Compartir

Capítulo 03

last update Fecha de publicación: 2026-04-30 11:00:55

O restante do dia passou como um borrão elegante e sufocante.

Depois da conversa com Lion Volkov, Helena me conduziu pelos corredores principais da galeria enquanto explicava minhas funções de maneira objetiva demais para alguém aparentemente acostumada a lidar com pessoas novas. Ela falava com educação impecável, mas existia certa rigidez em sua postura, como se cada palavra precisasse ser cuidadosamente calculada antes de sair de sua boca, aquilo apenas aumentava a estranha sensação de desconforto crescendo dentro de mim desde o instante em que havia entrado naquele lugar.

A Volkov Art Gallery era gigantesca.

Muito maior do que eu imaginava.

Os andares inferiores eram destinados às exposições abertas ao público, sempre impecavelmente organizadas e silenciosas, frequentadas por turistas ricos, colecionadores discretos e empresários influentes que circulavam pelo espaço com taças de champanhe nas mãos e olhares críticos direcionados às obras.

Mas os andares superiores eram diferentes.

Mais silenciosos.

Mais reservados.

Mais vigiados.

Havia portas protegidas por senha eletrônica, corredores monitorados por câmeras em todos os ângulos e seguranças posicionados discretamente próximos às áreas restritas. Alguns deles usavam fones transparentes escondidos atrás das orelhas, observando cada movimentação ao redor como predadores pacientes.

Nada daquilo parecia normal para uma simples galeria de arte.

Mesmo milionária.

Mesmo famosa.

Enquanto caminhava ao lado de Helena carregando uma pasta de documentos contra o peito, tentei ignorar a inquietação insistente dentro da minha cabeça.

— O leilão da próxima semana será um dos maiores eventos da temporada — explicou ela enquanto atravessávamos outro corredor revestido por esculturas modernas absurdamente caras. — Colecionadores internacionais estarão presentes. A segurança será reforçada durante todo o evento.

Segurança reforçada.

Outra vez.

Tudo naquele lugar parecia girar em torno disso.

— Imagino que obras tão valiosas atraiam muitos problemas — comentei casualmente, tentando soar natural.

Helena não respondeu imediatamente.

Seus saltos continuaram ecoando pelo piso escuro antes que ela finalmente falasse:

— O senhor Volkov prefere não correr riscos.

Aquilo não respondeu minha pergunta.

Mas percebi rapidamente que insistir talvez fosse uma péssima ideia.

Continuamos andando em silêncio até chegarmos numa enorme sala onde dezenas de funcionários organizavam catálogos, listas de convidados e contratos sobre mesas extensas de vidro.

O ambiente parecia mais leve ali.

Quase normal.

Quase.

Passei as horas seguintes auxiliando na revisão de documentos do leilão enquanto tentava absorver o máximo possível sobre o funcionamento da galeria. Alguns funcionários eram simpáticos, outros excessivamente reservados, mas todos compartilhavam algo em comum:

Pareciam nervosos demais quando o assunto envolvia Lion Volkov.

Ninguém mencionava o nome dele casualmente.

Ninguém fazia piadas.

Ninguém parecia confortável o suficiente para relaxar completamente dentro daquela galeria.

Era como se todos estivessem constantemente atentos à possibilidade de errar.

E isso me deixava cada vez mais inquieta.

No fim da tarde, depois de revisar dezenas de contratos entediantes, decidi levantar para buscar café.

Precisava desesperadamente respirar um pouco.

A sala de funcionários ficava no final de um corredor mais vazio do terceiro andar. Caminhei lentamente até lá enquanto massageava discretamente o pescoço dolorido.

Foi então que ouvi vozes.

Baixas.

Mas alteradas.

Parei automaticamente antes da esquina do corredor.

— Isso não estava nos planos — alguém murmurou com tensão evidente.

Outra voz respondeu imediatamente:

— O senhor Volkov já resolveu.

Meu corpo ficou imóvel.

Volkov.

Sem perceber, aproximei-me alguns centímetros da parede.

