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Nunca gostei de lugares silenciosos demais.
O silêncio sempre me pareceu perigoso, como se escondesse algo à espreita, aguardando o momento certo para surgir. Talvez por isso minhas mãos estivessem tão frias naquela manhã enquanto eu observava, parada do outro lado da rua, o enorme edifício revestido de vidro fumê que abrigava a Volkov Art Gallery. Mesmo à distância, o prédio parecia intimidante. Elegante. Impecável. Rico. O tipo de lugar onde pessoas como eu entravam apenas para servir vinho em eventos luxuosos ou admirar obras através de vitrines inacessíveis. Ainda assim, ali estava eu, segurando uma pasta simples contra o peito enquanto tentava ignorar o nervosismo sufocante que apertava meu estômago desde o instante em que saí do metrô. Meu primeiro dia. Suspirei discretamente antes de atravessar a rua movimentada, sentindo o salto ecoar sobre a calçada úmida pela chuva da madrugada. O vento frio bagunçou alguns fios do meu cabelo presos às pressas num coque baixo, e precisei respirar fundo outra vez antes de subir os poucos degraus da entrada principal. As portas de vidro se abriram automaticamente. O cheiro de madeira cara, perfume sofisticado e ar-condicionado gelado me atingiu imediatamente. Por alguns segundos, fiquei completamente imóvel. O interior da galeria era absurdamente bonito. Luzes douradas iluminavam paredes brancas impecáveis onde pinturas gigantescas pareciam observar cada pessoa que passava. O piso de mármore refletia os lustres modernos suspensos no teto alto, enquanto funcionários elegantemente vestidos caminhavam em silêncio absoluto pelo enorme salão principal. Tudo ali parecia caro demais para mim. Meu sobretudo simples, comprado em promoção meses atrás, subitamente pareceu inadequado. Apertei a alça da bolsa com mais força. — Posso ajudá-la? — perguntou uma mulher atrás do balcão principal, oferecendo um sorriso treinado. Aproximei-me rapidamente. — Lara Beck. Hoje é meu primeiro dia. Ela digitou algo no computador e imediatamente sua postura mudou, tornando-se mais séria. — Senhorita Beck. Estávamos esperando por você. A forma como ela disse aquilo me causou um leve desconforto, embora eu não soubesse explicar exatamente o motivo. — O senhor Volkov pediu que fosse encaminhada diretamente ao último andar assim que chegasse. Meu coração tropeçou dentro do peito. Diretamente ao dono? Pensei que passaria o dia assinando papéis no setor administrativo como qualquer funcionária comum. — Certo… obrigada. A mulher apenas assentiu educadamente e indicou o corredor à esquerda. — O elevador privativo fica no final do corredor. Privativo. Ótimo. Comecei a caminhar, tentando ignorar a sensação estranha crescendo lentamente dentro de mim. O som dos meus passos parecia alto demais naquele lugar silencioso. Conforme avançava pelo corredor elegante, percebi algo que me deixou inquieta quase imediatamente. Seguranças. Não apenas um ou dois. Havia homens altos vestidos de preto posicionados discretamente em pontos específicos da galeria. Alguns fingiam conversar entre si, outros observavam movimentações próximas às salas fechadas, mas todos pareciam atentos demais para um simples ambiente artístico. Talvez aquele tipo de segurança fosse normal para obras milionárias, pensei. Precisava ser. Continuei andando até encontrar o elevador indicado. Diferente dos outros que havia visto na entrada, aquele possuía portas escuras e acabamento dourado, sem qualquer botão externo além de um pequeno painel eletrônico. Antes que eu pudesse sequer entender como funcionava, um dos seguranças aproximou-se. — Senhorita Beck? Assenti. Ele pressionou um cartão no painel e as portas se abriram imediatamente. — O último andar está esperando pela senhorita. A frase soou estranha. Quase ensaiada. Entrei no elevador tentando ignorar o desconforto crescente. Assim que as portas se fecharam, soltei o ar lentamente. Aquilo era ridículo. Eu estava nervosa por causa de um emprego. Só isso. Nada mais. Observei meu reflexo nas paredes espelhadas do elevador e tentei ajeitar discretamente alguns fios soltos do cabelo. Meus olhos denunciavam claramente a ansiedade acumulada das últimas semanas. Depois de perder meu antigo emprego, tudo havia começado a desmoronar