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Capítulo 01

Author: sLunny
last update publish date: 2026-09-15 19:32:19

Íris

Uma semana depois

Uma semana deveria ser suficiente para amenizar alguma coisa. Pelo menos é isso que as pessoas dizem quando não sabem o que falar — “o tempo melhora”, “você vai esquecer”, “vai passar” — como se o tempo fosse uma espécie de anestesia emocional que apaga o que dói. Mas, uma semana depois, eu ainda sinto o gosto amargo daquele dia toda vez que lembro, como se tivesse ficado preso na minha boca, como se fosse impossível engolir de verdade o que aconteceu. Eu ainda acordo com o peito apertado, ainda evito olhar o celular por medo de ver qualquer coisa que me lembre dele, ainda sinto vergonha quando penso na cena inteira, na forma como fui exposta, descartada, diminuída. E, acima de tudo, ainda sinto raiva — uma raiva silenciosa, pesada, que não explode, mas que fica ali, acumulando, me mantendo acordada mais do que deveria.

O cheiro de café invade o ambiente antes mesmo de eu terminar de descer as escadas, e por um segundo, só por um segundo, eu considero a possibilidade de voltar para o quarto e fingir que estou doente, inventar qualquer desculpa para não enfrentar o que está prestes a acontecer hoje, mas eu sei que isso não vai funcionar. Nunca funciona. Meus pais não são o tipo de pessoa que aceita fuga como resposta, muito menos quando já decidiram tudo por mim. Então eu continuo descendo, mesmo com cada passo parecendo mais pesado do que o anterior, como se meu próprio corpo estivesse resistindo à ideia de seguir em frente.

A mesa do café da manhã está posta como sempre, impecável, organizada demais, perfeita demais, como se estivéssemos vivendo em uma propaganda de família funcional. Minha mãe já está sentada, tomando café em pequenos goles delicados, enquanto meu pai lê algo no tablet com a mesma expressão concentrada de sempre. Eles levantam o olhar quando eu entro, e eu sinto aquele pequeno desconforto no ar, aquele silêncio que diz muito mais do que qualquer palavra poderia dizer.

— Bom dia — minha mãe diz, suave, como se nada tivesse acontecido na última semana.

— Bom dia — respondo, automaticamente, sentando na cadeira sem realmente olhar para eles.

Meu pai apoia o tablet na mesa e me observa por um segundo a mais do que o necessário.

— Hoje é o primeiro dia — ele diz, direto, sem introdução, sem cuidado.

Eu solto uma respiração leve pelo nariz, pegando a xícara de café mais para ocupar as mãos do que por vontade de beber.

— Eu sei.

— O motorista já está pronto — minha mãe acrescenta, como se fosse uma informação neutra, comum, como se não estivesse me empurrando diretamente para algo que eu deixei muito claro que não queria.

Eu encaro o café por alguns segundos antes de finalmente tomar um gole, sentindo o líquido quente descer pela garganta, mas sem conseguir realmente aproveitar o gosto.

— Vocês realmente acham que isso vai funcionar? — pergunto, sem levantar os olhos, porque não quero ver a expressão deles.

— Funcionar em quê? — meu pai rebate, imediatamente.

Eu dou um sorriso curto, sem humor.

— Em me fazer gostar disso. Em me fazer esquecer. Em me fazer… sei lá, virar outra pessoa.

Minha mãe pousa a xícara com cuidado.

— Não se trata de gostar, Íris. Se trata de aprender.

— Aprender o quê? — finalmente levanto o olhar, encarando os dois — A aceitar tudo sem questionar?

O silêncio que segue é pesado, mas não dura muito.

— A ter disciplina — meu pai responde, firme — A construir algo. Você precisa disso.

Eu quero argumentar. Quero dizer que não preciso de nada disso, que tudo que eu precisava era de um pouco de controle sobre a minha própria vida, mas eu sei que não vai adiantar. Nunca adianta. Então eu apenas termino meu café em silêncio, engolindo junto todas as palavras que eu gostaria de dizer.

