Compartir

Capítulo 4

Autor: CANLI
last update Fecha de publicación: 2023-09-02 06:51:24

GUTEMBERG (Fantasma)

Todo governo tem suas leis.

Todo crime tem um propósito.

Toda sociedade tem regras.

É pura lógica: estamos tão obcecados com a ideia de liberdade que não percebemos o óbvio. Ainda somos os mesmos. Acontece que é muito mais complexo. É fácil fingir que não há controle.

As leis do mundo do crime são simples, mas aqui há uma coroa espinhosa e ensanguentada, um cinto de munição debaixo da cabeça, e cada decisão é pensada para causar o menor impacto. Isso significa que as ordens do rei devem ser obedecidas.

Limpo a garganta, coçando a nuca, enquanto Timmy limpa sua pistola, como se a noite passada nunca tivesse existido.

— Você está bem? — ele pergunta, com um sorriso provocante nos lábios, feliz o suficiente para me fazer pensar quantas vezes ele já participou de torturas. Muitos, provavelmente. Para alguém como Timmy, nascido e criado na pobreza, os episódios de violência surgem naturalmente. Mas não para mim.

Tento não parecer que estou prestes a vomitar só de olhar para o sangue espalhado pelo sofá, porque isso me faria parecer fraco. Mas foda-se.

— Essa merda é nojenta. — digo, vendo um dos seguranças se sentar perto da poça de sangue e morder seu sanduíche, sem sequer fazer careta.

— Relaxa, cara. — Timmy diz, e eu semicerro os olhos na direção dele. Ele não tem nem dezoito anos, mas pelas tatuagens e músculos no corpo, poderia ser mais velho que eu.

— Estou bem. — respondo, traçando círculos com os dedos na minha calça jeans. Ele bufa, mas não diz mais nada. E eu agradeço mentalmente.

— O que você vai fazer com a Pryia? — pergunta o cara do sanduíche, ainda sentado perto da poça de sangue.

Eu faço uma careta.

— Não fale o nome dessa vadia. — rosno, cerrando os punhos, pronto para marcar o rosto do desgraçado.

Não me esqueci do trapaceiro desde que descobri a traição e estava indo resolver o problema quando Timmy me ligou, dizendo que o chefe precisava conversar.

Uma noite inteira de tortura! Eu não.

O idiota que decidiu vender a fórmula que criei para os mexicanos sem nossa autorização.

Claro, isso me leva a Pryia.

Todo mundo pensa que Blake comandava a colina, mas ele morreu há menos de dois anos e, desde então, o único na linha de frente é seu irmão mais novo, Huxley, ou como prefere ser chamado, Meia-Noite. O cara tinha dezessete anos quando viu seu irmão ser assassinado e depois teve que enterrá-lo sozinho. Não acredito que naquele momento ele teve a ousadia de ocupar o lugar do irmão, mas foi o que aconteceu.

— Ela foi embora. — Timmy diz, e minha atenção se volta para ele.

— O que você quer dizer? — pergunto, finalmente me sentindo capaz de me levantar sem vomitar.

— Qualquer coisa.

Estalo a língua e encolho os ombros.

— Não parecia nada disso há meio minuto.

Um som baixo e risonho sai da garganta dele.

— Essa boceta realmente mexeu com a sua cabeça, não foi?

A raiva explode nas minhas veias. Primeiro, porque ele está certo. Pryia sempre teve controle sobre mim, mas agora que descobri os chifres que ela preparou especialmente para minha cabeça, estou obcecado.

O cara do sanduíche, que já parece ter terminado sua refeição e quer muito me provocar, bufa e aponta para a porta.

— O quê!? — grito para ele.

— Todo mundo está te chamando de corno.

Abro e fecho a boca, estreitando os olhos na direção da porta.

— Merda!

Timmy começa a rir e caminha até meu lado, dando tapinhas amigáveis no meu ombro.

Vejo tudo vermelho.

— Quem está me chamando assim? — meus olhos não saem da porta por um segundo. A adrenalina de ter presenciado um assassinato pela primeira vez ainda percorre meu corpo.

— Cara... — Timmy começa, mas eu afasto o braço dele e olho para o cara do sanduíche.

— Quem diabos?! QUERO NOMES!

Ele me encara por alguns segundos, surpreso, antes de balançar a cabeça negativamente. Eu o agarro pela camisa e bato meu punho no estômago dele.

Alguém xinga ao fundo, mas estou tão concentrado que não ouço os protestos até que alguém me tira de cima do infeliz.

