LOGINO restante do dia passou como um borrão elegante e sufocante.
Depois da conversa com Lion Volkov, Helena me conduziu pelos corredores principais da galeria enquanto explicava minhas funções de maneira objetiva demais para alguém aparentemente acostumada a lidar com pessoas novas. Ela falava com educação impecável, mas existia certa rigidez em sua postura, como se cada palavra precisasse ser cuidadosamente calculada antes de sair de sua boca, aquilo apenas aumentava a estranha sensação de desconforto crescendo dentro de mim desde o instante em que havia entrado naquele lugar. A Volkov Art Gallery era gigantesca. Muito maior do que eu imaginava. Os andares inferiores eram destinados às exposições abertas ao público, sempre impecavelmente organizadas e silenciosas, frequentadas por turistas ricos, colecionadores discretos e empresários influentes que circulavam pelo espaço com taças de champanhe nas mãos e olhares críticos direcionados às obras. Mas os andares superiores eram diferentes. Mais silenciosos. Mais reservados. Mais vigiados. Havia portas protegidas por senha eletrônica, corredores monitorados por câmeras em todos os ângulos e seguranças posicionados discretamente próximos às áreas restritas. Alguns deles usavam fones transparentes escondidos atrás das orelhas, observando cada movimentação ao redor como predadores pacientes. Nada daquilo parecia normal para uma simples galeria de arte. Mesmo milionária. Mesmo famosa. Enquanto caminhava ao lado de Helena carregando uma pasta de documentos contra o peito, tentei ignorar a inquietação insistente dentro da minha cabeça. — O leilão da próxima semana será um dos maiores eventos da temporada — explicou ela enquanto atravessávamos outro corredor revestido por esculturas modernas absurdamente caras. — Colecionadores internacionais estarão presentes. A segurança será reforçada durante todo o evento. Segurança reforçada. Outra vez. Tudo naquele lugar parecia girar em torno disso. — Imagino que obras tão valiosas atraiam muitos problemas — comentei casualmente, tentando soar natural. Helena não respondeu imediatamente. Seus saltos continuaram ecoando pelo piso escuro antes que ela finalmente falasse: — O senhor Volkov prefere não correr riscos. Aquilo não respondeu minha pergunta. Mas percebi rapidamente que insistir talvez fosse uma péssima ideia. Continuamos andando em silêncio até chegarmos numa enorme sala onde dezenas de funcionários organizavam catálogos, listas de convidados e contratos sobre mesas extensas de vidro. O ambiente parecia mais leve ali. Quase normal. Quase. Passei as horas seguintes auxiliando na revisão de documentos do leilão enquanto tentava absorver o máximo possível sobre o funcionamento da galeria. Alguns funcionários eram simpáticos, outros excessivamente reservados, mas todos compartilhavam algo em comum: Pareciam nervosos demais quando o assunto envolvia Lion Volkov. Ninguém mencionava o nome dele casualmente. Ninguém fazia piadas. Ninguém parecia confortável o suficiente para relaxar completamente dentro daquela galeria. Era como se todos estivessem constantemente atentos à possibilidade de errar. E isso me deixava cada vez mais inquieta. No fim da tarde, depois de revisar dezenas de contratos entediantes, decidi levantar para buscar café. Precisava desesperadamente respirar um pouco. A sala de funcionários ficava no final de um corredor mais vazio do terceiro andar. Caminhei lentamente até lá enquanto massageava discretamente o pescoço dolorido. Foi então que ouvi vozes. Baixas. Mas alteradas. Parei automaticamente antes da esquina do corredor. — Isso não estava nos planos — alguém murmurou com tensão evidente. Outra voz respondeu imediatamente: — O senhor Volkov já resolveu. Meu corpo ficou imóvel. Volkov. Sem perceber, aproximei-me alguns centímetros da parede. — Resolveu como? — perguntou o primeiro homem outra vez. Houve silêncio. Então: — O comprador aceitou pagar o dobro depois da ameaça. Um arrepio percorreu minha espinha lentamente. Ameaça? Franzi a testa imediatamente. Talvez eu tivesse entendido errado. Precisava ter entendido errado. Inclinei o corpo minimamente para enxergar quem estava conversando. Dois homens vestidos de preto permaneciam próximos a uma porta fechada. Um deles segurava uma pasta escura enquanto falava em tom baixo demais para que eu conseguisse compreender o restante da conversa. Mas então ouvi outra frase. E dessa vez não havia como interpretar errado. — O carregamento precisa sair do país antes da inspeção. Meu coração disparou. Carregamento. Outra vez aquela palavra. Antes que eu pudesse processar aquilo adequadamente, um dos homens virou levemente o rosto na minha direção. Meu sangue gelou imediatamente. Afastei-me rápido demais, sentindo o salto quase falhar contra o chão enquanto tentava parecer natural. Continue andando. Continue andando. Meu coração martelava violentamente dentro do peito enquanto atravessei o corredor fingindo não ter ouvido