Share

Capítulo 02

Author: Merida Lonson
last update publish date: 2026-04-30 05:25:06

Assim que atravessei a porta, tive a estranha sensação de que havia entrado em outro mundo.

O escritório de Lion Volkov não parecia um escritório comum. Não havia excesso de móveis, fotografias pessoais ou qualquer objeto capaz de humanizar aquele espaço. Tudo ali era elegante demais. Escuro demais. Controlado demais.

As paredes revestidas de madeira negra contrastavam com obras de arte antigas iluminadas cuidadosamente por luzes douradas e discretas. O enorme vidro atrás da mesa revelava a cidade cinzenta sob o céu nublado da manhã, enquanto o silêncio pesado parecia dominar cada centímetro daquele lugar.

E então meus olhos encontraram Lion Volkov.

Por um instante, esqueci completamente como respirar.

Ele estava de pé próximo à janela, segurando uma taça baixa de cristal com algum líquido âmbar que refletia a luz suave do ambiente. Vestia preto da cabeça aos pés — um terno perfeitamente alinhado ao corpo forte, camisa escura sem uma única dobra e os primeiros botões abertos o suficiente para revelar parte do pescoço firme e da pele levemente bronzeada.

Era impossível não notar o quanto ele era intimidador.

Alto.

Muito alto.

Os ombros largos tornavam o paletó ainda mais imponente, e seus braços fortes pareciam tensos mesmo sob o tecido sofisticado do terno italiano. Havia algo brutalmente masculino em sua presença, algo que contrastava de forma perigosa com a elegância refinada daquele ambiente.

Mas eram os olhos dele que realmente causavam desconforto.

Escuros.

Friamente escuros.

Não apenas pela cor quase negra, mas pela forma como observavam tudo com uma calma calculada, como se estivesse constantemente analisando as pessoas ao redor.

Como se estivesse sempre no controle.

Os cabelos escuros estavam levemente desalinhados de propósito, criando uma aparência perigosamente atraente que parecia saída de uma campanha milionária de moda masculina. A barba curta e perfeitamente aparada deixava sua expressão ainda mais séria.

Ele não sorriu quando me viu.

Nem sequer tentou parecer receptivo.

Apenas me observou em silêncio.

E aquilo foi pior.

Muito pior.

Porque homens simpáticos eram previsíveis.

Lion Volkov não parecia previsível em absolutamente nada.

— Senhorita Beck.

Sua voz grave atravessou o ambiente de maneira calma, porém firme.

Engoli em seco imediatamente.

— Senhor Volkov.

Ele continuou me observando por mais alguns segundos antes de caminhar lentamente até a mesa. O som dos sapatos sociais ecoou pelo escritório silencioso, aumentando ainda mais meu nervosismo.

Cada movimento dele parecia calculado.

Controlado.

Perigoso.

Lion apoiou a taça sobre a mesa escura e então cruzou os braços diante do peito.

— Helena informou que você chegou no horário.

Não entendi imediatamente se aquilo era um elogio ou apenas uma observação indiferente.

— Sim.

— Gosto de pontualidade.

Assenti rapidamente, tentando ignorar a tensão absurda crescendo dentro de mim.

Era ridículo.

Eu havia participado de dezenas de entrevistas ao longo da vida. Conversado com gestores arrogantes, clientes difíceis e homens importantes. Ainda assim, nenhum deles havia conseguido me deixar tão desconfortável apenas com a própria presença.

Talvez fosse porque Lion Volkov parecia… inacessível.

Como uma dessas esculturas raras expostas em museus onde ninguém podia tocar.

Bonito demais.

Frio demais.

Distante demais.

Ele pegou um arquivo fino sobre a mesa e abriu lentamente.

— Lara Beck. Vinte e quatro anos. Formada em História da Arte pela Universidade de Chicago. Trabalhou durante dois anos numa pequena galeria independente antes do fechamento da empresa.

