INICIAR SESIÓNAssim que atravessei a porta, tive a estranha sensação de que havia entrado em outro mundo.
O escritório de Lion Volkov não parecia um escritório comum. Não havia excesso de móveis, fotografias pessoais ou qualquer objeto capaz de humanizar aquele espaço. Tudo ali era elegante demais. Escuro demais. Controlado demais. As paredes revestidas de madeira negra contrastavam com obras de arte antigas iluminadas cuidadosamente por luzes douradas e discretas. O enorme vidro atrás da mesa revelava a cidade cinzenta sob o céu nublado da manhã, enquanto o silêncio pesado parecia dominar cada centímetro daquele lugar. E então meus olhos encontraram Lion Volkov. Por um instante, esqueci completamente como respirar. Ele estava de pé próximo à janela, segurando uma taça baixa de cristal com algum líquido âmbar que refletia a luz suave do ambiente. Vestia preto da cabeça aos pés — um terno perfeitamente alinhado ao corpo forte, camisa escura sem uma única dobra e os primeiros botões abertos o suficiente para revelar parte do pescoço firme e da pele levemente bronzeada. Era impossível não notar o quanto ele era intimidador. Alto. Muito alto. Os ombros largos tornavam o paletó ainda mais imponente, e seus braços fortes pareciam tensos mesmo sob o tecido sofisticado do terno italiano. Havia algo brutalmente masculino em sua presença, algo que contrastava de forma perigosa com a elegância refinada daquele ambiente. Mas eram os olhos dele que realmente causavam desconforto. Escuros. Friamente escuros. Não apenas pela cor quase negra, mas pela forma como observavam tudo com uma calma calculada, como se estivesse constantemente analisando as pessoas ao redor. Como se estivesse sempre no controle. Os cabelos escuros estavam levemente desalinhados de propósito, criando uma aparência perigosamente atraente que parecia saída de uma campanha milionária de moda masculina. A barba curta e perfeitamente aparada deixava sua expressão ainda mais séria. Ele não sorriu quando me viu. Nem sequer tentou parecer receptivo. Apenas me observou em silêncio. E aquilo foi pior. Muito pior. Porque homens simpáticos eram previsíveis. Lion Volkov não parecia previsível em absolutamente nada. — Senhorita Beck. Sua voz grave atravessou o ambiente de maneira calma, porém firme. Engoli em seco imediatamente. — Senhor Volkov. Ele continuou me observando por mais alguns segundos antes de caminhar lentamente até a mesa. O som dos sapatos sociais ecoou pelo escritório silencioso, aumentando ainda mais meu nervosismo. Cada movimento dele parecia calculado. Controlado. Perigoso. Lion apoiou a taça sobre a mesa escura e então cruzou os braços diante do peito. — Helena informou que você chegou no horário. Não entendi imediatamente se aquilo era um elogio ou apenas uma observação indiferente. — Sim. — Gosto de pontualidade. Assenti rapidamente, tentando ignorar a tensão absurda crescendo dentro de mim. Era ridículo. Eu havia participado de dezenas de entrevistas ao longo da vida. Conversado com gestores arrogantes, clientes difíceis e homens importantes. Ainda assim, nenhum deles havia conseguido me deixar tão desconfortável apenas com a própria presença. Talvez fosse porque Lion Volkov parecia… inacessível. Como uma dessas esculturas raras expostas em museus onde ninguém podia tocar. Bonito demais. Frio demais. Distante demais. Ele pegou um arquivo fino sobre a mesa e abriu lentamente. — Lara Beck. Vinte e quatro anos. Formada em História da Arte pela Universidade de Chicago. Trabalhou durante dois anos numa pequena galeria independente antes do fechamento da empresa. Meu estômago apertou discretamente. Ouvir minha vida sendo lida daquela maneira me deixou estranhamente vulnerável. Lion ergueu os olhos novamente. — Você teve boas recomendações. — Obrigada. — Seu antigo supervisor afirmou que você possui excelente percepção artística. Não consegui esconder a surpresa. Ninguém jamais havia descrito meu trabalho daquela forma. Lion fechou o arquivo devagar. — Espero que ele esteja certo. Havia algo perigosamente intenso na forma como ele falava. Como se cada palavra tivesse peso suficiente para alterar completamente o ambiente. Aquele homem definitivamente sabia o efeito que causava nas pessoas. E parecia usar isso a seu favor. Ele caminhou lentamente até uma das paredes do escritório, onde uma pintura enorme ocupava quase todo o espaço. Meu olhar acompanhou o movimento automaticamente. O quadro era antigo. Extremamente antigo. Mesmo à distância, consegui reconhecer pinceladas delicadas e envelhecidas pelo tempo. Lion percebeu meu interesse imediatamente. — Conhece a obra? Aproximei-me alguns passos, fascinada. — Século dezoito… talvez italiano. Ele permaneceu em silêncio. Observei melhor os detalhes dourados da moldura antes de continuar: — O craquelado da tinta