absolutamente nada. Não olhei para trás. Não respirei direito. Só parei quando alcancei a pequena copa vazia. Fechei a porta atrás de mim imediatamente. Então apoiei as duas mãos na bancada fria de mármore. Meu reflexo no vidro escuro da cafeteira denunciava claramente meu nervosismo. Aquilo era absurdo. Talvez estivessem apenas falando sobre transporte de obras internacionais. Sim. Devia ser isso. Inspeções alfandegárias existiam. Segurança reforçada também. Eu estava criando teorias ridículas porque aquele lugar inteiro parecia misterioso demais. Respirei fundo. Depois outra vez. Precisava parar com aquilo. Passei os dedos trêmulos pelos cabelos antes de pegar um copo descartável para servir café. O líquido quente ajudou minimamente a aliviar a tensão dentro do meu peito. Até a porta da copa abrir atrás de mim. Quase derrubei o café. Virei-me rápido demais. E encontrei Lion Volkov parado na entrada. Meu coração simplesmente esqueceu como funcionava por alguns segundos. Ele continuava usando preto. Dessa vez, porém, o paletó havia desaparecido, deixando apenas a camisa escura ajustada perigosamente ao corpo forte. As mangas dobradas até os antebraços revelavam músculos firmes sob a pele morena, enquanto o relógio sofisticado preso ao pulso brilhava discretamente sob a luz fria do ambiente. O primeiro botão da camisa permanecia aberto. E Deus. Aquele homem era intimidador demais de perto. Os olhos escuros deslizaram lentamente pelo meu rosto. Observando. Analisando. Como sempre. — Senhorita Beck. Sua voz grave fez meu estômago apertar sem motivo. — Senhor Volkov. Ele entrou na copa lentamente, e o espaço pequeno pareceu ainda menor com sua presença. Não consegui evitar notar o perfume sofisticado que o acompanhava — algo amadeirado, intenso e perigosamente masculino. Lion aproximou-se da bancada enquanto afrouxava discretamente o relógio no pulso. Então me encarou novamente. — Está se adaptando à galeria? A pergunta parecia simples. Mas havia algo em seu olhar que me deixava nervosa demais para responder normalmente. — Sim. Ele permaneceu em silêncio. Esperando mais. Engoli em seco. — Ainda estou tentando entender como tudo funciona. — E o que exatamente parece difícil de entender? A pergunta veio calma demais. Meu coração acelerou instantaneamente. Por um segundo, tive a sensação absurda de que ele sabia. Sabia que eu havia escutado a conversa no corredor. Sabia que eu estava desconfiada. Sabia absolutamente tudo. Desviei o olhar rapidamente para o café em minhas mãos. — É uma galeria muito maior do que estou acostumada. Silêncio. Pesado. Lento. Quando voltei a encará-lo, Lion ainda me observava atentamente. Então ele se aproximou mais. Apenas um passo. Mas foi suficiente para que meu corpo inteiro ficasse tenso. — A curiosidade pode ser perigosa aqui dentro, Lara. Meu nome dito por ele causou um arrepio involuntário na minha pele. Porque aquela foi a primeira vez que ele me chamou assim. Sem formalidade. Sem distância. Apenas Lara. Levantei lentamente os olhos até os dele. — Não entendi. E aquilo era parcialmente verdade. Lion inclinou levemente a cabeça, me analisando de uma maneira quase sufocante. Então seus olhos escuros desceram discretamente até o copo em minhas mãos. — Suas mãos estão tremendo. Droga. Tentei esconder imediatamente. — Muito café. A mentira saiu rápido demais. O canto da boca dele se moveu minimamente. Não exatamente um sorriso. Algo pior. Como se ele soubesse que eu estava mentindo e achasse aquilo interessante. Lion pegou uma xícara vazia sobre a bancada antes de continuar falando calmamente: — Pessoas inteligentes sobrevivem mais tempo quando aprendem a distinguir curiosidade de prudência. Meu coração disparou outra vez. Aquela definitivamente não parecia uma conversa normal entre chefe e funcionária. O silêncio voltou a crescer dentro da pequena copa. Lion Volkov não intimidava apenas por ser poderoso. Ele intimidava porque parecia enxergar coisas demais.Ainda estava com o garfo entre os dedos, sentindo o sabor da comida deliciosa que ele havia preparado, quando as palavras de Lion permaneceram ecoando dentro da minha cabeça, densas e carregadas de intenção. Eu não sabia o que fazer com aquela promessa imponente. Parte de mim queria desesperadamente acreditar; queria fechar os olhos, afundar nos travesseiros e simplesmente aceitar que, daquela vez, ele estava abrindo mão das sombras para ser honesto comigo. Outra parte, porém, continuava lembrando de cada detalhe do passado, de todas as vezes em que ele tomou decisões por mim sem me contar a verdade, usando sua autoridade para me manter no escuro enquanto me colocava no centro de um turbilhão que eu sequer compreendia. Baixei os olhos para o prato, observando os últimos vestígios do jantar, e respirei fundo. O ar parecia mais pesado no quarto, saturado pelo perfume dele e pela lembrança quente de minutos atrás. — Eu ainda estou confusa, Lion — murmurei, a voz macia, quase vacilante