Meu estômago apertou discretamente.

Ouvir minha vida sendo lida daquela maneira me deixou estranhamente vulnerável.

Lion ergueu os olhos novamente.

— Você teve boas recomendações.

— Obrigada.

— Seu antigo supervisor afirmou que você possui excelente percepção artística.

Não consegui esconder a surpresa.

Ninguém jamais havia descrito meu trabalho daquela forma.

Lion fechou o arquivo devagar.

— Espero que ele esteja certo.

Havia algo perigosamente intenso na forma como ele falava. Como se cada palavra tivesse peso suficiente para alterar completamente o ambiente.

Aquele homem definitivamente sabia o efeito que causava nas pessoas.

E parecia usar isso a seu favor.

Ele caminhou lentamente até uma das paredes do escritório, onde uma pintura enorme ocupava quase todo o espaço. Meu olhar acompanhou o movimento automaticamente.

O quadro era antigo. Extremamente antigo.

Mesmo à distância, consegui reconhecer pinceladas delicadas e envelhecidas pelo tempo.

Lion percebeu meu interesse imediatamente.

— Conhece a obra?

Aproximei-me alguns passos, fascinada.

— Século dezoito… talvez italiano.

Ele permaneceu em silêncio.

Observei melhor os detalhes dourados da moldura antes de continuar:

— O craquelado da tinta parece original. A técnica lembra Alessandro Tiepolo, mas…

Parei de falar assim que percebi o olhar fixo dele sobre mim.

— Mas? — perguntou calmamente.

Passei a língua discretamente pelos lábios secos.

— Nunca vi essa obra catalogada antes.

O silêncio que surgiu em seguida pareceu estranho demais.

Lento demais.

Quando finalmente voltei a encará-lo, Lion continuava me observando de maneira quase indecifrável.

Então algo inesperado aconteceu.

O canto da boca dele se moveu minimamente.

Quase um sorriso.

Quase.

— Interessante.

Meu coração tropeçou sem motivo.

Aquela mínima alteração em sua expressão foi suficiente para transformar completamente o ambiente.

Porque, até então, Lion Volkov parecia incapaz de demonstrar qualquer emoção humana.

Ele se afastou da pintura e voltou para perto da mesa.

— A maioria das pessoas apenas elogia as molduras caras.

Corei discretamente.

— Desculpe. Eu falo demais as vezes.

— Não peça desculpas por isso.

A resposta veio imediata.

Firme.

Aquilo me pegou desprevenida novamente.

Lion apoiou uma das mãos sobre a mesa enquanto me observava atentamente.

— Você sabe por que foi contratada?

— Imagino que pelas minhas referências…

— Não.

A interrupção foi seca.

Meu corpo ficou imediatamente rígido.

Ele continuou:

— Pessoas qualificadas existem aos milhares.

Houve uma pausa curta.

— Eu escolho instinto.

Franzi levemente a testa.

Instinto?

Aquilo não fazia sentido.

Lion desviou o olhar para a cidade atrás do vidro antes de continuar falando:

— A Volkov Art Gallery não é um ambiente comum, senhorita Beck. Discrição é essencial aqui. Lealdade também.

Novamente aquela palavra.

Lealdade.

— Entendo.

— Entende?

A pergunta fez meu estômago apertar outra vez.

Ele voltou a me encarar.

— Existem pessoas dispostas a pagar fortunas pelo que temos aqui dentro.

A forma como disse aquilo causou um arrepio sutil na minha nuca.

— Obras de arte despertam obsessão, senhorita Beck.

Seus olhos escuros permaneceram presos aos meus enquanto ele continuava:

— Dinheiro transforma homens em criaturas imprevisíveis.

Havia algo naquela frase.

Algo pesado.

Experiente.

Como se ele soubesse exatamente do que estava falando.

Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, alguém bateu discretamente na porta.

Um dos seguranças entrou.

E aquilo imediatamente chamou minha atenção.