— Que porra é essa na porra da minha casa?! — piscando algumas vezes, foco no rosto jovem, mas marcado por cicatrizes, de Huxley, ou Meia-Noite. É difícil dissociar o rosto do nome quando você conhece a pessoa há tanto tempo.

— Ele me atacou, chefe! — diz o cara do sanduíche, e eu reviro os olhos. Ele não sabe que Meia-Noite é realmente o chefe, mas pensa que ele é apenas o segundo em comando.

— Fantasma está chateado porque a namorada dele saiu com um sugar daddy e o maluco, aqui. — Ele aponta para o cara do sanduíche.

— Gosta de brincar com fogo. — rosno. Porra! Ela me trocou por um velho? Sério?

— Eu acabei de dizer que todo mundo estava chamando ele de corno.

O cara do sanduíche parece irritado por Timmy não defendê-lo.

— Como eu disse, brincando com fogo. Ninguém chama traficante de corno, cara.

Levanto as sobrancelhas e inclino a cabeça na direção de Timmy.

— Eu já disse que não sou traficante. — falo.

Ele levanta as duas mãos, com uma expressão entediada.

— Só produz.

— Isso é completamente diferente. — eu pisco para ele.

— Cara, se você está tão chateado com os chifres, por que não se vinga? — é o cara do sanduíche falando de novo. Esse cara não para.

Passo a língua entre os lábios secos, percebendo que não sei há quanto tempo não bebo água, o que só me irrita mais. Tenho uma rotina rigorosa, inclusive com a quantidade de água que devo beber por dia.

— Eu adoraria arrastar aquela vadia por quilômetros, pelos cabelos, tirar toda a roupa e humilhá-la na frente da família, mas ela fugiu para outro país, então...

— E a irmã dela? — ele fala, e meus pés travam no caminho até a geladeira.

— Quem? — arqueio uma sobrancelha, mas antes que ele tenha chance de responder, Timmy enfia a arma na boca do infeliz e começa a cuspir ameaças.

— Não fale o nome dela, não olhe para ela, não pense nela, porra!

Justo quando penso que ele vai matar o desgraçado, Timmy relaxa e se vira lentamente para mim, com a arma ainda na mão.

— Davina não tem nada a ver com sua merda com Pryia, Fantasma. Deixe-a fora disso.

Davina.

O nome ecoa em minha mente. Primeiro, eu não sabia que Pryia tinha uma irmã adolescente, e segundo, o que eu faço com essa informação?

Ignorar a descoberta estava se tornando mais difícil, especialmente depois que Timmy praticamente declarou que possuía a garota como um homem das cavernas. Seu erro. Isso só aumentou minha curiosidade.

Esfrego o rosto com a palma da mão e abro a torneira, já se passaram mais de quarenta e oito horas desde que saí de casa, e tenho certeza de que meu celular foi bombardeado com mensagens e ligações da minha irmãzinha. Ela costuma não se importar quando estou fora, provavelmente o oposto disso, mas como recebi tantos sermões de Jimmy, decidi poupar meus ouvidos das reclamações de pai perfeito dele e mandar meu melhor amigo ser babá.

Não de graça.

Nunca de graça.

Mas como ele provou minhas receitas especiais, sou sua fonte particular de suprimento. Claro, nenhum de nós dois fala sobre minha função extracurricular, embora eu suspeite que ele tenha seus próprios segredos.

Tiro o celular do bolso e vou direto para o número de contato dele, acenando quando Meia-Noite passa por mim e acena.

— Você já vai? — ele pergunta, sem olhar para mim, pegando uma maçã da geladeira.

— Eu preciso verificar minha irmã. — justifico, encolhendo os ombros. Normalmente não fico mais de um dia no morro, embora tenha uma casa aqui também.

Ele franze a testa, fazendo uma careta.

— Irmã? — repete.

— Sim, você a conheceu naquela época. — faço uma careta. — Por alguns minutos.

Meia-Noite bufa, mordendo a maçã com raiva.

— Mas pra ela tentando me matar. — ele geme, soltando uma risada.

— Aquela era apenas uma garotinha se defendendo. — explico, embora ele não tenha pedido explicação e, francamente, ele não precisa. Morgana vive em uma bolha cor de diamante e pensou que sua casa havia sido invadida, então ela agiu impulsivamente e bateu a cabeça dele com uma panela? Problema. Fiquei orgulhoso. — Além disso, as pessoas tentam matá-lo todos os dias. — acrescento.