Poucos minutos depois, eu já estou no carro, no banco de trás, com o cinto apertando mais do que deveria e a sensação de estar sendo levada para um lugar onde eu não pertenço. O motorista dirige em silêncio, como sempre, enquanto a cidade de São Paulo se move do lado de fora da janela, viva, caótica, indiferente ao fato de que a minha vida parece completamente fora do eixo. Eu observo as ruas, as pessoas, os prédios passando, tentando me distrair, tentando não pensar no destino, mas é inútil. A cada minuto que passa, a realidade se aproxima mais.

Le Cordon Bleu.

Só de pensar, meu estômago se revira.

O carro desacelera, faz a curva e para em frente ao prédio, e por um segundo eu simplesmente fico parada, olhando pela janela, absorvendo a imagem. O lugar é… bonito. Imponente. Limpo demais. Profissional demais. Pessoas entram e saem com confiança, com postura, com aquela segurança de quem sabe exatamente o que está fazendo. E eu… eu não faço a menor ideia.

— Chegamos — o motorista anuncia.

Eu sei.

Mas não me mexo.

— Senhorita Íris? — ele chama de novo, dessa vez com mais cuidado.

Eu respiro fundo, abrindo a porta antes que eu desista completamente. O ar lá fora é diferente, mais frio, mais seco, e parece que tudo ao redor está em movimento, menos eu. Eu ajusto a bolsa no ombro e começo a andar, sentindo os olhares, mesmo que talvez eles nem existam de verdade. A insegurança faz isso — cria julgamentos que nem sempre estão ali.

A recepção é organizada, eficiente, quase intimidadora. Uma mulher uniformizada me atende com um sorriso profissional.

— Bom dia. Nome?

— Íris.

Ela digita algo rapidamente e assente.

— Primeira aula? — pergunta.

— Infelizmente — respondo antes de conseguir filtrar.

Ela solta um sorriso leve, como se estivesse acostumada com aquilo.

— Sala três. E você vai precisar da dólmã.

Eu a encaro por um segundo.

— Da quê?

Ela aponta para um balcão ao lado, onde várias peças brancas estão organizadas.

— Uniforme.

Claro.

Eu pego a peça, olhando para aquilo como se fosse um enigma, e sigo até o vestiário indicado. Lá dentro, outras alunas já estão se trocando com naturalidade, como se aquilo fosse parte da rotina delas. Eu fico parada por alguns segundos, completamente deslocada, até que uma garota se aproxima.

— Primeira vez? — ela pergunta, simpática.

— Tá tão óbvio assim?

Ela ri.

— Um pouco. Vem, eu te ajudo.

Ela pega a dólmã das minhas mãos e me mostra como vestir, como ajustar, como prender corretamente, e eu sigo tudo meio no automático, tentando memorizar cada detalhe, mesmo sabendo que provavelmente vou esquecer metade.

— Pronto — ela diz, dando um passo para trás — Agora você parece uma de nós.

Eu olho para mim mesma no espelho.

Não parece.

Nem um pouco.

A sala de aula é ainda pior.

Ou melhor.

Ou os dois ao mesmo tempo.

Bancadas organizadas, utensílios impecáveis, ingredientes alinhados, tudo funcionando como uma engrenagem perfeita, em que cada pessoa sabe exatamente o seu lugar. Eu entro mais devagar, tentando não chamar atenção, mas falhando miseravelmente nisso, porque a sensação de estar sendo observada não passa.

O professor começa a explicar, e eu tento acompanhar, juro que tento, mas é como se ele estivesse falando outro idioma. Termos que eu nunca ouvi, técnicas que eu não entendo, movimentos que parecem simples para todo mundo… menos para mim.

— Agora, vocês vão começar — ele anuncia.

E é aí que tudo desanda.

Eu olho para os ingredientes na minha frente como se estivesse encarando um problema matemático impossível de resolver. Minhas mãos hesitam, meus movimentos são lentos, inseguros, e quanto mais eu tento acompanhar, mais eu percebo que estou ficando para trás.

— Senhorita… — o professor chama, olhando diretamente para mim — O que você está fazendo?

Eu paro.

Porque eu não sei.

— Eu… — começo, mas não termino.

Ele suspira.

— Isso está errado. Completamente errado. Você não prestou atenção?

Algumas pessoas olham. Outras disfarçam. Mas eu sinto.

— Eu… é meu primeiro dia.