— Resolveu como? — perguntou o primeiro homem outra vez.

Houve silêncio.

Então:

— O comprador aceitou pagar o dobro depois da ameaça.

Um arrepio percorreu minha espinha lentamente.

Ameaça?

Franzi a testa imediatamente.

Talvez eu tivesse entendido errado.

Precisava ter entendido errado.

Inclinei o corpo minimamente para enxergar quem estava conversando.

Dois homens vestidos de preto permaneciam próximos a uma porta fechada. Um deles segurava uma pasta escura enquanto falava em tom baixo demais para que eu conseguisse compreender o restante da conversa.

Mas então ouvi outra frase.

E dessa vez não havia como interpretar errado.

— O carregamento precisa sair do país antes da inspeção.

Meu coração disparou.

Carregamento.

Outra vez aquela palavra.

Antes que eu pudesse processar aquilo adequadamente, um dos homens virou levemente o rosto na minha direção.

Meu sangue gelou imediatamente.

Afastei-me rápido demais, sentindo o salto quase falhar contra o chão enquanto tentava parecer natural.

Continue andando.

Continue andando.

Meu coração martelava violentamente dentro do peito enquanto atravessei o corredor fingindo não ter ouvido absolutamente nada.

Não olhei para trás.

Não respirei direito.

Só parei quando alcancei a pequena copa vazia.

Fechei a porta atrás de mim imediatamente.

Então apoiei as duas mãos na bancada fria de mármore.

Meu reflexo no vidro escuro da cafeteira denunciava claramente meu nervosismo.

Aquilo era absurdo.

Talvez estivessem apenas falando sobre transporte de obras internacionais.

Sim.

Devia ser isso.

Inspeções alfandegárias existiam.

Segurança reforçada também.

Eu estava criando teorias ridículas porque aquele lugar inteiro parecia misterioso demais.

Respirei fundo.

Depois outra vez.

Precisava parar com aquilo.

Passei os dedos trêmulos pelos cabelos antes de pegar um copo descartável para servir café. O líquido quente ajudou minimamente a aliviar a tensão dentro do meu peito.

Até a porta da copa abrir atrás de mim.

Quase derrubei o café.

Virei-me rápido demais.

E encontrei Lion Volkov parado na entrada.

Meu coração simplesmente esqueceu como funcionava por alguns segundos.

Ele continuava usando preto.

Dessa vez, porém, o paletó havia desaparecido, deixando apenas a camisa escura ajustada perigosamente ao corpo forte. As mangas dobradas até os antebraços revelavam músculos firmes sob a pele morena, enquanto o relógio sofisticado preso ao pulso brilhava discretamente sob a luz fria do ambiente.

O primeiro botão da camisa permanecia aberto.

E Deus.

Aquele homem era intimidador demais de perto.

Os olhos escuros deslizaram lentamente pelo meu rosto.

Observando.

Analisando.

Como sempre.

— Senhorita Beck.

Sua voz grave fez meu estômago apertar sem motivo.

— Senhor Volkov.

Ele entrou na copa lentamente, e o espaço pequeno pareceu ainda menor com sua presença.

Não consegui evitar notar o perfume sofisticado que o acompanhava — algo amadeirado, intenso e perigosamente masculino.

Lion aproximou-se da bancada enquanto afrouxava discretamente o relógio no pulso.

Então me encarou novamente.

— Está se adaptando à galeria?

A pergunta parecia simples.

Mas havia algo em seu olhar que me deixava nervosa demais para responder normalmente.

— Sim.

Ele permaneceu em silêncio.

Esperando mais.

Engoli em seco.

— Ainda estou tentando entender como tudo funciona.

— E o que exatamente parece difícil de entender?

A pergunta veio calma demais.

Meu coração acelerou instantaneamente.

Por um segundo, tive a sensação absurda de que ele sabia.

Sabia que eu havia escutado a conversa no corredor.

Sabia que eu estava desconfiada.

Sabia absolutamente tudo.

Desviei o olhar rapidamente para o café em minhas mãos.