parece original. A técnica lembra Alessandro Tiepolo, mas… Parei de falar assim que percebi o olhar fixo dele sobre mim. — Mas? — perguntou calmamente. Passei a língua discretamente pelos lábios secos. — Nunca vi essa obra catalogada antes. O silêncio que surgiu em seguida pareceu estranho demais. Lento demais. Quando finalmente voltei a encará-lo, Lion continuava me observando de maneira quase indecifrável. Então algo inesperado aconteceu. O canto da boca dele se moveu minimamente. Quase um sorriso. Quase. — Interessante. Meu coração tropeçou sem motivo. Aquela mínima alteração em sua expressão foi suficiente para transformar completamente o ambiente. Porque, até então, Lion Volkov parecia incapaz de demonstrar qualquer emoção humana. Ele se afastou da pintura e voltou para perto da mesa. — A maioria das pessoas apenas elogia as molduras caras. Corei discretamente. — Desculpe. Eu falo demais as vezes. — Não peça desculpas por isso. A resposta veio imediata. Firme. Aquilo me pegou desprevenida novamente. Lion apoiou uma das mãos sobre a mesa enquanto me observava atentamente. — Você sabe por que foi contratada? — Imagino que pelas minhas referências… — Não. A interrupção foi seca. Meu corpo ficou imediatamente rígido. Ele continuou: — Pessoas qualificadas existem aos milhares. Houve uma pausa curta. — Eu escolho instinto. Franzi levemente a testa. Instinto? Aquilo não fazia sentido. Lion desviou o olhar para a cidade atrás do vidro antes de continuar falando: — A Volkov Art Gallery não é um ambiente comum, senhorita Beck. Discrição é essencial aqui. Lealdade também. Novamente aquela palavra. Lealdade. — Entendo. — Entende? A pergunta fez meu estômago apertar outra vez. Ele voltou a me encarar. — Existem pessoas dispostas a pagar fortunas pelo que temos aqui dentro. A forma como disse aquilo causou um arrepio sutil na minha nuca. — Obras de arte despertam obsessão, senhorita Beck. Seus olhos escuros permaneceram presos aos meus enquanto ele continuava: — Dinheiro transforma homens em criaturas imprevisíveis. Havia algo naquela frase. Algo pesado. Experiente. Como se ele soubesse exatamente do que estava falando. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, alguém bateu discretamente na porta. Um dos seguranças entrou. E aquilo imediatamente chamou minha atenção. O homem vestia preto completo, exatamente como os outros que eu havia visto na galeria. Alto, expressão séria, postura rígida. Mas havia algo errado. Muito errado. Ele não parecia segurança de galeria. Parecia militar. Os olhos dele passaram rapidamente por mim antes de se voltarem para Lion. — Senhor Volkov. Lion sequer desviou totalmente a atenção de mim. — O que foi? — O carregamento chegou. Meu corpo enrijeceu discretamente. Carregamento? Lion permaneceu em silêncio por dois segundos. Então respondeu calmamente: — Coloquem na sala restrita até segunda ordem. — Sim, senhor. O homem saiu imediatamente. E alguma coisa naquela conversa simples fez um desconforto estranho surgir dentro de mim. Talvez fosse o tom baixo. Talvez a forma cautelosa. Ou talvez porque nada ali parecia realmente relacionado apenas a arte. Lion voltou a caminhar lentamente pelo escritório. — Você começará auxiliando Helena na organização do leilão da próxima semana. — Certo. — Muitos convidados importantes estarão presentes. Ele pegou novamente a taça de cristal. — Alguns deles exigem discrição absoluta. Meu nervosismo começou lentamente a se transformar em curiosidade. Ele tomou um pequeno gole da bebida antes de continuar: — Você aprenderá rápido como as coisas funcionam aqui. A maneira como disse aquilo não soou como uma sugestão. Soou como um aviso.Passei a maior parte da noite acordada. Cada vez que fechava os olhos, minha mente voltava para as últimas semanas e reorganizava os acontecimentos como peças de um quebra-cabeça que eu ainda não conseguia completar. A galeria, Augusto, o documento, a peça, a maneira como Lion havia admitido que me usara, a mansão, a porta trancada e, principalmente, a sensação desconfortável de que eu estava no centro de uma história que havia começado muito antes de eu sequer saber que existia.Eu também não conseguia esquecer a conversa daquela noite.Lion havia sido honesto de uma maneira que eu não esperava. Não havia tentado fingir que tudo tinha sido um acidente. Não havia negado que tinha me usado. Pelo contrário, havia admitido que, quando tudo começou, eu era apenas parte de um plano que ele considerava necessário.O problema era que agora eu não conseguia decidir o que me assustava mais.O homem que havia me usado ou o homem que parecia disposto a fazer qualquer coisa para me proteger.Talv