— Qualquer que seja. — diz ele, e o silêncio cai entre nós até que finalmente Vincent murmura do outro lado da linha.

— Que diabos! — pragueja, meio sonolento. — Que horas são? — olho para o relógio em meu pulso e assobio.

— Mais do que hora de acordar, Cinderela.

— Rapunzel. — olho para Meia-Noite.

— Como?

— A princesa certa é Rapunzel, não Cinderela. — falo, o tom quase condescendente.

Ele levanta o dedo médio e rosna meia dúzia de palavrões.

Meu sorriso se alarga.

— Onde você está, afinal? — Vincent retoma minha atenção. — É um dia e uma noite.

Suspiro.

Ele é meu melhor amigo, e odeio esconder essa parte da minha vida dele, mas a situação dele com a família é ainda mais complicada que a minha, e não preciso da atenção que sua presença exige.

— Houve um imprevisto. — Meia-Noite j**a a maçã meio comida no lixo e abre o armário, pegando uma jarra de leite e enchendo-a com água da torneira. Observo enquanto ele finge que não está prestando atenção na conversa. — Estou a caminho. — fecho a ligação, apoio o ombro na parede e espero ele começar a falar.

— Você ainda mantém essa parte da sua vida em segredo?

Vualá.

— Eu não deveria? — ele olha para mim por um segundo antes de decidir que não vale a pena e voltar a se concentrar na borra de café.

Reviro os olhos.

— O quê? — pergunto.

— Qualquer coisa.

— Cara, preciso encontrar meus pais e falar com minha irmã. Volto mais tarde.

— Eu preciso que você esteja aqui hoje. — diz ele, e eu olho para ele novamente.

— Por quê? — pergunto quando ele fica em silêncio novamente.

— Você saberá quando estiver aqui.

Passo a mão no rosto e aceno com a cabeça, porque sabia que não conseguiria manter os dois lados do meu mundo separados por muito mais tempo, mas achei que teria mais tempo.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App
Comentarios (1)
goodnovel comment avatar
Lalesca Oliveira
mais POR FAVOR
VER TODOS LOS COMENTARIOS

Último capítulo

  • Ligados pela vingança   FINAL

    DAVINAO auditório está lotado, mas me sinto estranhamente só enquanto caminho pelo palco. O diploma em minhas mãos é um símbolo de tudo o que conquistei, mas também de tudo o que perdi. Seis meses atrás, eu nunca teria imaginado estar aqui sem meu pai na plateia. Minha mãe não veio. Ainda está no sítio de Vincent, levando uma vida tranquila ao lado de outras mulheres que, como ela, carregam cicatrizes. Sinto saudades, mas compreendo. Ainda assim, ver minha avó sentada na primeira fila me traz um pequeno alívio.Quando ergo os olhos, encontro os rostos que se tornaram minha nova família. Timmy, com seu ar protetor e seu sorriso torto, veste um terno azul profundo que reflete sua ousadia e estilo. Meia-noite, ou Huxley, como o chamo agora, carrega sua aura de mistério em um terno vinho, sóbrio e imponente. Gutemberg, o Fantasma, que já não é mais tão fantasma assim, está em um cinza chumbo, impecável como o menino rico que sempre foi. Vincent, encostado, displicente, mas atento a cada

  • Ligados pela vingança   124

    DAVINAGutemberg tomou a frente, a voz carregada de autoridade e tensão.— Davina está certa. Se prenderem Jimmy, ele não vai perdoar o dia de hoje. Ele retaliará, e a cadeia não será impedimento. — declarou, os olhos faiscando de convicção.Sem hesitar, ele colocou uma pistola na minha mão, pressionando-me para seguir com o grupo.— Vá com eles, eu vou procurar por Jimmy — ordenou.Mas eu me recusei. Aaron gemeu, o som fraco e de dor fazendo meu coração apertar. Timmy se adiantou, encarando meu rosto.— Aaron precisa de um hospital.Fiquei dividida, meus olhos oscilando entre Gutemberg e Aaron, com a vida se esvaindo em cada respiração lenta. Então, num gesto de urgência, Gutemberg se aproximou e beijou meus lábios com paixão abrupta. —Aaron precisa de você agora. —ele sussurrou com intensidade.—Eu vou com Gutemberg. Tenho minhas próprias contas para acertar com Jimmy!— Pryia, com os punhos cerrados e o olhar perdido, declarou com voz carregada de raiva.Todos nós olhamos para el