— Isso não é desculpa — ele corta, seco — Aqui não trabalhamos com tentativa. Trabalhamos com execução.

Execução.

A palavra pesa.

Eu engulo em seco, tentando refazer, tentando acompanhar, mas minhas mãos tremem levemente, e isso só piora tudo. O creme passa do ponto. A textura fica errada. E quando eu percebo, já não tem mais conserto.

— Pare — o professor diz.

E então ele simplesmente pega minha preparação e descarta.

Na minha frente.

Como se não fosse nada.

Como se eu não fosse nada.

— Se não consegue fazer o básico, precisa rever se esse é o lugar certo para você.

Eu sinto o rosto esquentar, o peito apertar, e por um segundo, só por um segundo, eu penso em sair dali, em largar tudo, em provar que ele está certo, que eu realmente não pertenço àquele lugar, que aquilo não é para mim, que nunca foi.

Mas eu fico.

Mesmo sem saber por quê.

Talvez por orgulho.

Talvez por raiva.

Talvez porque eu já esteja cansada de fugir.

E é nesse momento, enquanto eu tento respirar fundo e juntar o pouco de dignidade que ainda me resta, que eu sinto um olhar diferente. Não é julgamento. Não é pena. Não é curiosidade superficial.

É… atenção.

Eu viro o rosto.

E é quando eu vejo ele pela primeira vez.

Encostado em uma das bancadas mais ao fundo, postura relaxada demais para alguém naquele ambiente, braços cruzados, observando tudo com um ar que não é exatamente desinteressado, mas também não é envolvido como o resto da turma. O cabelo levemente bagunçado, expressão calma, quase entediada, como se aquilo fosse fácil demais para ele.

E os olhos.

Os olhos estão em mim.

Não como os outros olharam.

Não como o professor olhou.

Mas como se estivesse avaliando.

Como se estivesse entendendo.

Como se estivesse… esperando alguma coisa.

Eu sustento o olhar por um segundo a mais do que deveria, e algo estranho acontece, algo que eu não sei explicar direito, mas que interrompe por um instante o caos dentro de mim, como se aquele simples contato fosse suficiente para me tirar do fundo onde eu estava começando a afundar.

E então ele inclina a cabeça de leve, quase imperceptível, como se tivesse chegado a alguma conclusão silenciosa, e volta a atenção para o que está fazendo, como se aquele momento não tivesse significado nada.

Mas, para mim… de alguma forma… significou.

E eu ainda nem sei o nome dele.

Eu não sei quanto tempo fico ali parada depois daquele olhar, com as mãos ainda sujas de algo que já não serve mais para nada, tentando reorganizar minha respiração, tentando fingir que aquilo não me atingiu tanto quanto realmente atingiu, tentando recuperar o mínimo de controle que parece ter escapado completamente pelos meus dedos. Mas o professor não me dá esse tempo, não me dá espaço, não me dá absolutamente nada além de mais um comando seco que corta o ambiente como uma lâmina.

— Você, ali — ele aponta para uma bancada lateral, mais afastada — Apenas observe por hoje. Talvez assim aprenda alguma coisa.

A forma como ele diz não deixa margem para interpretação. Não é uma sugestão. Não é um conselho. É uma sentença.

Eu assinto, porque não tenho escolha, e me movo até o banco indicado, sentindo cada passo como se estivesse sendo observado, como se todo mundo tivesse assistido à minha falha e agora estivesse apenas esperando a próxima. Eu me sento, mantendo a postura o mais neutra possível, mas por dentro tudo ainda está bagunçado, latejando, queimando, e eu odeio a sensação de ser colocada de lado, de ser reduzida a alguém que só pode assistir enquanto os outros fazem, enquanto os outros sabem, enquanto os outros pertencem.

Eu cruzo os braços, tentando prestar atenção na aula, tentando absorver alguma coisa útil, mas a verdade é que metade da minha atenção ainda está presa naquele momento de humilhação, e a outra metade… a outra metade insiste em voltar para aquele olhar. Eu não deveria estar pensando nisso. Não deveria estar me importando com alguém que nem conheço. Mas, ainda assim, algo em mim insiste.

E é quando eu sinto alguém se aproximando.