Depois de tudo, meu corpo parecia ter esquecido como se sustentava sozinho. Eu ainda respirava arfante, o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado, quando senti os braços de Lion me envolverem com uma firmeza possessiva. Não havia nenhuma ordem dessa vez, nenhuma provocação. Apenas aquele movimento potente com que ele me ergueu da cama, como se soubesse, com absoluta certeza, que minhas pernas estavam bambas demais para colaborar depois da intensidade avassaladora que havíamos compartilhado. Passei os braços ao redor do pescoço dele por puro instinto, colando a pele quente do meu rosto contra o seu peito nu. O coração dele batia forte e ritmado sob a minha bochecha, e o cheiro de sexo, suor e do seu perfume amadeirado preenchia meus sentidos. Por alguns segundos, simplesmente permaneci ali, totalmente nua em seus braços, deixando que seu corpo forte me carregasse. — Para onde você está me levando? — perguntei, a voz rouca, baixa e impregnada de sono. — Banho — a resp
Por vários segundos, o silêncio dominou o espaço. Ele não apenas olhava para mim; ele me desnudava com o olhar, calculando cada reação. Havia uma autoridade implacável ali, uma promessa silenciosa de que a brincadeira ingênua havia acabado. Sem margem para fuga. Ele juntou minhas mãos à frente do meu corpo e envolveu o couro ao redor da minha pele, ajustando a fivela com uma calma calculada e provocante. Seus dedos deslizaram entre o couro e a minha carne, certificando-se de que a contenção estava perfeita. Em seguida, ergueu meus pulsos presos até a altura do meu peito. — Olhe para mim — a voz dele veio baixa, em um tom de comando absoluto que não aceitava objeções. Meu olhar encontrou o dele. Ele não pediu permissão. Apenas leu a rendição nos meus olhos. Um sorriso lento e perigoso surgiu no canto de seus lábios. Lion deu um puxão seco no cinto, reduzindo a distância entre nós a milímetros. — Caminhe — ordenou. Eu o acompanhei. Cada passo pelo corredor acelerava a mist
Minha garganta ficou seca sem resposta. Eu poderia ter simplesmente escolhido uma roupa, vestido alguma coisa e encerrado aquela conversa. Mas alguma coisa dentro de mim queria provocá-lo. Talvez porque eu ainda estivesse irritada com Stephanie. Talvez porque, depois de tudo o que Lion tinha feito, eu quisesse descobrir até onde aquela calma aparentemente inabalável conseguia chegar.—Eu não estou com ciúmes— disse a ele.— Eu apostaria tudo que eu tenho que você está.—Perderia— Retruquei.Peguei outra calça da sacola e a ergui diante do corpo.— Bonita — murmurei, mais para mim mesma.— É.Olhei para ele pelo canto dos olhos.— Você nem olhou a calça direito.— Eu estou falando de você.Meu coração deu um salto, mas eu não deixei transparecer.— Então talvez seja melhor você olhar para outro lugar.Um sorriso discreto apareceu no canto da boca dele.— Você quer mesmo que eu faça isso?Não respondi.Em vez disso, virei de costas e comecei a trocar de roupa, sabendo perfeitamente que
Depois que Lion voltou para a sala, permaneci alguns minutos na cozinha, tentando me convencer de que não havia motivo algum para continuar pensando nele. Eu ainda estava irritada, ainda desconfiava dele e, acima de tudo, ainda não conseguia esquecer que minha vida havia sido colocada em risco por decisões que ele tomara sem sequer me contar. Mesmo assim, era impossível ignorar a maneira como ele conseguia desviar minha atenção de tudo isso com um simples olhar. Pouco depois, ouvi a porta do banheiro se fechar no andar de cima. Não precisei perguntar para saber que Lion já havia ido tomar banho. Voltei para o quarto e permaneci algum tempo perto da janela, observando o céu encoberto enquanto tentava organizar meus pensamentos. A casa continuava silenciosa, grande demais para apenas duas pessoas, e aquela sensação de estar presa ali ainda me incomodava profundamente. Eu não sabia quanto tempo permaneceria naquela casa, nem o que aconteceria quando Daniel e Helena finalmente descobris
Lion continuou me encarando de um jeito que me deixou desconfortável. Não era o olhar frio que eu tinha visto tantas vezes nos últimos dias. Também não era aquele olhar ameaçador que fazia qualquer pessoa recuar. Era algo mais silencioso, mais atento, como se ele estivesse tentando ler aquilo que eu não dizia. Foi então que ele começou a caminhar em direção à sala, e sem qualquer explicação, levou uma das mãos ao primeiro botão da camisa. Eu acompanhei o movimento por puro reflexo. O primeiro botão foi aberto. Depois o segundo. Ele continuou andando, sem pressa, enquanto os dedos percorriam os botões restantes. A abertura entre a cozinha e a sala permitia que eu enxergasse boa parte do que acontecia ali, e, quando me virei novamente para colocar o prato sobre a bancada, meus olhos acabaram encontrando Lion outra vez. Ele estava tirando a camisa. O tecido deslizou pelos ombros e revelou suas costas largas, fortes, definidas de uma maneira que eu não deveria estar reparando. Os mús