rápido demais. As contas atrasadas. As ligações insistentes do banco. O aluguel quase vencendo outra vez. Conseguir aquela vaga tinha parecido um milagre. A Volkov Art Gallery raramente contratava pessoas sem experiência absurda no mercado artístico internacional. Quando fui chamada para entrevista, achei sinceramente que havia acontecido algum engano. E então conheci o nome por trás de tudo aquilo. Lion Volkov. Mesmo antes de vê-lo pessoalmente, eu já sabia quem ele era. Todos sabiam. Empresário bilionário. Colecionador de arte. Investidor internacional. Dono de uma fortuna praticamente inalcançável. Algumas revistas o chamavam de visionário. Outras, de gênio excêntrico. Mas havia algo curioso sobre Lion Volkov. Quase ninguém sabia realmente alguma coisa sobre ele. Ele não dava entrevistas longas. Não frequentava eventos sociais desnecessários. Não sorria em fotografias. E, ainda assim, exercia uma presença quase obsessiva no mundo da arte. O elevador finalmente parou. As portas se abriram lentamente. E o silêncio do último andar era ainda pior. Engoli em seco antes de sair. O espaço diante de mim parecia mais um museu particular do que um escritório empresarial. Havia esculturas enormes próximas às paredes escuras, quadros antigos protegidos por iluminação específica e janelas gigantescas que revelavam parte da cidade nublada lá abaixo. Tudo impecavelmente organizado. Tudo frio demais. Uma mulher elegante aproximou-se quase imediatamente. — Senhorita Beck? Sou Helena, assistente executiva do senhor Volkov. Seu tom era educado, mas apressado. — Ele está esperando. Outra vez aquela frase. Ele está esperando. Como se minha chegada já estivesse calculada. Acompanhei Helena pelo corredor amplo enquanto tentava controlar o nervosismo absurdo crescendo dentro de mim. — O senhor Volkov prefere discrição absoluta durante o expediente — explicou ela calmamente. — Algumas áreas da galeria são restritas. Você será informada sobre quais setores poderá acessar. Assenti em silêncio. — O senhor Volkov valoriza lealdade acima de qualquer coisa. Aquilo fez meu estômago apertar estranhamente. Antes que eu pudesse responder, Helena parou diante de uma enorme porta preta. Então olhou diretamente para mim. — Uma última coisa, senhorita Beck. — Sim? Ela hesitou por apenas um segundo. — Não faça perguntas sobre assuntos pessoais do senhor Volkov. Meu desconforto aumentou imediatamente. Antes que eu pudesse entender o motivo daquela observação, ela bateu duas vezes na porta. Uma voz masculina respondeu do outro lado. Grave. Calma. Fria. — Entre.Ainda estava com o garfo entre os dedos, sentindo o sabor da comida deliciosa que ele havia preparado, quando as palavras de Lion permaneceram ecoando dentro da minha cabeça, densas e carregadas de intenção. Eu não sabia o que fazer com aquela promessa imponente. Parte de mim queria desesperadamente acreditar; queria fechar os olhos, afundar nos travesseiros e simplesmente aceitar que, daquela vez, ele estava abrindo mão das sombras para ser honesto comigo. Outra parte, porém, continuava lembrando de cada detalhe do passado, de todas as vezes em que ele tomou decisões por mim sem me contar a verdade, usando sua autoridade para me manter no escuro enquanto me colocava no centro de um turbilhão que eu sequer compreendia. Baixei os olhos para o prato, observando os últimos vestígios do jantar, e respirei fundo. O ar parecia mais pesado no quarto, saturado pelo perfume dele e pela lembrança quente de minutos atrás. — Eu ainda estou confusa, Lion — murmurei, a voz macia, quase vacilante
Depois de tudo, meu corpo parecia ter esquecido como se sustentava sozinho. Eu ainda respirava arfante, o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado, quando senti os braços de Lion me envolverem com uma firmeza possessiva. Não havia nenhuma ordem dessa vez, nenhuma provocação. Apenas aquele movimento potente com que ele me ergueu da cama, como se soubesse, com absoluta certeza, que minhas pernas estavam bambas demais para colaborar depois da intensidade avassaladora que havíamos compartilhado. Passei os braços ao redor do pescoço dele por puro instinto, colando a pele quente do meu rosto contra o seu peito nu. O coração dele batia forte e ritmado sob a minha bochecha, e o cheiro de sexo, suor e do seu perfume amadeirado preenchia meus sentidos. Por alguns segundos, simplesmente permaneci ali, totalmente nua em seus braços, deixando que seu corpo forte me carregasse. — Para onde você está me levando? — perguntei, a voz rouca, baixa e impregnada de sono. — Banho — a resp