— É uma galeria muito maior do que estou acostumada.

Silêncio.

Pesado.

Lento.

Quando voltei a encará-lo, Lion ainda me observava atentamente.

Então ele se aproximou mais.

Apenas um passo.

Mas foi suficiente para que meu corpo inteiro ficasse tenso.

— A curiosidade pode ser perigosa aqui dentro, Lara.

Meu nome dito por ele causou um arrepio involuntário na minha pele.

Porque aquela foi a primeira vez que ele me chamou assim.

Sem formalidade.

Sem distância.

Apenas Lara.

Levantei lentamente os olhos até os dele.

— Não entendi.

E aquilo era parcialmente verdade.

Lion inclinou levemente a cabeça, me analisando de uma maneira quase sufocante.

Então seus olhos escuros desceram discretamente até o copo em minhas mãos.

— Suas mãos estão tremendo.

Droga.

Tentei esconder imediatamente.

— Muito café.

A mentira saiu rápido demais.

O canto da boca dele se moveu minimamente.

Não exatamente um sorriso.

Algo pior.

Como se ele soubesse que eu estava mentindo e achasse aquilo interessante.

Lion pegou uma xícara vazia sobre a bancada antes de continuar falando calmamente:

— Pessoas inteligentes sobrevivem mais tempo quando aprendem a distinguir curiosidade de prudência.

Meu coração disparou outra vez.

Aquela definitivamente não parecia uma conversa normal entre chefe e funcionária.

O silêncio voltou a crescer dentro da pequena copa.

Lion Volkov não intimidava apenas por ser poderoso.

Ele intimidava porque parecia enxergar coisas demais.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 44

    Passei a maior parte da noite acordada. Cada vez que fechava os olhos, minha mente voltava para as últimas semanas e reorganizava os acontecimentos como peças de um quebra-cabeça que eu ainda não conseguia completar. A galeria, Augusto, o documento, a peça, a maneira como Lion havia admitido que me usara, a mansão, a porta trancada e, principalmente, a sensação desconfortável de que eu estava no centro de uma história que havia começado muito antes de eu sequer saber que existia.Eu também não conseguia esquecer a conversa daquela noite.Lion havia sido honesto de uma maneira que eu não esperava. Não havia tentado fingir que tudo tinha sido um acidente. Não havia negado que tinha me usado. Pelo contrário, havia admitido que, quando tudo começou, eu era apenas parte de um plano que ele considerava necessário.O problema era que agora eu não conseguia decidir o que me assustava mais.O homem que havia me usado ou o homem que parecia disposto a fazer qualquer coisa para me proteger.Talv

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 43

    Eu ainda estava parada quando Lion voltou a me olhar, e havia alguma coisa naquele olhar que me fez perceber imediatamente que ele não tinha a menor intenção de aceitar minha decisão de permanecer ali. Não era raiva. Também não era exatamente paciência. Era aquela confiança irritante de quem já havia tomado uma decisão e simplesmente esperava que o resto do mundo se adaptasse a ela. Cruzei os braços, tentando sustentar a expressão mais indiferente que consegui, mas meu coração já havia começado a bater mais rápido.— Bom… eu não vou descer — falei.Lion permaneceu em silêncio por alguns segundos.Então inclinou levemente a cabeça.— Eu ouvi.— Ótimo.— Mas mesmo assim você vai descer.Soltei uma risada curta, incrédula.— Você realmente acha que pode mandar em mim?O canto da boca dele se levantou.— Não.Ele deu um passo na minha direção.— Eu tenho certeza.Meu estômago se contraiu.— Você é insuportável.— E você está tentando me provocar.— Talvez eu esteja.Lion aproximou-se mais