Eu ainda estava parada quando Lion voltou a me olhar, e havia alguma coisa naquele olhar que me fez perceber imediatamente que ele não tinha a menor intenção de aceitar minha decisão de permanecer ali. Não era raiva. Também não era exatamente paciência. Era aquela confiança irritante de quem já havia tomado uma decisão e simplesmente esperava que o resto do mundo se adaptasse a ela. Cruzei os braços, tentando sustentar a expressão mais indiferente que consegui, mas meu coração já havia começado a bater mais rápido.— Bom… eu não vou descer — falei.Lion permaneceu em silêncio por alguns segundos.Então inclinou levemente a cabeça.— Eu ouvi.— Ótimo.— Mas mesmo assim você vai descer.Soltei uma risada curta, incrédula.— Você realmente acha que pode mandar em mim?O canto da boca dele se levantou.— Não.Ele deu um passo na minha direção.— Eu tenho certeza.Meu estômago se contraiu.— Você é insuportável.— E você está tentando me provocar.— Talvez eu esteja.Lion aproximou-se mais
Eu demorei mais tempo do que precisava debaixo do chuveiro. Talvez porque aquela fosse a única parte daquela casa sobre a qual eu ainda tivesse algum tipo de controle. A água quente escorria pelos meus ombros enquanto eu permanecia parada, com a testa apoiada contra o azulejo frio, tentando organizar uma mente que parecia completamente quebrada desde o dia anterior. Mas não importava o quanto eu tentasse. Os pensamentos sempre voltavam para ele. Para Lion. Para a galeria. Para os documentos. Para Augusto. Para todas as mentiras e principalmente para a expressão no rosto dele quando eu o confrontei. Aquilo era o que mais me confundia. Porque um mentiroso deveria parecer indiferente quando fosse descoberto. Deveria parecer calculista. Frio. Mas Lion tinha parecido ferido.Como se estivesse assistindo algo importante desmoronar diante dos próprios olhos. Eu fechei os olhos com força. Não queria pensar nele. Não queria sentir nada por ele. E, mesmo assim, era impossível. Quando fina
O quarto parecia menor conforme as horas passavam, ou talvez fosse apenas a presença invisível de Lion em cada detalhe daquela mansão que começava lentamente a sufocar meus pensamentos. O cheiro dele ainda estava nos lençóis. Na camisa preta jogada sobre a poltrona. No ar frio daquele lugar silencioso demais. Eu odiava aquilo. Odiava o fato de que mesmo presa naquela casa, mesmo assustada, mesmo furiosa… meu corpo ainda reagia a ele de forma quase involuntária. Passei as mãos pelo rosto enquanto caminhava inquieta pelo quarto. A chuva tinha começado novamente do lado de fora, batendo contra os enormes vidros das janelas enquanto o céu permanecia escuro e carregado. Eu não fazia ideia de quanto tempo havia passado desde que Lion saiu. Uma hora. Duas. Talvez mais.Só sabia que a sensação de estar presa começava lentamente a se transformar em outra coisa. Ansiedade. Nervosismo. Expectativa. E aquilo me irritava profundamente. Foi então que ouvi passos do lado de fora. Firmes. Calmos.
A primeira coisa que percebi quando despertei foi o silêncio. Não um silêncio comum. Era pesado. Denso. Como se aquele lugar inteiro tivesse sido construído para abafar qualquer som do mundo exterior. Demorei alguns segundos para conseguir abrir os olhos completamente. Minha cabeça latejava de maneira irritante enquanto a memória vinha aos poucos, fragmentada, confusa. O corredor da galeria. As lágrimas. O elevador abrindo. Um dos seguranças de Lion saindo. Então uma mão atrás de mim. E depois… Nada. Sentei devagar na cama sentindo o coração acelerar imediatamente ao perceber que não fazia ideia de onde estava. O quarto era enorme. Luxuoso. Mas estranhamente frio. Tudo ali parecia seguir os mesmos tons escuros: preto, cinza, madeira escura e detalhes minimalistas que deixavam o ambiente sofisticado, porém quase intimidador. As cortinas gigantescas cobriam completamente as janelas, impedindo qualquer noção de horário. Meu peito apertou. Levantei devagar, ainda um pouco tonta, e ca
A manhã chegou cinzenta e silenciosa.Eu mal tinha dormido.Passei a maior parte da madrugada sentada perto da janela do hotel observando a chuva cair sobre a cidade enquanto tentava aceitar que absolutamente tudo na minha vida parecia ter saído do controle em menos de vinte e quatro horas.Lion. A galeria. Os leilões. A polícia. Augusto.Cada vez que eu tentava organizar os pensamentos, parecia pior.Mais pesado.Mais absurdo.A pior parte era perceber que, no fundo, eu não sabia mais em quem confiar.Porque Augusto tinha mentido.Mas Lion…Lion tinha construído praticamente uma vida inteira de mentiras ao meu redor.Levantei da cama lentamente sentindo o corpo pesado de cansaço emocional. Ainda usava uma camiseta larga do hotel e o cabelo estava preso de qualquer jeito depois de uma noite inteira sem conseguir descansar direito.Minha cabeça doía.Meu peito também.Eu estava parada perto da bancada preparando um café horrível da cafeteira do quarto quando ouvi batidas na porta.Meu