O homem vestia preto completo, exatamente como os outros que eu havia visto na galeria. Alto, expressão séria, postura rígida.

Mas havia algo errado.

Muito errado.

Ele não parecia segurança de galeria.

Parecia militar.

Os olhos dele passaram rapidamente por mim antes de se voltarem para Lion.

— Senhor Volkov.

Lion sequer desviou totalmente a atenção de mim.

— O que foi?

— O carregamento chegou.

Meu corpo enrijeceu discretamente.

Carregamento?

Lion permaneceu em silêncio por dois segundos.

Então respondeu calmamente:

— Coloquem na sala restrita até segunda ordem.

— Sim, senhor.

O homem saiu imediatamente.

E alguma coisa naquela conversa simples fez um desconforto estranho surgir dentro de mim.

Talvez fosse o tom baixo.

Talvez a forma cautelosa.

Ou talvez porque nada ali parecia realmente relacionado apenas a arte.

Lion voltou a caminhar lentamente pelo escritório.

— Você começará auxiliando Helena na organização do leilão da próxima semana.

— Certo.

— Muitos convidados importantes estarão presentes.

Ele pegou novamente a taça de cristal.

— Alguns deles exigem discrição absoluta.

Meu nervosismo começou lentamente a se transformar em curiosidade.

Ele tomou um pequeno gole da bebida antes de continuar:

— Você aprenderá rápido como as coisas funcionam aqui.

A maneira como disse aquilo não soou como uma sugestão.

Soou como um aviso.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 51

    Ainda estava com o garfo entre os dedos, sentindo o sabor da comida deliciosa que ele havia preparado, quando as palavras de Lion permaneceram ecoando dentro da minha cabeça, densas e carregadas de intenção. Eu não sabia o que fazer com aquela promessa imponente. Parte de mim queria desesperadamente acreditar; queria fechar os olhos, afundar nos travesseiros e simplesmente aceitar que, daquela vez, ele estava abrindo mão das sombras para ser honesto comigo. Outra parte, porém, continuava lembrando de cada detalhe do passado, de todas as vezes em que ele tomou decisões por mim sem me contar a verdade, usando sua autoridade para me manter no escuro enquanto me colocava no centro de um turbilhão que eu sequer compreendia. Baixei os olhos para o prato, observando os últimos vestígios do jantar, e respirei fundo. O ar parecia mais pesado no quarto, saturado pelo perfume dele e pela lembrança quente de minutos atrás. — Eu ainda estou confusa, Lion — murmurei, a voz macia, quase vacilante

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 50

    Depois de tudo, meu corpo parecia ter esquecido como se sustentava sozinho. Eu ainda respirava arfante, o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado, quando senti os braços de Lion me envolverem com uma firmeza possessiva. Não havia nenhuma ordem dessa vez, nenhuma provocação. Apenas aquele movimento potente com que ele me ergueu da cama, como se soubesse, com absoluta certeza, que minhas pernas estavam bambas demais para colaborar depois da intensidade avassaladora que havíamos compartilhado. Passei os braços ao redor do pescoço dele por puro instinto, colando a pele quente do meu rosto contra o seu peito nu. O coração dele batia forte e ritmado sob a minha bochecha, e o cheiro de sexo, suor e do seu perfume amadeirado preenchia meus sentidos. Por alguns segundos, simplesmente permaneci ali, totalmente nua em seus braços, deixando que seu corpo forte me carregasse. — Para onde você está me levando? — perguntei, a voz rouca, baixa e impregnada de sono. — Banho — a resp