Eu não olho imediatamente. Não por desinteresse, mas porque já estou cansada de levantar o rosto e encontrar julgamento. Só que a presença para ao meu lado, firme, tranquila, sem pressa, e isso me faz virar o rosto.

É ele.

Mais de perto, eu percebo melhor os detalhes. O cabelo levemente ondulado, meio bagunçado de um jeito que parece intencional sem realmente ser. A postura relaxada, como se aquele ambiente não tivesse o mesmo peso para ele. E os olhos… atentos, mas não duros.

— Não leva pro pessoal — ele diz, em um tom baixo o suficiente para não chamar atenção, mas firme o bastante para chegar até mim — Ele é daquele jeito mesmo.

Eu fico alguns segundos olhando para ele, analisando, tentando entender se aquilo é uma tentativa de consolo ou só um comentário solto.

— Ele praticamente jogou o que eu fiz no lixo na minha frente — respondo, cruzando ainda mais os braços — Parece meio pessoal.

Um canto da boca dele sobe, quase um meio sorriso.

— Confia em mim, ele já fez pior com gente melhor que você.

Eu arqueio uma sobrancelha.

— Isso deveria me confortar?

— Não — ele responde, simples — Mas pelo menos te coloca no mesmo nível de todo mundo.

Eu solto uma respiração leve, não chega a ser uma risada, mas é a primeira vez desde que entrei ali que algo não parece completamente pesado.

Ele estende a mão, gesto direto, seguro.

— Guilherme.

O nome fica no ar por um segundo antes de eu responder. Eu observo a mão dele, depois o rosto, como se estivesse avaliando, e então aperto.

— Íris.

O toque é firme. Quente. Rápido demais para significar alguma coisa… e ainda assim, de alguma forma, significa.

— Eu sei — ele diz, soltando minha mão.

Eu estreito os olhos, desconfiada.

— Sabe?

— Sei.

— A gente já se conhece?

Ele inclina levemente a cabeça, como se estivesse escolhendo a melhor forma de responder, e então aquele meio sorriso volta, mais evidente dessa vez.

— Mais ou menos.

Eu fico em silêncio, esperando.

— Você bateu em mim.

Eu franzo a testa.

— Eu… o quê?

— Uma semana atrás — ele continua, tranquilo demais para alguém que acabou de soltar aquilo — Na frente de uma doceria. Você tava correndo, claramente tentando fugir de alguma coisa… ou alguém. E simplesmente… — ele faz um pequeno gesto com o ombro — colidiu comigo.

O mundo parece dar uma pequena travada.

O corpo.

As mãos.

A voz.

Tudo.

E então a memória volta. O impacto.

O toque.

 A voz.

Meu coração acelera um pouco mais rápido do que deveria.

— Era você? — pergunto, quase sem acreditar.

— Era — ele confirma.

Eu solto uma respiração curta, desviando o olhar por um segundo, lembrando exatamente de como eu estava naquele momento, de como eu nem sequer olhei para ele, de como eu só… fugi.

— Eu não… — começo, mas paro — Eu não tava em um bom momento.

— Eu percebi — ele responde, e não há julgamento na voz dele, o que é estranho, porque, depois de hoje, eu já estava esperando isso de todo mundo.

O silêncio que se instala não é desconfortável. Não exatamente. É mais… diferente.

— Você devia ter olhado — ele diz depois de alguns segundos.

Eu volto o olhar para ele.

— Olhado?

— Pra onde tava indo — ele completa, como se fosse óbvio — Evitaria a colisão.

Eu encaro ele por um segundo, tentando decidir se aquilo foi uma provocação ou só um comentário seco.

— Ou você podia sair da frente.

— Eu tava parado.

— Então devia ter percebido que eu tava vindo.

— Você tava correndo.

— Você tava parado.

Ele solta uma risada baixa.

E é estranho.

Porque combina com ele.

— Tá — ele levanta uma das mãos, em rendição — Foi culpa compartilhada.

— Ótimo — respondo, cruzando os braços de novo, mas sem o mesmo peso de antes.

Ele se apoia levemente na bancada ao meu lado, olhando para frente, para a aula que continua acontecendo como se nada tivesse mudado.

— Você não é a única perdida aqui — ele diz, depois de um momento — Só é a única que deixou isso muito visível.

Eu faço uma careta leve.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Eu imaginei.

