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####CAPÍTULO 02

last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-30 22:41:54

ANASTASIYA

Apenas três meses haviam se passado desde o dia em que a terra fria cobrira o caixão da minha mãe, nesses meses em que a casa ainda mantem o cheiro do perfume dela no quarto, os panos de prato dobrados com capricho na cozinha e a lembrança dolorosa de seu sorriso nos porta-retratos da sala.

—Eu ainda tentava me equilibrar na rotina entre as aulas da faculdade de Psicopedagogia e a imensidão daquele luto, quando a porta da frente se abriu em uma tarde de sábado e meu pai atravessou a entrada acompanhado por duas mulheres.

— Papai entrou em nossa casa trazendo malas nas mãos, e em seu rosto de Mikhail Sokolova Volkova, não havia sombra do homem reservado e distante que acompanhara o funeral da esposa.

—:Havia uma animação quase vulgar, uma postura ereta de quem finalmente tomava posse de algo que esperara por muito tempo.

— Anastasiya, venha aqui na sala agora, chamou ele, com a voz firme que ressoou pelo corredor.

Enxuguei as mãos no avental e saí da cozinha. Parei no meio da sala, observando o trio.

— Ao lado do meu pai, estava uma mulher de seus quarenta e poucos anos, maquiada com exagero, usando roupas elegantes, mas ostensivas demais para a ocasião.

— Seus olhos castanhos e afiados percorreram a nossa casa, os móveis de madeira maciça, os quadros, o espaço amplo, com uma ganância mal disfarçada.

— Ao lado dela, uma jovem de cabelos bem cuidados, postura altiva e um sorriso desdenhoso nos lábios me encarava de cima a baixo.

— Papai, quem são essas pessoas? —Pergunto ao meu pai, sentindo um aperto incômodo no estômago.

Mikhail deu um passo à frente, ajeitando a gola da camisa.

— Ele não vacilou, não demonstrou o menor traço de vergonha ou constrangimento ao disparar as palavras que mudariam minha vida para sempre.

— Esta é minha esposa, Katrina Romanova Volkova, Ele comenta como se fosse algo certo, e indicando a mulher mais velha.

— E esta é Irina, sua meia-irmã , a partir de hoje elas moram nessa casa.

O chão sob meus pés pareceu ceder, olhei para ele, incapaz de processar essa informação.

— Como assim, minha meia-irmã, como é que é que você me fala isso com essa naturalidade?

— Papai, do que você está falando? Faz três meses que eu sepultei minha mãe, e você trouxe uma mulher para nossa casa e com sua filha?

É exatamente o que você ouviu, Anastasiya papai respondeu, em tom prático e sem emoção, não sinto, qualquer sensibilidade.

— Muito antes de eu me casar com a sua mãe, eu tive um relacionamento longo com a Katrina, e nós tivemos a Irina.

E por razões que não vem ao acaso, acabamos nos separando na época, mas nunca perdemos o contato.

— Agora que sua mãe faleceu, reconheci legalmente a paternidade da Irina e trouxe as duas para morar conosco, elas são minha família.

A crueldade daquelas palavras me atingiu como um soco no peito.

— A imagem da minha mãe, definhando na cama de um hospital enquanto ele se recusava a visitá-la, veio à minha mente com uma clareza aterrorizante.

— Papai... a mamãe não tem nem três meses de morta, falo com minha voz embargada, o choro preso na garganta.

— Como você pode trazer outra mulher para dentro da casa dela desse jeito?

Papai nem piscou, me encarou com frieza e soltou a frase que ficará gravada a ferro e fogo na minha memória:

— Viúva é quem morre, minha filha, estou vivo e apenas estou assumindo, um compromisso, do passado, e viúvo não é quem fica.

— Antes que eu pudesse responder, Katrina deu um passo à frente. Seu tom de voz é melífluo, carregado de uma falsa gentileza que só torna a situação ainda mais repulsiva.

— Não precisa ficar brava, querida , disse Katrina, tocando de leve o meu ombro com a ponta das unhas bem feitas, um gesto que me fez encolher de arrepio.

— Você nem vai perceber que nós estamos aqui, sinto muito pela sua perda, mas como seu pai acabou de dizer, a vida segue para quem fica.

— Nós vamos nos dar muito bem, você vai ver, não vim substituir sua mãe.

— Irina, a filha, apenas deu uma risadinha abafada e cruzou os braços, olhando ao redor como se já fosse a dona do lugar.

Nas semanas que se seguiram, a ilusão de que as coisas permaneceriam calmas ruiu por completo.

—'Aos poucos, fui descobrindo a verdade sórdida que meu pai escondera durante toda a minha vida.