  • Ligados pela vingança   123

    DAVINA— Davina. — Aaron falou, o tom evidentemente preocupado.Antes que eu pudesse reagir, três homens avançaram. Dois deles agarraram Aaron, o empurrando contra a mesa enquanto ele lutava para se soltar. Um soco acertou sua costela, e ele gemeu de dor. Outro golpe, agora no rosto, e o sangue manchou seu queixo.— Parem! — gritei, tentando avançar, mas mãos fortes me seguraram. Eu chutei e me debati, mas foi inútil.O tio de Vincent me segurou com facilidade, seus dedos apertando meus braços como ferro.— Eu gosto do seu espírito. Mas agora… — Ele ergueu a mão.Um golpe forte atingiu minha nuca. O mundo girou.O último som que ouvi antes de perder a consciência foi a risada cruel daquele homem.Acordei com o cheiro metálico de sangue e um latejar cortante na cabeça. A dor na minha cabeça era insuportável, como se meu cérebro estivesse tentando se expandir dentro do crânio. O ambiente era sufocante, composto por móveis escuros e paredes cinzas, com uma parede cheia de monitores exibi

  • Ligados pela vingança   122

    DAVINAEu respiro fundo, me preparando para o que vem a seguir, mas no último momento, uma voz inesperada invade o fone. Uma voz que me faz prender a respiração, a garganta apertando instantaneamente. É Vincent.— Davina... — Ele diz, e a suavidade de sua voz me choca. — Meu tio fugiu. Está sendo protegido por Jimmy.O ar parece congelar por um segundo. Eu não sei se entendi direito, mas o que ele acabou de dizer? O que significa isso?A tensão no carro se intensifica. Aaron solta um resmungo irritado, as palavras saindo de sua boca em um tom baixo, mas cheio de desprezo.— Italianos fodidos... — Ele murmura, os olhos fixos na tela à sua frente.Mas o tom da voz de Vincent muda. Algo em sua fala, em seu jeito de se comunicar, muda completamente. Ele fala diretamente comigo, e sua voz carrega uma advertência, uma preocupação que me faz calafrios subirem pela minha espinha.— Cuide-se, Davina. Baby, eu... — Ele diz, e a seriedade é palpável. — É bom que vocês, idiotas, protejam, minha g

  • Ligados pela vingança   121

    DAVINAEu sinto os olhos em nós enquanto descemos as escadas, os passos de Gutemberg firmes ao meu lado, os nossos dedos entrelaçados com naturalidade. O calor da sua mão na minha me dá uma sensação de segurança, embora eu saiba que, por mais que o toque dele seja suave, o que está por vir não será fácil. Cada degrau que descemos ecoa dentro de mim, cada movimento meu parece mais pesado que o anterior. Mas o que me surpreende é a calma dele. Como se ele soubesse exatamente o que fazer. Como se, de alguma forma, ele já tivesse aceitado o risco e soubesse que a batalha que se aproxima não é mais sobre escolha. É sobre obrigação.Chegamos ao fim das escadas e, ao olhar para a sala, vejo todos esperando. Timmy, com a expressão cerrada e os punhos provavelmente apertados. Aaron, sempre com olhar de cálculo, examinando tudo com a frieza de quem já está pensando no próximo movimento. E Meia-noite, que observa todos com a autoridade de quem já viu e fez de tudo. Nada está fora de lugar, e, po

  • Ligados pela vingança   120

    DAVINANós temos um plano.Eu repito isso mentalmente enquanto ajusto a calça jeans apertada, sentindo o tecido moldar minhas pernas com uma precisão quase incômoda. O peso da faca contra a minha pele dentro da bota me traz uma estranha sensação de segurança. Timmy me ensinou a usá-la, golpes curtos, certeiros, direto onde dói mais. Eu lembro de suas mãos segurando as minhas, do calor do seu corpo quando ele sussurrava que, no fim das contas, o elemento surpresa era a melhor arma de todas.Deslizo a pistola para dentro da cintura da calça. Meia-noite me ensinou a manejá-la, ensinou a não tremer na hora de puxar o gatilho. "Se hesitar, morre", ele sempre diz.O clique discreto da porta se abrindo me faz erguer os olhos para o espelho. Gutemberg entra no quarto sem pedir permissão, como se pertencesse a ele. E talvez pertença, não o quarto, mas o momento. Seu olhar percorre meu corpo de cima a baixo, e tem algo estranho ali. Não é desejo, não é desaprovação. É algo no meio, algo carrega

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status