Ele inclina o corpo um pouco mais na minha direção, apontando discretamente para a bancada onde alguns alunos trabalham.

— Tá vendo ali? — ele indica com o queixo — Movimento de pulso. Não é força. Você tava tentando compensar com força.

Eu acompanho o olhar, observando com mais atenção.

— E ali — ele continua, agora apontando para outro grupo — Tempo. Você deixou passar.

Eu respiro fundo, absorvendo.

— E isso aqui — ele pega um utensílio da bancada ao lado, demonstrando rapidamente o movimento — É ritmo. Não adianta fazer rápido se não fizer certo.

Eu observo cada detalhe, tentando guardar.

— Você explica melhor que ele.

— Não é difícil — ele dá de ombros.

Eu quase sorrio.

Quase.

A aula continua, e pela primeira vez desde que entrei ali, eu consigo acompanhar alguma coisa, mesmo que seja só observando, mesmo que seja só entendendo o básico, mas ainda assim… é alguma coisa.

E, de alguma forma, é ele que faz isso acontecer.

O tempo passa mais rápido do que eu esperava, e quando o professor finalmente encerra a aula, eu sinto um tipo estranho de alívio, misturado com uma sensação leve de que talvez… talvez eu não esteja completamente perdida.

— Sobreviveu — Guilherme comenta, se afastando da bancada.

— Por pouco.

— Primeira aula sempre é pior.

— Isso foi a primeira aula?

— Foi.

Eu balanço a cabeça, incrédula.

— Eu vou morrer antes do final do curso.

— Provável — ele diz, com naturalidade.

Eu encaro ele.

— Você é sempre assim ou só comigo?

— Só com quem merece.

— E eu mereço?

Ele dá um meio sorriso.

— Ainda tô decidindo.

Antes que eu consiga responder, ele já está se afastando, voltando para o próprio espaço, como se aquela conversa tivesse sido apenas um intervalo rápido, como se não tivesse significado nada além de alguns minutos.

Mas, de novo… pra mim significou.

Eu me troco em silêncio, saindo do vestiário com a cabeça cheia demais para um primeiro dia, e quando chego na frente do prédio, o carro já está lá, esperando, como se nada tivesse mudado, como se tudo estivesse exatamente no lugar.

Eu entro no banco de trás, fechando a porta devagar, e apoio a cabeça no encosto, olhando pela janela enquanto o carro começa a se mover.

E pela primeira vez desde que tudo começou… eu não estou pensando nele.

No meu ex.

Na doceria.

Na humilhação.

Eu estou pensando em outra coisa.

Em alguém.

No garoto que eu ignorei. No garoto que eu bati. No garoto que… de alguma forma… foi a única coisa que não tornou aquele dia completamente insuportável.

E isso, por si só… já muda tudo.

O trajeto até em casa passa rápido demais para quem está tentando organizar pensamentos, mas lento demais para quem quer fugir deles. Eu fico olhando pela janela enquanto o carro corta as ruas movimentadas de São Paulo, vendo pessoas atravessando, buzinas, semáforos abrindo e fechando, tudo acontecendo com uma naturalidade que contrasta completamente com o turbilhão silencioso dentro de mim. É estranho como, mesmo depois de tudo que aconteceu hoje, eu não estou presa naquela sensação de fracasso absoluto como achei que estaria. Ainda dói, ainda incomoda, ainda ecoa a forma como fui exposta, mas… não é só isso. Tem outra coisa ali no meio. Algo mais leve. Algo que eu ainda não sei nomear direito.

Quando o carro para em frente de casa, eu demoro um segundo antes de abrir a porta, respirando fundo como se estivesse prestes a entrar em um ambiente completamente diferente daquele que eu saí mais cedo, como se aquela versão de mim que saiu pela manhã não fosse exatamente a mesma que está voltando agora. Eu saio, ajeito a bolsa no ombro e entro, sendo imediatamente envolvida pelo silêncio confortável da casa, aquele tipo de silêncio que parece organizado demais para comportar qualquer tipo de caos.

— Chegou — minha mãe diz da sala de jantar, como se estivesse me esperando.

Claro que estava.