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 49

    Por vários segundos, o silêncio dominou o espaço. Ele não apenas olhava para mim; ele me desnudava com o olhar, calculando cada reação. Havia uma autoridade implacável ali, uma promessa silenciosa de que a brincadeira ingênua havia acabado. Sem margem para fuga. Ele juntou minhas mãos à frente do meu corpo e envolveu o couro ao redor da minha pele, ajustando a fivela com uma calma calculada e provocante. Seus dedos deslizaram entre o couro e a minha carne, certificando-se de que a contenção estava perfeita. Em seguida, ergueu meus pulsos presos até a altura do meu peito. — Olhe para mim — a voz dele veio baixa, em um tom de comando absoluto que não aceitava objeções. Meu olhar encontrou o dele. Ele não pediu permissão. Apenas leu a rendição nos meus olhos. Um sorriso lento e perigoso surgiu no canto de seus lábios. Lion deu um puxão seco no cinto, reduzindo a distância entre nós a milímetros. — Caminhe — ordenou. Eu o acompanhei. Cada passo pelo corredor acelerava a mist

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 48

    Minha garganta ficou seca sem resposta. Eu poderia ter simplesmente escolhido uma roupa, vestido alguma coisa e encerrado aquela conversa. Mas alguma coisa dentro de mim queria provocá-lo. Talvez porque eu ainda estivesse irritada com Stephanie. Talvez porque, depois de tudo o que Lion tinha feito, eu quisesse descobrir até onde aquela calma aparentemente inabalável conseguia chegar.—Eu não estou com ciúmes— disse a ele.— Eu apostaria tudo que eu tenho que você está.—Perderia— Retruquei.Peguei outra calça da sacola e a ergui diante do corpo.— Bonita — murmurei, mais para mim mesma.— É.Olhei para ele pelo canto dos olhos.— Você nem olhou a calça direito.— Eu estou falando de você.Meu coração deu um salto, mas eu não deixei transparecer.— Então talvez seja melhor você olhar para outro lugar.Um sorriso discreto apareceu no canto da boca dele.— Você quer mesmo que eu faça isso?Não respondi.Em vez disso, virei de costas e comecei a trocar de roupa, sabendo perfeitamente que

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 47

    Depois que Lion voltou para a sala, permaneci alguns minutos na cozinha, tentando me convencer de que não havia motivo algum para continuar pensando nele. Eu ainda estava irritada, ainda desconfiava dele e, acima de tudo, ainda não conseguia esquecer que minha vida havia sido colocada em risco por decisões que ele tomara sem sequer me contar. Mesmo assim, era impossível ignorar a maneira como ele conseguia desviar minha atenção de tudo isso com um simples olhar. Pouco depois, ouvi a porta do banheiro se fechar no andar de cima. Não precisei perguntar para saber que Lion já havia ido tomar banho. Voltei para o quarto e permaneci algum tempo perto da janela, observando o céu encoberto enquanto tentava organizar meus pensamentos. A casa continuava silenciosa, grande demais para apenas duas pessoas, e aquela sensação de estar presa ali ainda me incomodava profundamente. Eu não sabia quanto tempo permaneceria naquela casa, nem o que aconteceria quando Daniel e Helena finalmente descobris

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 46

    Lion continuou me encarando de um jeito que me deixou desconfortável. Não era o olhar frio que eu tinha visto tantas vezes nos últimos dias. Também não era aquele olhar ameaçador que fazia qualquer pessoa recuar. Era algo mais silencioso, mais atento, como se ele estivesse tentando ler aquilo que eu não dizia. Foi então que ele começou a caminhar em direção à sala, e sem qualquer explicação, levou uma das mãos ao primeiro botão da camisa. Eu acompanhei o movimento por puro reflexo. O primeiro botão foi aberto. Depois o segundo. Ele continuou andando, sem pressa, enquanto os dedos percorriam os botões restantes. A abertura entre a cozinha e a sala permitia que eu enxergasse boa parte do que acontecia ali, e, quando me virei novamente para colocar o prato sobre a bancada, meus olhos acabaram encontrando Lion outra vez. Ele estava tirando a camisa. O tecido deslizou pelos ombros e revelou suas costas largas, fortes, definidas de uma maneira que eu não deveria estar reparando. Os mús

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status