Por vários segundos, o silêncio dominou o espaço. Ele não apenas olhava para mim; ele me desnudava com o olhar, calculando cada reação. Havia uma autoridade implacável ali, uma promessa silenciosa de que a brincadeira ingênua havia acabado. Sem margem para fuga. Ele juntou minhas mãos à frente do meu corpo e envolveu o couro ao redor da minha pele, ajustando a fivela com uma calma calculada e provocante. Seus dedos deslizaram entre o couro e a minha carne, certificando-se de que a contenção estava perfeita. Em seguida, ergueu meus pulsos presos até a altura do meu peito. — Olhe para mim — a voz dele veio baixa, em um tom de comando absoluto que não aceitava objeções. Meu olhar encontrou o dele. Ele não pediu permissão. Apenas leu a rendição nos meus olhos. Um sorriso lento e perigoso surgiu no canto de seus lábios. Lion deu um puxão seco no cinto, reduzindo a distância entre nós a milímetros. — Caminhe — ordenou. Eu o acompanhei. Cada passo pelo corredor acelerava a mist
Minha garganta ficou seca sem resposta. Eu poderia ter simplesmente escolhido uma roupa, vestido alguma coisa e encerrado aquela conversa. Mas alguma coisa dentro de mim queria provocá-lo. Talvez porque eu ainda estivesse irritada com Stephanie. Talvez porque, depois de tudo o que Lion tinha feito, eu quisesse descobrir até onde aquela calma aparentemente inabalável conseguia chegar.—Eu não estou com ciúmes— disse a ele.— Eu apostaria tudo que eu tenho que você está.—Perderia— Retruquei.Peguei outra calça da sacola e a ergui diante do corpo.— Bonita — murmurei, mais para mim mesma.— É.Olhei para ele pelo canto dos olhos.— Você nem olhou a calça direito.— Eu estou falando de você.Meu coração deu um salto, mas eu não deixei transparecer.— Então talvez seja melhor você olhar para outro lugar.Um sorriso discreto apareceu no canto da boca dele.— Você quer mesmo que eu faça isso?Não respondi.Em vez disso, virei de costas e comecei a trocar de roupa, sabendo perfeitamente que
Depois que Lion voltou para a sala, permaneci alguns minutos na cozinha, tentando me convencer de que não havia motivo algum para continuar pensando nele. Eu ainda estava irritada, ainda desconfiava dele e, acima de tudo, ainda não conseguia esquecer que minha vida havia sido colocada em risco por decisões que ele tomara sem sequer me contar. Mesmo assim, era impossível ignorar a maneira como ele conseguia desviar minha atenção de tudo isso com um simples olhar. Pouco depois, ouvi a porta do banheiro se fechar no andar de cima. Não precisei perguntar para saber que Lion já havia ido tomar banho. Voltei para o quarto e permaneci algum tempo perto da janela, observando o céu encoberto enquanto tentava organizar meus pensamentos. A casa continuava silenciosa, grande demais para apenas duas pessoas, e aquela sensação de estar presa ali ainda me incomodava profundamente. Eu não sabia quanto tempo permaneceria naquela casa, nem o que aconteceria quando Daniel e Helena finalmente descobris
Lion continuou me encarando de um jeito que me deixou desconfortável. Não era o olhar frio que eu tinha visto tantas vezes nos últimos dias. Também não era aquele olhar ameaçador que fazia qualquer pessoa recuar. Era algo mais silencioso, mais atento, como se ele estivesse tentando ler aquilo que eu não dizia. Foi então que ele começou a caminhar em direção à sala, e sem qualquer explicação, levou uma das mãos ao primeiro botão da camisa. Eu acompanhei o movimento por puro reflexo. O primeiro botão foi aberto. Depois o segundo. Ele continuou andando, sem pressa, enquanto os dedos percorriam os botões restantes. A abertura entre a cozinha e a sala permitia que eu enxergasse boa parte do que acontecia ali, e, quando me virei novamente para colocar o prato sobre a bancada, meus olhos acabaram encontrando Lion outra vez. Ele estava tirando a camisa. O tecido deslizou pelos ombros e revelou suas costas largas, fortes, definidas de uma maneira que eu não deveria estar reparando. Os mús







