos meus braços para recolher as roupas espalhadas pelo chão de cimento com movimentos rápidos, quase bruscos. Não havia como esconder o que tínhamos acabado de fazer; nossas marcas estavam por toda parte.Eu tinha perdido a cabeça. A Ana me descompensava, me tirava do eixo de uma forma que jamais imaginei. Eu deveria tê-la confrontado, gritado para saber o que ela fazia ali, naquele lugar perigoso. Mas o desejo tinha sido mais rápido, uma força avassaladora que calava qualquer pergunta.— Onde você vai? — A