—Nossa casa e a loja de carros usados, o negócio que sustentava a família com conforto, nunca haviam sido conquistas do meu pai.

—Tudo pertencia à minha mãe, ela herdou os imóveis e o capital de meu avô.

E papai, antes de se casar com ela, era apenas um funcionário humilde, um vendedor da loja que enxergou na jovem herdeira a oportunidade perfeita para dar um golpe do baú e mudar de vida, é o que estou vendo.

Ele se casou por interesse financeiro, e mantendo Katrina como sua amante nas sombras durante todos esses anos, esperando pacientemente pelo momento em que tomaria o controle de tudo.

Com a morte da minha mãe, a máscara de papai caiu por completo, e o pesadelo dentro de nossa casa começou.

— Anastasiya! — a voz áspera de Katrina ecoou da sala em um fim de tarde, assim que pisei no hall de entrada, exausta depois de um dia inteiro na faculdade.

Aproximo da sala, carregando minha mochila pesada de livros da graduação em Psicopedagogia. Katrina está sentada no sofá, lendo uma revista, enquanto Irina lixava as unhas na poltrona ao lado.

— Pois não, Katrina? — respondi, tentando manter a calma.

— Está na hora de você começar a ajudar de verdade nesta casa, ela anunciou, sem sequer erguer o olhar para mim.

— Os negócios do seu pai não estão indo bem devido aos gastos absurdos que ele teve com o tratamento da doença da sua mãe, não temos mais condições de continuar pagando diarista.

—:A partir de hoje, você vai assumir os serviços domésticos.

A encarei incrédula, com a audácia dessa mulher, ao invés dela cuidar da casa ela e a filha, eu mesmo estudando preciso fazer os afazeres domésticos?

— Eu estudo o dia todo, Katrina, estou na faculdade de Psicopedagogia, tenho estágios, trabalhos, leituras... e quanto à Irina? Ela vai ajudar também, pois não trabalha nem estuda, já tem vinte e três anos e não faz nada de ultil.

— Irina soltou uma risada debochada, finalmente olhando para mim.

— Eu ajudo o papai na loja, queridinha, tenho responsabilidades muito mais importantes do que lavar pratos e passar pano no chão.

— Exatamente, completou Katrina, fechando a revista com um estalo seco.

— Irina trabalha com o seu pai no comércio, então, aqui em casa, o serviço pesado fica com você.

— É o mínimo que você pode fazer para retribuir o teto e a comida que estamos te dando.

A partir daquele dia, minha rotina se transformou em uma jornada de exaustão e humilhação diárias.

— Para dar conta das exigências de Katrina e não abandonar os estudos, eu precisava acordar de madrugada, às quatro horas da manhã.

— Preparava a mesa do café, passava o café fresco, arrumava a cozinha e deixava tudo pronto antes que eles se levantassem.

Enquanto eles tomavam o café servido por mim, eu saía às pressas para pegar o metrô lotado rumo à universidade.

Entre as aulas teóricas e as práticas da Psicopedagogia onde eu aprendia sobre o desenvolvimento humano, o acolhimento e a empatia, minha mente estava constantemente esgotada, temendo o que encontraria ao voltar para casa.

—:Ao retornar no final da tarde, não havia tempo para descansar ou abrir os livros. Katrina me esperava com uma lista interminável de tarefas: lavar a louça acumulada do almoço, passar as roupas de Irina, limpar os banheiros e preparar o jantar para a família.

— As duas me tratavam como uma empregada não paga. Irina deixava roupas sujas jogadas no chão do quarto de propósito apenas para me ver recolher, e Katrina inspecionava os móveis com lenços brancos para procurar poeira e me repreender com aspereza.

Meu pai via tudo e não movia um único dedo para me defender.

— Muito pelo contrário, ele parecia cego, está totalmente dominado por Katrina.

— Qualquer tentativa minha de conversar a sós com ele era cortada com impaciência ou ironia.

— Deixe de drama, Anastasiya ele dizia, sem tirar os olhos do jornal.

— Katrina só está tentando colocar ordem nesta casa, você precisa aprender a ser útil.

O tempo passou sob esse regime de opressão, e os meses se transformaram em três longos anos de exploração.

A garota ingênua e protegida de dezenove anos deu lugar a uma jovem silenciada pela dor, mas que se agarra com todas as forças ao sonho de se formar na faculdade para, finalmente, conseguir sua independência e fugir daquele inferno.

— Eu não sabia, no entanto, que a ganância de Katrina e Irina não se daria por satisfeita apenas em me transformar em serva.

— Elas queriam destruir o pouco que restava do meu mundo, e o golpe final já estava sendo preparado nas sombras.

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