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 42

    Eu demorei mais tempo do que precisava debaixo do chuveiro. Talvez porque aquela fosse a única parte daquela casa sobre a qual eu ainda tivesse algum tipo de controle. A água quente escorria pelos meus ombros enquanto eu permanecia parada, com a testa apoiada contra o azulejo frio, tentando organizar uma mente que parecia completamente quebrada desde o dia anterior. Mas não importava o quanto eu tentasse. Os pensamentos sempre voltavam para ele. Para Lion. Para a galeria. Para os documentos. Para Augusto. Para todas as mentiras e principalmente para a expressão no rosto dele quando eu o confrontei. Aquilo era o que mais me confundia. Porque um mentiroso deveria parecer indiferente quando fosse descoberto. Deveria parecer calculista. Frio. Mas Lion tinha parecido ferido.Como se estivesse assistindo algo importante desmoronar diante dos próprios olhos. Eu fechei os olhos com força. Não queria pensar nele. Não queria sentir nada por ele. E, mesmo assim, era impossível. Quando fina

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 41

    O quarto parecia menor conforme as horas passavam, ou talvez fosse apenas a presença invisível de Lion em cada detalhe daquela mansão que começava lentamente a sufocar meus pensamentos. O cheiro dele ainda estava nos lençóis. Na camisa preta jogada sobre a poltrona. No ar frio daquele lugar silencioso demais. Eu odiava aquilo. Odiava o fato de que mesmo presa naquela casa, mesmo assustada, mesmo furiosa… meu corpo ainda reagia a ele de forma quase involuntária. Passei as mãos pelo rosto enquanto caminhava inquieta pelo quarto. A chuva tinha começado novamente do lado de fora, batendo contra os enormes vidros das janelas enquanto o céu permanecia escuro e carregado. Eu não fazia ideia de quanto tempo havia passado desde que Lion saiu. Uma hora. Duas. Talvez mais.Só sabia que a sensação de estar presa começava lentamente a se transformar em outra coisa. Ansiedade. Nervosismo. Expectativa. E aquilo me irritava profundamente. Foi então que ouvi passos do lado de fora. Firmes. Calmos.

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 40

    A primeira coisa que percebi quando despertei foi o silêncio. Não um silêncio comum. Era pesado. Denso. Como se aquele lugar inteiro tivesse sido construído para abafar qualquer som do mundo exterior. Demorei alguns segundos para conseguir abrir os olhos completamente. Minha cabeça latejava de maneira irritante enquanto a memória vinha aos poucos, fragmentada, confusa. O corredor da galeria. As lágrimas. O elevador abrindo. Um dos seguranças de Lion saindo. Então uma mão atrás de mim. E depois… Nada. Sentei devagar na cama sentindo o coração acelerar imediatamente ao perceber que não fazia ideia de onde estava. O quarto era enorme. Luxuoso. Mas estranhamente frio. Tudo ali parecia seguir os mesmos tons escuros: preto, cinza, madeira escura e detalhes minimalistas que deixavam o ambiente sofisticado, porém quase intimidador. As cortinas gigantescas cobriam completamente as janelas, impedindo qualquer noção de horário. Meu peito apertou. Levantei devagar, ainda um pouco tonta, e ca

  • Leilão de Mentiras    Capítulo 39

    A manhã chegou cinzenta e silenciosa.Eu mal tinha dormido.Passei a maior parte da madrugada sentada perto da janela do hotel observando a chuva cair sobre a cidade enquanto tentava aceitar que absolutamente tudo na minha vida parecia ter saído do controle em menos de vinte e quatro horas.Lion. A galeria. Os leilões. A polícia. Augusto.Cada vez que eu tentava organizar os pensamentos, parecia pior.Mais pesado.Mais absurdo.A pior parte era perceber que, no fundo, eu não sabia mais em quem confiar.Porque Augusto tinha mentido.Mas Lion…Lion tinha construído praticamente uma vida inteira de mentiras ao meu redor.Levantei da cama lentamente sentindo o corpo pesado de cansaço emocional. Ainda usava uma camiseta larga do hotel e o cabelo estava preso de qualquer jeito depois de uma noite inteira sem conseguir descansar direito.Minha cabeça doía.Meu peito também.Eu estava parada perto da bancada preparando um café horrível da cafeteira do quarto quando ouvi batidas na porta.Meu

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status