Eu entro e encontro a mesa já posta para o almoço, tudo no lugar, tudo alinhado, tudo perfeitamente planejado, como sempre. Ela está sentada, mas levanta o olhar assim que me vê, me analisando com aquele cuidado disfarçado de naturalidade que eu conheço bem demais.

— E então? — ela pergunta, puxando a cadeira ao lado — Como foi?

Eu deixo a bolsa na cadeira, sento devagar e apoio as mãos na mesa, soltando um suspiro antes de responder.

— Intenso.

Ela arqueia levemente a sobrancelha.

— Isso pode significar muita coisa.

— Significa que eu quase fui humilhada em público — respondo, direta, pegando o garfo — Na verdade… fui.

Ela faz uma pausa, absorvendo.

— Mas você voltou, e não está chorando ou querendo desistir. — ela diz, simples.

Eu levanto o olhar para ela, segurando aquilo por um segundo.

— Voltei, e por incrível que pareça, até tranquila.

E isso parece significar mais do que qualquer outra coisa naquele momento.

Ela me observa mais um pouco, como se estivesse tentando medir algo que eu mesma ainda não entendi direito, e então começa a comer normalmente.

— Isso já é um começo.

Eu não respondo, mas não discordo.

O almoço segue em um ritmo mais tranquilo do que eu esperava, com pequenas perguntas, respostas curtas, e uma sensação estranha de que, pela primeira vez, não estou completamente resistente a tudo aquilo. Eu conto algumas coisas, não tudo, não detalhadamente, mas o suficiente para preencher o espaço, para não transformar aquilo em um interrogatório silencioso. E quando termino, quando subo para o meu quarto, eu sinto uma necessidade imediata de falar com alguém que realmente entenda.

Eu pego o celular antes mesmo de sentar na cama e ligo.

— Atende, atende, atende… — murmuro baixo, andando de um lado para o outro.

— EU SABIA — Annahí atende praticamente gritando — Eu tava esperando essa ligação desde manhã.

Eu solto uma risada leve, me jogando na cama.

— Você é dramática.

— Não mais do que você, pelo visto — ela rebate rápido. — E aí? Como foi? Você chorou? Você brigou? Você fugiu? Você incendiou alguma coisa?

— Eu quase fui expulsa na primeira aula.

— PERA… O QUÊ?

Eu fecho os olhos, passando a mão pelo rosto.

— Não oficialmente. Mas o professor basicamente disse que eu não sei fazer nada. O que, sinceramente, não é mentira.

— Íris — o tom dela muda, mais firme — Você acabou de começar.

— Eu sei — respondo, mais baixo — Mas ainda assim… foi horrível.

— Mas você saiu correndo?

— Não.

— Você desistiu?

— Não.

Ela faz uma pausa.

— Então já tá melhor do que eu esperava.

Eu solto uma risada de verdade dessa vez.

— Obrigada pelo apoio.

— Sempre — ela responde, e eu consigo imaginar o sorriso dela do outro lado da linha — Mas e aí… teve alguém interessante?

Eu reviro os olhos automaticamente, mas sinto o canto da boca subir.

— Talvez.

— EU SABIA — ela grita de novo — Me conta agora.

— Eu bati nele.

Silêncio.

— …isso foi uma metáfora ou você literalmente agrediu alguém?

— Literalmente — respondo — semana passada. Na doceria.

— ÍRIS!

— Eu não sabia — me defendo, rindo — Eu tava fugindo daquela cena, lembra?

— E ele?

— Ele me reconheceu.

— E?

— E… ele foi normal.

— Normal, tipo normal, ou normal, tipo misterioso e interessante?

Eu penso por um segundo.

— Os dois.

— TÔ INDO PRA SUA CASA — ela anuncia.

— Annahí…

— Já tô saindo.

A ligação cai.

Eu fico olhando para o celular por um segundo antes de rir sozinha, porque isso é tão ela que chega a ser previsível.

Menos de uma hora depois, ela está entrando no meu quarto sem bater, como sempre.

— CADÊ ELE? — ela pergunta, jogando a bolsa na cadeira.

— Ele não mora aqui.

— Ainda.

— Você é insuportável.

Ela se j**a na minha cama, me puxando pelo braço.

— Agora conta tudo direito.

E eu conto.

Tudo.

