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CAPÍTULO 70 - DELICADEZAS DO AMOR

last update Fecha de publicación: 2025-12-20 01:22:02

O tempo seguiu passando com a delicadeza de quem sabe esperar. As semanas foram se acomodando umas nas outras, e a fazenda assumiu um novo ritmo — não mais marcado pela ausência, mas por uma presença diferente, silenciosa e constante. Isabella já não acordava com o susto da lembrança. A dor ainda existia, mas agora vinha mansa, como saudade que não machuca, apenas acompanha. Rafael percebeu isso antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa.

Numa manhã, enquanto consertavam juntos uma cerca caída
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  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 150 - O QUE NUNCA SE PERDE

    A noite caiu devagar, como se soubesse que aquele era um momento que não devia ser apressado. A casa estava cheia de silêncio — um silêncio carregado, pulsante, desses que antecedem algo definitivo. Não havia tristeza ali. Havia intensidade.Isabella estava sentada na varanda, as mãos apoiadas no colo, olhando o céu como fizera tantas vezes ao longo da vida. As estrelas surgiam uma a uma, tímidas, mas constantes. O vento trazia um cheiro distante de terra molhada, mesmo tantos anos depois da fazenda ter ficado para trás. Algumas raízes nunca soltam o mundo completamente.Rafael apareceu atrás dela, sem fazer barulho. Sentou-se ao seu lado, como sempre fazia, e por um instante nenhum dos dois falou. Não precisavam. O tempo os ensinara que há sentimentos grandes demais para caberem em palavras imediatas.— Ela vai amanhã. — Isabella disse por fim, a voz firme, mas atravessada por algo fundo.Rafael assentiu devagar.— Vai. — respondeu — E vai voltar diferente. Como todos nós voltamos.I

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 149 - RAÍZES QUE ANDAM

    Clara abriu o diário com cuidado, como se o papel pudesse se assustar com movimentos bruscos. A capa azul já não era nova; havia marcas de dedos, uma dobra antiga no canto, um adesivo desbotado que ela colara anos atrás sem saber por quê. Sentou-se na cama, cruzou as pernas e respirou fundo antes de escrever. Não porque faltassem palavras — mas porque havia muitas.“Hoje eu senti vontade de lembrar.”Escreveu devagar, a letra um pouco torta no começo, como sempre ficava quando algo dentro dela se mexia. A casa estava silenciosa naquela tarde. A mãe organizava papéis na sala, o pai falava baixo ao telefone no escritório. Clara gostava daquele silêncio — não o de ausência, mas o de pertencimento. Ainda assim, havia um ruído dentro dela, feito vento antes da chuva.“Minha infância não foi barulhenta. Foi espaçosa.”Sorriu sozinha.Lembrou-se da fazenda como quem lembra de um cheiro. Não vinha inteira, não vinha em imagens perfeitas — vinha em sensações. O chão frio pela manhã, o sol esqu

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 148 - O QUE FICA QUANDO O TEMPO PASSA

    A casa estava silenciosa naquela noite. Não o silêncio vazio, mas aquele que só existe quando tudo está no lugar certo. Isabella apagou a última luz da cozinha, caminhou devagar pelo corredor e parou à porta do quarto de Clara. A menina — já não tão menina — dormia de lado, livros espalhados pela escrivaninha, um caderno aberto com anotações do vestibular, o abajur ainda aceso por descuido.Isabella entrou sem fazer ruído e apagou a luz. Ficou ali alguns segundos, observando o contorno do rosto da filha na penumbra. Era impossível não ver, naquele traço mais firme do que antes, o bebê que um dia coube inteiro em seus braços. O tempo não havia pedido permissão. Apenas passara — e levara consigo versões antigas de todos eles.Fechou a porta com cuidado e seguiu para a varanda.Rafael estava sentado ali, em silêncio, olhando o céu. O violão repousava ao lado da cadeira, intocado. Isabella sentou-se ao lado dele, encostando o ombro no dele como fizera tantas vezes ao longo dos anos.— Tá

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 147 - ONDE A MÚSICA APRENDE A ESPERAR

    O camarim cheirava a madeira antiga, spray de cabelo e nervosismo contido. Rafael estava sentado diante do espelho, o violão apoiado entre as pernas, os dedos pousados nas cordas sem pressa. Do lado de fora, o som da plateia já formava um corpo próprio — vozes misturadas, passos, expectativa. O último show da turnê sempre tinha um peso diferente. Não era despedida ainda, mas também não era apenas continuidade.Isabella estava sentada no sofá estreito, folheando distraidamente o programa do espetáculo. Clara, mais afastada, mexia no celular, fingindo desinteresse — fingimento que Rafael conhecia desde o nascimento dela.— Tá nervoso? — Isabella perguntou, sem levantar os olhos.— Não. — respondeu, sorrindo de canto — Tô inteiro.Ela entendeu. Inteiro era mais do que pronto. Era alinhado.Clara levantou o olhar.— Pai… — hesitou — É verdade que esse é o último mesmo?Rafael virou-se para ela, sério e tranquilo.— É o último dessa fase.Ela assentiu, absorvendo.— E depois?Ele respirou

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 146 - O TEMPO QUE ANDA SOZINHO

    Rafael acordou antes do sol naquele dia, não por barulho, nem por compromisso — acordou porque o pensamento não dormira. Ficou alguns minutos deitado, olhando o teto, ouvindo a respiração da casa. Isabella dormia ao seu lado, tranquila, como quem já aprendera a confiar no fluxo das coisas. Ele invejou, com carinho, aquela serenidade.Levantou-se devagar, vestiu a camisa velha e saiu para a varanda. O céu ainda estava indeciso entre a noite e o dia, pintado de tons pálidos. O cheiro de terra úmida trouxe lembranças antigas, mas foi outra imagem que insistiu em ocupar seu peito: Clara pequena, correndo desajeitada pelo terreiro, caindo, levantando, rindo sem medo do chão. Agora ela falava de cidade, de amigos, de outros mundos.Rafael sentou-se no degrau mais baixo da varanda e passou a mão pelo rosto, não havia dor ali, havia deslocamento. Como quando a música muda de tom sem aviso, e o músico precisa acompanhar para não desafinar.— Quando foi que você ficou grande assim? — murmurou p

  • Livro 1 - NOTAS DO DESTINO   CAPÍTULO 145 - ENTRE O CAMPO E O MUNDO

    A manhã começou com o cheiro de pão assando e o som distante de Clara conversando sozinha no quintal, como fazia quando estava pensando demais para a própria idade. Isabella percebeu antes mesmo do pedido, mães aprendem a reconhecer quando o silêncio vem carregado de intenção.Clara entrou na cozinha arrastando a cadeira e sentou-se à mesa, o queixo apoiado nas mãos.— Mãe…Isabella continuou mexendo o café, fingindo desatenção.— Quando começa assim, geralmente vem coisa grande depois.— Não é grande. — Clara disse rápido — É… importante.Isabella virou-se, apoiou o quadril na pia e cruzou os braços, já sorrindo.— Diga, dona importância.Clara respirou fundo, como se estivesse prestes a anunciar algo histórico.— Eu queria voltar pra cidade grande. Pelo menos por um tempo.Isabella arqueou a sobrancelha.— Voltar… como assim?— Pra BH. — explicou — Tô com saudade da escola, das meninas, da rotina. Aqui é bom, mas… — ela deu de ombros — Às vezes parece que o mundo fica pequeno.Isabe

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