Desde o professor, até o banco, até o momento em que ele se aproximou, até a conversa, até o fato de que ele estava na doceria naquele dia. E quanto mais eu falo, mais eu percebo que estou sorrindo em alguns momentos, que minha voz muda em outros, que tem uma leveza ali que não estava antes.

Annahí me observa o tempo todo com um sorriso quase perigoso.

— Você tá ferrada.

— Não tô.

— Tá sim.

— Não tô.

— Você já tá pensando nele.

Eu abro a boca para negar, mas paro. Porque… eu estou.

— Vamos sair — ela diz, levantando de uma vez — Você precisa de roupa nova, ar fresco e distração.

— Eu acabei de chegar.

— E já tá melhor do que quando saiu.

Ela tem um ponto.

E eu odeio isso.

Me arrumei rapidamente, ficando apresentável na medida do possível, e pouco tempo depois, estamos no shopping, andando entre lojas, conversando, rindo, e pela primeira vez em dias eu sinto algo próximo de normalidade. A leveza não é completa, mas existe, e isso já é mais do que eu tinha antes.

Até que eu vejo.

Ele.

Meu ex.

Do outro lado do corredor.

Por um segundo, tudo desacelera.

Meu corpo reage antes da minha mente, mas não da mesma forma que antes. Não tem aquele impacto esmagador. Não tem aquele desespero. Tem… um desconforto leve. Um incômodo distante.

Annahí percebe imediatamente.

— É o João?

— É.

— Quer ir embora?

Eu observo mais um segundo. E então balanço a cabeça.

— Não.

E continuo andando. Simples assim.

Sem fuga.

Sem lágrimas.

Sem desmoronar.

E isso… isso é novo.

A gente sai do shopping rindo de alguma coisa idiota que ela disse, e quando estamos passando pela rua ao lado, meu olhar b**e automaticamente na vitrine.

Da doceria.

Meu corpo para antes que eu perceba.

— Íris? — Annahí chama.

Mas eu já estou olhando.

E lá dentro… ele.

Guilherme.

De avental, concentrado, trabalhando com uma precisão que parece natural, como se aquele lugar fosse uma extensão dele, como se cada movimento tivesse ritmo, controle, intenção. Ele não está sorrindo, não está distraído, não está olhando ao redor.

Ele está no mundo dele.

E, por algum motivo… isso me faz sorrir.

Sozinha.

Sem perceber.

— Quem é? — Annahí pergunta, já sabendo a resposta.

— Ninguém — respondo, ainda olhando.

Mas não é verdade. Eu sei disso. Ela também. A gente não entra. Não fala com ele. Não faz nada. A gente só segue.

Mas algo ficou ali.

E eu levo comigo.

As horas se passaram rapidamente, mas tudo com Annahí é leve, calmo e gentil. Quando chego em casa, já é noite, e tudo parece mais silencioso, mais calmo, como se o dia inteiro tivesse finalmente desacelerado o suficiente para me deixar respirar. O jantar com meus pais acontece sem tensão, sem confrontos, sem aquela resistência automática que eu estava sentindo antes, e isso por si só já parece uma mudança significativa, mesmo que pequena, mesmo que sutil, mesmo que ainda existam mil coisas não ditas pairando no ar.

Depois, eu subo para o meu quarto, tiro os sapatos, me jogo na cama por alguns segundos e fico olhando para o teto, sentindo o corpo cansado, mas a mente… inquieta. Eu pego o controle, ligo a televisão mais por hábito do que por interesse, e começo a passar pelos canais até parar em um programa de culinária.

Eu deveria mudar.

De verdade.

Mas não mudo.

Fico ali.

Assistindo.

Observando.

Prestando atenção nos detalhes, nos movimentos, nas técnicas que, horas atrás, pareciam impossíveis, inalcançáveis, completamente fora da minha realidade.

Agora… nem tanto.

Eu apoio a cabeça no travesseiro, puxando a coberta até o peito, e deixo o programa continuar enquanto minha mente vagueia entre o que foi o pior dia da minha vida… e o primeiro dia de algo que eu ainda não entendo completamente, mas que, de alguma forma estranha, não parece mais tão impossível quanto parecia antes.

E, no meio de tudo isso… eu penso nele de novo.

E, dessa vez… eu não tento evitar.

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